20 de mar de 2017

Stillness is a move...


Num jogo em que a obsessão pela "objectividade" e por ritmos frenéticos é cada vez maior, o extraordinário jogador argentino da imagem (que, por falar nisso, deu uma entrevista fantástica há uns dias) mostrou, no dia de ontem, como essa obsessão pode levar ao abandono de certos caminhos menos lineares para desequilibrar organizações adversárias, exactamente por esses requererem uma certa pausa que esta visão tende a desprezar.

Existe um preconceito enorme para a falta de movimento com bola. Acha-se, de forma bastante generalizada, que se um jogador tem a bola não pode perder tempo, tendo de fazer qualquer coisa com ela e, preferencialmente, que seja feita para a frente (mesmo que para a zona da bandeirola de canto). Acções como a de Pastore nos segundos após receber a bola seriam, aliás, e pelo motivo apresentado acima, bastante assobiadas na maioria dos estádios...

Mas avancemos. Poderá parecer contra-intuitivo dizer que alguém completamente parado com a bola nos pés está a agir, acredito. Mas está, e a chave da questão reside num simples pormenor. O facto de um jogador estar parado com a bola nos pés não invalida que o jogo pare. Quem olhe apenas para a zona da bola achará isso, claro, mas enquanto o jogador está parado (ou, caso pressionado, simplesmente a tentar manter a bola perante essa pressão), todo o contexto à sua volta sofre mudanças constantes, por mais ténues que sejam. E os verdadeiros criativos, como Pastore, sabem recusar a primeira e a segunda solução que lhes aparece mal recebem a bola, usando essa pausa como forma de esperar que o contexto se modifique até a solução ideal apareça. Como é dito no título, stillness is a move, visto que essa pausa não funciona como um fim em si mesmo, mas sim como um meio para alcançar o que foi dito acima, ou seja, o aparecimento da melhor solução ou, pelo menos, de uma solução melhor que as iniciais.

Antes de deixar aqui o vídeo, deixo só a nota de que, infelizmente, a mudança do ângulo da câmara no momento em que o Pastore recebe a bola dificulta bastante a percepção da mudança de contexto. Felizmente, arranjei uma repetição que mostra os últimos 2 segundos de Pastore parado com a bola num ângulo que nos permite analisar o contexto, mas ainda assim recomendo que tentem ver tanto o lance como a repetição com atenção e até que vão parando o vídeo nessa altura, se for preciso, para perceberem melhor o que se passa.


Pastore percebe, ao contrário até do que possa parecer, imediatamente qual o melhor caminho para desequilibrar. Caminho esse que, tendo em conta o facto de a defesa do Lyon estar relativamente afundada na área e acima de tudo de o espaço à entrada desta estar muito mal protegido, consistia em passar a quem estivesse à entrada da área e procurar imediatamente o movimento de ruptura. Não havia ninguém nessa zona para efectuar esse passe, no momento em que Pastore recebe a bola, e isso dissuadiria 99% dos jogadores de continuarem a procurar esse espaço. Mesmo que até percebessem que essa seria a melhor forma de darem continuidade ao lance, em termos gerais, achá-la iam impossível no caso em particular por não lá terem nenhum colega (e sê-lo-ia, no momento em que recebessem a bola). Mas os jogadores especiais, que realmente vêm à frente, têm este tipo de ferramentas para conseguirem manipular o jogo a seu favor. Esteve sempre à espera que Di María invadisse o espaço pretendido, procurando manter a bola o máximo de tempo possível até isso acontecer, e depois foi só executar o que já tinha idealizado na sua cabeça antes de qualquer pessoa sequer ver essa possibilidade. A partir do momento em que encontra Di María e este devolve, todo o desequilíbrio está criado, sendo o resto do lance relativamente trivial.

No entanto, e para concluír, interessa-me referir um pormenor. De um jogador verdadeiramente criativo procurar ao máximo a decisão que maior potencial poderá trazer ao lance, não se segue que a force. Caso Di María não se inserisse nesse espaço, Pastore teria certamente alternativas na sua cabeça para dar seguimento ao lance, embora tendo a noção de que eram muito menos vantajosas. O jogador verdadeiramente criativo não é o que força, é o que espera, engana e manipula ao máximo até surgir a opção ideal, mas que têm a noção de que, se ela não surgir, não é crime nenhum procurar opções mais seguras.

12 de mar de 2017

Nápoles: controlo da profundidade. Bola descoberta



Neste tipo de situações, este é na minha opinião o comportamento defensivo que garante mais sucesso. Portador da bola em progressão, toda a linha defensiva recua para controlar a profundidade. Quando o portador se aproxima da área, alguém sai na contenção para dificultar a execução do passe ou remate, enquanto que os restante oferecem cobertura defensiva. 

  • Se sair passe, e mesmo havendo a possibilidade de ser bem sucedido, é um passe de maior dificuldade, uma vez que o menor espaço entre a linha defensiva e o guarda-redes exige que o passe seja feito com mais precisão e com a força ideal. 
  • Se sair remate, já vai estar condicionado pelo jogador que saiu na bola. 
  • Caso o portador decida fintar o jogador que sai na contenção, os restantes 3 que oferecem cobertura, e que não entram na área, estão suficientemente próximos para reagir rápido.

9 de mar de 2017

As vantagens do 3x4x3 losango que permitiu ao Barça a remontada mais incrível da história


É impossível dissociar a remontada épica que o Barcelona conseguiu alcançar, do sistema de jogo utilizado no jogo da 2ª mão. Pese embora a estratégia conservadora de Emery, só foi possível encostar o PSG durante 90 minutos à sua própria área porque o sistema escolhido por Luis Enrique assim o permitiu.


O que o Emery queria, e o que o 3x4x3 losango o obrigou a fazer. De um bloco médio/baixo para estarem praticamente "enfiados" dentro da sua área. A enorme rede de apoios que o portador da bola tinha permitiu ao Barça uma circulação muito apoiada, muito curta. Nunca faltaram linhas de passe dentro do bloco adversário, nem em largura.


Sem bola, foram também notórias as vantagens que este sistema trouxe ao futebol do Barça. A maneira conseguiu condicionar a construção do adversário e como conseguiu "abafar" após a perda da bola, só foi possível devido ao grande números de jogadores que estavam no meio campo ofensivo aquando da mesma.


Muitos jogadores no meio campo ofensivo, e quase todas as linhas de passe do adversário a serem condicionadas. Coberturas sempre garantidas.



Heat Map de Pique

Heat Map dos 3 defesas do Barça que passaram 51% do tempo no meio campo do PSG

8 de mar de 2017

Bas Dost, o desenquadrado...


... literal e figurativamente.

Literalmente por muitos o acusarem de nunca se enquadrar com a baliza adversária, quando recebe, e daí extrapolarem para a ideia de que ele é praticamente inútil com bola. Se é verdade que ele por vezes deixa passar oportunidades em que o contexto lhe pede para o fazer (embora seja ainda assim uma crítica exagerada, na forma como é feita), é acima de tudo a extrapolação que importa rebater. De um avançado ser pouco móvel e de não procurar com frequência oportunidades de receber e rodar para a baliza contrária, não se segue a sua inutilidade nesse momento. Um dos papéis mais importantes de um avançado é saber servir de apoio frontal, compreender as movimentações e intenções dos colegas, saber combinar com eles e mesmo conseguir fazer algo de inesperado através desse entendimento dos colegas e do contexto.

Ao contrário de muitos, logo nos primeiros jogos lhe vi muitos destes atributos. Apenas achava que falhava bastante na forma como (não) se movimentava, muitas vezes, para servir de apoio, tendo algumas dificuldades para perceber o contexto na questão da movimentação fora da área. Mas o que lhe podia faltar nessa movimentação, não só pode ser explicado pelo que lhe exigiam no Wolfsburg (que ficasse nas costas da defesa para finalizar, e que não saísse muito desse registo), como lhe sobrava na forma como se associava quando de facto tinha a bola. Há também dizer que, ao adaptar-se ao que Jorge Jesus lhe pedia, melhorou bastante nesse sentido (embora seja, por ventura, a área em que ainda devesse evoluir mais).

Um tipo de movimentação em particular, fora da área (embora normalmente perto dela), em que ele é bastante forte, é, quando vê colegas à sua ilharga e a bola vem com força, simular que vai dominar a bola, mas deixá-la passar para um colega e movimentar-se rapidamente nas costas da defesa. Isto cria bastante dúvida nos defesas, podendo facilitar não só a recepção do jogador que tem a bola, como um eventual passe desse jogador a aproveitar a subsequente movimentação.

Abaixo fica um exemplo, embora esteja longe de ser o melhor (era o único que estava no resumo...).


Figurativamente... porque é um jogador que foge da caixinha em que quem olha para um pinheiro de 1m96 o pode tentar encaixar. Poder-se-ia esperar, por parte de quem não o conhecesse, um tanque de guerra que vivesse do choque e do jogo aéreo. Na verdade, não se destaca em nenhum desses. É bastante franzino para a sua altura, os seus números fantásticos de golos devem-se muito mais à forma como se movimenta dentro da área do que a qualquer supremacia física e, acima de tudo, a forma como procura sempre em primeiro lugar os colegas para os enquadrar (juro que não foi de propósito! ), assistir ou combinar, sendo perfeitamente capaz de ignorar uma boa oportunidade de remate se vir um colega em melhor situação. O que só dá crédito ao registo de golos que tem. Para além disso, não se fica por "dar em quem sabe". Mesmo ao primeiro toque, é capaz de descobrir soluções inovadoras e com uma dificuldade cognitiva bastante elevada.

Foge também do que é a equipa actualmente. O Sporting cai muitas vezes numa falsa atracção, procurando exagerar nos cruzamentos para ele, pensando que é a melhor forma de o aproveitar. Não é, pelo que foi dito acima. Na recepção ao Vitória SC, por exemplo, foi facilmente o jogador que mais coisas diferentes criou em campo. Merecia jogar no Sporting do ano passado, por exemplo, que praticava um futebol imensamente mais criativo colectivamente. Jonas está obviamente numa liga diferente de todos os outros avançados do nosso campeonato, mas se tivesse de escolher alguém para fazer parelha com ele, era o Dost. O que é um dos melhores elogios que lhe consigo fazer...

No fundo, e mais uma vez, nem tudo o que parece é. Poucos esperariam de um avançado pouco ágil e sem atributos técnicos especiais de 1m96 acções como a do clip abaixo (e há mais de onde estas vieram, são só uns poucos exemplos), mas é por isso que há que ser cuidadoso na análise, e procurar analisar os jogadores pelo que são.

6 de mar de 2017

Sporting vs Vitória: JJ, Palhinha, Geraldes e a importância de ter a bola


«A entrada do Palhinha era para parar o coração do V. Guimarães. É verdade que melhorámos defensivamente, mas não melhorámos com a bola. O William já estava cansado, depois de ter feito uma primeira parte excelente com bola e sem bola. O Palhinha é um jogador mais defensivo, mas não tem uma saída tão forte. Tivemos de descer mais e de recuar, acabando por não conseguirmos segurar a vantagem que tínhamos.»
As frases são de Jorge Jesus, na sua análise ao que correu mal na 2ª parte do jogo do Sporting vs Vitória. Começo por dizer que me parecem afirmações que acabam por se contradizer. JJ admite que o Sporting não melhorou com bola, aquando da entrada de Palhinha, e depois refere que Palhinha não tem uma saída tão forte, referindo-se obviamente à qualidade que o jovem médio defensivo oferece na fase de construção. Ou seja, JJ sabe que Palhinha é fraco com bola, mas esperava que a equipa melhorasse com bola depois da entrada dele em campo? Sinceramente não percebo. 

Através das suas afirmações, JJ dá a entender que o facto do Sporting não ter conseguido ter bola, obrigou a equipa a recuar mais e com isso permitiu ao adversário chegar com mais perigo à baliza do Sporting. Concordo totalmente. Mas então porque é que JJ não tinha no banco um médio com mais qualidade com bola? Alguém que sabe perfeitamente gerir o ritmo do jogo? Alguém que sabe quando deve guardar a bola para a equipa se organizar ou quando deve soltar logo para a transição rápida?

E é aqui que entra Francisco Geraldes. Obviamente que ninguém sabe qual seria o resultado final se em vez de Palhinha tivesse entrado Geraldes mas uma coisa sabemos: Com bola, o Sporting ia ser muito mais capaz. Com bola, o Sporting ia circular com mais qualidade. Com bola, e é aqui que me parece importante focar bastante atenção, o Sporting ia evitar que o adversário criasse perigo. Há uma bola em campo, e se é o Sporting que a tem, o adversário não cria perigo. E sendo o Sporting a equipa com mais qualidade individual quer em campo quer no banco, não me parece de todo difícil que fossem capazes de gerir o jogo com bola, não deixando assim que o Vitória os "empurrasse" para trás.




27 de fev de 2017

"As notícias a respeito da minha morte foram manifestamente exageradas" - Samir Nasri


Da liberdade que Sampaoli lhe permite renasce a melhor versão de Samir Nasri. É incrível a influência que Nasri consegue ter em todos os momentos do jogo, em todas as zonas do campo. Recua para construir, muitas vezes até bem perto dos centrais, e com uma calma enervante e a ajuda de N´Zonzi, decide quando e como o Sevilha vai entrar no meio campo defensivo do adversário. Tratando-se de Nasri, a bola não está nem mais nem menos tempo do que devia nos seus pés, está o tempo ideal. Sai dos seus pés quando estiverem reunidas as melhores condições possíveis para o Sevilha entrar no meio campo ofensivo. 

Em zonas mais adiantadas, serve de pivot ofensivo e ajuda na circulação da bola, seja em largura ou através de passes verticais. Nasri gere o ritmo de cada ataque do Sevilha. Da sua cabeça e dos seus pés sai o desenho de todo o ataque do Sevilha. Mas Nasri é muito mais que isto. Perto da grande área adversária, Nasri coloca ao serviço do coletivo toda a sua criatividade, toda a sua inteligência. Seja através de um passe curto, simples, mas que permite ao Sevilha continuar em organização ofensiva e a procurar a melhor maneira de chegar ao golo, seja através de um passe delicioso que deixa um colega na cara do Gr adversário, Nasri mostra a cada toque na bola o que é ser um médio de qualidade. 

No vídeo ficam algumas ações de Nasri no jogo da Champions. 

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22 de fev de 2017

Jorginho, o craque que poucos compreendem


Defendo, desde há bastante tempo a esta parte, que os critérios de escolha de grande parte dos treinadores, por não estarem hierarquizados devidamente, levam a que um pouco por todo o lado haja uma quantidade obscena de talentos desperdiçados. Foi claramente o caso do jogador a quem este post se vai dedicar quando orientado por Benítez, por exemplo. Mas, mais do que isso, muito pouca gente entende o valor de jogadores como o Jorginho. E isto inclui imensos treinadores, que ou ignoram este tipo de jogador ou, não ignorando, o usam mal. Servirá este post, no fundo, para o explicar e até para dar a conhecer a mais gente a enorme qualidade deste jogador, que passará despercebido a muita gente...

É um jogador do mais normal que há em termos físicos. Apesar de ser relativamente alto (1m80), não é particularmente forte, nem particularmente ágil, nem... bem, particularmente nada. Tecnicamente, sendo bastante evoluído, está longe de ser minimamente espalhafatoso ou de ter competências especiais no drible e na condução, como bastantes médios-defensivos ou médios-centro na actualidade. O observador normal, que apenas olha aos aspectos técnicos e físicos, ver-lhe-à qualidade no passe e na recepção, mas pouco mais.

E, no entanto, sinto-me bastante seguro em dizer que o considero um dos dez melhores médios-defensivos a nível mundial (diga-se de passagem que muito facilmente iria mais longe que isto). E o motivo é muito simples - Jorginho tem o jogo na cabeça. Reparem que digo isto no sentido menos hiperbolizado que possam imaginar, porque tem mesmo muito poucos rivais na sua posição, no que ao conhecimento do jogo (com e sem bola!) e tomada de decisão diz respeito (talvez apenas Busquets e Weigl o sejam). A ideia central do post é mesmo, com uma mistura entre análise e vídeo, mostrar isso da melhor forma que consigo. Nesse sentido, construí um vídeo do jogador no mais recente jogo do Nápoles, em casa do Chievo Verona.

Quanto a esse vídeo, algumas notas. Contém todas as acções de Jorginho no jogo, com bola, e os lances em que por acção dele, directa ou indirecta, a equipa a recuperou. Ainda assim não mostrará tudo, claro, mas não só o vídeo já possui uma extensão assinalável na forma actual (pouco mais de 12 minutos), como trouxe também mais um pormenor para destacar que não lá está incluído. Para além disso, em algumas acções deixei propositadamente alguns lances completos no vídeo, mesmo que as intervenções directas dele nos mesmos distem vários segundos umas das outras. Nesses casos, que constituirão os clips mais longos, recomendo que se tentem abstrair da bola e olhem directamente para ele e para a forma como está a interpretar a situação em seu redor. Também me sinto na obrigação de referir que este não foi, de todo, um jogo muito acima do habitual por parte do Jorginho. Foi, aliás, muito na linha do que faz constantemente, tendo até cometido um ou outro erro que não lhe é habitual. Erros esses que, obviamente, estão contidos no vídeo, visto que como foi dito nele podem ser observadas todas as acções do jogador com bola, o que evidentemente incluirá tanto as boas como as más.

Mas antes do vídeo propriamente dito, trago um lance adicional, no qual o Nápoles tem a bola mas sem que o Jorginho a receba uma única vez. Questionar-se-ão, acredito, qual será então a relevância desse lance. Esta reside no facto de ser nele nítida a forma quase obsessiva como o Jorginho está os 90 minutos a interpretar situações, a analisar o contexto e, mais do que isso, a tentar guiar/ordenar os colegas na acção correcta a tomar.


Acho que não estou a incorrer em nenhum exagero se disser que, em 99% dos casos, quando um jogador dá ordens a um colega que tem a bola durante o jogo é no sentido de este lha passar. Não é, de todo, esse o caso do jogador aqui analisado. Ele tanto ordena a um colega que lhe passe a bola, como que conduza ou até que passe a outro jogador. Não o faz por notoriedade, claramente. A meu ver, fá-lo quase como sintoma da sua reflexão e análise obsessiva das situações do jogo. Como está sempre a analisar tudo e a tentar pensar algumas jogadas à frente, qual xadrezista de qualidade, percebe quase sempre qual a melhor solução que os colegas têm para dar seguimento ao jogo, e sente a necessidade de os guiar.

No caso em particular que aqui mostro, fá-lo quatro vezes, e felizmente a sua linguagem gestual é clara o suficiente para que seja possível a quem está de fora ler minimamente as intenções dele. Na primeira, ordena a Koulibaly que avance e se desloque para a sua esquerda, de modo a que este não esteja a ocupar a mesma coluna vertical que ele. Na segunda vez, vendo que o Chievo está com uma concentração grande de jogadores naquela zona, ao contrário do Napoli (que apenas tem Hamsik e, pior do que isso, ele teria depois poucas possibilidades de ligação com os colegas caso a bola lhe chegasse), sugere a Insigne que devolva a Koulibaly para se procurar uma entrada no bloco adversário em melhores condições. Na terceira, vendo que Albiol tem bastante espaço à sua frente e que ele próprio está quase que preso num banco de 6 adversários, ordena-lhe que conduza, aproveitando o espaço livre e acima de tudo atraindo alguns deles para que depois a bola entre melhor na frente da 1ª linha de pressão. E por fim, na quarta vez, diz a Koulibaly que devolva a bola a Albiol, colocando-se imediatamente em posição para receber um passe deste (que acaba por não sair) à frente da 1ª linha de pressão. Para além destes 4 detalhes, podemos, ao olhar atentamente para Jorginho, constatar a forma como este está constantemente a rodar o pescoço, para perceber o contexto à sua frente. Mas sobre este último detalhe falaremos mais claramente abaixo...

Passemos então ao dito vídeo:


Antes de partir para uma análise mais geral, vou destacar alguns lances que me pareceram ter pormenores que merecem a referência. Não necessariamente por serem os mais brilhantes (embora também o possam ser :) ), mas por um ou outro motivo, que depois explicarei abaixo, me chamarem à atenção... Os intervalos temporais apresentados abaixo são os do vídeo.

42 segundos (0:42) - Este lance, à primeira vista, não tem nada de especial. Aliás, no que é facilmente perceptível o Jorginho até esteve mal, visto que o passe dele para o Koulibaly saiu muito curto (erro técnico), acabando por criar dificuldades desnecessárias ao colega num lance simples. Mas este primeiro lance não tem como intenção elogiar uma acção do Jorginho, mas sim demonstrar um pormenor que está claramente explícito aqui e que ajuda a perceber um recurso que ele usa para estar sempre alguns passos à frente de todos os outros. Olhem para ele com toda a atenção que conseguirem, e contem as vezes que ele roda o pescoço para trás (ou seja, para a frente do campo, visto que ele estava a correr para trás). Eu contei 5, e pelo menos 4 delas parecem-me nítidas. Como digo, este lance não é destacado pelo que é, mas pelo que mostra do jogador. Neste caso, a forma quase obsessiva com que ele tenta olhar para a frente serve para perceber se tem condições para verticalizar, e até para entender o melhor possível eventuais mudanças de contexto e ter o máximo de dados possíveis para a tomada de decisão. Neste caso em particular, percebeu que não estavam reunidas as condições para verticalizar, e devolveu atrás.

1:24 - Mais uma vez, o aspecto referido acima de tentar sempre guiar os colegas quando têm a bola. Destaque para a irritação que demonstra quando o Albiol não lhe devolve a bola, quando este tinha condições para a receber e gente com quem jogar (Allan e Insigne).

02:00, 03:20 e 07:44 - Fundamentos da posição. Mais concretamente, a primazia absoluta ao passe vertical, a queimar linhas, e a preocupação constante em servir de apoio recuado em organização ofensiva. Estes clips são maiores exactamente por isso, para mostrar essa preocupação dele em
fornecer sempre um apoio, mesmo quando a equipa muda de lado a atacar.

10:10 - Percepção do contexto. Na maioria dos casos, a função que lhe cabe em termos posicionais, na organização ofensiva é, como foi dito, servir de apoio recuado. Mas, correndo algum risco de entrar em contradição, o jogo é demasiado complexo para se dizer que um jogador pode, na verdadeira acepção do termo, ter funções. De uma determinada opção ser a melhor a tomar na maioria dos momentos, não se segue que o seja sempre, e o Jorginho, como jogador extremamente inteligente que é, percebe isso perfeitamente. O clip começa aos 10:10, mas a parte que me interessa destacar ocorre sensívelmente a partir dos 10:24 (embora tudo o que o Jorginho faz neste lance em particular seja muito bom). Percebendo que a bola tem de entrar no Insigne, avança por forma a dar uma linha de passe horizontal ao colega que lhe permita receber em melhores condições de, em seguida, logo enquadrar o colega. Seria fácil simplesmente ficar atrás, mas mais uma vez, ao identificar a solução que o contexto pedia, ficou bem patente todo o conhecimento do jogo que tem o Jorginho...

8:35 - Classe. Tanto a forma como mata no peito e sai da pressão como depois aquele passe de primeira para o Hamsik são dignas de destaque. Acções de elevado grau de dificuldade, que ele executou com mestria.

Um pouco por todo o vídeo, é facilmente perceptível o critério do jogador, na forma como prioriza passes que eliminem adversários do lance (o chamado passe vertical) mas como também percebe que nem sempre dá para optar por eles, e nesse caso há que criar condições de penetração de outra forma. Sem bola, a forma como está constantemente a servir de cobertura ofensiva quando a equipa está no último terço, e como liga os sectores da equipa em construção são também notáveis. E isto num jogo em que o Chievo lhe dificultou muito mais a vida do que grande parte dos adversários, nessa fase de construção. De destacar também a forma como, apesar de fisicamente não ter atributos diferenciadores, consegue, por acção directa ou indirecta (e algumas destas últimas não estão aqui!), que a equipa recupere a bola. O facto de ter óptimas noções posicionais ajuda-o bastante nisto, evidentemente, bem como o facto de, normalmente, saber discernir quais os momentos para ser agressivo. Percebe-se, no fundo, que é a forma como percepciona o jogo que o eleva a um patamar superior. E mais do que isso, percebe-se que mesmo não se destacando fisicamente em nada, nem tendo atributos técnicos especiais para além do passe e da recepção, um médio-defensivo pode ganhar de goleada a muitos que metam sempre a bola onde querem e consigam conduzir a bola 40 metros com adversários em cima, por exemplo. É um dos jogadores que me lembro de ver jogar que melhor conhecem o jogo, e isso, e nada mais do que isso, é o que o torna um jogador especial. Mas, voltando ao início do post, só lhe é possível apresentar toda esta qualidade porque joga numa equipa onde o seu futebol se sente em casa, e mesmo o próprio Jorginho evoluiu bastante como jogador integrado numa equipa que o estimulou desta forma. Sempre foi um médio muito inteligente, mas foi com Maurizio Sarri que elevou essa inteligência a níveis estratosféricos.

Deixo o último parágrafo para, exactamente, falar de Sarri. É um treinador soberbo, facilmente um dos meus três treinadores favoritos na actualidade, e já o é desde que seguia o seu Empoli. Mereceria até um post só para si, para elogiar todos os seus méritos, mas aqui vou ter de lhe fazer uma pequena crítica (embora antecedida de muitos elogios). A abordagem dele a esta época tem sido, na globalidade, fantástica. Mesmo perdendo o máximo goleador da história da Serie A numa só temporada, soube reinventar ligeiramente a organização ofensiva da equipa com a chegada do Milik, que é um avançado algo diferente (o Honoris fala um pouco sobre isso aqui) e, mais que isso, quase que "inventar" um avançado do nada com a lesão deste. Quando ainda existe o dogma de que é obrigatório ter um matador (normalmente, o tal avançado grande, forte e mau que marca muito) para se marcar golos, a aposta num extremo de 1m69 para a posição parecerá certamente uma heresia. Mas a verdade é que tanto ele como a equipa marcaram imenso, o que, se esse dogma fosse uma porta, representaria mais um tiro numa porta que já foi arrombada, baleada e pontapeada vezes sem conta, apesar de ainda haver quem não o perceba. Soube também integrar o Zielinski nas suas opções regulares para o 11, que é um jogador superior ao Allan. Mas, e aqui vem a crítica, parece-me que foi demasiado lesto em apostar no Diawara no lugar do Jorginho. O primeiro é um médio defensivo de qualidade e acima de tudo com imenso potencial, há que notar. Já tem muitas prioridades certas com bola, alguma qualidade técnica, uma calma sobre pressão interessante e é fisicamente bastante bom. Mas neste momento, está claramente numa liga inferior ao Jorginho, e, por isso, ainda não devia discutir activamente com este a titularidade (no sentido de o ser tantas ou mais vezes que ele).

2 de fev de 2017

Procurar o golo de todas as formas... ou das melhores?


"Forçámos de todas a maneiras e feitios para fazer golo, mas não conseguimos."  
Esta frase é de Arnaldo Teixeira, adjunto de Rui Vitória, após a derrota do Benfica em Setúbal. E parece-me que pode trazer um tópico de discussão interessante, juntamente com o que se passou no final do encontro. O Benfica teve imensas dificuldades em criar lances de perigo ao longo do encontro, sendo que nos dez minutos finais, mais coisa menos coisa, decidiu começar a despejar bolas na área do seu adversário a torto e a direito. O sucesso dessa ideia foi obviamente muito diminuto, tendo apenas conseguido um remate de Mitroglou, na sequência de uma segunda bola. Isto tudo até ao último lance do jogo, claro. Esse lance foi imensamente escrutinado por todo o país, mas, claro, no sentido de saber se o lance era passível de grande penalidade ou não. Aqui a ideia é fazer um pouco diferente, por isso não é, de todo, esse o meu foco. O interesse do lance, a meu ver, está no início do mesmo e não no fim.


Falta literalmente um segundo para acabar o tempo adicional mínimo, a equipa tinha, como referido, passado os dez minutos anteriores a despejar na área e Carrillo estava numa posição em que a grande maioria dos jogadores, mesmo numa situação diferente, cruzariam. Pelo que o desfecho da jogada deveria ser mais do que óbvio, uma bola na área. Mas Carrillo é um jogador que poucos percebem, e que tem tendência a não fazer o que todo o mundo acha óbvio. Muito acusado de ser irresponsável nos momentos defensivos e, de facto - já que a primeira afirmação é mais questionável do que se pensa - tem oscilações gigantes de rendimento consoante os seus níveis de confiança e conforto na equipa em que se encontra (o que o leva a entrar em ciclos negativos viciosos com facilidade, como foi bem visível no Sporting por exemplo). Apesar disso, é um jogador de elevadíssima qualidade, porque alia qualidades físicas e técnicas superlativas a um conhecimento do jogo deveras subvalorizado. Vejamos a jogada:
Ao não fazer o óbvio, e em vez disso procurar uma melhor solução, Carrillo aproximou-se muito mais do sucesso do que se tivesse feito o que toda a gente lhe ordenaria que fizesse na situação descrita. Foi, aliás, traído pela sua recepção após a devolução do colega (que também lhe dificulta a vida), que se lhe sai bem o colocaria numa situação muitíssimo favorável. Mas interessa mais falar da falácia que é a ideia que todos os treinadores têm de ter um "Plano B" para este tipo de circunstâncias - que consiste sensivelmente no que o Benfica fez neste período: tudo na área e bola lá em cima! Daí também o interesse de Arnaldo Teixeira em passar a ideia de que a equipa tentou chegar ao golo de todas as formas - visto que é algo tido como positivo e recomendável. Por isso mesmo, não é a verdade dessa ideia que se discute aqui (ou seja, se o Benfica procurou mesmo o golo de todas as formas) , mas sim o facto de essa ideia ser algo de positivo. Ao ignorar tais preconceitos e focar-se na melhor solução, Carrillo mostrou aos seus colegas e até à sua equipa técnica que, se o Benfica se tivesse focado nas melhores formas de chegar ao golo nos últimos 10 minutos - e não em todas, podia não ter saído do Bonfim sem pontos...

28 de jan de 2017

Criatividade… e mais desmistificações.



O conceito de criatividade é relativamente complexo, e como em todos os conceitos relativamente complexos relacionados com futebol, várias perspectivas se criam. É usual ouvir-se que o jogador criativo é o que faz coisas mais fora-da-caixa, que está sempre a tentar coisas mirabolantes ou mesmo o que tem 15 formas diferentes de fintar o adversário. Ora, a meu ver, o conceito de criatividade é puramente intelectual, estando relacionado com as diferentes opções que um jogador é capaz de percepcionar a cada lance, tendo em conta o tempo muitíssimo limitado de que dispõe para o fazer. Querer fazer diferente como um fim em si mesmo não é criatividade, é sempre necessário perceber o contexto e se realmente a nossa ação inovadora vai ser a que mais se adequa ao contexto de jogo – um cruzamento de trivela sem ninguém na área tem tudo de estúpido e nada de criativo, por exemplo. No fundo, é ser capaz de encontrar formas inovadoras e adequadas ao contexto de resolver as situações em que se encontra. Mas não tenciono desenvolver muito mais esse tema, até porque há pela internet vários textos de enorme qualidade sobre o tema (recomendo este, do melhor blog nacional sobre futebol…) . Tenciono, isso sim, mostrar um exemplo feliz do que é, a meu ver, criatividade, e que dá bem a entender o motivo pelo qual é um atributo, mais do que qualquer outra coisa, intelectual.

O exemplo é de Francisco Geraldes, o muitíssimo talentoso médio do Sporting que, espero eu, volte ao clube que o formou para ter as oportunidades que merece. Não vou mostrar o lance em si desde já, mas sim meter uma imagem de um momento do mesmo…


Olhando para esta imagem isolada, parece evidente que a decisão normalmente tomada será a de
lateralizar. Mas olhemos para o lance na totalidade:

É possível que outros jogadores tentassem o drible que Geraldes tentou, mas sem grande intenção subjacente a isso que não a de ser imprevisível. Ora, isso também não seria criatividade. Mas conhecendo bem o jogador e o seu perfil de decisão, estou convicto de que ele tinha o lance todo na cabeça desde o início. A recepção com que tira o defesa da frente é imediatamente orientada para aquele espaço vantajoso, em que tinha dois colegas por dentro com quem jogar, e mesmo quando o desenrolar do lance o leva noutros sentidos ele nunca perdeu de vista a forma mais valiosa de desequilibrar. É esta percepção e análise constante do contexto que permite aos jogadores verdadeiramente criativos encontrarem um grande número de soluções diferentes, e daí não só escolherem a melhor, como usarem as outras soluções que têm para enganar o adversário (no lance em questão, Geraldes aproveitou a ilusão que se criou no adversário de que ia lateralizar para o ultrapassar mais facilmente)…

E já que falamos de Francisco Geraldes, parece-me pertinente abordar mais uma ideia falaciosa que existe, neste caso sobre ele e Daniel Podence, mas que está longe de se prender a ambos os jogadores. Ideia essa expressa no vídeo presente neste link.

Luís Francisco não só diz algo completamente errado, tendo em conta os jogadores de quem fala (especialmente Geraldes), como, ao dizê-lo, acaba por dar a entender uma ideia geral ainda mais errada. É referido que é mais fácil brilhar em transição que em ataque continuado, como uma prescrição geral, e que por exemplo jogadores como Podence apenas se sentem confortáveis em momentos nos quais possam ter espaço para correr. Mesmo no caso de Geraldes, refere-se que tem "outras valências", mas são relegadas para segundo plano, em favor da tese que se quer passar de que jogar em transição é necessariamente mais fácil e vantajoso para qualquer jogador. Ora, como referido, é uma tese completamente falsa. A criatividade que ambos os jogadores referidos possuem leva a que sejam jogadores que se sentem muito confortáveis a jogar contra blocos fechados e numa equipa que lhes forneça várias armas colectivas para manipular esse tipo de adversários. É em contextos mais exigentes em termos intelectuais que essa criatividade se manifesta verdadeiramente, e em que os jogadores podem colocar toda a sua velocidade e qualidade de raciocínio ao serviço da equipa.

É evidente o motivo da afirmação. Olha-se para a forma como Daniel Podence se desembaraça no 1x1, e para a mestria de Francisco Geraldes a descobrir colegas nas costas da linha defensiva dos adversários, em transição, e deduz-se que essas são as características que dão brilho aos jogadores. Tal como, aliás, os comentadores portugueses fazem quase todos na análise geral a um jogador. Mas o que dá realmente brilho a ambos os jovens talentos leoninos não é isso, mas sim os atributos referidos acima.

Aliás, o “jogar em contra-ataque”, como diz Luís Francisco, é até limitador (especialmente a versão do “contra-ataque” praticada pelas equipas pequenas em Portugal)... No caso de Podence, porque lhe tira soluções com quem se associar que tornem mais letais os seus desequilíbrios (porque as pode usar para causar dúvida no adversário) e porque essa falta de soluções e necessidade de resolver tudo rápido o leva a vícios algo perniciosos, de tentar resolver os lances sozinho. Já a Geraldes, tira-lhe bola, e acima de tudo tira-lhe bola em situações em que ele tenha condições para colocar toda a sua capacidade para manipular blocos adversários inteiros. Jogadores como ele, Óliver, Gauld ou Bernardo Silva, por exemplo, são tão melhores quanto mais dominadora for a equipa. Porque o menor espaço, maior concentração de adversários e mais colegas com quem jogar são características perniciosas a quem apenas sabe aproveitar espaço, não a quem vive de o criar. São esses, os jogadores que criam espaço como Geraldes tão habilmente faz, que são o futuro do nosso futebol. É criminoso que um jogador como ele some menos de 10 internacionalizações nos escalões jovens todos somados, e que esse tipo de jogador, no geral, seja desprezado no nosso país. E visões limitadas sobre o jogo como a apresentada por Luís Francisco, embora estejam longe de explicar o problema, são um bom indício do mesmo…

25 de jan de 2017

Nápoles. Organização da pressão

Organização. Nenhuma palavra define melhor o que é o Nápoles de Maurizio Sarri. Como é óbvio, o momento de pressionar não foge à regra, e os posicionamentos/comportamentos estão trabalhados para que a equipa se mantenha sempre organizada. 

23 de jan de 2017

Falar do jogo ou falar de platitudes à volta do jogo - uma questão cultural


Creio não estar a dar nenhuma novidade a ninguém, ao referir que o interesse no jogo de futebol, em Portugal, é bastante diminuto. Diz-se que o futebol move paixões no nosso país, mas uma análise minimamente atenta diz-nos imediatamente que não é o jogo em si, mas sim externalidades decorrentes e não relacionadas com a natureza do mesmo que o fazem. Em Portugal, gosta-se do clube do coração, e, como está convencionado que o desporto nacional é o futebol, é para o futebol que se olha. Acho perfeitamente legítimo que se olhe para o futebol como fenómeno social e aglutinador e não para o jogo e a sua natureza, mas não consigo deixar de achar que essas pessoas, que são a clara maioria, facilmente veriam qualquer desporto dessa mesma forma se fosse essa a convenção a seguir. E isto, invariavelmente, acaba por secundarizar o que, de facto, se passa nas quatro linhas e, por isso, empobrecer a análise que se faz do mesmo.

Ainda para mais, o futebol é um jogo cheio de ilusões, como referi até no post anterior e poderei referir noutros, e uma das mais divertidas é, pelo esforço físico a que sujeita os atletas, fazer quem o vê acreditar que deve ser jogado da mesma forma que se acartam baldes de massa - leia-se, com muito esforço, suor, ranger de dentes e velocidade para despachar a tarefa o mais rápido possível. Um desporto puramente intelectual ou puramente físico, como o xadrez ou as corridas de 100 metros, respectivamente, não nos oferecem esta ilusão. Porque se devido ao carácter intelectual do primeiro, ninguém minimamente são vai falar dele sem um mínimo de reflexão sobre o mesmo, o segundo é exactamente o que parece - um jogo em que quem fizer os 100 metros mais rápido vence. Só que o futebol, pela sua natureza específica, é mais exigente intelectualmente que o xadrez e fisicamente que os 100 metros. Muito pelo facto de conjugar ambas as exigências, física e de raciocínio (entre outras). Isto leva a que seja incrivelmente fácil para os milhares que observam o jogo formar concepções falaciosas sobre o mesmo, e entre esses incluem-se imensos jornalistas e comentadores desportivos.

Este post consistirá numa comparação simples entre duas conferências de imprensa pós-jogo, uma em Itália e outra em Portugal. Quanto ao caso italiano, apesar de a ideia de superioridade em termos estratégicos que os italianos têm em relação ao seu futebol ser altamente questionável, a verdade é que a aura que se formou no país sobre essa vertente leva a que haja no país um interesse maior no jogo, e, consequentemente, que o foco nas questões a treinadores incida muito mais sobre o que de facto se passa nas quatro linhas, e na procura pela discussão desses pormenores com os mesmos.

Sem mais demoras, ficam abaixo ambas as conferências (infelizmente estão nas línguas respectivas, mas creio que mesmo sendo em italiano a ideia é minimamente perceptível) :




Queria só deixar umas notas antes de falar dos vídeos. Em primeiro lugar, esta análise não serve, de todo, de crítica a Rui Vitória, que não tem culpa do tipo de perguntas realizadas e que, mesmo dentro delas, até tentou falar do jogo. Para além disso, não me estou aqui a prender tanto ao conteúdo e à pertinência do que é questionado em si, mas simplesmente do facto de se tentar ou não discutir assuntos que fujam da superficialidade habitual...

Posto isto, a conferência de Rui Vitória é igual a 95% das conferências de imprensa no nosso país. Muito foco em rumores de imprensa e em questões como a motivação e o estado de espírito, e, quando se tenta falar sequer do que se passa nas quatro linhas, o foco incide invariavelmente em opções individuais - por que motivo não jogou o jogador X, o que acrescentou o jogador Y ao entrar, o jogador Z é muito importante porque marcou K golos e fez M assistências, entre outras. Ou seja, ou não se fala de todo do jogo, ou se fala da forma mais superficial possível.

Já na conferência de Maurizio Sarri notam-se diferenças claras, nomeadamente a partir dos 3 minutos. Há lugar ao tipo de perguntas adoradas em Portugal, sim, mas há também interesse em falar do jogo em si, de forma mais aprofundada. Neste exemplo em particular, o primeiro jornalista inquire Sarri, com recurso a um vídeo ilustrativo, sobre o facto de a equipa do Napoli, ao tentar condicionar alto o jogo do Milan como fazia, não acabar por expor demasiado o espaço entre a linha defensiva e os restantes colegas, caso a pressão fosse ultrapassada. Já o segundo, também com recurso a vídeo, mostra um exemplo da constante projecção de Abate, lateral-direito do Milan, durante a partida, questionando Sarri sobre o motivo pelo qual os extremos do Napoli não acompanhavam as incursões dos laterais até ao fim. Obviamente que perguntas deste género permitem retirar um sumo muito maior das declarações dos treinadores, basta notar que a resposta de Sarri à primeira questão envolveu uma explicação do conceito de bola coberta - bola descoberta, bem como as dificuldades sentidas no processo de treino para corrigir o pormenor questionado e a melhoria apresentada pela equipa nesse aspecto, em relação ao jogo com a Fiorentina.

Como adepto do jogo, e não apenas das externalidades decorrentes do mesmo, vejo conferências como esta de Sarri com pena. Porque vejo um interesse no jogo que não vejo no meu país e, acima de tudo, vejo neste tipo de questões uma óptima oportunidade para o adepto comum aprender mais sobre o jogo. Infelizmente, em Portugal gostamos mais de platitudes...

3 de jan de 2017

O que é ser criativo? Geraldes explica

Tem qualidade de passe, de remate e é evoluído tecnicamente, mas é a criatividade que o torna um jogador diferente. A capacidade que tem para descobrir soluções que à partira nem sequer se imaginavam, torna-o num médio com um potencial tremendo. Das muitas ações de qualidade que teve no jogo de hoje contra o Porto, esta é a que melhor demonstra o tipo de jogador que Geraldes é.

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