2 de fev de 2017

Procurar o golo de todas as formas... ou das melhores?


"Forçámos de todas a maneiras e feitios para fazer golo, mas não conseguimos."  
Esta frase é de Arnaldo Teixeira, adjunto de Rui Vitória, após a derrota do Benfica em Setúbal. E parece-me que pode trazer um tópico de discussão interessante, juntamente com o que se passou no final do encontro. O Benfica teve imensas dificuldades em criar lances de perigo ao longo do encontro, sendo que nos dez minutos finais, mais coisa menos coisa, decidiu começar a despejar bolas na área do seu adversário a torto e a direito. O sucesso dessa ideia foi obviamente muito diminuto, tendo apenas conseguido um remate de Mitroglou, na sequência de uma segunda bola. Isto tudo até ao último lance do jogo, claro. Esse lance foi imensamente escrutinado por todo o país, mas, claro, no sentido de saber se o lance era passível de grande penalidade ou não. Aqui a ideia é fazer um pouco diferente, por isso não é, de todo, esse o meu foco. O interesse do lance, a meu ver, está no início do mesmo e não no fim.


Falta literalmente um segundo para acabar o tempo adicional mínimo, a equipa tinha, como referido, passado os dez minutos anteriores a despejar na área e Carrillo estava numa posição em que a grande maioria dos jogadores, mesmo numa situação diferente, cruzariam. Pelo que o desfecho da jogada deveria ser mais do que óbvio, uma bola na área. Mas Carrillo é um jogador que poucos percebem, e que tem tendência a não fazer o que todo o mundo acha óbvio. Muito acusado de ser irresponsável nos momentos defensivos e, de facto - já que a primeira afirmação é mais questionável do que se pensa - tem oscilações gigantes de rendimento consoante os seus níveis de confiança e conforto na equipa em que se encontra (o que o leva a entrar em ciclos negativos viciosos com facilidade, como foi bem visível no Sporting por exemplo). Apesar disso, é um jogador de elevadíssima qualidade, porque alia qualidades físicas e técnicas superlativas a um conhecimento do jogo deveras subvalorizado. Vejamos a jogada:
Ao não fazer o óbvio, e em vez disso procurar uma melhor solução, Carrillo aproximou-se muito mais do sucesso do que se tivesse feito o que toda a gente lhe ordenaria que fizesse na situação descrita. Foi, aliás, traído pela sua recepção após a devolução do colega (que também lhe dificulta a vida), que se lhe sai bem o colocaria numa situação muitíssimo favorável. Mas interessa mais falar da falácia que é a ideia que todos os treinadores têm de ter um "Plano B" para este tipo de circunstâncias - que consiste sensivelmente no que o Benfica fez neste período: tudo na área e bola lá em cima! Daí também o interesse de Arnaldo Teixeira em passar a ideia de que a equipa tentou chegar ao golo de todas as formas - visto que é algo tido como positivo e recomendável. Por isso mesmo, não é a verdade dessa ideia que se discute aqui (ou seja, se o Benfica procurou mesmo o golo de todas as formas) , mas sim o facto de essa ideia ser algo de positivo. Ao ignorar tais preconceitos e focar-se na melhor solução, Carrillo mostrou aos seus colegas e até à sua equipa técnica que, se o Benfica se tivesse focado nas melhores formas de chegar ao golo nos últimos 10 minutos - e não em todas, podia não ter saído do Bonfim sem pontos...

28 de jan de 2017

Criatividade… e mais desmistificações.



O conceito de criatividade é relativamente complexo, e como em todos os conceitos relativamente complexos relacionados com futebol, várias perspectivas se criam. É usual ouvir-se que o jogador criativo é o que faz coisas mais fora-da-caixa, que está sempre a tentar coisas mirabolantes ou mesmo o que tem 15 formas diferentes de fintar o adversário. Ora, a meu ver, o conceito de criatividade é puramente intelectual, estando relacionado com as diferentes opções que um jogador é capaz de percepcionar a cada lance, tendo em conta o tempo muitíssimo limitado de que dispõe para o fazer. Querer fazer diferente como um fim em si mesmo não é criatividade, é sempre necessário perceber o contexto e se realmente a nossa ação inovadora vai ser a que mais se adequa ao contexto de jogo – um cruzamento de trivela sem ninguém na área tem tudo de estúpido e nada de criativo, por exemplo. No fundo, é ser capaz de encontrar formas inovadoras e adequadas ao contexto de resolver as situações em que se encontra. Mas não tenciono desenvolver muito mais esse tema, até porque há pela internet vários textos de enorme qualidade sobre o tema (recomendo este, do melhor blog nacional sobre futebol…) . Tenciono, isso sim, mostrar um exemplo feliz do que é, a meu ver, criatividade, e que dá bem a entender o motivo pelo qual é um atributo, mais do que qualquer outra coisa, intelectual.

O exemplo é de Francisco Geraldes, o muitíssimo talentoso médio do Sporting que, espero eu, volte ao clube que o formou para ter as oportunidades que merece. Não vou mostrar o lance em si desde já, mas sim meter uma imagem de um momento do mesmo…


Olhando para esta imagem isolada, parece evidente que a decisão normalmente tomada será a de
lateralizar. Mas olhemos para o lance na totalidade:

É possível que outros jogadores tentassem o drible que Geraldes tentou, mas sem grande intenção subjacente a isso que não a de ser imprevisível. Ora, isso também não seria criatividade. Mas conhecendo bem o jogador e o seu perfil de decisão, estou convicto de que ele tinha o lance todo na cabeça desde o início. A recepção com que tira o defesa da frente é imediatamente orientada para aquele espaço vantajoso, em que tinha dois colegas por dentro com quem jogar, e mesmo quando o desenrolar do lance o leva noutros sentidos ele nunca perdeu de vista a forma mais valiosa de desequilibrar. É esta percepção e análise constante do contexto que permite aos jogadores verdadeiramente criativos encontrarem um grande número de soluções diferentes, e daí não só escolherem a melhor, como usarem as outras soluções que têm para enganar o adversário (no lance em questão, Geraldes aproveitou a ilusão que se criou no adversário de que ia lateralizar para o ultrapassar mais facilmente)…

E já que falamos de Francisco Geraldes, parece-me pertinente abordar mais uma ideia falaciosa que existe, neste caso sobre ele e Daniel Podence, mas que está longe de se prender a ambos os jogadores. Ideia essa expressa no vídeo presente neste link.

Luís Francisco não só diz algo completamente errado, tendo em conta os jogadores de quem fala (especialmente Geraldes), como, ao dizê-lo, acaba por dar a entender uma ideia geral ainda mais errada. É referido que é mais fácil brilhar em transição que em ataque continuado, como uma prescrição geral, e que por exemplo jogadores como Podence apenas se sentem confortáveis em momentos nos quais possam ter espaço para correr. Mesmo no caso de Geraldes, refere-se que tem "outras valências", mas são relegadas para segundo plano, em favor da tese que se quer passar de que jogar em transição é necessariamente mais fácil e vantajoso para qualquer jogador. Ora, como referido, é uma tese completamente falsa. A criatividade que ambos os jogadores referidos possuem leva a que sejam jogadores que se sentem muito confortáveis a jogar contra blocos fechados e numa equipa que lhes forneça várias armas colectivas para manipular esse tipo de adversários. É em contextos mais exigentes em termos intelectuais que essa criatividade se manifesta verdadeiramente, e em que os jogadores podem colocar toda a sua velocidade e qualidade de raciocínio ao serviço da equipa.

É evidente o motivo da afirmação. Olha-se para a forma como Daniel Podence se desembaraça no 1x1, e para a mestria de Francisco Geraldes a descobrir colegas nas costas da linha defensiva dos adversários, em transição, e deduz-se que essas são as características que dão brilho aos jogadores. Tal como, aliás, os comentadores portugueses fazem quase todos na análise geral a um jogador. Mas o que dá realmente brilho a ambos os jovens talentos leoninos não é isso, mas sim os atributos referidos acima.

Aliás, o “jogar em contra-ataque”, como diz Luís Francisco, é até limitador (especialmente a versão do “contra-ataque” praticada pelas equipas pequenas em Portugal)... No caso de Podence, porque lhe tira soluções com quem se associar que tornem mais letais os seus desequilíbrios (porque as pode usar para causar dúvida no adversário) e porque essa falta de soluções e necessidade de resolver tudo rápido o leva a vícios algo perniciosos, de tentar resolver os lances sozinho. Já a Geraldes, tira-lhe bola, e acima de tudo tira-lhe bola em situações em que ele tenha condições para colocar toda a sua capacidade para manipular blocos adversários inteiros. Jogadores como ele, Óliver, Gauld ou Bernardo Silva, por exemplo, são tão melhores quanto mais dominadora for a equipa. Porque o menor espaço, maior concentração de adversários e mais colegas com quem jogar são características perniciosas a quem apenas sabe aproveitar espaço, não a quem vive de o criar. São esses, os jogadores que criam espaço como Geraldes tão habilmente faz, que são o futuro do nosso futebol. É criminoso que um jogador como ele some menos de 10 internacionalizações nos escalões jovens todos somados, e que esse tipo de jogador, no geral, seja desprezado no nosso país. E visões limitadas sobre o jogo como a apresentada por Luís Francisco, embora estejam longe de explicar o problema, são um bom indício do mesmo…

25 de jan de 2017

Nápoles. Organização da pressão

Organização. Nenhuma palavra define melhor o que é o Nápoles de Maurizio Sarri. Como é óbvio, o momento de pressionar não foge à regra, e os posicionamentos/comportamentos estão trabalhados para que a equipa se mantenha sempre organizada. 

23 de jan de 2017

Falar do jogo ou falar de platitudes à volta do jogo - uma questão cultural


Creio não estar a dar nenhuma novidade a ninguém, ao referir que o interesse no jogo de futebol, em Portugal, é bastante diminuto. Diz-se que o futebol move paixões no nosso país, mas uma análise minimamente atenta diz-nos imediatamente que não é o jogo em si, mas sim externalidades decorrentes e não relacionadas com a natureza do mesmo que o fazem. Em Portugal, gosta-se do clube do coração, e, como está convencionado que o desporto nacional é o futebol, é para o futebol que se olha. Acho perfeitamente legítimo que se olhe para o futebol como fenómeno social e aglutinador e não para o jogo e a sua natureza, mas não consigo deixar de achar que essas pessoas, que são a clara maioria, facilmente veriam qualquer desporto dessa mesma forma se fosse essa a convenção a seguir. E isto, invariavelmente, acaba por secundarizar o que, de facto, se passa nas quatro linhas e, por isso, empobrecer a análise que se faz do mesmo.

Ainda para mais, o futebol é um jogo cheio de ilusões, como referi até no post anterior e poderei referir noutros, e uma das mais divertidas é, pelo esforço físico a que sujeita os atletas, fazer quem o vê acreditar que deve ser jogado da mesma forma que se acartam baldes de massa - leia-se, com muito esforço, suor, ranger de dentes e velocidade para despachar a tarefa o mais rápido possível. Um desporto puramente intelectual ou puramente físico, como o xadrez ou as corridas de 100 metros, respectivamente, não nos oferecem esta ilusão. Porque se devido ao carácter intelectual do primeiro, ninguém minimamente são vai falar dele sem um mínimo de reflexão sobre o mesmo, o segundo é exactamente o que parece - um jogo em que quem fizer os 100 metros mais rápido vence. Só que o futebol, pela sua natureza específica, é mais exigente intelectualmente que o xadrez e fisicamente que os 100 metros. Muito pelo facto de conjugar ambas as exigências, física e de raciocínio (entre outras). Isto leva a que seja incrivelmente fácil para os milhares que observam o jogo formar concepções falaciosas sobre o mesmo, e entre esses incluem-se imensos jornalistas e comentadores desportivos.

Este post consistirá numa comparação simples entre duas conferências de imprensa pós-jogo, uma em Itália e outra em Portugal. Quanto ao caso italiano, apesar de a ideia de superioridade em termos estratégicos que os italianos têm em relação ao seu futebol ser altamente questionável, a verdade é que a aura que se formou no país sobre essa vertente leva a que haja no país um interesse maior no jogo, e, consequentemente, que o foco nas questões a treinadores incida muito mais sobre o que de facto se passa nas quatro linhas, e na procura pela discussão desses pormenores com os mesmos.

Sem mais demoras, ficam abaixo ambas as conferências (infelizmente estão nas línguas respectivas, mas creio que mesmo sendo em italiano a ideia é minimamente perceptível) :




Queria só deixar umas notas antes de falar dos vídeos. Em primeiro lugar, esta análise não serve, de todo, de crítica a Rui Vitória, que não tem culpa do tipo de perguntas realizadas e que, mesmo dentro delas, até tentou falar do jogo. Para além disso, não me estou aqui a prender tanto ao conteúdo e à pertinência do que é questionado em si, mas simplesmente do facto de se tentar ou não discutir assuntos que fujam da superficialidade habitual...

Posto isto, a conferência de Rui Vitória é igual a 95% das conferências de imprensa no nosso país. Muito foco em rumores de imprensa e em questões como a motivação e o estado de espírito, e, quando se tenta falar sequer do que se passa nas quatro linhas, o foco incide invariavelmente em opções individuais - por que motivo não jogou o jogador X, o que acrescentou o jogador Y ao entrar, o jogador Z é muito importante porque marcou K golos e fez M assistências, entre outras. Ou seja, ou não se fala de todo do jogo, ou se fala da forma mais superficial possível.

Já na conferência de Maurizio Sarri notam-se diferenças claras, nomeadamente a partir dos 3 minutos. Há lugar ao tipo de perguntas adoradas em Portugal, sim, mas há também interesse em falar do jogo em si, de forma mais aprofundada. Neste exemplo em particular, o primeiro jornalista inquire Sarri, com recurso a um vídeo ilustrativo, sobre o facto de a equipa do Napoli, ao tentar condicionar alto o jogo do Milan como fazia, não acabar por expor demasiado o espaço entre a linha defensiva e os restantes colegas, caso a pressão fosse ultrapassada. Já o segundo, também com recurso a vídeo, mostra um exemplo da constante projecção de Abate, lateral-direito do Milan, durante a partida, questionando Sarri sobre o motivo pelo qual os extremos do Napoli não acompanhavam as incursões dos laterais até ao fim. Obviamente que perguntas deste género permitem retirar um sumo muito maior das declarações dos treinadores, basta notar que a resposta de Sarri à primeira questão envolveu uma explicação do conceito de bola coberta - bola descoberta, bem como as dificuldades sentidas no processo de treino para corrigir o pormenor questionado e a melhoria apresentada pela equipa nesse aspecto, em relação ao jogo com a Fiorentina.

Como adepto do jogo, e não apenas das externalidades decorrentes do mesmo, vejo conferências como esta de Sarri com pena. Porque vejo um interesse no jogo que não vejo no meu país e, acima de tudo, vejo neste tipo de questões uma óptima oportunidade para o adepto comum aprender mais sobre o jogo. Infelizmente, em Portugal gostamos mais de platitudes...

3 de jan de 2017

O que é ser criativo? Geraldes explica

Tem qualidade de passe, de remate e é evoluído tecnicamente, mas é a criatividade que o torna um jogador diferente. A capacidade que tem para descobrir soluções que à partira nem sequer se imaginavam, torna-o num médio com um potencial tremendo. Das muitas ações de qualidade que teve no jogo de hoje contra o Porto, esta é a que melhor demonstra o tipo de jogador que Geraldes é.

29 de dez de 2016

1 minutinho de Jonas em campo



Estilo de jogo e as características dos jogadores


O estilo de jogo do Barcelona não é possível em todos os clubes, porque depende dos jogadores que tens.

Klopp a explicar algo que muita gente parece não conseguir perceber. O modelo de jogo depende sempre das características dos jogadores. Por muito boas que sejam as ideias de Guardiola (e são!), nunca vamos ver uma equipa tão forte a jogar em espaços curtos como o seu Barcelona jogava. A não ser que Messi, Iniesta, Xavi e Busquets se transfiram todos para o City. Pode o City evoluir muito? Claro que pode! Mas nunca chegará ao nível do Barcelona de Guardiola, porque serão sempre os jogadores a por em prática as ideias do treinador, e como aqueles não há. 

Ser treinador

Como treinador, desde o primeiro dia que quis procurar soluções para os meus jogadores quando tivessem a bola. Não quero que façam as coisas só porque eu digo, quero que as percebam, que compreendam qual a utilidade de algo que fazemos, defensiva ou ofensivamente. Porque se perceberem, tenho a certeza de que as vão fazer com mais convicção e aprender melhor. 

Nas palavras de Conte, bem explicada qual a responsabilidade de um treinador. Dar soluções aos seus jogadores. Dar-lhes condições para que sejam bem sucedidos dentro de campo. É isto o trabalho do treinador. Os posicionamentos, a orientação das linhas de passe ao portador da bola, a ideia de jogo que engloba tudo isto, etc etc.


28 de dez de 2016

Filipe Chaby

Não há desporto mais apaixonante que o futebol. Mas também não há desporto onde o desperdicio de talento seja tão grande como no futebol. E a justificação para o não aproveitamento de jogadores talentosos anda sempre à volta do mesmo: "falta-lhe intensidade", "são pequenos", "não defendem", "não aguentam o choque" e mais um conjunto de imbecilidades que nos fazem questionar de que desporto estaremos a falar. 

Um dos maiores exemplos do que estou a falar é Filipe Chaby. É incrível como aos 23 anos anda pela 2ª divisão, sem ter tido oportunidades na principal escalão do futebol português. Os vídeos que se seguem são apenas pequenos exemplos daquilo que Chaby é capaz de fazer em campo. 



Qualidade técnica, inteligência, conhecimento do jogo, criatividade. Filipe Chaby é um dos médios portugueses mais geniais. A inteligência com que temporiza permite-nos perceber perante que tipo de jogador estamos. Sabe na perfeição aquilo que cada lance pede. Seja um passe simples para o lado ou para trás, seja um passe vertical que tira vários adversários do lance ou uma variação do centro de jogo, Chaby decide sempre pelo que aproxima mais a equipa do sucesso. 

Tanto futebol que Filipe Chaby tem nos seus pés e principalmente na sua cabeça. Porque é que isto não chega para jogar numa primeira divisão, num clube com maiores ambições? 

19 de dez de 2016

Dries Mertens

http://d5t4y6hm444bm.cloudfront.net/wp-content/uploads/2016/08/mertebjghgcc.jpg
Mertens sempre foi um jogador extraordinário, mas a sua adaptação à posição de falso 9 está até a exceder as minhas expectativas. Realizou um jogo simplesmente inacreditável com o Torino, e tal nem se deve tanto aos quatro golos que marcou. A sua genialidade nota-se em cada ação, em cada passe para o local exato(basta ver a intervenção dele no golo que não marcou) e mesmo em algumas ações que por algum motivo não saem. Foi claramente a figura de mais um jogo espetacular do Nápoles de Sarri, que tem praticado ultimamente, a meu ver e a uma distância considerável dos demais, o melhor futebol da Europa.

Todas as ações, com bola, de Mertens no jogo


PS: Infelizmente o vídeo está bastante rápido, mas creio que isso não dificulta muito a sua visualização.

14 de dez de 2016

Futebol, um jogo de ilusões

Futebol, o jogo visto por milhões e analisado por milhares. Um jogo que cria um espectro inacreditável de sensações em quase todos os que o veem, desde o êxtase pelo golo que a nossa equipa marcou aos 90+5 e que nos deu a vitória, ao desalento absoluto que sente alguém que viu exatamente esse jogo, mas torcendo pela equipa contrária; passando por todo um conjunto de emoções intermédias. No entanto, toda esta paixão e até irracionalidade inerente ao jogo esconde toda uma outra vertente. Vertente essa que, para choque de muitos é… o jogo em si. Parece paradoxal algo aparentemente tão acessível às massas, sobre o qual todos acham que têm opinião, ser na realidade algo tão complexo, mas é o caso. É o desporto com mais variáveis e menos constrangimentos (limitações do tempo de posse, por exemplo), e com uma exigência em termos cognitivos e físicos (indissociáveis uma da outra, claro) sem paralelo.

Esta ilusão - mais concretamente a de que o jogo, por ser aparentemente tão acessível a todos e tão popular, não tem grande complexidade - afeta uma percentagem apreciável dos que o veem. Pelo que o ponto central de este post, que vou defender abaixo, não deixa de ser ligeiramente irónico. E essa ironia reside em, apesar de muita gente estar iludida sobre o jogo em si por se deixar inebriar por muitas coisas que quase parecem indissociáveis dele, como por exemplo ser fanático por um clube ou deixar-se levar pelos chavões criados por uma análise simplista do jogo, o próprio jogo, ser, em si, um jogo de ilusões.

O tal ponto central do post reside nesta última parte, e, por isso, importa ser bem defendido. Como ponto de partida, achei por bem citar um excerto muito interessante de uma entrevista de Juanma Lillo ao jornal argentino La Nación:

"(…) Y confundimos "posibilidad" con "probabilidad". Si pones un esquema con todos atrás y Dios sólo adelante, la posibilidad dice que puedes ganar, claro que puedes. Pero se supone que uno extrema medidas para aumentar la probabilidad. Pero se trabaja en la posibilidad. (…) El reglamento -dice sin decir- que para aumentar el índice de probabilidades de ganar hay que dejar a un jugador con la posesión, el tiempo y el espacio, de frente al arco contrario. Y lograr que un jugador patee lo más cerca y lo más libre posible. Ahora: ¿hago algo para que eso se dé? ¿O al final vamos a rezar?"

Lillo expressa uma ideia extremamente interessante, que ao princípio parece completamente contra-intuitiva mas que, na realidade, é acertadíssima - que é a de que o melhor livro alguma vez escrito sobre o jogo é o seu regulamento, e que este nos diz quais as formas que nos permitem ter uma maior probabilidade (e não possibilidade, conceitos que, aliás, distingue habilmente) de vencer. Ou seja, que das regras do jogo facilmente se pode deduzir que enquadrar jogadores para a linha defensiva contrária, com tempo e espaço, aumenta a probabilidade de sucesso da equipa num lance, bem como deixar um jogador o mais perto possível da baliza, sem adversários e, acrescento eu, com o apoio de colegas; aumenta a probabilidade do sucesso nesse momento de finalização.

Deixo aqui uma nota intermédia para dizer que, apesar de este post se ir focar completamente na equipa que tem a bola, também é possível falar do conceito de ilusão para quem não a tem, nomeadamente na utilização de algo que é comummente designado de “pressing traps” (um bom exemplo aqui).

Continuando, a pertinência da citação reside na ideia de que, tal como Lillo consegue deduzir estes aspectos do regulamento, também poderia deduzir, a meu ver, tanto do regulamento como até das conclusões que tirou, a ideia de este ser um jogo de ilusões. Como referido acima, aumentar a probabilidade de sucesso reside em aspetos como deixar os colegas na melhor situação possível para finalizar ou em criar os melhores espaços para a equipa entrar. Se a equipa jogasse apenas contra si mesma isto seria relativamente simples, mas qualquer jogo de futebol envolve duas equipas distintas, que procuram superar-se uma à outra (algo que, mais uma vez, se pode retirar do regulamento do jogo). Isto cria vários constrangimentos, e acima de tudo leva a que a criação dessas situações ótimas, que aumentam a probabilidade do sucesso, seja bastante mais complicada. Uma abordagem mais linear ao jogo ofensivo, que é a praticada pela clara maioria dos treinadores, acaba por entrar em contradição com estas ideias. Isto porque, se uma equipa procurar seguir em frente o mais rápido possível em todas as situações, em consonância com essa tal linearidade, será muito mais fácil para o adversário tapar-lhe os caminhos mais interessantes, condenando-a a acelerar pelos que a afastam mais das tais situações vantajosas, muitas vezes acabando “estrangulada” em direção à linha lateral, sem grandes possibilidades coletivas de lá sair visto que a sua intenção era acabar o ataque logo de qualquer maneira.

Entrámos numa encruzilhada, parece. Se temos um adversário, que em princípio estará organizado de forma a tirar-nos esses caminhos que nos levam a uma probabilidade elevada de sucesso (na prática, o foco de quem não tem a bola muitas vezes não é bem esse, mas isso é toda uma outra análise que não é para este post), como fazemos para os alcançar? É aqui, exatamente, que entra o tal conceito de ilusão. Estes constrangimentos levam a que a única ou, pelo menos, a melhor forma de alcançar as situações de probabilidade de sucesso elevada a que uma equipa se deve propor seja a criação desses caminhos através da ilusão.

Este conceito está intimamente relacionado com o de criatividade coletiva, ou seja, saber usar a bola para manipular o adversário, levando-o para onde se quer e, depois de iludido, aproveitar o espaço que se criou e que aumenta mais a probabilidade de sucesso. Uma equipa criativa coletivamente é uma equipa que procura caminhos não-lineares, porque sabe que são esses caminhos que lhe vão permitir criar os melhores espaços. É uma equipa que sabe, por exemplo, levar a bola ao corredor lateral não com vista a cruzar ou a concluir a jogada por lá (embora o possa e até deva fazer se a situação em que se encontra for claramente favorável a isso), mas sim a atrair o adversário para esse espaço e tirá-lo de espaços mais valiosos, que depois está preparada coletivamente para aproveitar. É, até, uma equipa que não se importa em trocar a bola de forma aparentemente pouco objetiva entre jogadores adversários, já que mesmo parecendo não estar a procurar a baliza no imediato, está a propiciar constantes desposicionamentos e reajustes no adversário, que jogarão com as expetativas deles e, acima de tudo, os distrairão do que a equipa que tem a bola sempre procurou, que era o melhor espaço para entrar, aquele que, no fundo, cria a maior probabilidade de sucesso. No fundo, é uma equipa que sabe que a ilusão, tendo em conta o jogo em si e o seu regulamento, é o melhor caminho para encontrar os espaços que quer.

PS: Numa tentativa, provavelmente vã, por parte do Honoris de subir ligeiramente a média atual de posts do blog, que deve rondar o post bimestral, fui convidado a discorrer aqui. Como já disse ao chefe aqui do tasco, a regularidade e até profundidade do que para aqui escrever vai depender muito do tempo que for tendo, que é bastante volátil. Ou seja, em alguns períodos até posso escrever aqui bastante (embora vá tentar que não sejam paredes de texto tão grandes como esta), como noutros, possivelmente a maioria, manterei a periodicidade atual de posts do blog (ou seja, para ai um post por mês com 30 dias).

6 de dez de 2016

João Carvalho & João Félix, quando a inteligência se junta à qualidade técnica

É deste tipo de jogadores que a liga portuguesa precisa. Jogadores cheios de qualidade técnica, de criatividade, de inteligência. Só precisam, quando chegarem à 1ª divisão, de treinadores que escolham os jogadores pelo seu talento e não pela sua altura, força, etc, porque o realmente é preciso, eles já têm e em doses grandes. A maneira como se relacionam em campo, como percebem o que os rodeia, como temporizam, como executam, não engana ninguém. João Carvalho de 19 anos e João Félix de 17 anos, Craques da cabeça aos pés.

Qualidade técnica de João Carvalho, no seu estado mais puro
Carvalho, recebe no corredor central, cabeça levantada para perceber o espaço e o posicionamento dos colegas. Félix, recebe na ala o passe de Carvalho, conduz, temporiza, solta.
A calma com que Félix joga. Com 17 anos já sabe tanto. Não complica, percebe o que rodeia, e decide em função disso.
Félix e Carvalho. A utilização do apoio frontal para bater a contenção. 
Carvalho, passe e movimenta-se para dar linha de passe. Lance do pénalti. 
Um simples toque de calcanhar, a deixar o colega enquadrado e com tempo e espaço para colocar na direita. Já dentro da área, Félix a utilizar a sua qualidade técnica para arranjar condições para o remate.
Excelente execução no 1º golo do Benfica, marcado por Félix,
Mais do que a qualidade técnica demonstrada no passe, a criatividade e visão de jogo de Carvalho. A descobrir uma solução que muitos jogadores nem sequer sonhavam existir. 


9 de nov de 2016

Oliver Torres

Do melhor que já passou pelo campeonato nacional. Simplesmente estonteante, a prestação de Oliver Torres num dos jogos mais exigentes da temporada. Até Luís Freitas Lobo viu! Sempre participativo nos momentos ofensivos. Sem bola, sempre a mostrar-se em apoio, com uma agressividade notável no posicionamento. Em apoio frontal (entre setores, dentro do bloco adversário), na primeira fase de construção, ou na profundidade. Onde o jogo o pede! Cada ação tem uma intenção clara, e as suas decisões aproximam quase sempre a equipa do sucesso. Com bola, joga vertical sempre que possível. É notável a facilidade com que queima linhas adversárias através do passe vertical. Em condução, temporiza para atrair. No preciso momento em que o adversário sai, solta para tirar a bola da zona de pressão. Solta no pé ou no espaço, conforme as circunstâncias do jogo e as características dos colegas. Sempre de cabeça levantada. Compreende perfeitamente o contexto que o rodeia, e decide muitas vezes antes de receber. Impressionante, não só pela quantidade de decisões e ações acertadas, mas acima de tudo pela sua preponderância. Em organização defensiva, sempre agressivo, incansável e decisivo. Rigoroso na ocupação do espaço em função da bola e dos colegas. Sai sempre em contenção. Em transição defensiva, muito agressivo a reagir à perda e a recuperar para trás da linha da bola.


Na 2ª passagem por Portugal, já não devia ser surpresa para ninguém. Aos 21 anos, Oliver sabe praticamente tudo do jogo e executa com uma perícia assinalável. Joga num nível muito acima do que é praticado por cá, na linha do melhor que há no futebol atual. Enquanto Diego Simeone teima em desperdiçar o enorme talento que tem em mãos, o pequeno craque espanhol vai espalhando magia por cada relvado que pisa. O futebol português agradece.


© Domínio Táctico 2012 | Blogger Template by Enny Law - Ngetik Dot Com - Nulis