27 de mar de 2018

O jogo, o jogador e tudo o que os separa

[Por vezes não quero sair de casa - André Gomes]

Recentemente, uma entrevista de André Gomes, internacional português a jogar actualmente no FC Barcelona, chocou grande parte da comunidade futebolística. Nela, o jogador dá claramente a entender que não se sente feliz no exercício daquela que é a sua profissão. O André não é feliz, mesmo fazendo aquilo que gosta.

Se em qualquer sector profissional a motivação para a função e a estabilidade psicológica se assumem como factores fundamentais para o sucesso, no futebol esses aspectos são mesmo condição sine qua non para um bom rendimento. Sendo certo que é o corpo que sobressai aos olhares menos atentos e perspicazes - seja através das características físicas e atléticas, seja através da destreza técnica - é a mente que faz com que tudo funcione naturalmente.

Não raras vezes, adeptos, dirigentes e até treinadores revelam ignorância, desprezo e desdém pelo aspecto mental e psicológico do jogo. Sempre que determinado jogador não apresenta rendimento, por um ou outro motivo, de imediato surgem as críticas e reparos às suas limitações mentais, e facilmente se colocam dúvidas em relação às suas valias futebolísticas. "Não aguenta a pressão", "não tem estaleca para isto" ou "não é assim tão bom" são argumentos que de imediato são disparados a torto e a direito. E se no caso dos treinadores de bancada há a atenuante de não possuírem conhecimentos suficientes sobre a matéria e/ou de não conseguirem discernir a diferença entre falta de qualidade e falta de rendimento, no caso de dirigentes e sobretudo treinadores a conversa muda de tom.

Todos os jogadores são diferentes, e esta verdade universal aplica-se também à pessoa por detrás do jogador. Não há duas formas iguais de lidar com a mesma situação, seja dentro ou fora do campo. Desde logo, as próprias questões extra-futebol têm um peso gigantesco no bem-estar do jogador. Por exemplo, foi notória a quebra de rendimento de Willian, extremo brasileiro do Chelsea, aquando do falecimento da sua mãe, no ano passado. O contexto futebolístico não se alterou, de forma nenhuma, mas de um dia para o outro, o contexto pessoal do jogador alterou-se definitivamente, e isso reflectiu-se no seu rendimento em campo.

Mas mesmo deixando de parte as questões pessoais - que obviamente podem impactar a vida de qualquer jogador -, é assustadora a rigidez com que é feita a gestão dos recursos humanos de um plantel. Como se exige e se cobra de igual ou até mais exigente forma o mesmo a um jogador que tem a confiança do treinador e que possui um lugar estável no grupo, e a um jogador que vem de uma realidade diferente (seja um outro clube, seja quando é promovido desde os escalões de formação) e se depara com um choque contextual que envolve estatutos, dinâmicas de grupo, métodos, ideologias e todo um sem número de outros factores.

O caso de Rafa, no Benfica, leva-nos ao primeiro factor crucial para que um jogador possa ter condições que, de facto, lhe permitam render ao seu melhor nível: a confiança. O extremo português tem visto ser-lhe associado, continuamente, o rótulo de "flop" desde que chegou à Luz. Já no Braga, o seu talento saltou à vista de todos, incluindo do seleccionador nacional, pois as suas prestações nos bracarenses levaram-no à estreia na selecção A. Foi, de resto, esse rendimento em campo que fez o Benfica pagar cerca de 16M€ pelo jogador.

Apenas recentemente, tem Rafa demonstrado com a camisola encarnada todas as capacidades que possui e sempre possuiu no seu jogo. Até aqui, o seu rendimento foi sempre inconstante, alternando grandes exibições e pormenores de génio, com partidas cinzentas e sem grande impacto na dinâmica colectiva.

O que mudou então? Não terá sido o contexto, dado que o Braga onde jogou já actuava na maior parte dos jogos com a mesma postura com que qualquer um dos grandes actua nas competições nacionais. Rafa já estava acostumado a que a sua equipa tivesse mais bola e controlasse o rumo do jogo, e também já se habituara a defrontar adversários organizados em bloco baixo e com uma grande aglomeração de jogadores próximos da sua própria baliza, consentindo (ou tentando, pelo menos) poucos espaços nos seus últimos 30 metros.

Para além disso, esta é também a segunda temporada de Rafa no Benfica, pelo que já não será uma questão de adaptação ao clube, ao grupo e à equipa técnica. Não será, também, uma questão de aplicação e empenho no treino, dado que isso nunca terá sido impedimento para que tivesse tido oportunidades anteriormente. No entanto, o que mudou foi a regularidade com que o jogador passou a ser utilizado por Rui Vitória.

Com a lesão de Salvio, foi dada a Rafa consistência e continuidade no lado direito do ataque das águias. Foi-lhe transmitida uma confiança que até aqui não tinha existido. Por sua vez, a sucessão de exibições e boas sensações em campo aumentaram a sua própria confiança e despoletaram a fluidez e a naturalidade que antes lhe faltava. Sem surpresa, o jogador tem agora demonstrado todos os atributos que fazem dele um dos mais talentosos jogadores ofensivos da sua geração em Portugal.

Vejamos outro caso: o de Marega no Porto. Duas épocas no clube, dois treinadores diferentes, dois rendimentos completamente distintos. Foi a qualidade intrínseca do jogador que se alterou? Muito dificilmente. Não se notam melhorias nos gestos técnicos, e muito menos na coordenação motora, aspecto onde o maliano sempre demonstrou dificuldades. Terá sido o seu empenho no treino? Não consta, na sua passagem por qualquer clube, que isso algum dia tenha sido uma questão problemática. Foi a sua confiança - proporcionada pela aposta contínua do treinador no jogador -, isso sim, que mudou drasticamente.

Da incapacidade para realizar simples recepções de bola e passes sem grande complexidade, passou a existir um jogador capaz até de finalizar com sucesso através de gestos técnicos de requinte. De 5 golos em 24 jornadas, passou a 20 no mesmo número de jogos no campeonato português. De dispensado e principal alvo de gozo dos adeptos, passou a peça fundamental e a ídolo de muitos daqueles que, provavelmente, dele troçavam há não muito tempo atrás.

Rafa e Marega são dois exemplos de sucesso, no momento actual das suas carreiras, que fazem pensar e questionar quantos mais jogadores não conseguirão demonstrar todo o talento e qualidade que possuem, apenas porque os agentes do jogo que são também decisivos nas suas carreiras não conseguem ver para lá das suas fraquezas, de forma a poderem reconhecer as suas forças.

O rendimento de um jogador - seja no jogo, seja no treino - depende de infinitos factores, com um sem número de variáveis por ele incontroláveis. No entanto, assume-se como o único aspecto considerado por uma grande parte dos treinadores aquando da "cobrança" aos seus jogadores. Se rende é bom e joga, se não rende é mau e senta-se no banco ou na bancada. Sendo certo que o futebol de alta competição exige dos treinadores resultados imediatos, exige-se também deles que não esgotem na percepção técnico-táctica do jogo (que, na grande maioria dos casos, não é tanta quanto se tem feito crer no que ao treinador português diz respeito) as suas competências para um cargo cujas responsabilidades vão muito para além de tirar o Quim para meter o Manel, apenas porque o Manel rende, não questiona e não promove discussão (e consequente evolução) sobre o jogo. 

8 de mar de 2018

Red Bull Salzburg vs Real Sociedad - A anatomia do jogo em que Dabbur brilhou

 
Como o título indica, neste post analisar-se-à o jogo que opôs o Red Bull Salzburg à Real Sociedad, para a 2ª mão dos 16 avos de final da Liga Europa (o encontro da 1ª mão tinha acabado empatado a duas bolas). Para quem quiser ver o jogo na íntegra, é só clicar aqui.

11s iniciais

Os 11s de ambas as equipas vão ser visíveis na imagem abaixo, mas deixo a pequena adenda de que o Salzburg não jogou em 442 clássico, mas sim num 442 losango (Samassekou a 6, Yabo e Haidara a interiores e Schlager a 10)


Tendências do jogo e um aparte geral sobre superficialidade analítica

Apesar das várias diferenças entre o futebol de ambas as equipas, foi um jogo extremamente equilibrado, em que até ao período que coincidiu com a expulsão do Raúl Navas (central da Real Sociedad) e, logo a seguir, ao 2º golo do Salzburg - período esse a que vou dedicar um pequeno segmento abaixo - nenhuma das equipas conseguia ter claramente o domínio do jogo ou sequer chegar constantemente a zonas perigosas, pelo que houve um número reduzido de oportunidades de golo, especialmente em lance corrido. Após o período acima referido da expulsão + golo o jogo mudou de figura, com a Real Sociedad a partir para um jogo muito mais directo e com o Salzburg a ser mais calmo com bola, jogando bastante melhor que antes e a conseguir controlar as investidas aéreas dos bascos. Os motivos para tal equilíbrio serão abordados nos pontos seguintes, numa análise que partirá da floresta para as árvores, por assim dizer. Ou seja, primeiro falarei sobre aspectos gerais da organização das equipas para depois ir aos momentos chave do jogo.

Mas antes disso, queria fazer um aparte sobre um ponto que muitas análises superficiais adoram aflorar, que é a posse de bola. Muitas vezes a distinção entre estilos é feita entre as equipas "que têm muita posse de bola" e as que não têm, o que evidentemente não tem nuance analítica nenhuma e ignora todo um rol de diferenças em todos os sentidos entre equipas que podem e várias vezes até são agrupadas na mesma "caixa" da posse ou falta dela. Da forma como é feita a análise futebolística em muitos sítios, os números da posse de bola servem quase só para enfeitar. Apenas quando esses números representam uma diferença extrema podem permitir a retirada de uma ou outra conclusão, mas em 99% dos casos precisam de uma grande contextualização para poderem fazer sentido. Olhando para o caso deste jogo em particular, as percentagens finais da posse de bola rondaram os 50-50, mas isso tanto pode acontecer num jogo como este, num em que ambas as equipas alternem longos períodos de domínio, ou até em vários outros cenários. Este aparte no fundo é contra o tipo de análise que tenta usar estes números (falei do da posse como podia falar de outros) de forma absoluta ou, em alternativa, partir dos números e tentar explicar o que se passou estando enviesado por eles, e não o contrário (ou seja, olhar para o jogo e apenas depois ver os números - até os do resultado! - como complemento à análise do que se passou).

Dificuldades em ligar fases com bola de ambas as equipas

Este foi um jogo em que tanto o Salzburg como a Real Sociedad pretendiam sair a jogar desde o guarda-redes. No entanto, ambas as equipas revelaram algumas dificuldades em fazê-lo, visto que lhes foi complicado ligar a 1ª fase de construção às restantes de forma adequada, e, no geral, em criar situações vantajosas para os seus jogadores em zonas mais adiantadas. Os motivos, no entanto, foram bem diferentes, e vão ser aflorados abaixo.


No caso da Real Sociedad, o lance acima, sendo um daqueles em que conseguiram resistir melhor à pressão do Salzburg, mostra ainda assim algumas das dificuldades que tiveram quando conseguiram não jogar longo. Tiveram muitas dificuldades em lidar com a pressão de grande qualidade do adversário, e a estrutura posicional também não era a ideal, com os 4 jogadores da frente algo desligados do jogo nesses momentos e com uma procura excessiva dos corredores laterais. 

Apesar de serem uma equipa mais paciente com bola que o Salzburg, tiveram imensas dificuldades em transitar para fases mais adiantadas com bola de forma apoiada, e muitas vezes eram mesmo obrigados a jogar longo. Para agravar, como na maior parte das vezes em que jogaram longo foram forçados a tal, várias vezes não o faziam para a zona mais adequada (a de Agirretxe, o avançado da equipa, um jogador alto e forte a segurar a bola de costas), o que levou a recuperações mais fáceis para o Salzburg.

Estes factores levaram a que a bola não só chegasse pouco a jogadores como Januzaj, Oyarzabal e Canales, como que quando esta chegava, era normalmente em condições muito pouco aprazíveis, o que ajuda a explicar o facto de a equipa basca quase não ter criado nada digno de registo de bola corrida.


Já no caso do Salzburg, os problemas foram de natureza diferente. Até por se dispor num 442 losango, a equipa austríaca tinha uma estrutura posicional mais apta a conseguir ligar fases em construção, apesar de existir uma distância excessiva (especialmente em largura) entre o médio-defensivo e os dois interiores. No entanto, foram traídos acima de tudo por três aspectos: a falta de qualidade do central-esquerdo, Onguené; a pressa com que tentam jogar em todos os momentos com bola e a falta de alguma consciência colectiva de como aproveitar os momentos de construção para saltar linhas.

Quanto ao último ponto, vejamos o primeiro lance do vídeo que vos apresento. É um lance que inicialmente até vai contra os dois primeiros aspectos a que me refiro, já que têm a calma necessária e Onguené toma as decisões adequadas. No entanto, atentem no segundo 11 do vídeo. Todo o trabalho de Onguené e Haidara até esse período foi aparentemente inócuo, mas neste caso as aparências, de facto, iludem, já que a troca de passes entre ambos fez com que Canales, que estava ali entre o médio-defensivo e o médio-interior do Salzburg, saltasse definitivamente a cobrir a linha de passe para o médio-defensivo. Esse era o momento ideal para que o Salzburg replicasse uma dinâmica muito utilizada por equipas como o Napoli. Para isso, bastava um movimento para a frente do médio-defensivo, e que o médio-interior ao receber o passe vertical de Onguené lhe endossasse logo a bola, fazendo-o receber nas costas da pressão dos 2 avançados e orientado de frente para a baliza adversária. Ao quase nunca conseguirem orientar os médios de frente para o adversário, facilitaram muito a vida da pressão individualizada da Real Sociedad, já que saía sempre alguém a um médio que recebesse de costas, não o deixando enquadrar.

Falando de Onguené, é um central jovem mas sem muita qualidade com bola. A Real Sociedad, sabendo disso, tentava ao máximo bloquear Ramalho (o colega da defesa) e deixar Onguené construir, o que foi uma opção estratégica inteligente e que limitou a equipa da casa. No entanto, mesmo tendo isso em conta o Salzburg conseguiu sair por Ramalho algumas vezes, e foram claramente os momentos em que o fizeram com maior qualidade, como se poderá ver no vídeo abaixo:


O central brasileiro, a meu ver, só não se afirmou na Bundesliga (onde já jogou) por ter uma altura abaixo da média para um central (1m82), que é algo em que muitos treinadores se focam. Porque, aparte disso, é um central muito completo, de grande qualidade técnica, calma sob pressão e qualidade a abordar os lances sem bola. Tanto a jogar curto como mais longo, tem uma precisão notável e uma boa qualidade na decisão, que merecem muito mais que uma liga como a austríaca.

E chego agora ao que é, para mim, o maior problema da equipa austríaca: a pressa. É uma equipa muito forte sem bola, e com muitos apoios no corredor central e um futebol associativo com ela, mas a obsessão por acelerar cada ataque, seja em zonas recuadas ou adiantadas, leva-os ou a perder a paciência e a jogar directo (em zonas recuadas), ou a ignorar opções interessantes sob pena de a conclusão do lance demorar mais tempo (em zonas mais adiantadas). É algo comum às equipas da Red Bull, mas que neste Salzburg se torna mais problemático pela menor qualidade individual em relação tanto ao Leipzig como até ao Salzburg de anos anteriores. É possível que tenha sido um problema mais saliente neste jogo que nos outros - até porque já li quem dissesse que este é um Salzburg um pouco menos frenético que o de outros anos -  mas neste jogo em particular foi isso que notei. E, aliás, notou-se isso mesmo quando os austríacos tiveram mais um jogador e estavam a ganhar 2-1, período em que acalmaram ligeiramente o seu jogo com bola e com isso conseguiram circular de forma bem mais perigosa (claro que também ajudados pela situação do adversário).

Diferentes abordagens na pressão

Da forma como a Real Sociedad abordou o jogo sem bola já se falou o suficiente. De forma sucinta, o avançado (Agirretxe) preferencialmente bloqueava Ramalho, fazendo com que os austríacos saíssem por Onguené, tentavam criar algum acesso ao portador da bola e, simultâneamente, os jogadores do meio-campo e ataque pressionavam individualmente o jogador mais perto da sua posição relativa. Aliás, como é visível em alguns dos momentos dos vídeos do Salzburg com bola, apresentados acima.

Já a abordagem do Salzburg merece mais algumas linhas e alguns exemplos, que verão abaixo:


O primeiro clip é um exemplo da reacção à perda dos austríacos (ou counterpressing, se preferirem), os restantes focam-se na pressão propriamente dita. É uma pressão muito bem pensada e executada, no geral. Partem do 442 losango original, e o foco é forçar perdas de bola ou o jogo directo ao adversário. Quando a bola está no guarda-redes adversário a equipa assume um bloco médio-alto, mas mal chega a um dos centrais o avançado do lado da bola reage agressivamente, dirigindo-se a esse central e, em simultâneo, cortando a linha de passe para o lateral. O avançado do lado contrário cobre-o numa posição ligeiramente mais recuada, e os restantes colegas apertam a pressão, cobrindo linhas de passe (e não adversários, são coisas distintas). Contra uma equipa como esta Real Sociedad a ideia funcionou especialmente bem, já que estes ou jogavam num dos médios em zona central, que normalmente estavam pouco apoiados e que eram fáceis de "apertar" por parte do losango do Salzburg, ou optavam pela abordagem inicial de procurar as alas, onde eram sufocados contra a linha lateral. 

Conseguem manter um nível de compacticidade interessante tanto quando pressionam alto como quando defendem mais baixo, e são, de forma geral, uma equipa muito interessante sem bola. A linha defensiva não é perfeita, de todo, mas também possui comportamentos geralmente interessantes e zonais. Estiveram brilhantes colectivamente a retirar a Real Sociedad de onde é mais perigosa - a fase de criação, e foi muito por isso que concederam tão poucos lances de golo.

Do geral ao particular: momentos chave do jogo

Como este foi um jogo com tão poucas oportunidades de golo, especialmente de bola corrida, decidi olhar para os momentos dos golos de forma mais particular. Acima de tudo, para perceber o que neles há de mérito/correspondente às regularidades referidas, e no que neles se deve tão somente ao acaso.

Muita gente acha que no futebol (ou mesmo na vida) não existe sorte nem azar, e que tudo tem de ter uma explicação ou, melhor dizendo, em tudo tem de haver algum mérito. Esta parece-me uma ideia algo religiosa, e com a qual eu não concordo minimamente. Por paradoxal que pareça, não há maior racionalidade do que pensar que nem tudo é explicável, e que há factores que não só não controlamos como não percebemos. Numa análise, neste caso de futebol, interessa ter isto presente para nos focarmos no que é, de facto, controlável, sem deixar que o que foge ao nosso controlo, por mudar o resultado final, tolde a nossa análise. No fundo, é perceber que a aleatoriedade é como aquela lomba que temos no caminho para casa: existe, não a podemos contornar, mas também não podemos fazer nada quanto a ela por isso é esperar que ela não nos prejudique.

Oportunidade flagrante para a Real Sociedad e, em seguida o primeiro golo do Salzburg


Este vídeo, a meu ver, é notável para se perceber o que disse no parágrafo acima. Nele podem ver-se dois lances: um, aos 7 minutos, em que a Real Sociedad tem uma oportunidade claríssima de golo (de longe a sua melhor, de bola corrida), e outro, dois minutos depois, que daria o golo do Salzburg. Duas grandes oportunidades de golo, uma para cada equipa, a primeira vai por cima e a segunda entra. Claro que a qualidade ou falta dela na finalização também entra em jogo, mas quando se fala em aleatoriedade tem muito que ver com coisas destas. Bastava o cabeceamento do Oyarzabal ir meio metro mais abaixo e todo o jogo a partir daí seria diferente. Passava a Real Sociedad para a frente, tanto do jogo como da eliminatória, e provavelmente o lance do golo do Dabbur, da forma e no momento exacto em que surgiu, não acontecia.

Mas passando à frente, esse primeiro lance é um que não tem nada de colectivo. Nasce de um erro não forçado do Onguené, é relativamente bem defendido (tanto quanto possível, já que no momento da perda estavam em inferioridade), mas bastante bem definido pelo Zurutuza, pelo que origina uma oportunidade clara. São lances que acontecem no jogo, obviamente, mas o valor analítico que dele se extrai numa análise colectiva é pequeno - já individualmente dá para criticar Onguené e elogiar Zurutuza, como disse.

Já o segundo lance, que dá golo, é diferente. A recuperação de bola é um exemplo muito bom do que abordei extensamente acima sobre a qualidade da pressão do Salzburg e, em seguida, mostra um exemplo em que a pressa (a meu ver excessiva) que caracteriza os austríacos foi bem sucedida, já que os apoios próximos após a recuperação e uma série de boas execuções - em particular o óptimo passe de Schlager - culminam na criação de uma oportunidade clara de golo que dá o 1-0.

Golo da igualdade e a genialidade de Januzaj


O golo nasce da genialidade de Januzaj? Sem dizer mais nada, dizer isto é obviamente um exagero colossal! Isto porque o lance a que me refiro acontece exactamente dois minutos antes do golo, golo esse que é de bola parada (um canto). Mas deixem-me contextualizar o exagero. Como já disse aqui algumas vezes, a Real Sociedad teve enormes dificuldades em chegar ao último terço do adversário durante o jogo, e nos primeiros 25 minutos essas dificuldades foram quase constantes. Mas após a jogada individual incrível de Januzaj, que recebe a bola junto à linha lateral, está muitíssimo pressionado mas que ao livrar-se de uma série de adversários consegue enquadrar-se só com a linha defensiva adversária pela frente, conseguiu finalmente empurrar o Salzburg para trás. Por incompetência de Agirretxe esse lance acaba por não dar em nada, mas foi o mote para que nos dois minutos seguintes a equipa basca assumisse o domínio territorial, remetendo os austríacos para trás.

Mesmo perdendo a bola pelo menos duas vezes nesse período, como estavam em posição mais adiantada conseguiram recuperá-la de forma relativamente célere, e foi esse domínio territorial que originou o canto que, por sua vez, originou o golo. 

Como é óbvio, o domínio territorial por si só significa muito pouco. Fazendo mais uma analogia espectacular, a jogada de Januzaj e consequente domínio territorial simbolizam a compra de um bilhete do Euromilhões. Tendo em conta que mesmo assim não criaram nada, as probabilidades de marcar eram baixas (se, por hipótese, se repetissem esses 2 minutos após o lance de Januzaj e acção do Agirretxe 1000 vezes), mas ao menos existiam, o que não era o caso quando os bascos não conseguiam sequer chegar ao último terço com a bola controlada.

Nota: Para quem quiser partilhar apenas o lance brutal do Januzaj, é usar este link.

Penalty que dá o 2-1, no ar a bola é de ninguém


Aqui prefiro salientar a maior calma apresentada pelo Salzburg na circulação, num primeiro momento, e o facto de a Real Sociedad, no lance após a expulsão de um dos centrais, ter pressionado alto mas, a meu ver, sem subir o suficiente a linha defensiva. Quando a bola  vai para o guarda-redes adversário esta poderia estar mais perto da linha de meio-campo, colocando alguns dos jogadores do Salzburg em posição irregular e dificultando uma situação de disputa de bola aérea. Mas tirando isso, é um lance de igualdade naquela zona e uma bola pelo ar, e em seguida um erro individual do central da Real Sociedad que permite o desenvolvimento do lance. Seria fácil traçar um paralelo entre a expulsão e o golo, já que surgiram de forma quase seguida, mas este é daqueles casos em que seria falacioso fazê-lo, já que mesmo 11x11 era quase igualmente possível algo como isto acontecer.

Dabbur, o homem do jogo

Este foi um jogo que contou com vários jogadores interessantes. Do lado da Real Sociedad, os 3 que jogaram atrás do avançado (que já referi), Illarramendi, Odriozola e o guarda-redes Rulli (embora esteja numa fase menos boa) são todos jogadores de qualidade. Do lado do Salzburg, o elogiado Ramalho, Schlager, Hee-Chan Hwang (muito forte no 1x1) e mesmo Haidara são jogadores interessantes. Berisha também entrou bastante bem, tendo sido importante para a melhoria do Salzburg com bola após o 2-1 e deixando em mim algumas dúvidas sobre se ele não seria melhor opção que Yabo, que jogou no seu lugar.

Mas o jogador que mais se destacou foi claramente Dabbur, um dos dois avançados - o outro é o já referido Hwang - do Salzburg. Mostrou ser um jogador bastante dotado tecnicamente,  fisicamente muito forte - ágil, rápido e bastante forte a aguentar o choque - e com um entendimento do jogo bastante interessante, com e sem bola. Trabalhou de forma muito inteligente e agressiva nos momentos de pressão, soube associar-se com os colegas, conseguiu manter a posse em situações bastante complicadas e ainda marcou o primeiro golo do jogo. Exagerou um pouco nas tentativas de desequilíbrio individual em situações desvantajosas, o que levou a algumas perdas de bola, mas sendo um jogador com qualidade no drible e tendo dificuldade em ter boas situações em utilizá-lo entendo alguns exageros da parte dele. Ainda assim, fez um jogo de grande qualidade, que vão poder ver na sua plenitude. Abaixo poderão ver, em dois vídeos que representam, respectivamente, a 1ª e a 2ª parte, todas as acções com bola de Dabbur no encontro.



Conclusão

Foi um jogo interessante, embora eu antes de o ver esperasse maior qualidade ofensiva por parte de ambas as equipas, apesar do bom desempenho do Salzburg no fim do jogo, a defender muito bem o sucessivo jogo directo da Real Sociedad nessa fase e a atacar com qualidade. Ainda assim, sei que a Real Sociedad, que conheço melhor, é capaz de jogar muito mais do que o que mostrou neste encontro, e o Salzburg mostrou qualidades colectivas muito interessantes, e melhorando os defeitos que referi podem ser uma equipa muito interessante de se seguir.

27 de jan de 2018

Algumas Reflexões sobre a Lei do (Fora de) Jogo


No meu primeiro post aqui, falei, entre outros temas, de uma das teses que Juanma Lillo defende – que o melhor e mais informativo livro alguma vez escrito sobre o Jogo é o Regulamento do mesmo. Podemos pegar nas regras do futebol e extrair delas várias deduções lógicas, que nos colocam em vantagem competitiva sobre quem não o faz. Dando o exemplo mais claro – e, por isso, de tal forma óbvio que não há quem não o entenda - de uma dedução; se a Lei do Jogo nos diz que podemos jogar com até 11 jogadores, não vamos jogar com menos, já que isso nos colocaria de forma imediata numa situação de clara desvantagem perante o rival. Mas da mesma forma como se podem deduzir coisas absolutamente óbvias do regulamento, como a que referi, é possível tirar outras conclusões bastante mais intrincadas e que podem facilmente distinguir uma equipa das demais, e vou falar num exemplo disso mesmo em algum detalhe mais abaixo.

Em termos históricos, as equipas que mais impacto criaram no jogo foram as que mais e melhor souberam compreender verdadeiramente essas regras e que as souberam subverter. Até vou mais longe… um dos aspectos que normalmente distingue as equipas que mais revolucionaram mais o jogo em termos ideológicos das demais é o facto de provocarem uma sensação de impotência tal nos seus adversários que levam a opinião pública a procurar que certos regulamentos do jogo que essas equipas especiais manipularam sejam alterados por forma a tornar o jogo mais “equilibrado”. Não há maior prova de superioridade ideológica (no contexto de um jogo, note-se) do que criar nos adversários a necessidade de tentar alterar as regras desse mesmo jogo para poder competir. Aconteceu por exemplo com o Barcelona de Guardiola, que dominava de tal forma todos os seus adversários que fez com que ganhasse alguma força a ideia de, como em outros desportos colectivos, se criar um limite para o tempo de cada posse de bola. Só que nesse caso específico, essa mudança traria efeitos nefastos ao jogo, já que boa parte da complexidade do jogo iria pela janela e seria basicamente um jogo de transições e contra-transições; parada e resposta, pelo que obviamente essa mudança nunca foi para a frente. Mas temos exemplos de equipas cujo aproveitamento de certos regulamentos foi de tal modo genial que potenciou ou até obrigou à sua alteração. E vamos falar de um deles agora...

Neste post, o foco estará naquela que considero a lei mais importante do jogo: a Lei do Fora de Jogo. É a mais importante, a meu ver, porque é a que permite a qualquer uma das equipas que se opõem manipular o espaço e tornar a conquista da baliza adversária muito mais complexa, o que traz riqueza ao jogo e o distingue de quase todos os outros desportos colectivos.


A equipa que mudou a Lei do Fora de Jogo

É ao Milan de Sacchi que me refiro aqui. Ou, mais precisamente, à forma como esse Milan compreendeu a lei do fora de jogo vigente no seu tempo, e como utilizou essa compreensão mais profunda para criar uma vantagem competitiva. Como alguns saberão, até há menos de 30 anos para existir uma situação de fora de jogo bastava que qualquer um dos 11 jogadores da equipa em posse estivesse à frente do penúltimo defesa da equipa contrária no momento de um passe vertical, sendo a interferência desse jogador em posição adiantada no lance completamente irrelevante para a decisão do árbitro (bastava mesmo estar nessa posição). Através deste ponto do regulamento é possível deduzir que a) era muito mais fácil do que é agora uma determinada acção acabar em Fora-de Jogo e b) que, assim sendo, a linha defensiva pode assumir comportamentos agressivos com uma taxa de sucesso bastante elevada. Enquanto que agora basta o jogador que vai receber a bola ter o cuidado de estar atrás ou em linha com o penúltimo defesa no momento do passe, no tempo do Milan de Sacchi (início dos anos 90) era necessário todos os jogadores terem esse cuidado, o que é naturalmente muito mais complicado de conseguir. Abaixo fica um vídeo que mostra um pouco a forma como exploravam esse aspecto:


A forma como a equipa de Sacchi subverteu em seu benefício este regulamento tornava-a uma equipa extremamente difícil de atacar, e ao mesmo tempo permitia-lhe pressionar o adversário agressivamente. Boa parte do campo ficava basicamente inutilizável quando o Milan subia a linha defensiva, e isso dava ainda mais conforto ao Milan para pressionar o portador da bola já que era praticamente impossível este apanhá-los em contra-pé. Obviamente que a maior fatia do sucesso dessa equipa se deve à qualidade individual enorme que tinha, com nomes como Van Basten ou Gullit, mas foi a forma como defendia que a imortalizou, tanto em termos teóricos (de quem estuda e conceptualiza o jogo) como em termos práticos (já que obrigou directamente a que a lei do jogo mudasse).

Depois desta parte mais "factual" do post, ou seja, da equipa que objectivamente causou uma mudança na Lei do Jogo, é hora de ir um pouco para além disso, ou seja, do que já aconteceu. E pretendo dar esse salto ao reflectir sobre duas questões, relacionadas com o que foi dito acima mas mais viradas para o futuro. E as ditas questões são as seguintes:

"Podemos retirar mais alguma coisa desta mudança na Lei do Jogo, para além dos dois pontos referidos acima?"

"É possível que mais alguma equipa ou até jogador possa causar uma nova mudança na Lei do Jogo num futuro relativamente próximo?"

Possível dedução a retirar dessa mudança na Lei

Como é fácil de perceber por este cabeçalho, a resposta à primeira pergunta é que sim, creio que podemos tirar mais conclusões. Isto porque, acima, pensámos acima de tudo na perspectiva do Milan de Sacchi quando não tinha a bola. Mas e se pensarmos na perspectiva de quem ataca? De forma muito resumida, o que esta mudança na lei fez foi acabar com o fora de jogo posicional. Ou seja, é possível ter jogadores em posição irregular e mesmo assim passar para a frente de forma legal, desde que seja para alguém que esteja em jogo. Isto, obviamente, veio beneficiar indirectamente quem ataca, porque boa parte dos lances que eram irregulares antes não o são hoje, o que permite à equipa continuar o seu ataque e possivelmente marcar. 

Apesar disto, muito poucos são os que procuram utilizar activamente esta mudança da Lei por forma a criar um benefício. Assumindo como premissa - já que vem ao encontro das ideias defendidas neste espaço - que o objectivo último de uma jogada de ataque é criar a melhor (mais fácil) situação de finalização possível, é interessante ter alguém deliberadamente em fora de jogo posicional e, em simultâneo, ter outros jogadores a fazer movimentos de ruptura desde trás. Esse jogador em fora de jogo posicional seria teoricamente um a menos enquanto estivesse nessa situação, mas a diferença é que a equipa não só pode continuar a progredir com ele nessa posição, como o pode "activar" repentinamente se conseguir que ele esteja em linha com a bola, mesmo estando à frente dos defesas. Estava a pensar em criar um pequeno desenho para explicar isto, mas felizmente o primeiro golo do Barcelona no jogo de dia 25 de Janeiro com o Espanyol exemplifica bem o que quero explicar:


Para complementar, encontrei um tweet interessante (@JuanGenova980) com imagens dos momentos mais relevantes do lance para este post. Nas poucas vezes em que vejo coisas destas acontecer (e não falo de estar apenas um ou dois metros atrás da defesa adversária) parece-me que normalmente se deve a movimentações individuais de certos avançados que intuem que este pode ser um bom recurso para ter uma finalização fácil (para além do Suárez, o Kane também o faz por vezes), mas acho que podia ser algo que partisse mesmo do treinador. Escusado será dizer que não me refiro a ter o avançado numa posição desse género o jogo todo, muito longe disso, mas em certos momentos de organização ofensiva esta pode ser uma arma eficaz para criar problemas às organizações defensivas da actualidade, cada vez mais compactas e com comportamentos relativamente zonais, já que um passe de ruptura por zonas laterais (por exemplo) pode logo criar uma situação de 2x0+GR, que é possivelmente a melhor para quem ataca.

No fundo, é possível usar o fora de jogo posicional como uma ilusão de segurança, para quem defende. Gostava muito de ver algumas equipas com boa organização ofensiva - porque se se recorrer a isto simplesmente ao despejar bolas nas alas o adversário consegue defender este recurso com alguma facilidade - explorar isto em certos momentos, porque ia criar um problema adicional ao adversário, e quanto mais problemas diferentes os adversários sentem que têm de resolver mais facilmente essas equipas de qualidade os manipulam e entram por onde querem.


O Guarda-Redes que pode "imitar" Sacchi

Para concluir o post, vou abordar a segunda questão que coloquei, sobre se acho que pode haver alguma mudança nas regras do jogo num futuro relativamente próximo. E, mais uma vez, acho que sim. A lei do fora de jogo não se aplica a pontapés de baliza, na actualidade, pelo que é possível, em teoria, um jogador estar muito à frente do penúltimo adversário no momento do pontapé de baliza e, ainda assim, receber directamente a bola. Mas nunca ninguém perdeu muito tempo a pensar nesse assunto, a meu ver, porque é incrivelmente complicado ter um guarda-redes capaz de colocar a bola a distâncias dessa magnitude com uma precisão elevada, e por isso dificilmente alguém conseguiria explorar isso. A afirmação de Ederson numa equipa como este City de Guardiola, no entanto, vem colocar isso em causa. Abaixo deixo um exemplo rápido daquilo a que me refiro:


Com Ederson, a equipa de Guardiola cria um dilema muito complicado em alguns dos seus adversários nos pontapés de baliza. Podem deixá-los construir sem qualquer sobressalto desde trás, o que para equipas dominadoras pode ser contra-intuitivo, pressioná-los de forma pouco compacta (linha defensiva muito atrás do resto dos jogadores, exactamente por não haver fora de jogo), ou pressionar alto e arriscar. Só que Ederson, para além de ter um jogo curto de enorme qualidade, tem a facilidade que o vídeo mostra em colocar a bola à distância. Já fez inclusive assistências para golo desta forma enquanto jogava pelo Benfica, e não duvido que o faça em breve pelo City. Caso este City consiga, como promete, afirmar-se como uma das equipas mais marcantes dos próximos cinco anos (pelo menos), esta qualidade de Ederson pode dar uma vantagem competitiva interessante ao City e fazer com que muitas vozes se levantem para que, de facto, passe a existir fora de jogo num pontapé de baliza como existiria em qualquer situação de jogo corrido (a partir do meio-campo adversário). Se de facto isto acontecerá como descrevo ou não só o tempo dirá, mas não me parece uma possibilidade a desprezar, de todo.

4 de out de 2017

Levantar a cabeça, ou usar a cabeça? Dificuldades do Benfica de Rui Vitória

                                  
Por muito piores que sejam os defesas do Benfica quando comparados com os da época anterior, nada justifica as dificuldades sentidas na construção, principalmente em situações onde o adversário nem dificulta assim tanto o trabalho dos jogadores do Benfica. 
Se o posicionamento de André Almeida fosse o sugerido na imagem, era assim tão complicado para o Benfica entrar com a bola controlada no meio campo defensivo do Marítimo? Luisão usava o apoio frontal de Salvio (pressionado pelas costas pelo lateral adversário) para fazer chegar a bola a André Almeida e o Benfica ganhava espaço para progredir de forma apoiada. Se o extremo adversário permanecesse mais recuado, Luisão ganhava metros para progredir com a bola. 
Não há largura no corredor lateral direito. Bater na frente ou usar o apoio frontal de Pizzi para fazer a bola chegar a Jardel que teria todo o espaço do mundo para invadir o meio campo defensivo do adversário?
Novamente a mesma situação. Seria muito difícil para Jardel colocar a bola em Pizzi para este a devolver a Fejsa, que de frente para o jogo, na posição sugerida na imagem, pudesse ligar com o colega posicionado atrás da linha média do Marítimo? 
Os jogadores do Benfica não conseguem executar o sugerido nas imagens? Não conseguem executar ações como esta do vídeo? É de quem a culpa de não o fazerem? 






16 de set de 2017

De Alvalade para o Mundo - O Paradoxo da Falta de Espaço


Nos posts que já fiz aqui, sempre me agradou abordar a forma como o jogo é visto, tanto por adeptos como pelas pessoas com real poder de decisão (treinadores, dirigentes, etc.). Por motivos já referidos (nomeadamente aqui), a irracionalidade é algo complicada de dissociar da análise que boa parte das pessoas faz do jogo em si, incluindo parte significativa dos tais agentes decisores, e este post servirá para falar das consequências negativas dessa irracionalidade para um certo perfil de jogadores, definido (a bold, para se ver bem) no parágrafo seguinte, e para expor os problemas de uma conclusão que se tira da evolução do jogo moderno, que é o tal paradoxo que está no título do post...

Este primeiro parágrafo parece - e, por si só, é mesmo - um pouco confuso, mas acompanhem-me. Este post vai procurar, de forma relativamente profunda, analisar os problemas a que, cada vez mais, são sujeitos os jogadores cujos únicos atributos especiais são a sua capacidade de raciocínio em espaços curtos, criatividade, competência para temporizar em busca da melhor solução caso necessário (ou seja, a competência cognitiva do jogador) e a capacidade técnica para que esses atributos se possam mostrar, e defender a necessidade de valorizar esses jogadores no futebol moderno. É esse, e apenas esse, o objectivo do post, e é nesse sentido que toda a análise caminhará.

Para a análise, e daí a primeira parte do título, vou partir de um case study, que é nem mais nem menos que o Sporting. Ressalvando, desde já, que me refiro ao Sporting no contexto dos últimos 20 anos, e não apenas à actualidade, na qual, apesar de tudo, o clube tem melhorado significativamente na maioria dos sentidos e voltou, finalmente, a ser um clube competitivo. Ainda assim, continua a cometer com bastante frequência os erros que aqui vão ser expostos. Adiante, escolhi o Sporting por dois motivos. Em primeiro lugar, é de longe o clube sobre o qual tenho maior conhecimento no que diz respeito aos tais comportamentos dos agentes, tanto adeptos como dirigentes, já que eu próprio sou adepto do clube e tenho lugar cativo no estádio há já alguns anos. E, para além disso, é um clube que tem personificado de forma clara o problema de que irei falar... Mas como é perceptível pelo título, não quero aqui, de todo, dizer que isto é um problema específico do Sporting. Poderia ter facilmente escolhido outro clube, tanto nacional como internacional, já que não são muitas as excepções que fogem a este problema (o Barcelona será a mais flagrante), mas pelos motivos acima sinto-me mais capaz de comentar com alguma propriedade o caso do clube leonino.

Ao longo dos anos, uma série de jogadores que se encaixam na descrição a bold - a qual é preciso ter sempre em mente na leitura deste post - foram desperdiçados pelo clube. Jogadores como Bryan Ruiz, Fredy Montero (depois da fase goleadora), Matías Fernández e Leandro Romagnoli, por exemplo tiveram todos começos relativamente interessantes no clube, mas, e embora por diferentes motivos, todos acabaram por finalizar as suas carreiras no clube de forma relativamente inglória. De onde vieram estes quatro exemplos há mais, mas parecem-me suficientes para podermos começar a pensar numa tendência, que importa perceber. Mas a que se deverão estes problemas do clube, embora com excepções claro (João Mário, por exemplo) em aproveitar este tipo de jogadores, tanto quando os compra como quando vêm da formação? A meu ver, podemos falar de três factores, mas como o terceiro merecerá uma análise mais profunda no final do post vamos por agora falar de dois: os adeptos (nomeadamente os que vão ao estádio) e os treinadores que têm passado pelo clube.

Começando pelo mais controverso, os adeptos. Parecerá absurdo, já que falamos de clubes profissionais, dizer que os adeptos podem "escolher" os jogadores que jogam. E obviamente que não o fazem, pelo menos directamente. Mas é, no mínimo, ingénuo, ignorar a influência que todo um estádio pode ter nos pequenos pormenores que se passam em campo. Um ambiente de um estádio pode perfeitamente influenciar vários detalhes da forma como a equipa joga, nomeadamente na sua tolerância/falta dela a certo tipo de acções. Dando o exemplo de Alvalade, que é o que conheço bem, é extremamente frequente qualquer acção que envolva alguma temporização ou calma ser criticada ou mesmo assobiada por vários adeptos. Na senda da tal irracionalidade referida acima, o Sporting quando, por exemplo, tenta gerir uma vantagem curta com bola, perto do final do jogo, não tem só de enfrentar os 11 jogadores adversários. Tem também, normalmente (depende também do contexto mais geral em que a equipa se encontre, claro), de manter o sangue frio perante um estádio com boa parte dos 40 mil adeptos do próprio clube exaltados e a tentarem, a todo o custo, que a equipa ataque rapidamente a baliza adversária, assobiando qualquer acção que não vise directamente esse sentido. É um público que, como a maioria dos públicos de futebol na verdade, aplaude o esforço, a dedicação e as decisões rectilíneas, mas com pouca paciência para os jogadores que não têm pruridos em segurar a bola quando é caso disso, sem o fazerem caminhando em direcção à linha para cruzar ou para ganharem no drible em qualquer zona, mas sim de forma aparentemente inconsequente, mas verdadeiramente interessante, visto ser na procura de melhores soluções (mais sobre o assunto aqui). Nenhum dos jogadores referidos acima agradou propriamente ao "tribunal" de Alvalade, e até temos exemplo como o de Carrillo (antes da questão extra-jogo que surgiu), que sendo um jogador que tendo até mais características especiais que as assinaladas a bold (post sobre ele aqui) - habilidade enorme no 1x1 e fisicamente fortíssimo - foi constantemente assobiado pelo público de Alvalade exactamente por ter um perfil de decisão que se aproxima, de certo modo, do dos jogadores referidos acima. Como é óbvio, há jogadores com atributos destes que são aclamados no estádio, da mesma forma que os próprios jogadores referidos acima também o foram em certos momentos - daí a tal irracionalidade de que se fala, tão comum no adepto de futebol - , mas quase sempre devido a motivos circunstanciais e que têm pouco que ver com as tais capacidades intelectuais dos jogadores (a fase em que Montero marcava imenso, por exemplo), e isso acaba por complicar a vida daqueles que pouco têm para apresentar para além do que grande parte dos adeptos ignora ou até detesta...

Passemos agora aos treinadores. Aqui, quando me refiro a treinadores, não falo propriamente da qualidade deles. Ou melhor, pelo menos no caso dos treinadores que o clube teve com Bruno de Carvalho na presidência, que em grande parte dos anteriores treinadores a qualidade escasseava imenso... Olhando por exemplo a Jorge Jesus, é indubitavelmente um treinador competentíssimo, que monta equipas bastante organizadas em todos os momentos do jogo, especialmente os defensivos, e isso não poderá ser posto em causa. No entanto, é um treinador que costuma ter problemas com jogadores do perfil referido. Apostou em João Mário, Bryan Ruiz (embora o tenha dispensado esta época) e mesmo nos incríveis Aimar e Saviola (que também acabou por ser descartado), sim, mas quando são jogadores de menor estatuto notam-se claramente os preconceitos do treinador para com esse tipo de jogador (Bernardo Silva, Francisco Geraldes e Ryan Gauld são jogadores que vêm à cabeça). E falamos aqui de um treinador, como já foi dito, bastante competente, e que até foi capaz de não ignorar alguns casos. Dou aqui exemplos recentes, que estão mais frescos na memória das pessoas, mas este tipo de desperdício, como foi salientado inicialmente, está muito longe de ser uma coisa recente. Pelo contrário! Há uma tendência dos treinadores do Sporting em preferirem o jogador mais forte e desinibido ao mais esclarecido, que a meu ver é um factor que contribui bastante para o insucesso do clube no século XXI...

Basicamente, os tais dois aspectos referidos constituem as pessoas que vêem o jogo e que possuem alguma influência no mesmo, tanto directa (treinadores e, embora não referidos, dirigentes) como indirecta (os adeptos, especialmente os que vão ao estádio). A forma como se vê, de uma forma geral, o jogo de futebol, prejudica enormemente este tipo de jogadores, visto que passa por cima do que eles têm para mostrar, e é importante combater esta mentalidade relativamente generalizada, sob pena de perdermos cada vez mais talentos e "ganharmos" jogadores com todas as competências físicas do mundo mas com pouco talento para tudo o que envolve o jogo. É que os jogadores que juntam às tais competências a que este post se refere outras que são vistas como verdadeiramente relevantes pela maioria vão (quase) sempre ter sucesso, mas há que perceber que esses são os casos especiais, os outliers. Que se continuarmos a priorizar os mais fortes ou até os mais habilidosos no 1x1/explosivos sem o saberem aplicar ao jogo propriamente dito em detrimento do tipo de jogador para que este post remete, vamos continuar a ter outliers, sim, mas cada vez menos jogadores verdadeiramente competentes e que dominam verdadeiramente o jogo que estão a jogar, e cada vez mais "atletas com bola".

Mas falta o tal terceiro aspecto, ao qual já se aludiu várias vezes durante o post mas nunca se explicou exactamente. É a ele que, no fundo, a segunda parte do título diz respeito... O que é isto do "Paradoxo da Falta de Espaço"? Explicarei obviamente o que quero dizer com isto, e de que forma influencia estes jogadores...

Como podem ler no primeiro parágrafo (que talvez agora pareça mais inteligível), isto, a meu ver, afecta estes jogadores sob a forma de uma externalidade (embora, como disse acima, a palavra externalidade possa não ser a melhor). Ou seja, é da interpretação que se faz do facto, e não do facto em si... Concretizando, é relativamente consensual que o futebol europeu (que é o mais relevante, claramente) está cada vez mais evoluído tacticamente, quando não se tem a bola. As equipas cada vez mais procuram ser compactas no momento defensivo, havendo assim muito menos espaço para o adversário jogar, e esta evolução requer de todos os jogadores da equipa bastante trabalho defensivo, quando em outras épocas era comum deixar os jogadores mais ofensivos quase a "descansar" na frente. E que, para isso, é necessário ter jogadores capazes de cumprir da melhor forma com essas exigências, tendo para isso de ser fisicamente muito fortes e, com bola, extremamente rápidos a fazer tudo, exactamente pela ausência desse espaço. De facto, o futebol europeu está mais evoluído tacticamente e, por isso, as equipas são mais competentes a restringir espaços ao oponente. O tal paradoxo não está, obviamente, aí. O problema é extrair-se, como a maioria faz, que para jogar neste futebol de maior organização e compactidade (aspectos positivos, atenção!) é necessário ter os jogadores mais fortes e rápidos a executar. Pensa-se que, por se ter evoluído num ponto de vista defensivo em termos de concepção geral do jogo, é preciso pensar sempre segundo esse raciocínio "defensivo". Logo, temos de ter os que melhor cumprem fisicamente com a ideia, sem bola, e que mais fortes, rápidos a executar e com drible, com ela, não havendo assim lugar para aqueles que, não sendo tão fortes ou tão rápidos de pernas, interpretam tudo antes dos demais e que sabem manipular esse tipo de organizações . Mas este último ponto é errado. Fazendo uma analogia, o futebol (sob a forma de cada vez mais equipas europeias) actual está a construir uma parede cada vez mais sólida, e as equipas acham que a melhor forma de a derrubar é à cabeçada, em vez de se procurar criar fendas em zonas estratégicas por forma a, no momento certo, a podermos fazer colapsar sobre si própria... O jogador franzino, não muito rápido e criativo tem lugar na chamada "era da organização", sim! Aliás, até deve assumir um papel mais preponderante, visto que os problemas que os ataques têm de resolver são, no geral, mais complexos. E quem melhor para resolver problemas complexos que um Pastore, um Bryan Ruiz ou, quando jogava, um Riquelme? Bem, haver melhor há... há Messi, e eventualmente outros que encaixam nos tais outliers. Mas se compararmos com os tais "atletas com bola" que proliferam no futebol actual, percebemos que muito mais facilmente um Pastore desmonta, inserido numa boa equipa, um bloco bem organizado que um Cuadrado. O Paradoxo da Falta de Espaço é, no fundo, achar-se que por o espaço para jogar ser cada vez menor, se deve valorizar quem fisicamente está mais apto para correr muito e aguentar o choque (já que há mais adversários perto), e não quem... descobre melhores soluções nessa mesma falta de espaço.

Em Alvalade tem-se feito muita coisa bem nos últimos anos, e o clube está cada vez mais perto de títulos, mas não nos enganemos, este desprezo que ainda existe a este tipo de jogador prejudica mais o clube do que o beneficia. E no Mundo, corremos o risco de ter cada vez menos jogadores deste género, incapazes de deslumbrar regularmente o adepto comum mas capazes de impulsionar uma verdadeira revolução ofensiva generalizada em termos tácticos, como resposta à que ocorreu em termos defensivos. E seria uma pena...

PS: Nunca é demais ressalvar este ponto: obviamente, é possível um clube não dar a atenção devida a este tipo de jogador e, não só ter sucesso como até jogar um futebol interessante. Não se pretende aqui dizer que é completamente ilógico preferir outro perfil de jogador, mas sim que, embora se possam perceber os motivos, ignorar este tipo de jogador é prejudicial pelos motivos aqui expostos...

PS2: Numa eventual discussão futura do post (nos comentários), pedia que se focassem mais nas ideias que aqui são transmitidas, rebatendo o que não concordam, do que propriamente nos jogadores que foram sendo dados como exemplo, que são mesmo só isso, exemplos, que servem apenas e só para tentar ilustrar essa ideia. Só digo isto para ver se a caixa de comentários não tem gente a dizer "Ah, mas o Bryan Ruíz é péssimo!!!" ou coisas do género.

5 de set de 2017

“Se Queda!”. Ou a posição “6” do Sporting


Parecia iminente a saída de William Carvalho do Sporting. De início, todos os rumores apontavam para terras britânicas, e mais especificamente a Premier League. Entretanto, outros rumores foram surgindo, com propostas vindas de Espanha e França. A certa altura, o West Ham assumiu-se como o principal candidato à sua contratação – numa “novela” que muita tinta fez (e ainda faz) correr na imprensa – e parecia relativamente seguro afirmar-se que, após várias épocas de especulação e muitos rumores depois, o “14” de Alvalade se preparava para dar o salto competitivo que a sua qualidade há muito justifica.

Parecia...mas ainda não foi desta. Mantém-se assim por terras lusitanas o melhor médio defensivo da liga portuguesa nos tempos mais recentes (desde que Nemanja Matic partiu, também ele, para Inglaterra), um dos melhores jogadores da liga e, provavelmente, o melhor médio a vestir as cores dos “leões” desde o mágico Pedro Barbosa. É também – como provavelmente se consegue depreender da tendência inicial deste artigo – a manutenção daquele que se entende ser o melhor jogador do Sporting.

Um dos capitães de equipa (possivelmente “O” capitão, caso se confirme a transferência de Adrien Silva para o Leicester), é um jogador “da casa” e é peça fundamental do conjunto leonino há já quatro épocas. A dupla que forma com Adrien tem sido o principal ponto de estabilidade do futebol do Sporting nas últimas temporadas, e na sua melhor forma, contam-se pelos dedos os médios defensivos que oferecem maior qualidade ao jogo. É um jogador com estirpe de topo mundial - talvez o único em todo o plantel leonino – e está plenamente adaptado ao clube e ao modelo de jogo actual.

Porque é William tão bom?

Há, frequentemente, uma percepção errada do perfil de jogador que é William. Tradicionalmente, construíram-se no futebol dois estereótipos que ele destrói sempre que entra em campo. O primeiro é relativo à sua morfologia. Com quase 1,90m de altura e de origem luso-angolana, facilmente se tentaria colar a alguém do seu perfil a imagem de um médio que serve essencialmente para destruir jogo, e que não é muito capaz com a bola nos pés.

Nada mais falso. William afasta-se quase radicalmente dessa imagem, e é com bola que mais brilha. Tecnicamente refinado, a sua capacidade para descobrir opções de passe que permitam avançar de forma sustentada no campo é especial, mesmo entre médios que tradicionalmente não seriam associados ao estereótipo acima referido. No entanto, o que mais impressiona nele (e que influencia todas as suas qualidades com bola) é a forma quase gélida como é capaz de resistir à pressão. O "14" dos leões sente-se naturalmente confortável em espaços curtos e congestionados, e a pressão adversária nunca afecta a calma e a serenidade com que pensa, decide e executa. Recebe, sempre de cabeça levantada, procura a melhor solução e define. E quando a solução não surge de imediato, é também perito a temporizar e a fazer a bola circular, até que estejam criadas as condições para o desequilíbrio. A partir da posição 6, gere a equipa quando esta se encontra em momentos de organização ofensiva, e liga-a com maior qualidade em todos os momentos com bola. Uma característica genética e rara, que o distingue de muitos outros bons médios.

O segundo estereótipo é o de que o médio defensivo está lá, principalmente, para defender, e que para tal tem de estar constantemente na zona da bola, de forma a poder desarmar o portador da mesma e travar os ataques adversários. Sim, é verdade que, com William no lugar de Battaglia (e com a saída de Adrien), a equipa provavelmente perderá alguma solidez defensiva nos momentos de transição ataque-defesa, bem como alguma capacidade de sucesso nos duelos individuais e nas bolas divididas. No caso específico da posição “6”, no entanto, isso não se deve a uma menor qualidade defensiva de William no geral, mas antes à natureza mais impulsiva de Battaglia e Adrien, que cobrem um maior raio de acção e, consequentemente, disputam (e ganham) um maior número de duelos. 

É sobretudo nas qualidades cognitivas que residem as maiores valias de William. Um "6" que defende de forma diferente. Pela forma como procura recuperar a bola em vez de "cortá-la", é um médio que já está preocupado com a qualidade da sua equipa com bola, mesmo quando esta ainda não a tem. Pode-se afirmar, por outras palavras, que defende de uma forma moderna, procurando antecipar e influenciar acções adversárias através do seu posicionamento e da sua postura (sendo um jogador quase exemplar nos aspectos mais técnicos, como a correcta colocação dos apoios, por exemplo), e que dessa forma consegue forçar vários erros que permitem a recuperação da bola. 

Não raras vezes, a forma como William se move dentro do campo é alvo de crítica e até chacota, e as acusações à sua velocidade de deslocamento são já clássicas. No entanto, nas velocidades que mais influenciam o jogo - a de execução e a de raciocínio -, William é um jogador bastante veloz.

Para além de William

Face à tremenda qualidade que possui, é natural que a diferença entre William e as restantes opções para a posição “6” seja qualitativamente significativa. João Palhinha é ainda um jovem sem a qualidade necessária para assumir a posição, sendo até possível que coleccione alguns minutos na equipa B e que volte a ser cedido a um clube da primeira liga em Janeiro, para jogar com regularidade. Já Radosav Petrovic encaixa no perfil estabelecido por William ao longo das últimas temporadas. O sérvio é um médio com a serenidade e compostura com bola que se exigem para o lugar. No entanto, defensivamente apresenta-se muito pouco intenso, e mesmo em termos posicionais não prima pela excelência. Noutro contexto, até poderia ser uma boa alternativa a um titular da posição, mas esse não parece ser o caminho escolhido pelo treinador. Ambos os jogadores deverão ser carta fora do baralho na maioria das partidas, embora Petrovic até possa ter alguma utilidade, sobretudo nos jogos teoricamente mais acessíveis e disputados em Alvalade.

Depois, há Rodrigo Battaglia, que foi até agora a escolha de Jorge Jesus para o lugar. O argentino possui a capacidade física e atlética que o treinador do Sporting tanto aprecia, e adiciona-lhe algumas qualidades técnicas, nomeadamente ao nível do transporte de bola. Por outro lado, é mais uma adaptação ao lugar, pois jogou os últimos anos da sua carreira como “box-to-box” (com alguma qualidade, refira-se), sendo que todas as suas características com bola apontam também para esse papel dentro do terreno de jogo. Possui limitações claras em termos cognitivos – principalmente ao nível da correcta percepção e gestão do ritmo do jogo, que depois influencia negativamente a sua tomada de decisão – e apesar da capacidade de transporte, o facto de se decidir muitas vezes por uma má opção (ou de nem sequer conseguir identificar propriamente as opções à sua disposição em cada jogada) faz com que a sua capacidade de ligar sectores e corredores seja mediana, na melhor das hipóteses.


Perante este cenário – e apesar da perceptível vontade do jogador em rumar a outros campeonatos, mais competitivos –, é inegável que a manutenção de William Carvalho é uma excelente notícia para Jorge Jesus e para o Sporting. Veremos agora como irá o jogador entrar na equipa actual.

22 de ago de 2017

Velocidade de Raciocínio... e as declarações de Manuel Machado


Este vai ser um texto muito simples, com duas partes...

Iuri Medeiros e a Velocidade de Raciocínio

Esta primeira parte do texto é sobre um momento do jogo que opôs o Vitória SC ao Sporting, mais concretamente a assistência de Iuri Medeiros para o quinto golo da equipa comandada por Jorge Jesus. Muito haveria a discutir sobre este Sporting (tanto numa perspectiva mais imediata como noutra muito mais abrangente), mas a ideia desta primeira parte do texto é só perceber onde está o mérito desta acção de Iuri Medeiros. A execução em si foi simplicíssima, mas a confusão entre a simplicidade de uma execução e o raciocínio a que esta subjaz - ou seja, achar-se que a dificuldade na acção de um jogador com bola é directamente proporcional à dificuldade técnica da mesma - leva a que uma acção como esta não seja gabada como merece. O mérito de Iuri aqui é puramente intelectual, na forma como leu a situação antes de toda a gente, percebeu qual o movimento do defesa contrário antes sequer de lhe chegar a bola e que, devolvendo a bola a Adrien de primeira e contra o movimento do defesa, isolaria imediatamente o colega. A velocidade - e qualidade! - de raciocínio que Iuri demonstrou num lance tão aparentemente simples é, de resto, o que muitas vezes tem faltado ao ataque do Sporting neste início de temporada (inclusive no jogo em Guimarães, apesar do resultado), pelo que faz todo o sentido que lhe seja dado um papel cada vez mais preponderante na equipa. Ultrapassar definitivamente Bruno César no lote de opções para a posição já seria um começo agradável...

As declarações - e a latente incoerência - de Manuel Machado

A segunda parte deste texto versará sobre as declarações de Manuel Machado no final do jogo entre o Porto e o Moreirense. O treinador português falou sobre a forma como os resultados da terceira jornada do campeonato espelham o desnível enorme entre os três grandes do futebol nacional e os restantes clubes, e que este desnível tão grande contribui muito negativamente para o espectáculo oferecido pelo futebol português, na globalidade. Ora, obviamente é complicado discordar destas declarações. O nosso futebol é, de facto, brutalmente desnivelado, e esse desnível (nomeadamente na distribuição monetária dos direitos televisivos), que tem tendência a aumentar ainda mais, a longo prazo só traz consequências negativas a todo o nosso futebol, incluindo os que no curto prazo são claramente mais beneficiados por receberem uma parte maior do bolo - os três grandes clubes portugueses.

Mas, ao mesmo tempo que alerta - e muito bem! - para os enormes problemas que uma liga cada vez mais tricéfala traz ao nosso futebol e ao espectáculo proporcionado, Manuel Machado diz também isto:

"A organização e cumprimento da estratégia delineada, que passava por jogar com um bloco baixo e sair em contra-ataque, deixa-me satisfeito. Não foi a estratégia que falhou, foram erros individuais, particularmente no segundo golo, em que tentámos sair com o FC Porto a pressionar num bloco subido."

Considerando que a parte de "sair em contra ataque" só foi minimamente cumprida quando o jogo já estava resolvido, estas declarações põem claramente em cheque as ideias discutidas acima. Uma equipa que, independentemente da diferença de recursos para o adversário, abdica de jogar de tal forma que apenas acerta quatro passes em 22 minutos (!!!) contribui de que forma para o espectáculo? E o que o treinador retira é que a equipa esteve mal... quando tentou sair da pressão do FCP (ou seja, tentou jogar à bola) e falhou. Como é que uma pessoa que diz isto pode nas mesmas declarações mostrar preocupação com o "fim do espectáculo"? E o facto de o desnível entre as equipas ser grande não é desculpa. Aliás, se o próprio treinador dá claramente a entender que o jogo estava perdido à partida, e se está, de facto, preocupado com a deterioração do espectáculo, o que tinha a perder em vir tentar discutir minimamente o jogo? Será que tinha medo de ser goleado? Dando um exemplo rápido de uma equipa com recursos similares, o Feirense com Nuno Manta disputou 4 jogos com os grandes na época passada, apenas perdeu dois (ambos pela diferença mínima, diga-se) e em nenhum deles entrou em campo só para jogar nos últimos 30 metros e sem tentar fazer o que quer que fosse com a bola.

Apesar de achar que é uma abordagem profundamente errada, consigo aceitar que um treinador defenda que, nestas circunstâncias, a melhor opção é passar o jogo todo a defender e nem sequer tentar atacar minimamente o adversário. Agora, vir defender isso e ao mesmo tempo passar a ideia que se preocupa com o espectáculo é, no mínimo, risível. É, de facto, muito importante que se olhe seriamente para o nosso campeonato e se procurem formas de ter um campeonato mais forte, equilibrado (ou seja, um maior equilíbrio por cima) e em que o espectáculo seja mais valorizado. E um bom primeiro passo para isso era despedir treinadores como Manuel Machado e arranjar quem valorize um bocado mais o jogo...

12 de ago de 2017

Situações idênticas, decisões diferentes



Duas situações muito parecidas, decididas de forma completamente diferente. Em ambas as situações, o lateral direito recebe a bola e é pressionado pelo lado cego, com o adversário a concentrar muitos jogadores no corredor lateral onde a bola se encontra.

Situação A)

Pressionado pelas costas, o lateral do Braga decide rodar e realizar um passe, em esforço, para a frente. Rodeado por 3 adversários nem teve tempo e espaço para perceber o posicionamento dos colegas, e entregou a bola ao adversário. Em cobertura ofensiva tinha o central do lado direito, com todas as condições para receber a bola e rodar o centro de jogo para o lado contrário.

Situação B)

O lateral direito do Sporting, pressionado pelas costas, entrega a bola fácil na cobertura ofensiva. O jogador na cobertura utiliza o guarda-redes para fazer chegar a bola ao corredor lateral oposto, e o Sporting garante condições para entrar com a bola controlada no meio campo defensivo do adversário. 

3 de ago de 2017

As aparências iludem - Kalidou Koulibaly, muito mais que um monstro físico

Apesar de não ser tão falado como outros, Koulibaly, é neste momento, um dos centrais mais completos do futebol. Apesar de à primeira vista parecer o típico central que tem como mais valia a sua envergadura física, Koulibaly é dos poucos que consegue apresentar qualidade em todos os momentos do jogo, sejam eles de cariz defensivo ou ofensivo. É muito raro vê-lo falhar um posicionamento defensivo, seja em zonas mais próximas da sua baliza, seja em zonas mais afastadas. Exímio no que diz respeito ao controlo dos cruzamentos, seja ele o central mais perto da bola ou o que se encontra mais longe. Sempre com perfeita noção dos momentos em que tem que aproximar mais do lateral para controlar a largura, ou de se afastar para controlar os cruzamentos. São raríssimas as situações em que Koulibaly é apanhado com os apoios mal orientados, no que diz respeito ao controlo da profundidade.

Ofensivamente, a qualidade no passe vertical é uma das imagens de marca. Sempre que tem colegas em condições de receber a bola no espaço entre a linha defensiva e a linha média do adversário, é lá que Koulibaly coloca a bola, deixando sempre vários adversários "fora" do lance. 

Sempre bem posicionamento no que diz respeito ao controlo dos cruzamentos
Nas situações em que o cruzamento não é uma possibilidade, controla a largura, aproximando do lateral do lado da bola
Esse controlo da largura é sempre feito com os apoios bem orientados para reagir mais rápido o mais rápido possível a um passe para a profundidade
Apoios sempre bem orientados, mesmo enquanto encurta o espaço para a linha média


O controlo da profundidade. Baixar até uma zona próxima da grande área para não permitir o passe nas costas, e depois sair ao portador da bola para condicionar a sua acção

Ofensivamente, a constante procura pelo passe vertical, que permite à equipa do Nápoles "queimar" linhas adversárias



Mesmo pressionado, procura sempre construir de forma apoiada e fá-lo sempre com qualidade
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