5 de dez de 2018

Lateralizando (vai que é tua, Thierry)



Imaginemos que um bom lateral é um lateral que chega muitas vezes à linha e sabe cruzar bem. Vamos ignorar os processos utilizados para aparecer nessa zona do campo, se cruza sob pressão ou não, se tem ou não melhores alternativas do que a execução do cruzamento – porque, de facto, ele é mesmo muito bom é a cruzar. Portanto, mais de 90% das acções ofensivas desse jogador resumem-se ao seu critério nesse momento do jogo.

Mas, afinal, o que se entende por “cruzar bem”? Basta ‘despejar’ a bola na área a uma altitude razoável? Do género: a sorte que faça o resto, pode ser que apareça por lá o avançado, que habitualmente é um tipo alto e forte nos duelos físicos. Haja noção.

Um bom lateral (tal como um bom médio, um bom avançado, um bom extremo) tem de possuir uma leitura do jogo acima da média. Contudo, ao que parece, a linha defensiva foi caindo no descrédito da inteligência, ou seja, para se ser central ou lateral bastam as boas características físicas (porque a agressividade advém, obviamente, da estatura). Na folha de recrutamento, caso se leia que o jogador tem 1,60m, é automaticamente excluído dessas posições, pois houve quem quisesse tornar o futebol mais atlético do que cerebral. Não o é.

O rendimento dos laterais também está intimamente ligado com o modelo de jogo da equipa. Pegando no exemplo inicial, é totalmente diferente cruzar com ou sem oposição, que depende do processo utilizado para chegar perto da grande área, que influencia as alternativas, que afecta o critério. Por isso é que, “no futebol, o todo é mais do que a soma das partes”.

Quando o apoio frontal junto às linhas faz parte do lote de processos de uma equipa, o lateral tem de saber interpretar essa movimentação e o que fazer no espaço que surge para progredir, sendo que explorar o corredor central aproxima-o quase sempre do sucesso. Por outro lado, a obsessão com a chegada à linha revela-se uma escolha geralmente negativa se os colegas oferecerem combinações no último terço. Quem é que não se recorda da diferença exibicional entre o Schelotto da época 2015/16 e o de 2016/17? Devido à mobilidade do Sporting na primeira temporada de Jorge Jesus, as debilidades do lateral argentino camuflaram-se, porque a bola chegava-lhe várias vezes em situações que podia partir para o 1x1 ou aproveitar a desorganização adversária, justificada pelas constantes associações no corredor central. Já no ano seguinte, em que os leões perderam essa capacidade, as fragilidades de Schelotto ficaram a nu. O mesmo se pode dizer, mas ao contrário, em relação a Jefferson. Não é por ter feito duas assistências frente ao Lusitano Vildemoinhos que se tornou um bom lateral. Ao invés, beneficiou do bom jogo interior do Sporting, que deixa o brasileiro mais solto de marcação e capaz de potenciar uma das suas melhores características, o cruzamento.


Uma vez que se sabe que qualquer equipa que procure ter bola quer passar mais tempo a atacar do que a defender, um bom lateral precisa de apresentar características ofensivas – na minha opinião, até vêm antes do que as defensivas –, mas é impensável cometer erros básicos defensivamente. Por agora, Acuña é o único jogador do Sporting, nessa posição, que dá garantias a Marcel Keizer (e Thierry Correia, caso venha a ser aposta, tem condições para tirar o lugar a Bruno Gaspar ou Ristovski no lado direito). Mesmo assim, Janeiro deverá servir para o clube se reforçar, porque se os recursos actuais vão chegando para vencer, lanço as minhas dúvidas se assim continuará a acontecer nos jogos frente aos rivais directos ou das competições europeias.

4 de dez de 2018

O ataque posicional do Sporting de Marcel Keizer


Depois de 3 jogos oficiais, já é possível perceber as ideias do novo treinador do Sporting, e, ainda que estejam longe de estar implementadas na sua totalidade, não é de todo precipitado afirmar que são ideias que potenciam os jogadores do Sporting, e que consequentemente aproximam a equipa do sucesso. 

Começando pela fase de construção em zonas recuadas. Com a utilização do guarda-redes para criar superioridade numérica numa fase inicial, com os laterais projetados e a dar largura, e com os médios a movimentarem-se nas costas da primeira linha de pressão do adversário, o Sporting tem tudo o que é preciso - no que diz respeito aos posicionamentos - para sair de forma apoiada desde trás. 

A juntar e esses posicionamentos e à dinâmica que surge dos mesmos, há uma intenção clara de valorizar cada posse de bola. Por outras palavras, o Sporting é neste momento uma equipa que procura a cada ataque, progredir nas melhores condições possíveis, não demonstrando pressa nem saltando etapas na fase de construção.  

Um exemplo no lance que se segue. Não havia condições para progredir em direção ao meio campo do Rio Ave (sem espaço e com poucos jogadores do Sporting para vários do Rio Ave), então, a solução foi atrasar a bola até ao guarda-redes. Com o Rio Ave a pressionar mais alto, o espaço entre as suas linhas defensivas aumentou e o Sporting conseguiu chegar ao espaço entre a linha média e a linha defensiva com relativa facilidade e em excelentes condições.




A maneira como o Sporting procura chegar às zonas de finalização é também completamente diferente do que era há uns meses atrás. O corredor central tem sido muito utilizado para ligar a fase  de construção com a de criação, e o Sporting tem chegado várias vezes ao último terço - pelo meio- com a bola controlada.
(Wendel está à esquerda de Gudelj. É Diaby junto a Bruno)

Nota-se que os jogadores do Sporting gostam e estão cada vez mais confortáveis a jogar este tipo de futebol apoiado, de passe e devolução. Mesmo em espaços curtos, têm demonstrando muita calma e qualidade para sair a jogar de forma apoiada, e isso, volto a referir, reflete-se na quantidade de vezes que o Sporting chega ao último terço com a bola controlada.

A utilização dos apoios frontais tem sido outra dinâmica muito vista no Sporting de Keizer. Jogador de costas para a baliza - muitas vezes a atrair consigo a marcação adversária - com o objetivo de deixar enquadrado o jogador que recebe a bola. Bas Dost cada vez mais importante neste tipo de situações, pela inteligência e qualidade no 1º toque.

3 de dez de 2018

Ensaio(s) sobre a Cegueira


Este post poderia muito bem ser sobre a exibição fantástica do Sporting de Marcel Keizer - entrevista interessantíssima dada pelo actual treinador leonino aqui - em Baku. O treinador holandês trouxe, em duas semanas, uma melhoria drástica - e saliento, drástica - ao futebol da equipa: de uma equipa medrosa e cobarde, que nem com espaço se propunha a construir passou a uma equipa corajosa, com dinâmicas e capaz de superar uma pressão agressiva do adversário em vários momentos; de uma equipa cinzenta, sem a mínima variabilidade de recursos ofensivos e que não trabalhava minimamente os lances passou a uma equipa criativa, que prioriza claramente a tabela entre os seus elementos e que procura os melhores caminhos para atacar; e de uma equipa passiva e expectante passou a uma equipa extremamente agressiva tanto na pressão como especialmente na reacção à perda, tendo os jogadores muito próximos e conseguindo rapidamente condicionar o adversário. Há que dizer, claro, que tudo isto tem de ser lido de forma cautelosa. A melhoria foi gigante para o pouco tempo de trabalho existente, mas esse tempo não deixa de ser pouco, o que implica obviamente que ainda há deficiências várias e uma inconsistência enorme nesta forma de jogar. É provável que a equipa venha a sofrer as chamadas dores de crescimento pelo futebol que tenta jogar, e que nesses momentos as críticas se multipliquem. No dia em que escrevo este post, aliás, o Sporting vai ter um jogo muito complicado em Vila do Conde, que pode eventualmente expor alguma da falta de trabalho que ainda há sobre esta ideia de jogo. Mas, ao contrário do futebol de Peseiro, que estava desde início votado ao insucesso, o que Keizer está a trazer promete, e muito. O sucesso que terá - ou não - é evidentemente uma incógnita para qualquer um, mas a pequena amostra inicial exige, desde já, a minha atenção. O que é mais do que posso dizer da grande maioria do campeonato português...

Mas não, apesar de me ter esticado no parágrafo inicial, o tema do post é outro. Na noite de quinta feira, decidi ver o programa "Grande Área", da RTP3. Costuma ser um programa de futebol algo superior às... vamos chamar-lhes banalidades, que poluem a televisão nacional, e um dos seus analistas regulares, em particular, é alguém cuja opinião estimo (Rui Malheiro). Eventualmente chegaram ao jogo do Sporting em Baku, e a um certo ponto Manuel José faz o seu comentário, que podem ver abaixo:


Manuel José, no fundo, rasga completamente o jogo de Wendel por este ter "individualizado as acções todas", ao contrário dos colegas, que jogavam a "um ou dois toques", e com a aparente anuência do restante painel. Fiquei imediatamente perplexo, porque a ideia com que fiquei do jogo que Wendel fez foi literalmente a oposta, e como estamos a falar de uma questão de facto... É que dizer que um jogador jogou bem ou mal pode ser opinião, mas é possível averiguar se tentou passar a bola aos colegas ou "individualizou as acções todas", mesmo dando de barato alguma hipérbole na afirmação, visto que é algo contável. Por isso, restavam três opções: ou Manuel José é cego, ou mentiu descaradamente, fiando-se na ideia de que Wendel, como o típico médio brasileiro, teria de certeza tentado fugir da dinâmica colectiva da equipa e tentado fintar toda a gente; ou então fui eu que vi tudo completamente ao contrário e, na verdade, Wendel terá feito o contrário do que eu tinha visto quando o jogo foi transmitido em directo.

Como eu sou da opinião que a pessoa de quem devemos duvidar mais é de nós mesmos, fiquei curioso e achei por bem ir rever o jogo. Afinal, era bem possível que eu tivesse visto mal, e nesse caso não só aprenderia algo sobre o jogo que Wendel fez, como desconfiaria ainda mais da minha própria falibilidade - o que é sempre saudável, diria. Ao rever o jogo, no entanto, a minha perplexidade aumentava a cada acção do médio brasileiro. E aumentava porque, de facto, se se pode fazer alguma crítica à exibição de Wendel... é exactamente a oposta. O médio brasileiro procurava constantemente jogar em poucos toques e associar-se com os colegas, e em alguns lances isso até nem era a acção mais recomendada. Destaco, por exemplo, a assistência de Wendel (a primeira de três) para o terceiro golo do Sporting, em que apesar de para a estatística ficar uma acção brilhante, uma análise mais atenta ao lance mostra claramente que o médio do Sporting - que havia estado muito bem no mesmo lance, momentos antes, ao devolver a tabela de primeira como o contexto exigia - podia e devia ter continuado a conduzir a bola, e que ao passar a Nani na altura em que o fez lhe criou dificuldades desnecessárias. Não obstante a enorme mestria individual do extremo português ter feito com que o lance acabasse em golo, a decisão de Wendel nessa parte do lance foi incorrecta, mas pelo motivo oposto ao que Manuel José criticou no jogo dele. Toda esta dissonância entre o que aconteceu e o que Manuel José referiu levou a que eu compilasse um vídeo com todas as acções, com bola, do médio brasileiro. Vídeo esse que (adivinharam!) podem ver abaixo:


Se alguém conseguir descortinar ali o que raio Manuel José viu (ou não), a caixa de comentários está disponível. O meu descontentamento foi tal que, vejam lá, até fiz um exercício que será, possivelmente, a coisa mais inútil que já me dei ao trabalho de fazer na minha vida, que foi contabilizar, de todas as acções do jogador - por acção defina-se "tudo entre o momento em que o jogador recebe a bola até que, por uma multitude de factores, a deixa de ter" - quais terminaram em passes e quais, das que terminaram em passes, envolveram menos de três toque na bola (ou um ou dois). Das 65 acções totais excluí as 2 que acabaram em remates de Wendel isolado perante o guarda-redes - os tais "dois golos falhados de baliza aberta" que Manuel José menciona, ficando com 63 totais. E dessas, 53 acabaram em passes - não discriminando se foram acertados, falhados, ou se bem ou mal decididos, visto que não foi isso que o ex-treinador português criticou - e desses 53, 44 foram em um ou dois toques. Ou seja, mais de 84% das acções de Wendel acabaram em passe... e quase 70% (aproximadamente 69,84%) de todas as acções do jogador foram ou passes de primeira ou passes imediatamente após a recepção!!! O que também contei foram as vezes que Wendel "inventou dribles quando tinha um defesa nas costas"... felizmente esta foi mais fácil, foi uma (aos 3:25 do vídeo). E nem sequer será àquele tipo de acção que Manuel José se refira, imagino, já que foi no último terço, encostado à linha e, aponto eu, que demonstrou uma percepção notável daquele contexto particular. Já que aguentou a bola até Jefferson lhe passar nas costas, o que atraiu o defesa que estava com Wendel a cobrir um eventual passe, abrindo uma cratera no meio que o médio brasileiro aproveitou imediatamente. Portanto, bem analisado, Wendel nunca fez o que Manuel José o acusou de o fazer. Aliás, recebeu a bola em várias situações que encaixam no que Manuel José refere (de costas, com pressão e numa zona central do terreno), e em todas fez o que o português disse que não fez. É possível ser-se mais estúpido?

Isto tudo para provar que, afinal, ficamos mesmo só com duas das três hipóteses que apresentei: ou Manuel José é cego ou é mentiroso. E é algo que exige uma breve reflexão sobre os programas de análise desportivo que temos: se até naqueles que são menos maus há comentadores que procuram levar avante narrativas que nem pelo crivo aparentemente simpático dos factos passam, como é que podemos querer ensinar a população a ver o Jogo que mais as apaixona? A verdade é a seguinte: qualquer pessoa que tenha visto o Grande Área, mas não o jogo do Sporting em Baku, ficou com uma ideia que é logicamente equivalente a dizer que um jogo de Futebol tem 47 jogadores. E quão triste é ter essa noção!? Se este post conseguir que sequer uma dessas pessoas possa ver com os seus olhos o que, de facto, Wendel fez no jogo e que, por isso reformule a opinião que Manuel José formou por ela, o objectivo do mesmo está mais que cumprido.

1 de dez de 2018

Embrulha, desembrulha.

Tiago Dantas é português, é o jogador mais talentoso da sua geração, tem potencial para chegar ao nível dos melhores do mundo. 

Neste lance, todo o talento que evidencia, e que parece invisível para as seleções nacionais. Talvez pela altura, talvez pelo peso. Pela falta deles. Mas olhem, tem um cérebro tão capaz, tão pesado, que parece que complica o lance de propósito para depois ser mais desafiante descomplicar; mas não é nada disso. Ele envolve 3 colegas, numa altura em que parece estar a atacar para a própria baliza, para atrair 4 adversários. O final é a demonstração da intenção do menino: aproveita o espaço que que ele próprio criou com a forma como atraí os adversários. Os gênios são isto. São capazes de mandar o contexto à merda, e fazê-lo dobrar-se aos caprichos do seu pequeno, pequeníssimo, e franzino cérebro. Jogar consoante o contexto? Isso é para quem não sabe nem pode mais. Alterar o contexto ao seu redor, é Tiago Dantas.

30 de nov de 2018

The big elephant in the room


“O jogo pede que nós façamos determinados comportamentos em determinados momentos”

“Amanhã, teremos um adversário que nos vai querer ganhar, mas vamos entrar convictos do que teremos de fazer para trazer os três pontos” 

“Foi uma partida bem disputada entre duas equipas que sabiam que uma iria ficar obrigatoriamente pelo caminho” 

Isto. Conferência de imprensa após conferência de imprensa. Nas antevisões. Nos rescaldos. Mea culpa tem de ser assumida pelos jornalistas, que insistem em utilizar o dever de informar com rigor (Artigo 14.º, Estatuto do Jornalista – Deveres, “Exercer a actividade com respeito pela ética profissional, informando com rigor e isenção”), formulando perguntas sobre – por exemplo – a justiça de um qualquer resultado.

Companheiros de viagem, a justiça, no futebol, nunca interessou.

O restante élan em redor de lugares comuns recai nos treinadores, que por "estratégia comunicacional do clube", e esta é uma das mais fascinantes justificações, ou por julgarem que são capazes de evitar o elefante na sala, insistem em abordar o jogo como o Pateta abordaria uma bola. Se, antes de uma partida, posso aceitar o secretismo acerca da abordagem estratégica, o mesmo soa a estapafúrdio após os 90 minutos. Elucidem os amantes do ‘desporto rei’, expliquem-lhes o que falhou, por que é que algo tão básico (para vocês) como um jogador não ter utilizado os apoios certos no momento defensivo foi tão determinante no desenrolar da jogada que originou o golo contrário. Há pessoas que nunca ouviram falar disto e a culpa também é vossa.

Vossa porque na Ilha da Páscoa se sabe que os adversários vão querer ganhar e em Kerguelen, no extremo sul do oceano índico, se sabe que o objectivo são os três pontos. A sério? É isso? É só isso que têm para nos ensinar? Pep Guardiola – desculpem a insistência – autorizou a gravação do acompanhamento da temporada que levou o Manchester City a vencer a Premier League 2017/18 com mais 19 pontos do que o segundo classificado. Não me digam que desde Agosto de 2018, data em que o documentário (All or Nothing: Manchester City) foi lançado, o conjunto orientado pelo espanhol não voltou a ganhar. Que desesperante é não existir quem absorva que (quase) tudo o que se passa longe das câmaras fica a nu sempre que a equipa sobe ao relvado. Não vale a pena esconder. A assinatura de todos os treinadores escreve-se com os pés dos seus jogadores, com a procura de ‘tocar curto’ ao invés de ‘bater directo’, com o movimento interior de um lateral, a evolução de um guarda-redes a jogar com os pés. Comuniquem. Co-mu-ni-quem.

Considero desprestigiante para a modalidade o esforço que se faz para não a explicar. Querem fazer valer o estatuto de o futebol ser do povo? Muito bem, mas então que o utilizem – TODOS – para o reeducar e não para o tornar cada vez mais ignorante.

29 de nov de 2018

Treinadores: É nos momentos de aperto que se percebe a real valia do seu trabalho.

Há sempre muitas dúvidas sobre que critérios se devem utilizar para avaliar um treinador. Para a maior parte das pessoas são os resultados, são os títulos. Para outra parte das pessoas são os modelos de jogo, os sistemas de jogo, ou a liderança dos treinadores. Para outros ainda, os treinadores devem ser avaliados pela adaptação ao contexto competitivo do ponto de vista estratégico, ou por lançarem mais ou menos jogadores da formação do clube. Para mim, porém, o critério mais importante não é esse. Se tivesse que escolher um treinador, seja lá para que equipa fosse, a primeira coisa para que olhava seria se nos trabalhos anteriores o treinador tinha conseguido convencer os jogadores a seguirem a sua ideologia. Depois, tudo o resto. Porque para mim, é essa a diferença fundamental entre os grandes treinadores (independentemente da ideia de jogo) e os treinadores banais. É isso que distingue, de forma categórica, as equipas de uns e de outros: olha-se para o jogo e o que se vê é o reflexo do treino. Se os jogadores reproduzem de forma fiel os princípios de jogo que o treinador impõe, e se a ideia de jogo está tão entranhada neles que não sejam capazes de se libertar dela sob que circunstância for. Um grande treinador tem isto. Consegue influenciar o jogador de tal forma que quando se separam durante muito tempo ele continua a jogar aquele jogo que aprendeu com ele, e começa até a rejeitar outras formas de estar no jogo.

Costuma-se dizer que quando o jogo está perdido, que quando as equipas percebem que não têm hipótese de chegar ao resultado pretendido, o jogo acaba para elas. Eu discordo. Acho que é precisamente nesses momentos que devemos estar mais atentos para perceber a influência do treinador nos jogadores. Se a equipa se perde e adopta acções que não fazia habitualmente e se aproveita a oportunidade para se libertar do treinador por não ter confiança absoluta nos processos impostos, ou se mesmo aí os jogadores reproduzem de forma cabal aquilo que vai na cabeça do treinador. A diferença entre as duas situações é só uma: a linguagem do treinador é também a dos jogadores ou não? Os jogadores estão perfeitamente convencidos que aquela forma é a melhor forma para se chegar ao resultado que pretendem, para se chegar ao golo, ou não? O jogador acredita no treinador ou não?! Há vários exemplos cabais disto, desde o Atleti de Simeone ao Nápoles de Sarri ou o Dortmund do Klopp. Mas, há dois exemplos inequívocos e um deles bem recente desta mesma ideia. O primeiro exemplo leva-nos de volta à melhor equipa da história: O Barcelona do Guardiola. Regressamos à segunda mão da final, contra o Inter de Mourinho, já nos descontos quando a equipa conquista um canto. Faltava cerca de um minuto para acabar o jogo e o que é que os jogadores decidem fazer deste canto? Sair a jogar curto, pois claro. Faltando apenas um golo para a final, num momento de desespero e pouco discernimento, os jogadores não conseguiram fugir daquilo que eram: Notável! O Barcelona acabou eliminado, mas naquele momento e apesar de ter perdido Guardiola mostrava ao mundo de que espinha era feito. Porque convenceu os jogadores de tal forma que eles foram capazes de morrer por aquela ideia. Para eles era aquela a fórmula para o sucesso, e era atrás dessa fórmula que iam. Com aquela escolha, os jogadores de Guardiola o separavam dos comuns e marcavam a diferença entre o seu treinador e a maior parte dos outros. É mesma diferença que Cruyff ou Sacchi marcaram: a ideia que eles vendiam aos jogadores triunfou. Não venceu os adversários, mas venceu o maior desafio que um treinador encontra: os seus jogadores.

E há na equipa de Paulo Fonseca uma semelhança incrível com tudo isto. Ontem, não ganhou o apuramento para a fase seguinte e ainda pode ser eliminado; mas ganhou algo bem maior. Ele hoje sabe que os jogadores dele não duvidam do seu processo de jogo e que o processo já é, também, deles. A vitória começa em Pyatov quando recolhe a bola depois de um livre directo. O guarda-redes como os comuns poderia, tendo em conta a situação e desespero, sabendo que precisava de marcar um golo com muita urgência, pontapear a bola para os colegas que se deslocavam na frente. Mas não. Não é isso que o treinador pede, não é isso que o treinador quer, não é para isso que o treinador trabalha. Ele coloca a bola jogável pelo chão. Rapidamente, como se impunha, mas a tentar fugir da aleatoriedade do jogo. O resto, o facto da equipa ter entrado dentro da área com a bola controlada, o facto dos jogadores terem feito pausas para dar tempo à chegada e ao movimento dos colegas, o não terem rematado de fora área assim que tiveram possibilidade, o não terem despejado a bola na área de qualquer forma, o terem combinado para tentar furar a defesa, e o terem criado uma possibilidade de quem finaliza fazer um passe para a baliza, é motivo para o treinador sorrir até ao final da sua carreira. Ainda que não o tenha feito naquele momento, talvez pela tensão do jogo e por sentir que não estava terminado. Paulo Fonseca não é Cruyff, não é Sacchi, nem é Guardiola. Mas é um treinador à sério, ainda que sejam outros a conquistar Ligas dos Campeões. Ser treinador com T é ser isto. Os outros podem ganhar mais e por isso serem mais falados, mas eu espero sempre que a diferença entre um treinador de nível mundial ou um qualquer curioso do jogo seja bem evidente.


28 de nov de 2018

Movimentos de Pochettino

No passado final de semana os Spurs bateram o Chelsea em grande parte dos aspectos do jogo, sobretudo na primeira meia hora. E há vários ângulos por onde explicar essa superioridade, tais como a forma como condicionaram a saída de bola, a forma como pressionaram no meio campo ofensivo para não dar tempo e espaço, a forma como fecharam dentro (em losango, como já fizeram noutras ocasiões) e com isso controlaram melhor Jorginho, ou pela forma que utilizaram para atacar a linha defensiva do Chelsea. Podemos também falar da forma pouco eficiente como o Chelsea pressionou, ou na pouca agressividade da linha média e avançada quando a bola estava dentro do bloco. Os golos que como sabemos costumam mudar os jogos, fizeram subir em flecha a confiança dos Spurs e cair à pique a confiança do Chelsea. Para lá disto, há muitos outros ângulos possíveis que em conjunto permitiram o domínio quase perfeito do jogo mas o principal, o início de tudo, está no Chelsea não ter conseguido ser igual a si mesmo em jogo. Fala-se num menor rendimento do Chelsea por a bola não ter entrado tanto em Jorginho, mas foi sobretudo a forma como a bola chegou (ou não chegou) a todos os outros que descaracterizou a equipa de Sarri. Demasiadas bolas longas para os duelos onde o Tottenham é muito superior. E mais do que isso, um jogo que o Chelsea não está habituado e que o seu treinador não quer jogar.

Esta introdução serve apenas para deixar claro que, o que está em causa neste post é apenas um de muitos motivos que podem explicar o jogo agregado à outros factores que falei aqui, e outros que não mencionei. Mas achei interessante focar-me, essencialmente, no timing ("marcadores"- referências) que Pochettino deu aos seus jogadores para acelerar o jogo: ao atacar a linha defensiva, a desmarcação nas costas da contenção que está fixa na bola.









Este tipo de movimento permitiu aos Spurs chegar com perigo várias vezes pelo aproveitamento do espaço que se criava pelo arrastamento dos defesas do Chelsea. Para resolver este problema, para lá do ter bola tempo suficiente, de da pressão mais eficaz, o Chelsea deveria ter sido capaz de evitar que fossem os defesas centrais a sair do seu espaço, e garantido que o movimento era coberto pelos médios. Em situações de transição seria quase impossível. Não conseguindo isso, o jogador que abordava o lance caso a bola entrasse deveria ser capaz de não deixar enquadrar fechando qualquer possibilidade de progressão e de passe, dando apenas como opção a linha de fundo (na melhor situação a bandeirola de canto). Deveria também ter sido garantida a cobertura dos espaços que ficaram livres, os ajustes, com a chegada mais rápida dos médios à esses espaços.

21 de nov de 2018

Disciplinar ofensivamente a anarquia defensiva


“Tira a bola daí!”

“Atrás não se brinca”

Espectadores (2018)

Arrigo Sacchi colocou a bola onde a coruja dorme quando disse: “O futebol é a coisa mais importante entre as menos importantes”. Apenas nos é possível apontar as falhas enraizadas no jogo se nos distanciarmos e pudermos identificar, antes, as falhas da sociedade onde o jogo se desenrola – princípio aplicável ao que se passa dentro de campo e ao que ocorre fora dele. Pensado por pessoas, praticado por pessoas e observado por pessoas, o futebol torna-se assim reflexo das culturas. Actualmente, a crise de valores da sociedade portuguesa deixa a evolução do jogo nas mãos dos raros individuais capazes de enriquecer as ideias de um colectivo, concorrentes directos dos muitos individuais que se acomodam à esperança de que o colectivo disfarce a escassez de ideias. Escusado será dizer, embora tão escusado quanto obrigatório, que a dança das cadeiras de oportunidades beneficie os segundos, nem que seja por culpa do raciocínio matemático probabilístico (“para todos os eventos arbitrários A1 e A2,, a probabilidade de que um ou outro evento se realize é dada pela soma das probabilidades de todos os eventos elementares incluídos em A1 ou A2”). Comecemos pelo princípio, que dentro de campo é sinónimo de sector defensivo, aquele que, talvez, mais castigado continua a ser pelas vulgaridades das multidões.

“Gastem dinheiro com os defesas, sobretudo com os centrais!”

Pep Guardiola (2013)

Se o mercado nacional de transferências – ao nível do investimento – se espelhasse num gráfico térmico, não restam dúvidas de que só Sporting, Porto e Benfica surgiriam na zona vermelha. Mais. A diferença para com os restantes clubes seria tão evidente que só existiriam duas cores. Sim, porque nem a soma das movimentações de Sp. Braga e Vit. Guimarães é capaz de se aproximar dos intitulados ‘três grandes’. Os porquês desta realidade levar-me-ia a começar outro texto. Contudo, vejamos que, segundo dados do Transfermarkt, nas últimas três épocas (2015/16; 2016/17; 2017/18), e subtraindo os ‘tubarões’, os defesas-centrais mais caros contratados para a Liga NOS foram Raúl Silva, pelos minhotos, e Pedrão, pelos vimaranenses, ambos por 2 milhões de euros. Sendo verdade que o poder financeiro dos clubes, em Portugal, é muito fraco, podemos verificar, através da mesma fonte, que o Vit. Guimarães gastou, esta temporada, 800 mil euros num extremo esquerdo (Davidson) e 700 mil num ponta-de-lança (Alexandre Guedes), enquanto o Boavista também investiu no ataque, despendendo 400 mil euros em Yusupha Nije (ponta-de-lança). Quanto ao Nacional, deixou em Arouca 1,20 milhões pelo médio ofensivo Aleksandar Palocevic. Se recuarmos uma época (2017/18), constatamos que o Estoril Praia, agora na II Divisão, investiu em dois extremos (Allano Lima, 265 mil euros; Matheus Índio, 175 mil euros), um lateral esquerdo (Aílton, 320 mil euros) e um ponta-de-lança (Jonata, 75 mil euros), tendo o Marítimo seguido a mesma linha de aposta, contratando Ibson, extremo esquerdo, por 50 mil euros. O ponta-de-lança Tomané, chegado ao Tondela nesse período, revelou-se a transferência mais cara de sempre do emblema nortenho, consumada pelo valor de 100 mil euros. A insistência no sector mais adiantado é a tendência das equipas com poucos recursos económicos e cuja maior fatia do registo de movimentações se prende em empréstimos ou contratações a custo zero.

“Se estiver a perder, é preciso colocar mais um defesa-central”

Johan Cruyff

Em Portugal, a estratégia defensiva foi-se estabelecendo mediante o culto do ‘chuto para a frente’. Importante vai mesmo sendo “tirar a bola dali de qualquer maneira”, ignorando que esse é o primeiro passo para voltar a oferecer o esférico ao adversário. Ainda que o paradigma tenha vindo a sofrer alterações positivas – olhemos para o Moreirense, de Ivo Vieira; para o Tondela, de Pepa; ou para o Belenenses, de Silas –, são poucos os treinadores que não se encolhem em demasia quando defrontam os ‘três grandes’, preocupando-se mais em ser reactivos do que pró-activos.
Há que ir prestando atenção aos sinais do futebol. Em Dezembro de 2017, o defesa-central holandês Virgil van Dijk juntou-se ao plantel do Liverpool e encheu os cofres do Southampton, detendo neste momento o estatuto de defesa mais caro de sempre. Custou aos reds 84,5 milhões de euros. Clément Lenglet, defesa-central ex-Sevilha, foi a segunda contratação mais cara do Barcelona esta temporada (39,90 milhões de euros), enquanto Sidnei, da mesma posição, chegado ao Bétis de Quique Setíen, um dos projectos mais promissores da Europa, custou 4,50 milhões ao emblema de Sevilha, apenas atrás de William Carvalho, médio defensivo, que rendeu 20 milhões ao Sporting. Marco Silva fez o Everton abrir os cordões à bolsa para ter Yerry Mina, contratado ao Barcelona por 30,25 milhões. A própria Juventus não se importou de reaver Bonucci pelo valor de 35 milhões de euros, que havia vendido ao AC Milan por 42 milhões na temporada transacta. Realidades financeiras inegavelmente diferentes, mas o que há a retirar destes dados é a preocupação dos melhores em garantir jogadores que apresentem qualidade no momento ofensivo. Matthijs de Ligt, da formação do Ajax, mostra-se, aos 19 anos, enquanto defesa-central mais promissor da actualidade.
Diria que a culpa… também é da cultura. 50 anos depois, a cultura de Cruyff, de Stefan Kovács ou Rinus Michels continua a influenciar o futebol holandês – e mais especificamente, o Ajax –, por isso é que vemos van Dijk e de Ligt a formar dupla na selecção, apresentando uma lógica de condução e até de drible, penetrando vezes sem conta na primeira linha de pressão adversária. Eles vão ‘contra as leis da lógica’, porque assumem o momento ofensivo indo além do passe. Se o risco aumenta? Claro que sim, mas não é também arriscado um extremo perder a bola com o lateral subido?

Faltam-nos (boas) referências e quem esteja disposto a criá-las. 

20 de nov de 2018

Liga revelação: uma liga para os jogadores ou para os treinadores crescerem?


A Liga Revelação,a prova sub-23 de clubes da FPF que arrancou este ano, tinha como objectivo ser um “novo espaço competitivo para a afirmação de jovens futebolistas”, tentando assim preencher uma lacuna que existia nos clubes portugueses: as equipas B que competem na segunda liga tinham custos muito elevados e havia pouco espaço para erros, já que maus resultados poderão levar a uma descida de divisão e consequente perda de competitividade e interesse. 

Ora, na recém criada Liga Revelação, irá existir uma primeira volta onde as 14 equipas jogam entre si a duas rondas. Posteriormente, os 6 primeiros classificados irão disputar a fase de apuramento de campeão, sendo que as restantes 8 equipas integrarão uma segunda fase também, jogando novam ente entre si a duas rondas. Importante salientar que esta "ronda dos vencidos" não conta para efeitos de descida de divisão, já que estas não existem.

Por um lado, podemos argumentar que esta nova competição apenas será apenas mais um escalão de formação, ou seja "mais um escalão de júniores". E, portanto, pouco ou nada trará a alguns jogadores, já que o nível competitivo será relativamente baixo, fazendo até com que alguns clubes acabem por abdicar da equipa B, que colocava jogadores num nível competitivo relativamente elevado. Por outro, esta nova liga, onde não existem descidas de divisão, abre espaço para o erro, mesmo nos clubes onde não existe uma estrutura paciente e capaz de incorporar esses mesmos erros.

Marcel Keizer, novo treinador do Sporting, que promete tentar incorporar um modelo ofensivo
No Meio Campo já teorizei algumas vezes sobre a abordagem ao erro e como ela pode influenciar a formação de um jogador (ver aqui). Sendo o erro o momento chave na aprendizagem, a pressão pelos resultados leva muitas vezes a que certos riscos não sejam tomados. E esta pouca tolerância para o erro não se aplica apenas a jovens jogadores em formação. Muitas vezes a pressão pelos resultados imediatos e o risco de descida de divisão leva a uma precariedade no trabalho dos treinadores, levando a que muitas vezes estes não tenham as condições necessárias para incorporar o seu modelo da melhor forma. 

Esta nova competição da FPF pode então revelar-se importante, não só na formação de jovens jogadores, mas também na formação de treinadores, conferindo um espaço competitivo onde estes poderão trabalhar calmamente, tentando encontrar as melhores formas para transmitir e operacionalizar as suas ideias. Assim, é possível que na Liga Revelação possamos assistir a equipas testando modelos mais interessantes e complexos, com uma abordagem mais positiva na busca pela vitória e não pela evasão à derrota. Isto é, a Liga Revelação poderá dar espaço para que as equipas tentem procurar chegar ao golo e à vitória de forma mais consistente, com menos preocupações em termos pontuais imediatos. O que, como defendo há muito, a longo prazo trará consequências positivas para o modelo da equipa, já que acredito que uma equipa estará sempre mais próxima de ganhar quanto maior controlo sobre a bola tiver e quanto mais procurar criar situações claras de finalização. 

Mais tempo para trabalhar o modelo e assim ter abordagens mais positivas, permitirá também ter um modelo que estimule e potencie os jogadores, valorizando-os e preparando-os para contextos mais avançados. Por exemplo um central que é estimulado e evolui no sentido de estar mais confortável com bola nos pés, capaz de atacar o espaço de forma a atrair a pressão adversária e gerar superioridade e espaços, valerá sempre mais no futebol actual do que aquele que não está à vontade com bola, quer em termos monetários, quer em termos desportivos.

E estas hipóteses sobre as quais aqui teorizo já têm sido observado, pelo menos em parte, por exemplo nas equipas sub23 do Rio Ave e do Vitória SC.

Pedro Cunha, actual treinador dos sub23 do Rio Ave, aqui ao serviço da equipa B na época passada
A equipa do Rio Ave que compete na liga revelação é orientada por Pedro Cunha, de 52 anos. Um homem da casa, Pedro Cunha já passou pelos postos de coordenador da formação vila-condense e treinador dos júniores, onde estabeleceu o Rio Ave como uma das equipas que melhor trabalha no capítulo da formação. No actual posto, Pedro Cunha montou uma equipa que pratica um futebol de posse e sem qualquer medo de ter a bola. Construção apoiada desde o guarda-redes - mesmo que pressionados - com o objectivo de fazer a bola chegar às zonas de criação nas melhores condições. Tentam sempre ter vários elementos entre as linhas defensivas do adversário, criando linhas de passe que permitam penetrar no bloco defensivo adversário.

https://twitter.com/omeiocampo/status/1064868052041375744

Luís Castro, treinador dos sub23 do Vitória SC
Também no Vitória SC se tem assistido a uma equipa que se rege aproximadamente pelos mesmos pergaminhos. Luís Castro, homónimo do técnico da equipa principal do clube vimaranense, desempenhou cargos semelhantes àqueles desempenhados por Pedro Cunha no Rio Ave. E tal como o treinador vila-condense, também Luís Castro tem criado na equipa de Guimarães um colectivo com uma abordagem muito positiva. Com uma construção apoiada desde o guarda-redes até às zonas de criação, sempre com a preocupação de ter linhas de passe próximas e atrás das costas da pressão adversária, o Vitória SC e uma equipa que se sente confortável com bola. Mesmo com pouco espaço tentam jogar curto e com qualidade, com o objectivo de chegar ao espaço entre a linha média e a linha defensiva adversária, espaço ótimo para tentar gerar situações de finalização. Numa equipa repleta de jovens, com especial destaque para Tomás Händel, um 6 que se apresenta muito confortável com bola e que poderá tornar-se um 6 moderno.


A prova de que estes trabalhos têm sido bem sucedidos é a sua posição na tabela classificativa, empatados na segunda posição, ambas com o melhor registo atacante (30 golos marcados em 13 e 14 jogos), à frente de equipas como por exemplo o Sporting. 

É ainda cedo para afirmar se a Liga Revelação é um sucesso ou um insucesso. Mas serviu, pelo menos, para provar que dando tempo e paciência aos treinadores para que estes possam implementar o seu estilo de jogo, é possível construir um modelo que aproxime a equipa do sucesso e que valorize os jogadores. Algo que em Portugal é, por vezes, esquecido ou ignorado.

PS: vídeos da autoria do Tiago. 

O Meio Campo

16 de nov de 2018

Guardiola conta-nos a história da laranja podre ao contrário


Para os mais apaixonados pela anarquia do que pelo jogo, a Premier League foi adquirindo o estatuto de crème de la crème – mérito para aqueles que vendem o produto, pois, nesse particular, a Premier League está para o futebol como a NBA está para o basquetebol. Vou mais longe, arriscando-me a dizer que a visibilidade da prova inglesa, que iniciou o seu boom em 1992, ano em que os clubes da Football League First Division romperam com a Football League de forma a aumentarem as receitas provenientes de direitos televisivos, teve um impacto directo na prática da modalidade. (Se se joga mal na liga mais popular do Mundo, por que é que as outras vão dar maior importância a esse aspecto?). Entre uma e outra janela de transferência foi-se alimentando o dogma de que o clube que gastasse mais milhões no jogador Y ou Z estava mais perto de vencer. Nos intervalos da chuva, quando um colectivo bem trabalhado superava a equipa do craque mundial colocavam-se as culpas na sorte – sorte, perceba-se, do colectivo bem trabalhado.

A chegada de Josep Guardiola i Sala aos holofotes ingleses, em 2016/17, pode ter sido a mudança de paradigma, a transferência que, primeiro, susteve o movimento natural da Premier League para, depois, lhe mostrar um caminho novo. Olhemos para os nomes sonantes, no que a técnicos diz respeito, da temporada anterior ao acordo entre o natural de Santpedor e o Manchester City: Arsène Wenger (Arsenal); Louis van Gaal (Manchester United); Jurgen Klopp (Liverpool); Manuel Pellegrini (Manchester City). Nessa época, nenhum ‘tubarão’ conseguiu destronar o futebol imperial do Leicester, campeão com 81 pontos. E reparem que não consigo escrever isto sem soltar uma ou duas gargalhadas. Contudo, assistiu-se ao clímax dos apaixonados pela anarquia, que de peito feito defenderam: “Veem?! A Premier League é a única competição na qual pode suceder haver um campeão que estava na Championship há duas épocas!”. Mas seria isso um elogio ao crème de la crème? Com Guardiola veio José Mourinho, regressado ao local, embora não ao clube, onde tinha sido feliz – há quem diga que esse é um passo a evitar –, e logo para lutar pelo trono de Manchester, que ainda vinha antes do que a coroa de campeão. Maradona, de um talento individual que irá encantar todos os capítulos da história do futebol, tem certamente os polos trocados. É uma pena, porque além de não ter alcançado lucidez nas suas últimas declarações, denoto que, actualmente, talvez não fosse aposta num XI lançado pelo treinador a quem decidiu dar crédito. Sobre esta rivalidade há pouco a desenlear, uma vez que o Mourinho “resultadista”, como lhe gostam de chamar, nunca esteve sequer perto de apresentar uma réplica do futebol de Pep. Por essa altura, deu sempre mais gosto assistir aos confrontos do espanhol frente ao argentino Mauricio Pochettino, que, aliás, lhe ganhou nos dois jogos para o campeonato.

Os 100 pontos alcançados pelo Manchester City em 2017/18 accionaram os alarmes da Premier. Decretou-se o fim da anarquia em terras britânicas. Após esse campeonato, em que a equipa que ficou no segundo lugar da classificação (Manchester United) somou menos 19 pontos, aqueles que vendem o produto não puderam mais ignorar o óbvio: era peremptório munir a prova de cérebros capazes de dificultar a tarefa de Guardiola. Finalmente, em 2018/19, a Premier League tem ao seu dispor qualidade de jogo, o que também aumentou a competitividade dos clubes ingleses na Europa. E os louros são de Maurizio Sarri, Unai Emery, Pep Guardiola, Jurgen Klopp, Mauricio Pochettino, Marco Silva (a nível nacional e internacional) e Nuno Espírito Santo (pelo excelente trabalho que está a fazer no Wolverhampton). Claro que ajudam Hazard, Jorginho, Lacazette e Ozil, David Silva, Bernardo Silva, Firmino e Salah – posso ficar aqui até amanhã. Mas a grande alteração está na aposta naqueles que os põem em acção, porque a Premier League esteve anos e anos carente de boas ideias e não de bons jogadores.

Até quando, Portugal?

15 de nov de 2018

Passe Chave. O desmontar de um problema estatístico para "totós".

Nos últimos dias o Expresso publicou um texto sobre os perigos que considero evidentes na recolha dos dados estatísticos, e na sua utilização por si para se analisar um jogo ou a performance individual de um jogador. Artigo esse que foi sendo debatido, ainda que sem grandes argumentos para rebater o que pretendia demonstrar. Houve pessoas que por não conseguirem visualizar os exemplos que dei, por não terem conseguido imaginar as situações que descrevi, ficaram com uma má impressão do mesmo e comprometeram por isso a leitura. Houve também pessoas que, tendo a capacidade para perceber as situações descritas, doaram a capacidade interpretativa para caridade. Há ainda um terceiro tipo de pessoas, que vou esmiuçar no final com uma pequena brincadeira.

Para os dois primeiros tipos de pessoa percebi que mostrando uma situação em vídeo relacionada directamente com dados que se usam ficaria mais fácil. Então, aqui vai uma outra explicação de um ângulo diferente do texto:


No jogo da Liga entre o Porto e o Braga Ricardo Horta faz um passe para Esgaio que remata a bola ao poste. Esse passe de Horta é naturalmente considerado um "Passe Chave", e se desse golo estaria na lista das assistências para golo. Está também enquadrado na percentagem de passes acertados. Mas será que é mesmo assim?!


Como se pode perceber, Horta tem o constrangimento de ter um colega a colocar-se na trajectória de passe mais directa para colocar a bola no espaço. Porém, poderia ter agido de várias formas para que a linha de passe se abrisse. Com o defesa mais perto de Esgaio completamente atraído pela desmarcação de um colega seu, e com os apoios completamente fixos, poderia ter conduzido mais ou ter esperado um pouco mais para a linha de passe se abrir. Ou não o fazendo, poderia colocar a bola à frente de Esgaio (nas costas da linha defensiva do Porto) e não o obrigar a parar o seu movimento dando tempo para o defesa se aproximar. A opção não foi, simplesmente, boa. Longe disso. Se por constrangimentos na execução, ou na decisão, não sabemos; sabemos apenas que aquele não foi um bom passe.


A tabela anterior foi retirada aleatoriamente de um site, também ele aleatório, apenas para efeitos de demonstração. Vamos imaginar que o jogo entre o Porto e Braga eram aqueles 90 minutos que foram jogados na UEFA Nations League. O passe de Horta teria seguido directamente para a categoria dos passes chave (KeyP), e também somaria na categoria da percentagem de passes certos (PS%), pese embora não tenha sido um bom passe. Pese embora tenha sido um passe que prejudicou mais do que ajudou o colega na definição da situação. Pese embora tenha sido um passe que de "chave", ou de "certo" teve nada. Para a estatística isto é mais uma unidade recolhida que se vai juntar às unidades que avaliam positivamente o jogador, quando deveria ser precisamente o oposto. E é este um dos grandes embaraços que coloco no texto: Por cada lance ter a sua particularidade, há o problema de agregar os lances todos na mesma categoria sem a informação que o complemente.

Outro problema que eu coloco é o do valor da acção. Ou seja, naqueles dados em momento algum está contabilizado o valor da desmarcação de Esgaio. Partimos do princípio que o mérito é todo de quem faz o passe e esquecemos que sem a desmarcação nada daquilo seria possível. Então, como é que podemos contabilizar esta interacção entre estes elementos para que a avaliação seja justa? Para que Esgaio pela desmarcação, ou para que o avançado que arrasta o defesa tenham uma avaliação condizente com a influência que tiveram no desenrolar do lance?

O terceiro tipo de pessoas reagiu ao artigo puxando de galões, sem nenhum valor argumentativo, como se a avaliação e a defesa do seu ponto de vista estivesse garantida pelo "status quo". Para esse tipo de pessoas o Heliocentrismo e Galileu nunca teriam vingado, porque o aval estava garantido pelo estatuto e não pela força da ideia. Esquecem-se que para cada defesa desse tipo há um ataque possível na mesma medida; sem contexto, sem argumentos, sem relações lógicas. Ora veja por si.


14 de nov de 2018

Pressão sem organização: o exemplo do Barcelona de Valverde

Há uns anos atrás, entrevistado por Pedro Ricardo da Silva Batista no âmbito da sua tese de mestrado ("Organização Defensiva: Congruência entre os princípios, sub-princípios e sub-sub-princípios de jogo definidos pelo treinador e a sua operacionalização"), Vítor Pereira - atual campeão chinês ao serviço do Shanghai SIPG - referia o seguinte sobre o momento da organização defensiva, mais concretamente sobre os momentos de pressão:

«O que eu posso dizer é que, o que pretendo na minha equipa, é uma equipa com uma organização defensiva inteligente, inteligente no sentido de diferenciar ritmos, ou seja, às vezes parece passiva mas quando identifica os referenciais de pressão, acelera e torna-se imediatamente pressionante e agressiva. Eu não quero uma equipa que pressione constantemente, eu quero uma equipa que espera pelo momento certo para acelerar sobre o adversário em bloco, de perceber o momento colectivo de pressão, e não uma equipa que a cada passe pressiona o adversário. É uma organização zonal, que se torna pressionante nos momentos que eu acho que ela deve ser pressionante, porque quem pressiona sem cérebro, quem pressiona as bolas todas morre a meio do campo, perde discernimento. Eu não quero esse tipo de organização defensiva, eu quero uma organização em que os 11 jogadores do campo entendam o momento em que temos de ser agressivos, quando temos de acelerar sobre o adversário, quando de facto funcionamos em bloco, devemos identificar os momentos de pressão colectivamente».

Faz todo o sentido não faz? Agora vejamos o que faz o Barcelona de Valverde neste momento do jogo.

Ausência de coberturas defensivas, e nenhuma preocupação em controlar o espaço. Querem sempre r
Nenhuma preocupação com as coberturas defensivas de modo a tornar o bloco defensivo o mais compacto possível. O objetivo é sempre tentar aproximar dos jogadores do Bétis para recuperar a bola, e o resultado é quase sempre o mesmo: muito espaço entre a linha defensiva e a linha média, e os jogadores do Bétis a conseguirem receber a bola apenas com os defesas do Barcelona pela frente. 

Apenas alguns exemplos (podiam ser muitos mais só no jogo com o Bétis) da desorganização defensiva que existe no Barcelona de Valverde. Uma equipa sem o mínimo de trabalho coletivo no momento defensivo, que muito raramente consegue definir de forma eficaz as zonas e os timings de pressão.

Esta época tem sido demasiado fácil construir e criar situações de golo contra o Barcelona, e não é por acaso que têm o pior registo defensivo dos últimos 43 anos: 18 golos sofridos em 12 jornadas. 







13 de nov de 2018

O (des)aparecimento de Oliver

"Lá fora perguntam-me constantemente como é que se vai buscar jogadores ao futebol português se as equipas não nos permitem perceber as qualidades deles de forma consistente, por estarem maioritariamente envolvidos em tarefas defensivas ou em duelos"
José Boto

A frase do novo Chief Scout do Shakhtar é contundente, e dá uma imagem perfeita do porquê de verdadeiros craques como Oliver passarem totalmente despercebidos em Portugal. A chave para isto são os modelos de jogo pouco integradores para este tipo de talento. Olha-se para Oliver, e aquilo que acrescenta na posição recuada onde agora actua é muito pouco em comparação com tudo o que pode dar na criação, na definição. Mas para isso é preciso ter a sorte de encontrar o que muitos outros talentosos como ele não encontraram e o que Bernardo Silva teve a sorte de encontrar: um modelo de jogo que o beneficie. Vemos a forma como o Porto joga, olhamos para as melhores qualidades de Oliver, e damos por nós a avaliar um jogador criativo pelo número de recuperações de bola que teve, ou pelo número de duelos que venceu. E tudo por força das exigências de um jogo em que tenta sobreviver. É isto que Oliver tem feito em Portugal; nada mais do que tentar sobreviver.


Oliver recebe uma bola difícil, pressionado, consegue sair da situação de maior dificuldade e quando esperava por auxílio dos seus colegas (pelo movimento do central para lhe dar uma solução de passe, ou do médio defensivo para lhe permitir mais uma opção) ninguém se move um centímetro. Apenas Maxi com a sua disposição natural para receber a bola tenta dar-lhe uma opção de passe válida. Oliver volta a virar-se e joga na frente. Percebe-se, aqui, o porquê de Oliver não ter aparecido antes e prevê-se por isto um novo desaparecimento. Afinal, as condições que o treinador lhe dá não são as melhores para que se possa evidenciar.



Se o modelo de jogo fosse outro, Oliver transportaria para o jogo o que tem de melhor. Neste lance, nem tem os apoios correctamente orientados para a situação em que poderia receber a bola, talvez por falta de estímulos. Repare-se, a imagem é uma sugestão de movimentos, de posições, para tirar partido da largura, dos apoios e da profundidade. Se em vez de jogar logo em Marega, se tivesse procurado Oliver primeiro, Oliver poderia aproveitar os movimentos de profundidade para libertar Soares entre linhas e assim criar uma situação de 4x4+GR. Caso o ajuste do Braga fosse para manter a linha alta, poderia ele então, com um passe mais fácil que o do central, tentar explorar o passe em profundidade. Porém, o jogo que Sérgio Conceição promove, apesar da eficácia e de ir de encontro às características de muitos dos seus jogadores, não é tão complexo assim. E essa falta de complexidade retira de jogadores como Oliver a possibilidade de vingar regularmente. Assim como apareceu tenderá a desaparecer, simplesmente porque o seu jogo não é este.


Numa altura em que os grandes clubes contratam jogadores cada vez mais cedo, cada vez mais novos, é urgente que Oliver tenha a fortuna do encontro perfeito com o treinador ideal para que daqui por uns anos não seja apenas mais um caso de jogador com uma categoria enorme que passou ao lado de uma magnífica carreira.
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