20 de fev de 2019

Rápido, rápido, rápido, Firmino!!!

O Liverpool é, e tem sido, uma das melhores equipas da Europa por força do trabalho transformador de um treinador a quem foi dado tempo e espaço para trabalhar. Klopp é um privilegiado uma vez que não há registo de tanta longevidade sem títulos nas grandes equipas europeias, depois do afastamento de Sir Alex e de Wenger. Mas, há muito mérito no trabalho de um treinado quando mesmo sem títulos consegue alterar a dinâmica de uma equipa e transforma-la de forma unânime nas melhores do continente, mantendo o foco de todos naquilo que jogam e conseguindo fugir na maior parte do tempo das questões que surgem com a ausência de títulos. Jurgen Klopp é o meu treinador preferido, não o escondo; ainda que não o ache o melhor do mundo. E o detalhe que me apaixona na sua equipa é precisamente o que, para mim, faz com que não seja o melhor: a vertigem. É-me difícil seguir um jogo do Liverpool sem entusiasmo; pela proposta de jogo do seu treinador, pela personalidade e pelo que transmite dentro e fora do campo, e por a equipa personificar quase na perfeição o jogo que o treinador imagina; aquilo é uma loucura constante! A ideia que Klopp traz para divertir os seus adeptos, e os que como eu são fãs da proposta, é um jogo de ataque constante à baliza do adversário. Aceleram, ligam aos velocistas Mane e Salah, e aquilo ganha uma dinâmica extraordinária.

Mas há Firmino!: o elemento diferenciador de toda a forma de atacar do Liverpool.

Quando falámos das qualidades dos jogadores, normalmente, caracterizamos aquilo que por si os jogadores conseguem fazer em campo, esquecendo-nos na maior parte do tempo da influência que os jogadores têm nos colegas pelo estilo de jogo ou pela personalidade. E enquanto se fala de Mane e Salah como fundamentais para a ideia de Klopp, da velocidade e da qualidade com que executam, da forma como resolvem situações de vertigem com qualidade, da forma como são beneficiados pela proposta do seu treinador, deixamos de lado o elemento disruptivo que se impõe contra a corrente do jogo da equipa. Ou melhor, contra a corrente da velocidade com que a equipa ataca. Enquanto vão todos rápido, rápido, rápido, Firmino ganha preponderância por ser posse, por ser no pé, por travar e só depois procurar o espaço. E não só é muito difícil para um jogador aparecer nessas condições. Contudo, Firmino o faz da melhor forma possível: conseguindo influenciar o estilo de jogo dos colegas.

Não são raras as vezes em que o Liverpool contra-ataca ou vai em ataque rápido de forma lenta. Mas na esmagadora maioria das vezes tal acontece pela pausa de Firmino. Que não só beneficia os seus colegas, abrindo-lhes espaço pelos movimentos que faz, como consegue gerar uma variabilidade marcante do jogo do Liverpool tornando-o menos previsível. Quando ele recebe a bola os colegas deixam de procurar apenas o espaço e começam a preparar soluções para permitir a Firmino, em combinações, com a bola no pé, criar situações de finalização. Assim como quando Firmino se aproxima, não só eles o procuram para lhe dar a bola, como o procuram de forma diferente de todos os outros. Sabem que ali é para travar, para combinar, e para dar e receber numa condição diferente. Este princípio, que creio ter sido criado pela relação que os jogadores desenvolvem e aproveitado pelo treinador, é o que marca a diferença quando se fala das capacidades do avançado brasileiro. A influência e o peso que ele tem no jogo da equipa, a forma como consegue abrandar os apressados, a alteração que faz da matriz de jogo da equipa - e dos colegas velocistas - de espaço para posse é dos maiores elogios que se podem fazer a um jogador.

Por isso, das próximas vezes que ouvir falar de Mane, de Salah, e da louca ideia de jogo do Liverpool que tanto me diverte, lembre-se que há Firmino. Lembre-se que há dentro de campo um semáforo a ordenar os ímpetos das potentes motas dos Reds, e a jogar numa posição onde semáforos há poucos.

4 de fev de 2019

Ejaculação precoce


O vosso semblante já agoira um sorriso. Ainda não leram nicles. É simples seduzir-vos a atenção. Abriram o artigo instigados pelo título e agora estou para aqui a debitar letras aleatórias: rgAÍyjmpVEMqazxMAISpoiyUMçlkjCRUZAMENTOzxcvDOuhbvJEFFERSON. Têm um desafio pela frente. Ou lidam com a evidência de que foram gozados, aprendendo a lição de que não só este estilo de títulos merece a vossa atenção, ou conduzem o cursor até à cómoda cruzinha situada no canto superior direito, abdicando de descortinar o real motivo deste texto. Uma decisão tomada de forma precipitada releva aquele que pode ser o primeiro sintoma de ejaculação precoce.

Olá. Sou a figura que vai fazer comichão à natural apetência do ser humano para sentar alguém no banco dos réus. Que levantem a mão direita aqueles que atribuem a culpa a Marcel Keizer. Estão todos? Entretanto, a frente que tem o dedo apontado à falta de qualidade do plantel deve erguer a mão esquerda.

Para que conste, levantei as duas. E vocês, caso não sofressem de ejaculação precoce, também tinham levantado. Vamos ouvir as respectivas defesas, partindo do pressuposto de que elas não se refutam.

Defesa de Marcel Keizer 
O meu cliente aterrou no local do crime sem ter realizado pré-época (esta é a que funciona sempre, a que surge tal verdade de La Palisse, de foro idêntico à seguinte). O actual plantel não foi escolhido pelo meu cliente, factor que condiciona a implementação do seu futebol de autor – Bruno Gaspar, André Pinto ou Jefferson, nomeando somente alguns dos que primam pela falta de qualidade, não seriam escolhas de Marcel Keizer. Por esta ordem de ideias, o conflito entre o seu estilo de jogo e a exigência de vencer iniciou o seu movimento de estrangulação desde o dia 23 de Dezembro de 2018, data da derrota por 1-0 no D. Afonso Henriques, quando a aposta, por necessidade, em jogadores da actual segunda linha – Bruno Gaspar, André Pinto, Diaby e Jovane Cabral –, lhe fez acreditar que, daí em diante, sentiria problemas em ter sucesso sem que colocasse a apetitosa pitada de estratégia junto da sua ideia original.

Defesa da falta de qualidade do plantel 
Assumir, no início da época, que o Sporting podia lutar pelo título está, de forma clara, a inflacionar as debilidades dos jogadores. Estes são os mesmos que levaram Marcel Keizer a brilhar no plano ofensivo no período dos sete triunfos consecutivos. A defesa do técnico holandês fez referência ao dia 23 de Dezembro de 2018, mas ignorou a alusão ao dia 7 de Janeiro de 2018, data em que, em Tondela, o treinador desrespeitou todas as ideias que o plantel andava a assimilar nos treinos para recorrer ao precário chuveirinho. Nessa noite, Keizer caiu no descrédito da equipa, pois há poucos indicadores piores do que um líder abandonar as suas motivações. Escreveu Carlos Daniel, há menos de um mês: “ (…) Sugerir a um treinador que mude simplesmente não será muito diferente do que reclamar de um prosador que se torne poeta só porque lhe saiu mal o último romance (…) ”.

Defesas ouvidas nas mesmas 10 linhas. Por esta altura, tal como no parágrafo inaugural, têm um desafio pela frente. Ou lidam com a evidência de que racionalizar a natural apetência do ser humano para sentar alguém no banco dos réus é o processo que nos diferencia dos animais, mostrando, assim, capacidade de olhar para o futebol como um todo, ou conduzem o cursor até à cómoda cruzinha situada no canto superior direito, abdicando de descortinar o real motivo deste texto. Já sabem… Foi a ejaculação precoce que vos fez sentirem-se tão frustrados durante Bandersnatch.

31 de jan de 2019

Assisti a um vídeo de 3,33 minutos a respeito da invenção da roda antes de escrever sobre Daniel Bragança

FOTO Global Images 

Existe um filtro muito popular entre a comunidade de cérebros online – o Instagram também deveria equacionar a opção de substituir o Gingham, que ninguém utiliza, por algo deste género – chamado ‘consenso’. O ‘consenso’ é porreiro. A odd alusiva à perda de seguidores diminui, o engagement da publicação assume valores de eficácia equiparáveis à aposta de Fejsa no 11 titular (ou seja, é como o Melhoral: nem faz bem nem faz mal) e o cérebro número dois, ao identificar-se com o ‘consenso’ do cérebro criador, deixa o seu ‘like’, permitindo ao cérebro número três sentir que faz parte de ‘uma cena’ e ao cérebro número 61 achar-se o dono disto tudo. O Kevin Systrom e o Mike Krieger estão aqui a pedir um exemplo que os ajude a calcular o sucesso do novo filtro. Cá vai: o Daniel Bragança precisa de rodar. 

Assisti a um vídeo de 3,33 minutos a respeito da invenção da roda antes de escrever sobre o Daniel Bragança para ser capaz de afirmar que a prova mais antiga da existência dessa brilhante criação data de cerca de 3.500 a.C. e foi encontrada na região da antiga Suméria (Mesopotâmia, actual Iraque). Imaginem que, já nessa altura, os idiotas dos sumérios – é consensual que podemos brincar com a etimologia da palavra, fazendo de conta que se refere a quem tem bastantes ideias, certo? – utilizavam a roda para deslocar cargas muito pesadas, possibilitando-me a analogia de hoje. De facto, para andar aí a rodar, o Bragança só pode ser muito pesado para este campeonato. 

Bom é o Battaglia, cuja etimologia do apelido nos oferece logo um lamiré das suas características em campo e até se torna sugestivo para os trocadilhos, o Petrovic, que em três anos de Sporting viveu o seu momento alto de consenso por culpa do nariz, e o Misic (ainda me lembro daquele golaço frente ao Empoli. Ahhhh...!). O Daniel Bragança? Vais para o Farense para veres como é que elas te mordem! Vens de lá feito um jogador de barba rija, daqueles que sabem mostrar os dentes. Ou então fracassas redondamente, dando visão de jogo, definição de passe e transformando o Caos em Eros. Se isso acontecer é que será uma lástima, pois ninguém irá suportar o choro dos groupies que veneram o físico ao invés de admirarem o talento. 

Fora de brincadeiras, inscreve-te num ginásio. Até lá, jamais terás força para lutar contra o ‘consenso’ que garante que apenas os fora de série como o Xavi ou o Iniesta é que podem vingar na zona do campo que pisas. Nem de propósito, o Idrissa estreou-se frente ao V. Setúbal. Elogiaram-lhe mais o físico do que alguma vez aplaudiram as tuas recepções orientadas e a intensidade (que insistem em sublinhar que não tens). Também apontaram dificuldades ao marfinense na transição defensiva e no entrosamento com os colegas, mas, como sabes, a margem de erro para um médio com 1,87m é superior à de outro com 1,69m. Malditos sejam os Sumérios. À pala deles andas aí a rodar consensualmente.

17 de jan de 2019

Do complementar ao fundamental: Bielsa e Sétien.

Marcelo Bielsa tem estado nas bocas de quem anda por dentro do jogo por força de se ter descoberto, e do próprio ter confirmado, que costumava espiar os treinos do adversário. Recentemente fez uma apresentação das observações que fez aos adversários todos, e espantou com isso algum público por fazer da observação, da análise do adversário, da estratégia, uma das armas ao seu dispor para tentar vencer o adversário. Parecendo espantoso que um treinador com um estilo mais vincado, com um estilo mais ofensivo, também utilize informação sobre o adversário para tentar aumentar as suas hipóteses de sucesso, como se não fosse essa uma área complementar.

Vem isto ao caso do valor e da importância que se quer dar a esta vertente para o rendimento, não como área complementar mas como tão importante ou tão fundamental quanto a identidade da equipa.

Com a evolução dos meios de informação e de análise, com as novas tecnologias, a vertente estratégica, a observação do adversário, tornaram-se mais precisas. Hoje é mais fácil recolher e trabalhar a informação, bem como transmitir a mesma aos jogadores. Porém, não foi esta a única área adjacente que cresceu na mesma medida que o jogo. Por exemplo: Estamos hoje mais preparados para prevenir e tratar lesões; A preparação física dos jogadores está num nível elevadíssimo; A nutrição está como nunca antes dentro do jogo; A psicologia cresce todos os dias e os seus métodos são cada vez mais efectivos; O controlo e tratamento do treino é cada vez mais uma ferramenta de optimização do rendimento; O treino está cada vez mais completo e mais evoluído do ponto de vista metodológico, e abrange cada vez mais todas as áreas que complementam o jogo; Etc. Se o jogo cresceu, foi também pela evolução natural de todas as áreas adjacentes ao que se faz dentro das quatro linhas. Porém, o grau de importância de cada uma dessas áreas mantém-se.

Veja-se por exemplo que melhor que a análise e observação per si é a análise e observação especifica. Isto é, a análise e observação dos pontos fortes e pontos frágeis do adversário em relação com a nossa identidade. Quais são as nuances ofensivas e defensivas do adversário que nos vão colocar em dificuldade? Quais são os seus movimentos ofensivos e defensivos que nos vão dar conforto para sermos o que somos normalmente? Quais são os jogadores adversários que têm mais capacidade para romper com a nossa forma de jogar, e quais os que terão mais dificuldade em superar-nos e nos permitirão mais facilmente ligar no nosso jogo?

Quique Sétien numa apresentação aos jogadores para o jogo contra o Real Madrid fez uma previsão de que comportamentos deveriam os seus jogadores adoptar no momento ofensivo para tirar vantagem da forma de pressionar do Real Madrid. Isto sem perder de vista o que fazem regularmente.


Para que a observação seja mais efectiva é necessário que exista uma identidade bem trabalhada - sem o fundamental o complementar perde valor. E deve assumir-se sempre a informação que se tem à priori tem um nível baixo de fiabilidade!, uma vez que os outros treinadores fazem o mesmo trabalho que nós. Ou seja: Assim como eu tento explorar as fragilidades, tento reforçar as nossas fraquezas em relação ao que eles fazem, e tento enganá-lo numa ou noutra nuance, o outro treinador fará o mesmo trabalho em relação à nós. Pode por isso acontecer que o adversário se transfigure completamente e que a estratégia trabalhada durante a semana vá por água abaixo logo no primeiro minuto. E no jogo contra o Real Madrid foi exactamente o que aconteceu: a pressão do Real Madrid não foi a que se esperava, jogaram mais baixos e retiraram o espaço que o treinador do Bétis esperava encontrar. E que resta depois? O jogo acaba na estratégia que se trabalhou, ou haverá algo de uma ordem de grandeza muito superior a tudo isto?

A única coisa que resiste à imprevisibilidade do futebol é o modelo de jogo; é a identidade criada todos os dias em todas as sessões de treino. É o que se trabalha em função de retirar o melhor dos jogadores, e é o que se trabalha durante mais tempo numa época. Os treinos de estratégia são muito poucos em comparação com os outros, e por isso o tempo para os jogadores absorverem a informação é menor. Logo por aí a estratégia nunca será tão importante, até porque a informação de semana à semana se altera. E, ainda há o pequeno problema de nem toda informação ser revelada por existir o risco de descaracterização da equipa: quando há quem por estratégia para anular ou enganar o adversário se esquece de si mesmo, e acaba por anular-se perdido nas nuances do adversário.

Por tudo isso, nunca se poderá comparar a importância do modelo de jogo - de criar uma identidade colectiva - à todas as outras áreas que tão bem complementam o jogo. Marcelo Bielsa explica bem na apresentação aos jornalistas que, apesar de analisar ostensivamente, exaustivamente, e com a maior minúcia possível todos os adversários, o fundamental continua a ser ele, os jogadores, o clube, e os adeptos: A identidade.


PS: Seria interessante ver Bielsa ombrear de igual, ao nível de qualidade individual, com Guardiola, Klopp, ou Sarri. Mas nada seria mais interessante do que vê-lo evoluir no momento defensivo. Um bocadinho de organização zonal, como Sacchi mostrou há mais de duas décadas, seria um upgrade brutal no seu jogo. Ainda assim, como se percebe, desde que continue a marcar mais golos do que os rivais e a defender-se tendo muito mais bola do que o adversário será sempre um treinador importante.

16 de jan de 2019

O estranho caso do desaparecimento de Bas Dost

FOTO Getty Images

As premissas são lançadas ao ar enquanto o povo, embasbacado, boquiaberto, pasmado, as observa, à espera de que, sei lá, o vento as desmistifique e as devolva desembaraçadas. Nem o eco das repetições sem brilhantismo, tão pouco o dorido de quem está identificado com o ricochete dos falsos axiomas a estalar-lhes no rosto – porque, sem recurso ao raciocínio, o que lançamos ao ar com 50kg cai-nos em cima com 500 –, estimula a curiosidade de descobrir os porquês no futebol.

Premissa: “Bas Dost desaparece nos jogos grandes”
Mais um clássico, mais um jogo em que Bas Dost foi uma nulidade. E é isso em que Bas Dost se torna longe da área e no meio de defesas competentes. Parece que dizer, em voz alta, que o holandês é um bom finalizador, mas um avançado limitado, aleija. O óbvio não deve ser ignorado porque Bas Dost, ipsis verbis, “já salvou muitas vezes o Sporting” e “marca muitos golos”. Dentro de cenários de dificuldade aumentada, dificilmente iremos ouvir Thunderstruck ao ritmo de uma boa exibição, sendo que deveria ser escusado referir que “ao ritmo de uma boa exibição” faz toda a diferença nesta avaliação, porque um golo frente ao FC Porto iria cegar os mais desatentos.

Nos tais cenários, (vou repetir). Nos tais cenário, (remetendo para: cenários de dificuldade aumentada - em Portugal, temos de defender a nossa escrita), Keizer, que nunca pode marcar presença no grupo dos desatentos, continuará a preferir ter menos um jogador a construir em zona avançada? Bas Dost mostrou dificuldades em dar continuidade às associações, competência que até demonstra ter noutros encontros, possibilitando os tão úteis apoios frontais, não ganhou duelos (aéreos, perdeu-os quase todos contra Militão, tendo Felipe vencido os quatro disputados), não soube o que fazer com bola antes do meio-campo, não teve/tem velocidade para explorar as costas da defesa adversária, não temporizou (…).

Posto isto, questiono: no dia em que lhe falte a finalização, como sucedeu no passado sábado, para que serve ter Bas Dost enquanto número 9 nestes jogos? Limitar-se-á a servir de farol para o guarda-redes na reposição (no clássico, Renan não ligou com Bruno Gaspar, Coates, Mathieu, Jefferson, nem Ristovski, mas tentou com Dost. Seis vezes), já que essa tem sido a estratégia do treinador do Sporting face aos opositores que apresentam uma pressão alta? Revela-se curto, porque nos tais cenários estão centrais prontos a reduzi-lo a nada.

A chegada de Keizer renovou-me as esperanças de que Fredy Montero iria ganhar protagonismo no eixo do ataque. Assim, cai por terra mais um pouquinho da alegada frescura trazida pelo ex-Ajax, que tem de ser capaz de ver além da estatística (Dost é o segundo melhor marcador da Liga NOS, com 10 golos, seis de grande penalidade) e/ou criar condições - por exemplo, trabalhando um 4x4x2 que possa ser opção nessas partidas - que espremam as qualidades do holandês.







4 de jan de 2019

Era uma vez a merda dos três pontos

                                      Foto Isabel Cutileiro
Futebol não é ginástica de trampolim. Na ginástica de trampolim, a exibição de Diogo Ganchinho é pontuada mediante um conjunto de directrizes que guiam o júri na avaliação da série – nota de dificuldade, nota de execução e tempo de voo, itens cotados individualmente com o propósito de gerar um resultado final. No futebol, que não é uma modalidade individual, mas cujo rendimento dos individuais deve ser avaliado, também existem directrizes, sendo que a principal diferença sustem-se na inexistência de um júri que as ligue ao resultado final e que esclareça ao espectador que o facto de Bruno Gaspar ter marcado um golo é óptimo, mas não uma borracha capaz de apagar as fracas notas que perfazem os restantes itens da sua exibição.

Confrontados com a perpétua realidade de que os únicos júris do futebol irão continuar a ser aqueles que contemplam as equipas de arbitragens, cabe aos treinadores, aos analíticos, aos jornalistas e aos comentadores mediar a transacção de conhecimentos com o público. Caso contrário, os golos fazem de Bruno Gaspar o homem do jogo (não foi) e a merda dos três pontos faz do Sporting o melhor conjunto em campo (não foi). Felizmente, na Liga NOS, existem profissionais como Luís Castro, Ivo Vieira ou Marcel Keizer.

Vamos ‘ouvir’ as palavras do técnico leonino após o triunfo por 2-1 frente ao Belenenses SAD: “Para mim, foi um mau jogo. Tivemos dificuldades no passe. Ganhámos, mas não foi bom”

Agora, passamos para as declarações de Rui Vitória no seguimento do empate (1-1) na Vila das Aves, que qualificou o Benfica para a final-four da Taça da Liga: “Se houvesse necessidade de vencer teríamos uma abordagem diferente. Mas atingimos o que queríamos” 

Cada treinador tem o direito de escolher o estilo do seu discurso, embora também lhe seja apontado o dever de instruir os adeptos, ao invés de lhes gostar de contar consecutivas narrativas retiradas de histórias de encontros que nunca existiram. Finalmente – e é bom que os ‘três grandes’ sejam palco de metamorfoses positivas, dado o maior mediatismo –, parece que a merda dos três pontos começa a revelar-se insuficiente para encobrir o fraco futebol. Assim se explicam os despedimentos de José Peseiro e Rui Vitória, que apesar de terem oficializado as saídas dos respectivos clubes depois de duas derrotas, afastaram-se (ou foram afastados) antes de comprometerem as épocas das equipas.

Por outro lado, os restantes emblemas começam a dar maior valor ao bom futebol na relação exibições/resultados. Vejamos que, à passagem pela sétima jornada, o Portimonense de António Folha recebeu e venceu o Sporting de José Peseiro por 4-2, mas ocupava o 15.º lugar da classificação. À entrada para a 17.ª, estaciona-se num merecedor 7.º posto. Vitória Guimarães, Moreirense, Belenenses SAD e Nacional, todos na primeira metade da tabela, são outros exemplos de que as dores de crescimento da prática de um futebol positivo valem a pena num projecto a longo prazo.

Gostava de ver a nossa Liga a crescer, porque num país onde há tanta matéria-prima de qualidade, por vezes parecemos escravos da ignorância. Se o número de pessoas a opinar sobre futebol fosse o mesmo do que aquele que opina sobre ginástica de trampolins… seríamos muitos.

28 de dez de 2018

Princípio da Incerteza

A mecânica quântica explodiu quando se percebeu que as teorias existentes começavam a ser curtas e foram gradualmente sendo deixadas para trás depois de Heisenberg ter formulado o "Princípio da Incerteza". Quando anteriormente era enunciado poder-se saber a posição exacta de um electrão, Heisenberg argumentou no sentido oposto dizendo que na electrosfera de um átomo é impossível saber-se da sua  posição exacta. A formulação, que na altura o levou a tal tese, foi posteriormente demonstrada curta nos factores que utilizou mas foram a chave para a evolução e sedimentação do seu princípio do ponto de vista da incerteza intrínseca de um sistema quântico. O futebol tem entranhado nos seus fundamentos mais básicos este mesmo principio - por ser um sistema super dinâmico é impossível controlar a sua natureza aleatória. E o jogo é incerto em demasiados factores para que se possa enfatizar um que não se controla como decisivo no trabalho de quem faz, ou deve fazer, por fugir dessa aleatoriedade.

Do profissional ao amador o futebol tem os mesmos fundamentos e as maiores diferenças que se podem assinalar são o tempo de treino e a informação. Em qualquer campo de futebol não há equipa que não entre para ganhar - por maiores ou menores (ou inexistentes) que sejam as recompensas financeiras ou ao nível da notoriedade. La Palice. E o fundamento mais importante para uma equipa ganhar mais vezes, salvo raríssimas excepções, é a qualidade dos jogadores. Quem tem os melhores jogadores vai ganhar mais vezes nos Benjamins do Atlético do Cacém ou no Real Madrid. Existem outros factores que têm influência nos resultados que uma equipa pode conseguir como o modelo de jogo, a arbitragem, as incidências do jogo, as lesões, a condição física e a preparação mental dos jogadores, a estratégia, o público, etc. Mas, no trabalho do treinador, existe apenas um sobre o qual ele tem uma grande possibilidade de controlo: o modelo de jogo. Sobre os outros ele pode apenas especular. Pode até trabalhar sobre eles no máximo das suas possibilidades, mas o Princípio da Incerteza estará sempre mais presente sobre esses factores.

Como é absolutamente óbvio, básico e trivial, qualquer treinador vai recolher informação sobre os adversários se o conseguir fazer. E como é natural, vai tentar esmiuçar essa informação ao máximo e simplifica-la para os seus jogadores na tentativa de aumentar as suas probabilidades de êxito. Assim como se tentam controlar factores como o sono, a disposição, o nível de cansaço antes e depois do treino ou dos jogos, a alimentação, a preparação física, a incidência das lesões, a concentração do jogador, etc.


Mas, mesmo num tempo onde a informação chega à velocidade da luz essa mesma informação tem um grau de incerteza assinalável. Posso afirmar até que são mais as vezes que num jogo a informação não se concretiza do aquelas em que a precisão é muito alta. Isto porque o futebol é um jogo de enganos onde cada jogador tenta enganar o seu adversário para que a sua equipa se possa impor no resultado final; e cada vez mais os treinadores também se preparam para enganar o oponente. Então, se o treinador altera a estratégia para enfrentar aquele adversário em particular (sítios por onde ataca, zonas onde é mais pressionante), dispõe a equipa de forma  diferente (onze inicial diferente, ou sendo igual com os jogadores colocados noutras zonas do campo), como pode ser tão decisiva a abordagem no treino que o treinador teve em função da informação que recebeu, tentou filtrar, e desmontar para os seus jogadores? Numa ou noutra situação poderá coincidir, claro. Mas poderá o treinador colher os louros de algumas coincidências quando são muitos mais os desencontros? 


Apesar do Princípio da Incerteza se verificar em tudo por não termos a capacidade divina de absorver todos os factores e de saber com exactidão como os controlar, há alguns sobre os quais a nossa influência é muito mais efectiva em comparação com todos os outros; o adversário não é um deles.  Por isso, o maior foco - aquilo que melhor se controla, o mérito mais importante e decisivo do treinador - deverá ser sempre a relação da equipa consigo mesma: a forma como os sectores se relacionam em função da situação de jogo; o conhecimento que cada jogador tem das dinâmicas de jogo que treinam; a forma como o jogador percebe como deve interagir com cada colega; No fundo, a identidade da equipa. Porque no final, no meio de tanta aleatoriedade e de factores infindáveis que não se controlam, as únicas coisas que se podem manter são a qualidade individual e a identidade colectiva - seja qual for a tendência das arbitragens, seja qual for o resultado do jogo, tenha o plano de jogo e a abordagem estratégica coincidido com o esperado ou não.

26 de dez de 2018

Boxing Day: Exposição.

Neste Boxing Day parece-me importante dar relevo à mudança que está a acontecer em Manchester. Não foram ao mercado, nem mudaram o estilo de jogo de forma vincada. Deixaram apenas os jogadores com mas liberdade para jogar futebol. O resultado tem espantado alguns, mas há sempre que fique muito satisfeito por ver uma equipa de futebol a tentar jogar futebol. Não pelo estilo, não pela estratégia, não pelo modelo de jogo, apenas e só com os jogadores disponíveis para mostrarem do que são capazes. Claro que a luta pelo título já lá vai e a pressão por isso é muito menor. Claro que as mudanças de treinador costumam resultar nisso. Mas, que não se volte a colocar em causa a qualidade de uma equipa com jogadores com potencial para fazer muito mais e muito melhor do que quando amarrados pelo método anterior.

Só há uma forma de mostrar que os jogadores não têm qualidade para fazer mais, que não têm qualidade para se impor num certo estilo: expondo-os. Para que se percebam a suas valias e as suas dificuldades, para que se coloque em causa o seu valor para jogar de uma forma ou de outra. Num futebol que vale pontos (porque há competições onde a vitória não dá pontos!), continua a ser premiado apenas um e os outros todos perdem. Portanto, valendo pontos ou não todos devem assumir que a única coisa que se controla, a única garantia que existe, é o trabalhar o melhor possível para se tirar o máximo dos jogadores. Ninguém controla se vence, se empata ou se perde. Isto não tem nada a ver com um jogo bonito (que não sei bem o que é), tem a ver com um jogo bem jogado que te aproxime do sucesso consecutivamente. São as escolhas que se fazem, e no final o resultado logo se vê.




Com isto, não se passou de uma equipa com dificuldade aqui e ali para uma equipa Top seja lá em que estilo for; apenas se percebe que há material para fazer bem mais e bem melhor. Pochettino aos anos que o tem mostrado, é tudo uma questão de escolhas.

22 de dez de 2018

O Dortmund de Lucien Favre: Vamos rápido, e vamos todos!

Peço desculpa  pelo post anterior, mas estava naquela altura do mês... Voltando às coisas sérias!

O Borussia de Dortmund ganhou nova vitalidade com a chegada de Favre ao seu comando. Os resultados têm sido muito bons, e isso levou-me a espreitar alguns jogos deles para conseguir tecer algumas considerações. Para o artigo, considerei apenas um jogo onde fica bem vincada a identidade que Favre quer para a sua equipa nos diferentes momentos do jogo, de que forma a sua equipa se comporta de forma individual e qual é a reacção colectiva aos acontecimentos do jogo. Claro que, ele saberia detalhar melhor cada uma das situações que aqui se falam, e fazer-nos perceber quais são os marcadores que fazem activar as escolhas que os seus jogadores fazem. Mas fica aqui um resumo do meu entendimento do que vi nos jogos deles.

Apresenta-se normalmente em 1-4-4-2 com as três linhas (defesas, médios, e avançados) bem definidas ofensiva e defensivamente. Funcionam de forma simétrica sem nenhuma grande diferença ou particularidade de um lado para outro do campo, independentemente dos jogadores que lá actuam. É uma equipa que se pode caracterizar, de forma geral, como tendo uma obsessão pelo espaço, por não se importar de não ter bola, e por forçar  o ataque à profundidade. Joga num bloco médio, ou baixo para depois aproveitar o espaço nas costas do adversário. No jogo, é uma equipa de ataque rápido e que não faz da posse de bola uma arma. Como se vai ver, é bastante competente naquilo que se propõe a fazer. 





Como se percebeu, com a variação para o corredor contrário nada se alterou, as posições foram as mesmas. Houve apenas mais proximidade da baliza com o cruzamento.


















A opção pelo Ala para apertar no corredor deixa espaço para que a cobertura jogue com relativa tranquilidade, até chegarem as ajudas.





Da defesa para o ataque...rápido! O Dortmund não é uma equipa que queira dar possibilidade ao adversário de se organizar, e a sua equipa tem que se organizar à velocidade da luz quando recupera a bola por querer sair sempre em contra-ataque. São obcecados pelo espaço! Não lhe resistem, e muitas vezes forçam. Procuram primeiro ir dentro para libertar o passe onde entram jogadores por fora.









É um princípio, mas se não encontrarem os avançados tentam colocar o passe por fora na mesma para depois definirem o lance. E com essa opção de ataque, são os médios ala quem tem a maior responsabilidade na definição dos lances, depois os laterais e avançados. Os médios aparecem poucas vezes em situação de definição.









Por não resistirem ao espaço, e por quererem contra-atacar sempre, o jogo fica confuso algumas vezes e exige um constante vai e vem dos jogadores. Como querem forçar, não se deixam recuperar do esforço anterior.


Não é equipa de elaborar muito o ataque, de querer sair sempre a jogar, apesar de ter referências para jogar em organização ofensiva. Quando joga longo, opta por colocar a primeira bola bem junto do corredor lateral. Aí aparecem o Ala, o avançado, o lateral, e um médio por dentro.




Combinações no corredor lateral para encontrar espaço para a ruptura.





Ligam o jogo com os avançados que recebem atrás da linha média adversária, e depois procuram combinar para encontrar espaço nas costas, para entrar dentro da área com a bola controlada, ou para cruzar.





As referências são importantes e congruentes em organização ou transição ofensiva. Quando perdem a bola tentam recuperar no local onde a perderam, aproveitando as linhas estarem subidas para pressionar em zonas mais adiantadas.



20 de dez de 2018

React: Falta de Categoria, mudança de catálogo, e cataclismo.


Predominância do cérebro sobre o físico: Foi por este slogan que me converti em Lateral Esquerdo ainda que jogue com o pé direito. Ou melhor, que joga com a cabeça, que por sua vez comanda o pé direito. E passei de Lateral a não convocado e depois a dispensado porque tenho muita dificuldade em escrever coisas sobre as quais não tenho a mais profunda e enraizada crença. Com argumentação sólida, sem os chavões com que nos habituaram para avalizar teses. Com lógica, com coerência, com congruência. É por isto que me movo. Se não estiver convicto, convencido, com a questão bem afinada, não sai. Porque, afinal, a maior parte dos meus pensamentos não são ouro. E mesmo alguns dos que partilho, apesar da convicção, percebo depois que não são tão relevantes assim. Aceito a crítica porque a faço a mim mesmo. Tento não repetir. E a palavra chave para esta introdução é esta: Relevância. O cataclismo começa quando começamos a não ser relevantes, e apesar da popularidade crescente o maior argumento para demonstrar determinado ponto de vista é: Falei com o Messi e ele disse-me que Deus fez o céu para que se possa jogar pelo ar, uma vez que lá não existe oposição. Portanto, se o Messi disse que Deus fez, e Deus é argentino (Maradona), é porque está certo. Ignore-se tudo o resto; a evolução está aí e quem não evoluir nesse pensamento vai ficar para trás. Já está atrás, a nova Era chegou!

O react é uma ferramenta desta nova era. Para quem não está familiarizado com o termo, é o que os Rojas do Youtube fazem em reacção às novas faixas que os músicos de todas as categorias lançam. Neste caso o Rojas (que tem a particularidade de ter sido, também, Lateral Esquerdo) sou eu. 

O 25 de Abril trouxe coisas destas: Trouxe a possibilidade de nos expressarmos livremente, de dizer toda a merda que nos apetece, mas com isso vem a responsabilidade de ouvir de forma crua e cruel que o que estamos a partilhar é merda. Vem isto ao caso da mudança de catálogo. Hoje é normal defender uma ideia e o seu oposto em função do que nos dá jeito. Isto é: num jogo de escolhas, onde se sabe que não se pode ter tudo sob o risco de não se ter nada (veja-se Mourinho!), somos agora incapazes de dizer que defender à zona, sim zona pura, tem mais vantagens do que defender ao homem. De repente, a forma mais primitiva de todas de defender parece ter-se tornado num desafio incrivelmente difícil de contornar. Está tudo à espera de um deslize da defesa zonal, que tem as suas falhas, para se apontar aquilo que já se sabia anteriormente. Receia-se dizer que os méritos de uns são superiores aos de outros para não desapontar ninguém. Coloca-se no mesmo patamar a inteligência e a desinteligência, o charuto e desarme em que o defesa fica com bola porque os dois ganham jogos. Numa liga fraca como a nossa, onde todos batem e a maioria joga para o pontinho, há quem espere a queda de alguém que é mais positivo do que a maioria por ser novo e estrangeiro. Isso é o retrato do nosso futebol, é o que norteia o meio envolvente, é o futebol que merecemos. Não há congruência. Não há uma linha orientadora que nos faça perceber que caminhos são esses que se estão a percorrer. E tenho assistido sem reacção, impávido e sereno, à derrocada de um cantinho, de uma horta, por força das escolhas que se fazem ou deixaram de se fazer. Mas isso acaba hoje! Não precisamos de aprender só com os maus exemplos: veja-se Bernardo Silva. Na escolha do Bernardo entre os dois rivais de Manchester predominou o cérebro.

A falta de Categoria reside na falácia. Não há ninguém em quem o cérebro predomine que possa acreditar numa equipa onde o modelo de jogo reside na estratégia. Estratégia sem identidade, estratégia que perde a identidade. E nessa nova Era onde se quis relevar os méritos de uma abordagem que liga os jogadores com fios diferentes todas as semanas, que no fundo acaba por desligar os jogadores, é muito fácil criar desinformação para satisfazer quem tem preguiça de olhar para lá do óbvio. Veja-se:

"Contudo, Mourinho, acreditem, foi o primeiro a reconhecê-lo. Assim não fosse e ele não criticaria constantemente os seus jogadores e a sua direcção por não lhe dar intérpretes que pudessem mudar aquilo que Van Gaal, Moyes e os últimos anos de Ferguson, (des)caracterizaram. E para jogar e tentar ganhar como uma equipa que fez dele um ‘ungrateful bastard’ Mou teve de mudar método e abordagem para tentar esconder debilidades que, acreditem, seriam mais visíveis se Mourinho tentasse uma abordagem mais Guardiolista."

Não. Os jogadores foram os primeiros a perceber que Mourinho mudou, que não é o Special One; É uma versão rasca dele. Não é tão empático e tão preocupado com eles, não é tão focado na criação de um grupo de trabalho que dava tudo por ele pela força das ideias. Claro que num balneário é impossível convencer todos. Mas passou de convencer quase todos a não convencer quase nenhum porque não criou nem trabalhou para criar uma identidade colectiva - essa coisa abjecta que não existe na nova Era -. Perdão!, a identidade era fundamentada pela estratégia e por isso gabaram-lhe estar à frente do seu tempo, não era? Os melhores do mundo, cada um no seu estilo, era isso!? Coisas da Era que ficaram por explicar. 

Não se deixem enganar, ninguém pede ao Mourinho para ser Guardiola ou para ser Simeone; pede-se que seja uma coisa qualquer. Que seja alguém que ao falar-se do seu nome fique associado a determinados comportamentos colectivos, a uma ideia, seja ela qual for. Qual é o estilo do Mourinho? O que é Mourinho hoje? A equipa de Mourinho é forte em que momento do jogo? É caracterizada por que comportamentos? Neste momento, no estado actual da equipa, quase todos os treinadores conseguirão fazer melhor do que ele, porque qualquer um vai apresentar qualidade numa situação de jogo, nem que seja nos lançamentos laterais. De Mourinho só se ouve hoje: é um treinador ganhador! Joga para ganhar, sem interessar o jogo. Os outros jogam para perder?! Bom.

"Sem definição de topo, decisão de topo, magia, criatividade e o motto ‘cães de caça sem ela (a bola)’ foi traumático ver José Mourinho passar por azelha para ficar de frente para o jogo com várias unidades que, ainda assim, pouco descanso lhe garantiam. É fácil dizer que o United deveria ter jogado mais (e devia) mas é fácil esquecer o desastre que foi a 1.a época de Guardiola ao serviço dos cityzens. E como corrigiu Pep o falhanço na estreia? Com métodos, diferentes abordagens mas, sobretudo com milhões (muitos mais do que aqueles que tornaram Mourinho em Chourinho) que lhe permitiram escolher jogadores por um catálogo que se adequasse totalmente na insistência do seu (excelente e extremamente evoluído) modelo."

Não tem decisão, não tem definição, não tem magia, não tem criatividade, não tem cães de caça. Para que servem aqueles jogadores então?! Quem os contratou? Custaram tanto porquê? A equipa com a maior folha salarial não tem nenhuma qualidade? Não pode jogar em posse nem pode jogar em transições, não pode pressionar alto nem jogar em bloco baixo. Teria que ter levado dos seus rivais Bernardo para além de Bailly, Fred e Alexis. Tem que mudar 20 jogadores como fez Guardiola para não passar por mais desastres. Estranho. Queria ver Walker, Stones, Otamendi, Zinchenko, Delph, Fernandinho, David Silva, Gundogan, Bernardo Silva, Sterling, Sane, Foden, Aguero e Gabriel com Mourinho. Como jogavam, onde jogavam e quando jogavam. Se estaríamos hoje a falar do que rendem esses jogadores, como se não fossem as ideias a valorizar e a elevar os jogadores. 

"Quebra, por falta de lógica, a ideia de que Mourinho devesse insistir na posse, como se por magia ou wishful thinking, isso fizesse com que os vários cepos que tem na equipa ganhassem pés e visão de Iniestas. E como o desastre da 1.a época de Guardiola provou, não bastam quatro ou cinco para bailar como Pep gosta. E eu sinceramente, no United, vejo mais gente com paralelos a fazer de pés, do que propriamente os quatro ou cinco constantemente invocados na já longa série de ‘Mourinho tem de ser Pep’."

Mourinho tem de ser Mourinho. Mas quem é Mourinho? É repetitiva e simplista a ideia que o jogo dele deveria ser como o de Guardiola. Difícil é caracterizar o jogo dele. Que qualidades, e que defeitos. Isso é que seria relevante, isso é que se quer ver!

"Não quer isto dizer (antes que me acusem de ser avençado de Mou) que o próprio não pudesse ter arranjado melhores formas de retirar mais de um plantel que o decepcionou profundamente. Duvido é que ele quisesse estar mais tempo num clube onde não lhe satisfaçam a sua vontade. E, na sua cabeça, para reconstruir aquele United seriam sempre precisos muitos mais milhões do que aqueles que gastaram consigo. Talvez Florentino seja mais amigo. Não quer isto dizer que, para mim, esses milhões fossem  a solução. Mas quem contratou Mourinho (e quem contrata Pep) tem de contar que para haver categoria tem de haver catálogo."

Se não queria estar mais tempo no clube prejudica o clube com a falta de ideias para o jogo e para os jogadores? Por que motivo não sai em discordância com a política do clube? Mais milhões como os do Tottenham ou os do Arsenal? Os jogadores mais caros da Premier não são catálogo? O jogador mais bem bago da Premier não é categoria? Hmmm.

Termino dizendo que como o Rojas estou disponível para ser rasgado por Mourinho num outro livro. Mas, manifestar o meu desagrado pela decadência sucessiva de um espaço cada vez mais popular e populoso faz parte de um jogo que se fazia no tempo da pedra quando um sueco vendia gato por lebre no La Stratégie.

Bruno Fernandes ou a força do colectivo


Foto: Carlos Alberto Costa

Não se esconde, não se protege, não se envolve entre o génio das paredes das suas botas. Para Bruno Fernandes, o jogo é qualquer coisa sem singular – a menos que o que lhe ensinaram Cardano, Pierre de Fermat ou Balise Pascal lhe grite ao ouvido uma boa probabilidade de chutar à balizar –, por isso escolhe mostrar a força do colectivo. Nasceu, como outros, também para não deixar morrer Cruyff, que repetia: “O futebol é um jogo que se joga com a cabeça e em que se usam os pés”. Também para nos obrigar a aceitar que velocidade na circulação não é sinónimo de qualidade na circulação, porque tudo depende de quem e como faz a bola circular. Bruno Fernandes não tem de correr para acelerar o jogo e corre quando lê que essa acção poderá estimular a eficácia, tendo perfeita consciência de que a sua inconsciência nem sempre é entendida (sucede o mesmo com Nani). Bruno Fernandes nunca vai sozinho.

No arranque ao lado de José Peseiro, e mesmo perdendo mais de metade do protagonismo com a bola – não por sua culpa –, uma vez que ela passava demasiadas vezes por cima da sua cabeça, o médio deu a cara sem comprometer o trabalho da equipa: “(…) nada justifica as minhas exibições não ao nível das do ano passado ou que apareça por simples momentos e volte a desaparecer! Acredita que mais do que ninguém sinto-me frustrado com o que tenho vindo a apresentar e não, a culpa não é de ninguém, a não ser minha! (…)”. Isto, no Instagram oficial, em resposta a um adepto, após a derrota por 1-0 no Estádio Municipal de Braga. Ao mesmo tempo, ouvia, de pessoas inaptas para a percepção de que o jogo é inteiro, que não voltaria a exibir o nível apresentando com Jorge Jesus.

A chegada de Marcel Keizer trouxe-lhe a liberdade que o seu futebol anseia. E é sendo livre, sem mostrar as costas à baliza, que ele pode associar, queimar linhas de pressão, surgir entre elas, tentar o seu roubo favorito, que é o da recuperação em zonas subidas, pois reconhece que é aí que se torna mais fácil ferir o adversário. Arrisca? Sim, mas agora também confia mais nos jogadores que o rodeiam e é simplesmente isso que pede em troca: que também confiem em si. Bruno Fernandes é o médio mais completo da Liga NOS.

11 de dez de 2018

A galinha da vizinha é sempre melhor do que a minha… mesmo que tenha sido eu a vendê-la



Há que elaborar – urgentemente – um nome para a síndrome que se vem manifestando no futebol português há muitos anos e que afecta os jogadores nacionais. Elaborar um nome para a síndrome é mais determinante do que eliminar a síndrome, porque vivemos num país onde as matérias sem rótulo são um não-assunto. (Interrompe-nos uma senhora já com o cabelo coberto de brancos, que diz: ‘No meu tempo, o bullying não existia. O que é isso? Bullying? As crianças que se encostavam aos cantos do recreio levavam meia dúzia de 'carolos' mas era para arrebitarem! Ah, e essa história da depressão vai pelo mesmo caminho. Hoje, só se ouve falar na depressão. Depressão para ali, depressão para aqui. Tenham juízo!’). Insisto: o futebol destapa-nos, de forma subtil, as disfunções de uma sociedade precária e segura por velhas raízes soldadas no material mais influente do mundo, a ignorância. Entretanto.

Até que elaborem o tal do nome, essa síndrome irá resistir a um Portugal campeão europeu de futebol de sub-19, a um Bruno Fernandes melhor jogador da I Liga em 2017/18, a um João Cancelo, a um Bernardo Silva, a um Diogo Jota, a um Rúben Vinagre, a um Rúben Neves. E atenção que não foi ao acaso que não mencionei aqui o título conquistado pela Selecção de Fernando Santos, em 2016. Para que este texto ganhe uma certa pitada de controvérsia – mas uma controvérsia genuína, não fabricada –, tenho de confessar que pertenço ao grupo de pessoas que revê mais sorte do que mérito no feito alcançado em território francês e o que é nacional nem sempre é bom. (Voltamos a ser interrompidos, desta feita pelo marido da senhora de há pouco: ‘Sorte? A sorte conquista-se! Preferiam que nos tivesse acontecido o que aconteceu no Euro2004? Isso é que foi bonito! Jogámos como nunca, perdemos como sempre!). Entretanto.

De acordo com um relatório do Observatório Internacional de Futebol (CIES), João Cancelo foi o segundo jogador com maior valorização absoluta no último trimestre, tendo visto o seu valor passar de 27,8 milhões de euros (ME) para 74,2 ME. João Cancelo completou 73 minutos ao serviço da equipa principal do Benfica – todos na época 2013/14, em que o uruguaio Maxi Pereira era o dono da lateral-direita encarnada (43 jogos) e André Almeida a segunda opção para a posição (27 jogos). Nessa altura, Cancelo era somente avaliado enquanto lateral-direito, sendo que, hoje, vai somando exibições categóricas na lateral esquerda da Juventus – em 2013/14, Jorge Jesus lançou o lateral-esquerdo brasileiro Bruno Cortez em sete partidas. Se o clube tivesse valorizado o seu jogador da formação aos 19 anos (a mesma idade com que de Ligt tem assumido a titularidade no Ajax e na selecção holandesa), detinha, neste momento, um lateral de nível mundial e que, em termos qualitativos, nada fica a dever a Maxi, André Almeida, Cortez ou Eliseu. Infelizmente, João Cancelo não é a agulha no palheiro.

Esta terça-feira (11 de Dezembro de 2018), surgiram notícias na imprensa inglesa que ligam Rúben Neves à Juventus. O médio da formação do FC Porto foi vendido por 16 ME ao Wolverhampton, tendo o emblema azul e branco apenas recebido uma mais-valia de 12,5 ME, no final da temporada de 2016/17, que Rúben terminou com um total de 18 encontros disputados. Por que é que o Porto não ofereceu espaço a um jogador que, aos 21 anos, está a despertar o interesse dos intitulados ‘tubarões’ e preferiu, por exemplo, dar palco a Héctor Herrera? Sem questionar a qualidade do mexicano, não lhe atribuo metade do valor, além de ser sete anos mais velho do que o natural de Santa Maria da Feira. Curiosamente, para atacar o bicampeonato, os dragões foram buscar o holandês Riechedly Bazoer, agora afastado dos trabalhos da equipa de Sérgio Conceição por alegado processo disciplinar. Bruno Fernandes saiu do Boavista para Itália aos 17 anos porque nunca lhe deram a possibilidade de jogar pelos seniores; Rúben Vinagre, em destaque no Wolverhampton, deixou o Sporting quando ainda era juvenil; Gedson tem visto a sua titularidade ser ameaçada pelo brasileiro Gabriel. Isto, até quando? Em que é que Francisco Geraldes (23 anos) é inferior a – *breve passagem pelos médios leoninos das últimas três épocas* – Bruno Paulista, Orio Rosell, Radosav Petrovic, Elias, Marcelo Meli, Josip Misic? Miguel Luís ou Daniel Bragança fariam melhor do que Petrovic ou Misic, já utilizados esta temporada. Só há uma coisa em que são inferiores: na idade. Mas não chega dessa lengalenga? O primeiro critério de selecção não deverá ser a qualidade? Não vi o Atlético Bilbão preocupado em dar a titularidade a Kepa (24 anos), Sarri incomodado por dar minutos a Loftus-Cheek (22 anos), o Barcelona a tremer ao lançar Puig (19 anos) ou Aleñà (20 anos). (Em ânsia, o casal grita em uníssono: ‘Em equipas feitas é fácil lançar jovens!). O Ajax é uma equipa feita de jovens, quase todos holandeses. E sabem que mais? Está em vias de terminar o grupo E da Liga dos Campeões à frente do Bayern de Munique.

Sugestões para o nome da síndrome?

5 de dez de 2018

Lateralizando (vai que é tua, Thierry)



Imaginemos que um bom lateral é um lateral que chega muitas vezes à linha e sabe cruzar bem. Vamos ignorar os processos utilizados para aparecer nessa zona do campo, se cruza sob pressão ou não, se tem ou não melhores alternativas do que a execução do cruzamento – porque, de facto, ele é mesmo muito bom é a cruzar. Portanto, mais de 90% das acções ofensivas desse jogador resumem-se ao seu critério nesse momento do jogo.

Mas, afinal, o que se entende por “cruzar bem”? Basta ‘despejar’ a bola na área a uma altitude razoável? Do género: a sorte que faça o resto, pode ser que apareça por lá o avançado, que habitualmente é um tipo alto e forte nos duelos físicos. Haja noção.

Um bom lateral (tal como um bom médio, um bom avançado, um bom extremo) tem de possuir uma leitura do jogo acima da média. Contudo, ao que parece, a linha defensiva foi caindo no descrédito da inteligência, ou seja, para se ser central ou lateral bastam as boas características físicas (porque a agressividade advém, obviamente, da estatura). Na folha de recrutamento, caso se leia que o jogador tem 1,60m, é automaticamente excluído dessas posições, pois houve quem quisesse tornar o futebol mais atlético do que cerebral. Não o é.

O rendimento dos laterais também está intimamente ligado com o modelo de jogo da equipa. Pegando no exemplo inicial, é totalmente diferente cruzar com ou sem oposição, que depende do processo utilizado para chegar perto da grande área, que influencia as alternativas, que afecta o critério. Por isso é que, “no futebol, o todo é mais do que a soma das partes”.

Quando o apoio frontal junto às linhas faz parte do lote de processos de uma equipa, o lateral tem de saber interpretar essa movimentação e o que fazer no espaço que surge para progredir, sendo que explorar o corredor central aproxima-o quase sempre do sucesso. Por outro lado, a obsessão com a chegada à linha revela-se uma escolha geralmente negativa se os colegas oferecerem combinações no último terço. Quem é que não se recorda da diferença exibicional entre o Schelotto da época 2015/16 e o de 2016/17? Devido à mobilidade do Sporting na primeira temporada de Jorge Jesus, as debilidades do lateral argentino camuflaram-se, porque a bola chegava-lhe várias vezes em situações que podia partir para o 1x1 ou aproveitar a desorganização adversária, justificada pelas constantes associações no corredor central. Já no ano seguinte, em que os leões perderam essa capacidade, as fragilidades de Schelotto ficaram a nu. O mesmo se pode dizer, mas ao contrário, em relação a Jefferson. Não é por ter feito duas assistências frente ao Lusitano Vildemoinhos que se tornou um bom lateral. Ao invés, beneficiou do bom jogo interior do Sporting, que deixa o brasileiro mais solto de marcação e capaz de potenciar uma das suas melhores características, o cruzamento.


Uma vez que se sabe que qualquer equipa que procure ter bola quer passar mais tempo a atacar do que a defender, um bom lateral precisa de apresentar características ofensivas – na minha opinião, até vêm antes do que as defensivas –, mas é impensável cometer erros básicos defensivamente. Por agora, Acuña é o único jogador do Sporting, nessa posição, que dá garantias a Marcel Keizer (e Thierry Correia, caso venha a ser aposta, tem condições para tirar o lugar a Bruno Gaspar ou Ristovski no lado direito). Mesmo assim, Janeiro deverá servir para o clube se reforçar, porque se os recursos actuais vão chegando para vencer, lanço as minhas dúvidas se assim continuará a acontecer nos jogos frente aos rivais directos ou das competições europeias.
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