28 de jan de 2017

Criatividade… e mais desmistificações.



O conceito de criatividade é relativamente complexo, e como em todos os conceitos relativamente complexos relacionados com futebol, várias perspectivas se criam. É usual ouvir-se que o jogador criativo é o que faz coisas mais fora-da-caixa, que está sempre a tentar coisas mirabolantes ou mesmo o que tem 15 formas diferentes de fintar o adversário. Ora, a meu ver, o conceito de criatividade é puramente intelectual, estando relacionado com as diferentes opções que um jogador é capaz de percepcionar a cada lance, tendo em conta o tempo muitíssimo limitado de que dispõe para o fazer. Querer fazer diferente como um fim em si mesmo não é criatividade, é sempre necessário perceber o contexto e se realmente a nossa ação inovadora vai ser a que mais se adequa ao contexto de jogo – um cruzamento de trivela sem ninguém na área tem tudo de estúpido e nada de criativo, por exemplo. No fundo, é ser capaz de encontrar formas inovadoras e adequadas ao contexto de resolver as situações em que se encontra. Mas não tenciono desenvolver muito mais esse tema, até porque há pela internet vários textos de enorme qualidade sobre o tema (recomendo este, do melhor blog nacional sobre futebol…) . Tenciono, isso sim, mostrar um exemplo feliz do que é, a meu ver, criatividade, e que dá bem a entender o motivo pelo qual é um atributo, mais do que qualquer outra coisa, intelectual.

O exemplo é de Francisco Geraldes, o muitíssimo talentoso médio do Sporting que, espero eu, volte ao clube que o formou para ter as oportunidades que merece. Não vou mostrar o lance em si desde já, mas sim meter uma imagem de um momento do mesmo…


Olhando para esta imagem isolada, parece evidente que a decisão normalmente tomada será a de
lateralizar. Mas olhemos para o lance na totalidade:

É possível que outros jogadores tentassem o drible que Geraldes tentou, mas sem grande intenção subjacente a isso que não a de ser imprevisível. Ora, isso também não seria criatividade. Mas conhecendo bem o jogador e o seu perfil de decisão, estou convicto de que ele tinha o lance todo na cabeça desde o início. A recepção com que tira o defesa da frente é imediatamente orientada para aquele espaço vantajoso, em que tinha dois colegas por dentro com quem jogar, e mesmo quando o desenrolar do lance o leva noutros sentidos ele nunca perdeu de vista a forma mais valiosa de desequilibrar. É esta percepção e análise constante do contexto que permite aos jogadores verdadeiramente criativos encontrarem um grande número de soluções diferentes, e daí não só escolherem a melhor, como usarem as outras soluções que têm para enganar o adversário (no lance em questão, Geraldes aproveitou a ilusão que se criou no adversário de que ia lateralizar para o ultrapassar mais facilmente)…

E já que falamos de Francisco Geraldes, parece-me pertinente abordar mais uma ideia falaciosa que existe, neste caso sobre ele e Daniel Podence, mas que está longe de se prender a ambos os jogadores. Ideia essa expressa no vídeo presente neste link.

Luís Francisco não só diz algo completamente errado, tendo em conta os jogadores de quem fala (especialmente Geraldes), como, ao dizê-lo, acaba por dar a entender uma ideia geral ainda mais errada. É referido que é mais fácil brilhar em transição que em ataque continuado, como uma prescrição geral, e que por exemplo jogadores como Podence apenas se sentem confortáveis em momentos nos quais possam ter espaço para correr. Mesmo no caso de Geraldes, refere-se que tem "outras valências", mas são relegadas para segundo plano, em favor da tese que se quer passar de que jogar em transição é necessariamente mais fácil e vantajoso para qualquer jogador. Ora, como referido, é uma tese completamente falsa. A criatividade que ambos os jogadores referidos possuem leva a que sejam jogadores que se sentem muito confortáveis a jogar contra blocos fechados e numa equipa que lhes forneça várias armas colectivas para manipular esse tipo de adversários. É em contextos mais exigentes em termos intelectuais que essa criatividade se manifesta verdadeiramente, e em que os jogadores podem colocar toda a sua velocidade e qualidade de raciocínio ao serviço da equipa.

É evidente o motivo da afirmação. Olha-se para a forma como Daniel Podence se desembaraça no 1x1, e para a mestria de Francisco Geraldes a descobrir colegas nas costas da linha defensiva dos adversários, em transição, e deduz-se que essas são as características que dão brilho aos jogadores. Tal como, aliás, os comentadores portugueses fazem quase todos na análise geral a um jogador. Mas o que dá realmente brilho a ambos os jovens talentos leoninos não é isso, mas sim os atributos referidos acima.

Aliás, o “jogar em contra-ataque”, como diz Luís Francisco, é até limitador (especialmente a versão do “contra-ataque” praticada pelas equipas pequenas em Portugal)... No caso de Podence, porque lhe tira soluções com quem se associar que tornem mais letais os seus desequilíbrios (porque as pode usar para causar dúvida no adversário) e porque essa falta de soluções e necessidade de resolver tudo rápido o leva a vícios algo perniciosos, de tentar resolver os lances sozinho. Já a Geraldes, tira-lhe bola, e acima de tudo tira-lhe bola em situações em que ele tenha condições para colocar toda a sua capacidade para manipular blocos adversários inteiros. Jogadores como ele, Óliver, Gauld ou Bernardo Silva, por exemplo, são tão melhores quanto mais dominadora for a equipa. Porque o menor espaço, maior concentração de adversários e mais colegas com quem jogar são características perniciosas a quem apenas sabe aproveitar espaço, não a quem vive de o criar. São esses, os jogadores que criam espaço como Geraldes tão habilmente faz, que são o futuro do nosso futebol. É criminoso que um jogador como ele some menos de 10 internacionalizações nos escalões jovens todos somados, e que esse tipo de jogador, no geral, seja desprezado no nosso país. E visões limitadas sobre o jogo como a apresentada por Luís Francisco, embora estejam longe de explicar o problema, são um bom indício do mesmo…

25 de jan de 2017

Nápoles. Organização da pressão

Organização. Nenhuma palavra define melhor o que é o Nápoles de Maurizio Sarri. Como é óbvio, o momento de pressionar não foge à regra, e os posicionamentos/comportamentos estão trabalhados para que a equipa se mantenha sempre organizada. 

23 de jan de 2017

Falar do jogo ou falar de platitudes à volta do jogo - uma questão cultural


Creio não estar a dar nenhuma novidade a ninguém, ao referir que o interesse no jogo de futebol, em Portugal, é bastante diminuto. Diz-se que o futebol move paixões no nosso país, mas uma análise minimamente atenta diz-nos imediatamente que não é o jogo em si, mas sim externalidades decorrentes e não relacionadas com a natureza do mesmo que o fazem. Em Portugal, gosta-se do clube do coração, e, como está convencionado que o desporto nacional é o futebol, é para o futebol que se olha. Acho perfeitamente legítimo que se olhe para o futebol como fenómeno social e aglutinador e não para o jogo e a sua natureza, mas não consigo deixar de achar que essas pessoas, que são a clara maioria, facilmente veriam qualquer desporto dessa mesma forma se fosse essa a convenção a seguir. E isto, invariavelmente, acaba por secundarizar o que, de facto, se passa nas quatro linhas e, por isso, empobrecer a análise que se faz do mesmo.

Ainda para mais, o futebol é um jogo cheio de ilusões, como referi até no post anterior e poderei referir noutros, e uma das mais divertidas é, pelo esforço físico a que sujeita os atletas, fazer quem o vê acreditar que deve ser jogado da mesma forma que se acartam baldes de massa - leia-se, com muito esforço, suor, ranger de dentes e velocidade para despachar a tarefa o mais rápido possível. Um desporto puramente intelectual ou puramente físico, como o xadrez ou as corridas de 100 metros, respectivamente, não nos oferecem esta ilusão. Porque se devido ao carácter intelectual do primeiro, ninguém minimamente são vai falar dele sem um mínimo de reflexão sobre o mesmo, o segundo é exactamente o que parece - um jogo em que quem fizer os 100 metros mais rápido vence. Só que o futebol, pela sua natureza específica, é mais exigente intelectualmente que o xadrez e fisicamente que os 100 metros. Muito pelo facto de conjugar ambas as exigências, física e de raciocínio (entre outras). Isto leva a que seja incrivelmente fácil para os milhares que observam o jogo formar concepções falaciosas sobre o mesmo, e entre esses incluem-se imensos jornalistas e comentadores desportivos.

Este post consistirá numa comparação simples entre duas conferências de imprensa pós-jogo, uma em Itália e outra em Portugal. Quanto ao caso italiano, apesar de a ideia de superioridade em termos estratégicos que os italianos têm em relação ao seu futebol ser altamente questionável, a verdade é que a aura que se formou no país sobre essa vertente leva a que haja no país um interesse maior no jogo, e, consequentemente, que o foco nas questões a treinadores incida muito mais sobre o que de facto se passa nas quatro linhas, e na procura pela discussão desses pormenores com os mesmos.

Sem mais demoras, ficam abaixo ambas as conferências (infelizmente estão nas línguas respectivas, mas creio que mesmo sendo em italiano a ideia é minimamente perceptível) :




Queria só deixar umas notas antes de falar dos vídeos. Em primeiro lugar, esta análise não serve, de todo, de crítica a Rui Vitória, que não tem culpa do tipo de perguntas realizadas e que, mesmo dentro delas, até tentou falar do jogo. Para além disso, não me estou aqui a prender tanto ao conteúdo e à pertinência do que é questionado em si, mas simplesmente do facto de se tentar ou não discutir assuntos que fujam da superficialidade habitual...

Posto isto, a conferência de Rui Vitória é igual a 95% das conferências de imprensa no nosso país. Muito foco em rumores de imprensa e em questões como a motivação e o estado de espírito, e, quando se tenta falar sequer do que se passa nas quatro linhas, o foco incide invariavelmente em opções individuais - por que motivo não jogou o jogador X, o que acrescentou o jogador Y ao entrar, o jogador Z é muito importante porque marcou K golos e fez M assistências, entre outras. Ou seja, ou não se fala de todo do jogo, ou se fala da forma mais superficial possível.

Já na conferência de Maurizio Sarri notam-se diferenças claras, nomeadamente a partir dos 3 minutos. Há lugar ao tipo de perguntas adoradas em Portugal, sim, mas há também interesse em falar do jogo em si, de forma mais aprofundada. Neste exemplo em particular, o primeiro jornalista inquire Sarri, com recurso a um vídeo ilustrativo, sobre o facto de a equipa do Napoli, ao tentar condicionar alto o jogo do Milan como fazia, não acabar por expor demasiado o espaço entre a linha defensiva e os restantes colegas, caso a pressão fosse ultrapassada. Já o segundo, também com recurso a vídeo, mostra um exemplo da constante projecção de Abate, lateral-direito do Milan, durante a partida, questionando Sarri sobre o motivo pelo qual os extremos do Napoli não acompanhavam as incursões dos laterais até ao fim. Obviamente que perguntas deste género permitem retirar um sumo muito maior das declarações dos treinadores, basta notar que a resposta de Sarri à primeira questão envolveu uma explicação do conceito de bola coberta - bola descoberta, bem como as dificuldades sentidas no processo de treino para corrigir o pormenor questionado e a melhoria apresentada pela equipa nesse aspecto, em relação ao jogo com a Fiorentina.

Como adepto do jogo, e não apenas das externalidades decorrentes do mesmo, vejo conferências como esta de Sarri com pena. Porque vejo um interesse no jogo que não vejo no meu país e, acima de tudo, vejo neste tipo de questões uma óptima oportunidade para o adepto comum aprender mais sobre o jogo. Infelizmente, em Portugal gostamos mais de platitudes...

3 de jan de 2017

O que é ser criativo? Geraldes explica

Tem qualidade de passe, de remate e é evoluído tecnicamente, mas é a criatividade que o torna um jogador diferente. A capacidade que tem para descobrir soluções que à partira nem sequer se imaginavam, torna-o num médio com um potencial tremendo. Das muitas ações de qualidade que teve no jogo de hoje contra o Porto, esta é a que melhor demonstra o tipo de jogador que Geraldes é.

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