23 de jan de 2017

Falar do jogo ou falar de platitudes à volta do jogo - uma questão cultural


Creio não estar a dar nenhuma novidade a ninguém, ao referir que o interesse no jogo de futebol, em Portugal, é bastante diminuto. Diz-se que o futebol move paixões no nosso país, mas uma análise minimamente atenta diz-nos imediatamente que não é o jogo em si, mas sim externalidades decorrentes e não relacionadas com a natureza do mesmo que o fazem. Em Portugal, gosta-se do clube do coração, e, como está convencionado que o desporto nacional é o futebol, é para o futebol que se olha. Acho perfeitamente legítimo que se olhe para o futebol como fenómeno social e aglutinador e não para o jogo e a sua natureza, mas não consigo deixar de achar que essas pessoas, que são a clara maioria, facilmente veriam qualquer desporto dessa mesma forma se fosse essa a convenção a seguir. E isto, invariavelmente, acaba por secundarizar o que, de facto, se passa nas quatro linhas e, por isso, empobrecer a análise que se faz do mesmo.

Ainda para mais, o futebol é um jogo cheio de ilusões, como referi até no post anterior e poderei referir noutros, e uma das mais divertidas é, pelo esforço físico a que sujeita os atletas, fazer quem o vê acreditar que deve ser jogado da mesma forma que se acartam baldes de massa - leia-se, com muito esforço, suor, ranger de dentes e velocidade para despachar a tarefa o mais rápido possível. Um desporto puramente intelectual ou puramente físico, como o xadrez ou as corridas de 100 metros, respectivamente, não nos oferecem esta ilusão. Porque se devido ao carácter intelectual do primeiro, ninguém minimamente são vai falar dele sem um mínimo de reflexão sobre o mesmo, o segundo é exactamente o que parece - um jogo em que quem fizer os 100 metros mais rápido vence. Só que o futebol, pela sua natureza específica, é mais exigente intelectualmente que o xadrez e fisicamente que os 100 metros. Muito pelo facto de conjugar ambas as exigências, física e de raciocínio (entre outras). Isto leva a que seja incrivelmente fácil para os milhares que observam o jogo formar concepções falaciosas sobre o mesmo, e entre esses incluem-se imensos jornalistas e comentadores desportivos.

Este post consistirá numa comparação simples entre duas conferências de imprensa pós-jogo, uma em Itália e outra em Portugal. Quanto ao caso italiano, apesar de a ideia de superioridade em termos estratégicos que os italianos têm em relação ao seu futebol ser altamente questionável, a verdade é que a aura que se formou no país sobre essa vertente leva a que haja no país um interesse maior no jogo, e, consequentemente, que o foco nas questões a treinadores incida muito mais sobre o que de facto se passa nas quatro linhas, e na procura pela discussão desses pormenores com os mesmos.

Sem mais demoras, ficam abaixo ambas as conferências (infelizmente estão nas línguas respectivas, mas creio que mesmo sendo em italiano a ideia é minimamente perceptível) :




Queria só deixar umas notas antes de falar dos vídeos. Em primeiro lugar, esta análise não serve, de todo, de crítica a Rui Vitória, que não tem culpa do tipo de perguntas realizadas e que, mesmo dentro delas, até tentou falar do jogo. Para além disso, não me estou aqui a prender tanto ao conteúdo e à pertinência do que é questionado em si, mas simplesmente do facto de se tentar ou não discutir assuntos que fujam da superficialidade habitual...

Posto isto, a conferência de Rui Vitória é igual a 95% das conferências de imprensa no nosso país. Muito foco em rumores de imprensa e em questões como a motivação e o estado de espírito, e, quando se tenta falar sequer do que se passa nas quatro linhas, o foco incide invariavelmente em opções individuais - por que motivo não jogou o jogador X, o que acrescentou o jogador Y ao entrar, o jogador Z é muito importante porque marcou K golos e fez M assistências, entre outras. Ou seja, ou não se fala de todo do jogo, ou se fala da forma mais superficial possível.

Já na conferência de Maurizio Sarri notam-se diferenças claras, nomeadamente a partir dos 3 minutos. Há lugar ao tipo de perguntas adoradas em Portugal, sim, mas há também interesse em falar do jogo em si, de forma mais aprofundada. Neste exemplo em particular, o primeiro jornalista inquire Sarri, com recurso a um vídeo ilustrativo, sobre o facto de a equipa do Napoli, ao tentar condicionar alto o jogo do Milan como fazia, não acabar por expor demasiado o espaço entre a linha defensiva e os restantes colegas, caso a pressão fosse ultrapassada. Já o segundo, também com recurso a vídeo, mostra um exemplo da constante projecção de Abate, lateral-direito do Milan, durante a partida, questionando Sarri sobre o motivo pelo qual os extremos do Napoli não acompanhavam as incursões dos laterais até ao fim. Obviamente que perguntas deste género permitem retirar um sumo muito maior das declarações dos treinadores, basta notar que a resposta de Sarri à primeira questão envolveu uma explicação do conceito de bola coberta - bola descoberta, bem como as dificuldades sentidas no processo de treino para corrigir o pormenor questionado e a melhoria apresentada pela equipa nesse aspecto, em relação ao jogo com a Fiorentina.

Como adepto do jogo, e não apenas das externalidades decorrentes do mesmo, vejo conferências como esta de Sarri com pena. Porque vejo um interesse no jogo que não vejo no meu país e, acima de tudo, vejo neste tipo de questões uma óptima oportunidade para o adepto comum aprender mais sobre o jogo. Infelizmente, em Portugal gostamos mais de platitudes...

7 comentários:

Pedro Polónio disse...

ainda este fim de semana, na entrevista a seguir ao jogo, Guardiola questionou o jornalista da BBC por a 1ª pergunta ser sobre um "caso" de arbitragem... em portugal é perfeitamente normal que as entrevistas pós-jogos sejam só sobre a arbitragem...

B Cool disse...

Não deixando de concordar na generalidade, fazia só a nota que no caso italiano estamos a falar das perguntas de um programa específico de futebol no caso italiano versus as perguntas de uma conferência de imprensa com jornalistas da imprensa generalista no caso português.

Rui disse...

ENTÃO RECOMENDO A VER O PÓS JOGO NA BTV ONDE O RUI VITÓRIA FALOU SOBRE ISSO TUDO E AINDA RESPONDEU A PERGUNTAS DOS ADEPTOS RELACIONADAS COM O JOGO.

AD disse...

B Cool, é verdade. Mas em Portugal não há lugar a qualquer segmento do género do apresentado no caso italiano. Do que vi, em Itália a estrutura é diferente, havendo mais conferências (cá temos a flash e a CI, apenas) e uma delas é da Sky, que se foca mais em aspectos específicos do jogo. Podia facilmente acontecer o mesmo cá se a Sporttv, por exemplo, fizesse uma coisa semelhante. Mas a verdade é que o interesse maior está longe de ser esse, como se pode constatar muito facilmente...

Rui disse...

"ENTÃO RECOMENDO A VER O PÓS JOGO NA BTV ONDE O RUI VITÓRIA FALOU SOBRE ISSO TUDO E AINDA RESPONDEU A PERGUNTAS DOS ADEPTOS RELACIONADAS COM O JOGO."

RUI, TEM TODA A RAZÃO, ESTE TIPO ESTÁ A DIZER MAL DO NOSSO RUI VITÓRIA E DO NOSSO BENFICA, UMA VERGONHA!!!

... agora a sério, o analfabetismo funcional é um problema complicado, mas não é impossível de resolver. Lendo o texto, facilmente se identifica uma nota - no quinto parágrafo, para que não lhe falte mesmo nada - em que é referido que este texto não pretende, DE TODO (já percebi que o caps lock funciona bem consigo) servir de crítica a Rui Vitória, mas antes a quem lhe faz as perguntas. Foi exactamente a pensar em pessoas como você que fiz aquela ressalva... Quanto a essas perguntas subsequentes que refere, não vi e gostava que me facultasse o link, se o tiver. Estou curioso para ver até que ponto perguntas de adeptos fugirão dos chavões referidos, mas aqui posso facilmente estar enganado.

Anônimo disse...

Só que o futebol, pela sua natureza específica, é mais exigente intelectualmente que o xadrez

és um triste, nem tenho palavras para descrever quão anormal és

AD disse...

Anónimo, quer explicar o seu insulto, ou fica-se por ele?

Marco Figueiredo disse...

Uma excelente reflexão. E estas questões no calor do momento, infelizmente e porque as emoções da clubite às vezes falam mais alto, não são de destacar no devido momento. Até que depois pensamos "espera lá..."
Um dos tristes exemplos são o tipo de programas que temos aos domingos e segundas nos canais de "notícias" dos respetivos canais generalistas. Em que simplesmente, não se fala de futebol. E quando se tenta a clubite ou a condescendência bacoca acontecem em catadupa.
Um dos programas que gosto de ouvir na TSF é o "Jogo Falado" - agora com novo horário para mal dos meus pecados - em que sim, se fala de futebol.
Parabéns por esta pedrada no charco....insuficiente infelizmente mas, de salvaguardar.

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