27 de fev de 2017

"As notícias a respeito da minha morte foram manifestamente exageradas" - Samir Nasri


Da liberdade que Sampaoli lhe permite renasce a melhor versão de Samir Nasri. É incrível a influência que Nasri consegue ter em todos os momentos do jogo, em todas as zonas do campo. Recua para construir, muitas vezes até bem perto dos centrais, e com uma calma enervante e a ajuda de N´Zonzi, decide quando e como o Sevilha vai entrar no meio campo defensivo do adversário. Tratando-se de Nasri, a bola não está nem mais nem menos tempo do que devia nos seus pés, está o tempo ideal. Sai dos seus pés quando estiverem reunidas as melhores condições possíveis para o Sevilha entrar no meio campo ofensivo. 

Em zonas mais adiantadas, serve de pivot ofensivo e ajuda na circulação da bola, seja em largura ou através de passes verticais. Nasri gere o ritmo de cada ataque do Sevilha. Da sua cabeça e dos seus pés sai o desenho de todo o ataque do Sevilha. Mas Nasri é muito mais que isto. Perto da grande área adversária, Nasri coloca ao serviço do coletivo toda a sua criatividade, toda a sua inteligência. Seja através de um passe curto, simples, mas que permite ao Sevilha continuar em organização ofensiva e a procurar a melhor maneira de chegar ao golo, seja através de um passe delicioso que deixa um colega na cara do Gr adversário, Nasri mostra a cada toque na bola o que é ser um médio de qualidade. 

No vídeo ficam algumas ações de Nasri no jogo da Champions. 

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22 de fev de 2017

Jorginho, o craque que poucos compreendem


Defendo, desde há bastante tempo a esta parte, que os critérios de escolha de grande parte dos treinadores, por não estarem hierarquizados devidamente, levam a que um pouco por todo o lado haja uma quantidade obscena de talentos desperdiçados. Foi claramente o caso do jogador a quem este post se vai dedicar quando orientado por Benítez, por exemplo. Mas, mais do que isso, muito pouca gente entende o valor de jogadores como o Jorginho. E isto inclui imensos treinadores, que ou ignoram este tipo de jogador ou, não ignorando, o usam mal. Servirá este post, no fundo, para o explicar e até para dar a conhecer a mais gente a enorme qualidade deste jogador, que passará despercebido a muita gente...

É um jogador do mais normal que há em termos físicos. Apesar de ser relativamente alto (1m80), não é particularmente forte, nem particularmente ágil, nem... bem, particularmente nada. Tecnicamente, sendo bastante evoluído, está longe de ser minimamente espalhafatoso ou de ter competências especiais no drible e na condução, como bastantes médios-defensivos ou médios-centro na actualidade. O observador normal, que apenas olha aos aspectos técnicos e físicos, ver-lhe-à qualidade no passe e na recepção, mas pouco mais.

E, no entanto, sinto-me bastante seguro em dizer que o considero um dos dez melhores médios-defensivos a nível mundial (diga-se de passagem que muito facilmente iria mais longe que isto). E o motivo é muito simples - Jorginho tem o jogo na cabeça. Reparem que digo isto no sentido menos hiperbolizado que possam imaginar, porque tem mesmo muito poucos rivais na sua posição, no que ao conhecimento do jogo (com e sem bola!) e tomada de decisão diz respeito (talvez apenas Busquets e Weigl o sejam). A ideia central do post é mesmo, com uma mistura entre análise e vídeo, mostrar isso da melhor forma que consigo. Nesse sentido, construí um vídeo do jogador no mais recente jogo do Nápoles, em casa do Chievo Verona.

Quanto a esse vídeo, algumas notas. Contém todas as acções de Jorginho no jogo, com bola, e os lances em que por acção dele, directa ou indirecta, a equipa a recuperou. Ainda assim não mostrará tudo, claro, mas não só o vídeo já possui uma extensão assinalável na forma actual (pouco mais de 12 minutos), como trouxe também mais um pormenor para destacar que não lá está incluído. Para além disso, em algumas acções deixei propositadamente alguns lances completos no vídeo, mesmo que as intervenções directas dele nos mesmos distem vários segundos umas das outras. Nesses casos, que constituirão os clips mais longos, recomendo que se tentem abstrair da bola e olhem directamente para ele e para a forma como está a interpretar a situação em seu redor. Também me sinto na obrigação de referir que este não foi, de todo, um jogo muito acima do habitual por parte do Jorginho. Foi, aliás, muito na linha do que faz constantemente, tendo até cometido um ou outro erro que não lhe é habitual. Erros esses que, obviamente, estão contidos no vídeo, visto que como foi dito nele podem ser observadas todas as acções do jogador com bola, o que evidentemente incluirá tanto as boas como as más.

Mas antes do vídeo propriamente dito, trago um lance adicional, no qual o Nápoles tem a bola mas sem que o Jorginho a receba uma única vez. Questionar-se-ão, acredito, qual será então a relevância desse lance. Esta reside no facto de ser nele nítida a forma quase obsessiva como o Jorginho está os 90 minutos a interpretar situações, a analisar o contexto e, mais do que isso, a tentar guiar/ordenar os colegas na acção correcta a tomar.


Acho que não estou a incorrer em nenhum exagero se disser que, em 99% dos casos, quando um jogador dá ordens a um colega que tem a bola durante o jogo é no sentido de este lha passar. Não é, de todo, esse o caso do jogador aqui analisado. Ele tanto ordena a um colega que lhe passe a bola, como que conduza ou até que passe a outro jogador. Não o faz por notoriedade, claramente. A meu ver, fá-lo quase como sintoma da sua reflexão e análise obsessiva das situações do jogo. Como está sempre a analisar tudo e a tentar pensar algumas jogadas à frente, qual xadrezista de qualidade, percebe quase sempre qual a melhor solução que os colegas têm para dar seguimento ao jogo, e sente a necessidade de os guiar.

No caso em particular que aqui mostro, fá-lo quatro vezes, e felizmente a sua linguagem gestual é clara o suficiente para que seja possível a quem está de fora ler minimamente as intenções dele. Na primeira, ordena a Koulibaly que avance e se desloque para a sua esquerda, de modo a que este não esteja a ocupar a mesma coluna vertical que ele. Na segunda vez, vendo que o Chievo está com uma concentração grande de jogadores naquela zona, ao contrário do Napoli (que apenas tem Hamsik e, pior do que isso, ele teria depois poucas possibilidades de ligação com os colegas caso a bola lhe chegasse), sugere a Insigne que devolva a Koulibaly para se procurar uma entrada no bloco adversário em melhores condições. Na terceira, vendo que Albiol tem bastante espaço à sua frente e que ele próprio está quase que preso num banco de 6 adversários, ordena-lhe que conduza, aproveitando o espaço livre e acima de tudo atraindo alguns deles para que depois a bola entre melhor na frente da 1ª linha de pressão. E por fim, na quarta vez, diz a Koulibaly que devolva a bola a Albiol, colocando-se imediatamente em posição para receber um passe deste (que acaba por não sair) à frente da 1ª linha de pressão. Para além destes 4 detalhes, podemos, ao olhar atentamente para Jorginho, constatar a forma como este está constantemente a rodar o pescoço, para perceber o contexto à sua frente. Mas sobre este último detalhe falaremos mais claramente abaixo...

Passemos então ao dito vídeo:


Antes de partir para uma análise mais geral, vou destacar alguns lances que me pareceram ter pormenores que merecem a referência. Não necessariamente por serem os mais brilhantes (embora também o possam ser :) ), mas por um ou outro motivo, que depois explicarei abaixo, me chamarem à atenção... Os intervalos temporais apresentados abaixo são os do vídeo.

42 segundos (0:42) - Este lance, à primeira vista, não tem nada de especial. Aliás, no que é facilmente perceptível o Jorginho até esteve mal, visto que o passe dele para o Koulibaly saiu muito curto (erro técnico), acabando por criar dificuldades desnecessárias ao colega num lance simples. Mas este primeiro lance não tem como intenção elogiar uma acção do Jorginho, mas sim demonstrar um pormenor que está claramente explícito aqui e que ajuda a perceber um recurso que ele usa para estar sempre alguns passos à frente de todos os outros. Olhem para ele com toda a atenção que conseguirem, e contem as vezes que ele roda o pescoço para trás (ou seja, para a frente do campo, visto que ele estava a correr para trás). Eu contei 5, e pelo menos 4 delas parecem-me nítidas. Como digo, este lance não é destacado pelo que é, mas pelo que mostra do jogador. Neste caso, a forma quase obsessiva com que ele tenta olhar para a frente serve para perceber se tem condições para verticalizar, e até para entender o melhor possível eventuais mudanças de contexto e ter o máximo de dados possíveis para a tomada de decisão. Neste caso em particular, percebeu que não estavam reunidas as condições para verticalizar, e devolveu atrás.

1:24 - Mais uma vez, o aspecto referido acima de tentar sempre guiar os colegas quando têm a bola. Destaque para a irritação que demonstra quando o Albiol não lhe devolve a bola, quando este tinha condições para a receber e gente com quem jogar (Allan e Insigne).

02:00, 03:20 e 07:44 - Fundamentos da posição. Mais concretamente, a primazia absoluta ao passe vertical, a queimar linhas, e a preocupação constante em servir de apoio recuado em organização ofensiva. Estes clips são maiores exactamente por isso, para mostrar essa preocupação dele em
fornecer sempre um apoio, mesmo quando a equipa muda de lado a atacar.

10:10 - Percepção do contexto. Na maioria dos casos, a função que lhe cabe em termos posicionais, na organização ofensiva é, como foi dito, servir de apoio recuado. Mas, correndo algum risco de entrar em contradição, o jogo é demasiado complexo para se dizer que um jogador pode, na verdadeira acepção do termo, ter funções. De uma determinada opção ser a melhor a tomar na maioria dos momentos, não se segue que o seja sempre, e o Jorginho, como jogador extremamente inteligente que é, percebe isso perfeitamente. O clip começa aos 10:10, mas a parte que me interessa destacar ocorre sensívelmente a partir dos 10:24 (embora tudo o que o Jorginho faz neste lance em particular seja muito bom). Percebendo que a bola tem de entrar no Insigne, avança por forma a dar uma linha de passe horizontal ao colega que lhe permita receber em melhores condições de, em seguida, logo enquadrar o colega. Seria fácil simplesmente ficar atrás, mas mais uma vez, ao identificar a solução que o contexto pedia, ficou bem patente todo o conhecimento do jogo que tem o Jorginho...

8:35 - Classe. Tanto a forma como mata no peito e sai da pressão como depois aquele passe de primeira para o Hamsik são dignas de destaque. Acções de elevado grau de dificuldade, que ele executou com mestria.

Um pouco por todo o vídeo, é facilmente perceptível o critério do jogador, na forma como prioriza passes que eliminem adversários do lance (o chamado passe vertical) mas como também percebe que nem sempre dá para optar por eles, e nesse caso há que criar condições de penetração de outra forma. Sem bola, a forma como está constantemente a servir de cobertura ofensiva quando a equipa está no último terço, e como liga os sectores da equipa em construção são também notáveis. E isto num jogo em que o Chievo lhe dificultou muito mais a vida do que grande parte dos adversários, nessa fase de construção. De destacar também a forma como, apesar de fisicamente não ter atributos diferenciadores, consegue, por acção directa ou indirecta (e algumas destas últimas não estão aqui!), que a equipa recupere a bola. O facto de ter óptimas noções posicionais ajuda-o bastante nisto, evidentemente, bem como o facto de, normalmente, saber discernir quais os momentos para ser agressivo. Percebe-se, no fundo, que é a forma como percepciona o jogo que o eleva a um patamar superior. E mais do que isso, percebe-se que mesmo não se destacando fisicamente em nada, nem tendo atributos técnicos especiais para além do passe e da recepção, um médio-defensivo pode ganhar de goleada a muitos que metam sempre a bola onde querem e consigam conduzir a bola 40 metros com adversários em cima, por exemplo. É um dos jogadores que me lembro de ver jogar que melhor conhecem o jogo, e isso, e nada mais do que isso, é o que o torna um jogador especial. Mas, voltando ao início do post, só lhe é possível apresentar toda esta qualidade porque joga numa equipa onde o seu futebol se sente em casa, e mesmo o próprio Jorginho evoluiu bastante como jogador integrado numa equipa que o estimulou desta forma. Sempre foi um médio muito inteligente, mas foi com Maurizio Sarri que elevou essa inteligência a níveis estratosféricos.

Deixo o último parágrafo para, exactamente, falar de Sarri. É um treinador soberbo, facilmente um dos meus três treinadores favoritos na actualidade, e já o é desde que seguia o seu Empoli. Mereceria até um post só para si, para elogiar todos os seus méritos, mas aqui vou ter de lhe fazer uma pequena crítica (embora antecedida de muitos elogios). A abordagem dele a esta época tem sido, na globalidade, fantástica. Mesmo perdendo o máximo goleador da história da Serie A numa só temporada, soube reinventar ligeiramente a organização ofensiva da equipa com a chegada do Milik, que é um avançado algo diferente (o Honoris fala um pouco sobre isso aqui) e, mais que isso, quase que "inventar" um avançado do nada com a lesão deste. Quando ainda existe o dogma de que é obrigatório ter um matador (normalmente, o tal avançado grande, forte e mau que marca muito) para se marcar golos, a aposta num extremo de 1m69 para a posição parecerá certamente uma heresia. Mas a verdade é que tanto ele como a equipa marcaram imenso, o que, se esse dogma fosse uma porta, representaria mais um tiro numa porta que já foi arrombada, baleada e pontapeada vezes sem conta, apesar de ainda haver quem não o perceba. Soube também integrar o Zielinski nas suas opções regulares para o 11, que é um jogador superior ao Allan. Mas, e aqui vem a crítica, parece-me que foi demasiado lesto em apostar no Diawara no lugar do Jorginho. O primeiro é um médio defensivo de qualidade e acima de tudo com imenso potencial, há que notar. Já tem muitas prioridades certas com bola, alguma qualidade técnica, uma calma sobre pressão interessante e é fisicamente bastante bom. Mas neste momento, está claramente numa liga inferior ao Jorginho, e, por isso, ainda não devia discutir activamente com este a titularidade (no sentido de o ser tantas ou mais vezes que ele).

2 de fev de 2017

Procurar o golo de todas as formas... ou das melhores?


"Forçámos de todas a maneiras e feitios para fazer golo, mas não conseguimos."  
Esta frase é de Arnaldo Teixeira, adjunto de Rui Vitória, após a derrota do Benfica em Setúbal. E parece-me que pode trazer um tópico de discussão interessante, juntamente com o que se passou no final do encontro. O Benfica teve imensas dificuldades em criar lances de perigo ao longo do encontro, sendo que nos dez minutos finais, mais coisa menos coisa, decidiu começar a despejar bolas na área do seu adversário a torto e a direito. O sucesso dessa ideia foi obviamente muito diminuto, tendo apenas conseguido um remate de Mitroglou, na sequência de uma segunda bola. Isto tudo até ao último lance do jogo, claro. Esse lance foi imensamente escrutinado por todo o país, mas, claro, no sentido de saber se o lance era passível de grande penalidade ou não. Aqui a ideia é fazer um pouco diferente, por isso não é, de todo, esse o meu foco. O interesse do lance, a meu ver, está no início do mesmo e não no fim.


Falta literalmente um segundo para acabar o tempo adicional mínimo, a equipa tinha, como referido, passado os dez minutos anteriores a despejar na área e Carrillo estava numa posição em que a grande maioria dos jogadores, mesmo numa situação diferente, cruzariam. Pelo que o desfecho da jogada deveria ser mais do que óbvio, uma bola na área. Mas Carrillo é um jogador que poucos percebem, e que tem tendência a não fazer o que todo o mundo acha óbvio. Muito acusado de ser irresponsável nos momentos defensivos e, de facto - já que a primeira afirmação é mais questionável do que se pensa - tem oscilações gigantes de rendimento consoante os seus níveis de confiança e conforto na equipa em que se encontra (o que o leva a entrar em ciclos negativos viciosos com facilidade, como foi bem visível no Sporting por exemplo). Apesar disso, é um jogador de elevadíssima qualidade, porque alia qualidades físicas e técnicas superlativas a um conhecimento do jogo deveras subvalorizado. Vejamos a jogada:
Ao não fazer o óbvio, e em vez disso procurar uma melhor solução, Carrillo aproximou-se muito mais do sucesso do que se tivesse feito o que toda a gente lhe ordenaria que fizesse na situação descrita. Foi, aliás, traído pela sua recepção após a devolução do colega (que também lhe dificulta a vida), que se lhe sai bem o colocaria numa situação muitíssimo favorável. Mas interessa mais falar da falácia que é a ideia que todos os treinadores têm de ter um "Plano B" para este tipo de circunstâncias - que consiste sensivelmente no que o Benfica fez neste período: tudo na área e bola lá em cima! Daí também o interesse de Arnaldo Teixeira em passar a ideia de que a equipa tentou chegar ao golo de todas as formas - visto que é algo tido como positivo e recomendável. Por isso mesmo, não é a verdade dessa ideia que se discute aqui (ou seja, se o Benfica procurou mesmo o golo de todas as formas) , mas sim o facto de essa ideia ser algo de positivo. Ao ignorar tais preconceitos e focar-se na melhor solução, Carrillo mostrou aos seus colegas e até à sua equipa técnica que, se o Benfica se tivesse focado nas melhores formas de chegar ao golo nos últimos 10 minutos - e não em todas, podia não ter saído do Bonfim sem pontos...
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