26 de mar de 2017

A Alemanha de Low. Ideias que ajudam ao sucesso dos jogadores


A melhor seleção do Mundo porque toda a qualidade individual está inserida em ideias de grande qualidade. Em todos os momentos, em todas as situações, os jogadores têm a ajuda do seu treinador. E é este o trabalho do treinador. Ajudar os seus jogadores a ter sucesso. 







20 de mar de 2017

Stillness is a move...


Num jogo em que a obsessão pela "objectividade" e por ritmos frenéticos é cada vez maior, o extraordinário jogador argentino da imagem (que, por falar nisso, deu uma entrevista fantástica há uns dias) mostrou, no dia de ontem, como essa obsessão pode levar ao abandono de certos caminhos menos lineares para desequilibrar organizações adversárias, exactamente por esses requererem uma certa pausa que esta visão tende a desprezar.

Existe um preconceito enorme para a falta de movimento com bola. Acha-se, de forma bastante generalizada, que se um jogador tem a bola não pode perder tempo, tendo de fazer qualquer coisa com ela e, preferencialmente, que seja feita para a frente (mesmo que para a zona da bandeirola de canto). Acções como a de Pastore nos segundos após receber a bola seriam, aliás, e pelo motivo apresentado acima, bastante assobiadas na maioria dos estádios...

Mas avancemos. Poderá parecer contra-intuitivo dizer que alguém completamente parado com a bola nos pés está a agir, acredito. Mas está, e a chave da questão reside num simples pormenor. O facto de um jogador estar parado com a bola nos pés não invalida que o jogo pare. Quem olhe apenas para a zona da bola achará isso, claro, mas enquanto o jogador está parado (ou, caso pressionado, simplesmente a tentar manter a bola perante essa pressão), todo o contexto à sua volta sofre mudanças constantes, por mais ténues que sejam. E os verdadeiros criativos, como Pastore, sabem recusar a primeira e a segunda solução que lhes aparece mal recebem a bola, usando essa pausa como forma de esperar que o contexto se modifique até a solução ideal apareça. Como é dito no título, stillness is a move, visto que essa pausa não funciona como um fim em si mesmo, mas sim como um meio para alcançar o que foi dito acima, ou seja, o aparecimento da melhor solução ou, pelo menos, de uma solução melhor que as iniciais.

Antes de deixar aqui o vídeo, deixo só a nota de que, infelizmente, a mudança do ângulo da câmara no momento em que o Pastore recebe a bola dificulta bastante a percepção da mudança de contexto. Felizmente, arranjei uma repetição que mostra os últimos 2 segundos de Pastore parado com a bola num ângulo que nos permite analisar o contexto, mas ainda assim recomendo que tentem ver tanto o lance como a repetição com atenção e até que vão parando o vídeo nessa altura, se for preciso, para perceberem melhor o que se passa.


Pastore percebe, ao contrário até do que possa parecer, imediatamente qual o melhor caminho para desequilibrar. Caminho esse que, tendo em conta o facto de a defesa do Lyon estar relativamente afundada na área e acima de tudo de o espaço à entrada desta estar muito mal protegido, consistia em passar a quem estivesse à entrada da área e procurar imediatamente o movimento de ruptura. Não havia ninguém nessa zona para efectuar esse passe, no momento em que Pastore recebe a bola, e isso dissuadiria 99% dos jogadores de continuarem a procurar esse espaço. Mesmo que até percebessem que essa seria a melhor forma de darem continuidade ao lance, em termos gerais, achá-la iam impossível no caso em particular por não lá terem nenhum colega (e sê-lo-ia, no momento em que recebessem a bola). Mas os jogadores especiais, que realmente vêm à frente, têm este tipo de ferramentas para conseguirem manipular o jogo a seu favor. Esteve sempre à espera que Di María invadisse o espaço pretendido, procurando manter a bola o máximo de tempo possível até isso acontecer, e depois foi só executar o que já tinha idealizado na sua cabeça antes de qualquer pessoa sequer ver essa possibilidade. A partir do momento em que encontra Di María e este devolve, todo o desequilíbrio está criado, sendo o resto do lance relativamente trivial.

No entanto, e para concluír, interessa-me referir um pormenor. De um jogador verdadeiramente criativo procurar ao máximo a decisão que maior potencial poderá trazer ao lance, não se segue que a force. Caso Di María não se inserisse nesse espaço, Pastore teria certamente alternativas na sua cabeça para dar seguimento ao lance, embora tendo a noção de que eram muito menos vantajosas. O jogador verdadeiramente criativo não é o que força, é o que espera, engana e manipula ao máximo até surgir a opção ideal, mas que têm a noção de que, se ela não surgir, não é crime nenhum procurar opções mais seguras.

12 de mar de 2017

Nápoles: controlo da profundidade. Bola descoberta



Neste tipo de situações, este é na minha opinião o comportamento defensivo que garante mais sucesso. Portador da bola em progressão, toda a linha defensiva recua para controlar a profundidade. Quando o portador se aproxima da área, alguém sai na contenção para dificultar a execução do passe ou remate, enquanto que os restante oferecem cobertura defensiva. 

  • Se sair passe, e mesmo havendo a possibilidade de ser bem sucedido, é um passe de maior dificuldade, uma vez que o menor espaço entre a linha defensiva e o guarda-redes exige que o passe seja feito com mais precisão e com a força ideal. 
  • Se sair remate, já vai estar condicionado pelo jogador que saiu na bola. 
  • Caso o portador decida fintar o jogador que sai na contenção, os restantes 3 que oferecem cobertura, e que não entram na área, estão suficientemente próximos para reagir rápido.

9 de mar de 2017

As vantagens do 3x4x3 losango que permitiu ao Barça a remontada mais incrível da história


É impossível dissociar a remontada épica que o Barcelona conseguiu alcançar, do sistema de jogo utilizado no jogo da 2ª mão. Pese embora a estratégia conservadora de Emery, só foi possível encostar o PSG durante 90 minutos à sua própria área porque o sistema escolhido por Luis Enrique assim o permitiu.


O que o Emery queria, e o que o 3x4x3 losango o obrigou a fazer. De um bloco médio/baixo para estarem praticamente "enfiados" dentro da sua área. A enorme rede de apoios que o portador da bola tinha permitiu ao Barça uma circulação muito apoiada, muito curta. Nunca faltaram linhas de passe dentro do bloco adversário, nem em largura.


Sem bola, foram também notórias as vantagens que este sistema trouxe ao futebol do Barça. A maneira conseguiu condicionar a construção do adversário e como conseguiu "abafar" após a perda da bola, só foi possível devido ao grande números de jogadores que estavam no meio campo ofensivo aquando da mesma.


Muitos jogadores no meio campo ofensivo, e quase todas as linhas de passe do adversário a serem condicionadas. Coberturas sempre garantidas.



Heat Map de Pique

Heat Map dos 3 defesas do Barça que passaram 51% do tempo no meio campo do PSG

8 de mar de 2017

Bas Dost, o desenquadrado...


... literal e figurativamente.

Literalmente por muitos o acusarem de nunca se enquadrar com a baliza adversária, quando recebe, e daí extrapolarem para a ideia de que ele é praticamente inútil com bola. Se é verdade que ele por vezes deixa passar oportunidades em que o contexto lhe pede para o fazer (embora seja ainda assim uma crítica exagerada, na forma como é feita), é acima de tudo a extrapolação que importa rebater. De um avançado ser pouco móvel e de não procurar com frequência oportunidades de receber e rodar para a baliza contrária, não se segue a sua inutilidade nesse momento. Um dos papéis mais importantes de um avançado é saber servir de apoio frontal, compreender as movimentações e intenções dos colegas, saber combinar com eles e mesmo conseguir fazer algo de inesperado através desse entendimento dos colegas e do contexto.

Ao contrário de muitos, logo nos primeiros jogos lhe vi muitos destes atributos. Apenas achava que falhava bastante na forma como (não) se movimentava, muitas vezes, para servir de apoio, tendo algumas dificuldades para perceber o contexto na questão da movimentação fora da área. Mas o que lhe podia faltar nessa movimentação, não só pode ser explicado pelo que lhe exigiam no Wolfsburg (que ficasse nas costas da defesa para finalizar, e que não saísse muito desse registo), como lhe sobrava na forma como se associava quando de facto tinha a bola. Há também dizer que, ao adaptar-se ao que Jorge Jesus lhe pedia, melhorou bastante nesse sentido (embora seja, por ventura, a área em que ainda devesse evoluir mais).

Um tipo de movimentação em particular, fora da área (embora normalmente perto dela), em que ele é bastante forte, é, quando vê colegas à sua ilharga e a bola vem com força, simular que vai dominar a bola, mas deixá-la passar para um colega e movimentar-se rapidamente nas costas da defesa. Isto cria bastante dúvida nos defesas, podendo facilitar não só a recepção do jogador que tem a bola, como um eventual passe desse jogador a aproveitar a subsequente movimentação.

Abaixo fica um exemplo, embora esteja longe de ser o melhor (era o único que estava no resumo...).


Figurativamente... porque é um jogador que foge da caixinha em que quem olha para um pinheiro de 1m96 o pode tentar encaixar. Poder-se-ia esperar, por parte de quem não o conhecesse, um tanque de guerra que vivesse do choque e do jogo aéreo. Na verdade, não se destaca em nenhum desses. É bastante franzino para a sua altura, os seus números fantásticos de golos devem-se muito mais à forma como se movimenta dentro da área do que a qualquer supremacia física e, acima de tudo, a forma como procura sempre em primeiro lugar os colegas para os enquadrar (juro que não foi de propósito! ), assistir ou combinar, sendo perfeitamente capaz de ignorar uma boa oportunidade de remate se vir um colega em melhor situação. O que só dá crédito ao registo de golos que tem. Para além disso, não se fica por "dar em quem sabe". Mesmo ao primeiro toque, é capaz de descobrir soluções inovadoras e com uma dificuldade cognitiva bastante elevada.

Foge também do que é a equipa actualmente. O Sporting cai muitas vezes numa falsa atracção, procurando exagerar nos cruzamentos para ele, pensando que é a melhor forma de o aproveitar. Não é, pelo que foi dito acima. Na recepção ao Vitória SC, por exemplo, foi facilmente o jogador que mais coisas diferentes criou em campo. Merecia jogar no Sporting do ano passado, por exemplo, que praticava um futebol imensamente mais criativo colectivamente. Jonas está obviamente numa liga diferente de todos os outros avançados do nosso campeonato, mas se tivesse de escolher alguém para fazer parelha com ele, era o Dost. O que é um dos melhores elogios que lhe consigo fazer...

No fundo, e mais uma vez, nem tudo o que parece é. Poucos esperariam de um avançado pouco ágil e sem atributos técnicos especiais de 1m96 acções como a do clip abaixo (e há mais de onde estas vieram, são só uns poucos exemplos), mas é por isso que há que ser cuidadoso na análise, e procurar analisar os jogadores pelo que são.

6 de mar de 2017

Sporting vs Vitória: JJ, Palhinha, Geraldes e a importância de ter a bola


«A entrada do Palhinha era para parar o coração do V. Guimarães. É verdade que melhorámos defensivamente, mas não melhorámos com a bola. O William já estava cansado, depois de ter feito uma primeira parte excelente com bola e sem bola. O Palhinha é um jogador mais defensivo, mas não tem uma saída tão forte. Tivemos de descer mais e de recuar, acabando por não conseguirmos segurar a vantagem que tínhamos.»
As frases são de Jorge Jesus, na sua análise ao que correu mal na 2ª parte do jogo do Sporting vs Vitória. Começo por dizer que me parecem afirmações que acabam por se contradizer. JJ admite que o Sporting não melhorou com bola, aquando da entrada de Palhinha, e depois refere que Palhinha não tem uma saída tão forte, referindo-se obviamente à qualidade que o jovem médio defensivo oferece na fase de construção. Ou seja, JJ sabe que Palhinha é fraco com bola, mas esperava que a equipa melhorasse com bola depois da entrada dele em campo? Sinceramente não percebo. 

Através das suas afirmações, JJ dá a entender que o facto do Sporting não ter conseguido ter bola, obrigou a equipa a recuar mais e com isso permitiu ao adversário chegar com mais perigo à baliza do Sporting. Concordo totalmente. Mas então porque é que JJ não tinha no banco um médio com mais qualidade com bola? Alguém que sabe perfeitamente gerir o ritmo do jogo? Alguém que sabe quando deve guardar a bola para a equipa se organizar ou quando deve soltar logo para a transição rápida?

E é aqui que entra Francisco Geraldes. Obviamente que ninguém sabe qual seria o resultado final se em vez de Palhinha tivesse entrado Geraldes mas uma coisa sabemos: Com bola, o Sporting ia ser muito mais capaz. Com bola, o Sporting ia circular com mais qualidade. Com bola, e é aqui que me parece importante focar bastante atenção, o Sporting ia evitar que o adversário criasse perigo. Há uma bola em campo, e se é o Sporting que a tem, o adversário não cria perigo. E sendo o Sporting a equipa com mais qualidade individual quer em campo quer no banco, não me parece de todo difícil que fossem capazes de gerir o jogo com bola, não deixando assim que o Vitória os "empurrasse" para trás.




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