20 de mar de 2017

Stillness is a move...


Num jogo em que a obsessão pela "objectividade" e por ritmos frenéticos é cada vez maior, o extraordinário jogador argentino da imagem (que, por falar nisso, deu uma entrevista fantástica há uns dias) mostrou, no dia de ontem, como essa obsessão pode levar ao abandono de certos caminhos menos lineares para desequilibrar organizações adversárias, exactamente por esses requererem uma certa pausa que esta visão tende a desprezar.

Existe um preconceito enorme para a falta de movimento com bola. Acha-se, de forma bastante generalizada, que se um jogador tem a bola não pode perder tempo, tendo de fazer qualquer coisa com ela e, preferencialmente, que seja feita para a frente (mesmo que para a zona da bandeirola de canto). Acções como a de Pastore nos segundos após receber a bola seriam, aliás, e pelo motivo apresentado acima, bastante assobiadas na maioria dos estádios...

Mas avancemos. Poderá parecer contra-intuitivo dizer que alguém completamente parado com a bola nos pés está a agir, acredito. Mas está, e a chave da questão reside num simples pormenor. O facto de um jogador estar parado com a bola nos pés não invalida que o jogo pare. Quem olhe apenas para a zona da bola achará isso, claro, mas enquanto o jogador está parado (ou, caso pressionado, simplesmente a tentar manter a bola perante essa pressão), todo o contexto à sua volta sofre mudanças constantes, por mais ténues que sejam. E os verdadeiros criativos, como Pastore, sabem recusar a primeira e a segunda solução que lhes aparece mal recebem a bola, usando essa pausa como forma de esperar que o contexto se modifique até a solução ideal apareça. Como é dito no título, stillness is a move, visto que essa pausa não funciona como um fim em si mesmo, mas sim como um meio para alcançar o que foi dito acima, ou seja, o aparecimento da melhor solução ou, pelo menos, de uma solução melhor que as iniciais.

Antes de deixar aqui o vídeo, deixo só a nota de que, infelizmente, a mudança do ângulo da câmara no momento em que o Pastore recebe a bola dificulta bastante a percepção da mudança de contexto. Felizmente, arranjei uma repetição que mostra os últimos 2 segundos de Pastore parado com a bola num ângulo que nos permite analisar o contexto, mas ainda assim recomendo que tentem ver tanto o lance como a repetição com atenção e até que vão parando o vídeo nessa altura, se for preciso, para perceberem melhor o que se passa.


Pastore percebe, ao contrário até do que possa parecer, imediatamente qual o melhor caminho para desequilibrar. Caminho esse que, tendo em conta o facto de a defesa do Lyon estar relativamente afundada na área e acima de tudo de o espaço à entrada desta estar muito mal protegido, consistia em passar a quem estivesse à entrada da área e procurar imediatamente o movimento de ruptura. Não havia ninguém nessa zona para efectuar esse passe, no momento em que Pastore recebe a bola, e isso dissuadiria 99% dos jogadores de continuarem a procurar esse espaço. Mesmo que até percebessem que essa seria a melhor forma de darem continuidade ao lance, em termos gerais, achá-la iam impossível no caso em particular por não lá terem nenhum colega (e sê-lo-ia, no momento em que recebessem a bola). Mas os jogadores especiais, que realmente vêm à frente, têm este tipo de ferramentas para conseguirem manipular o jogo a seu favor. Esteve sempre à espera que Di María invadisse o espaço pretendido, procurando manter a bola o máximo de tempo possível até isso acontecer, e depois foi só executar o que já tinha idealizado na sua cabeça antes de qualquer pessoa sequer ver essa possibilidade. A partir do momento em que encontra Di María e este devolve, todo o desequilíbrio está criado, sendo o resto do lance relativamente trivial.

No entanto, e para concluír, interessa-me referir um pormenor. De um jogador verdadeiramente criativo procurar ao máximo a decisão que maior potencial poderá trazer ao lance, não se segue que a force. Caso Di María não se inserisse nesse espaço, Pastore teria certamente alternativas na sua cabeça para dar seguimento ao lance, embora tendo a noção de que eram muito menos vantajosas. O jogador verdadeiramente criativo não é o que força, é o que espera, engana e manipula ao máximo até surgir a opção ideal, mas que têm a noção de que, se ela não surgir, não é crime nenhum procurar opções mais seguras.

1 comentários:

RS disse...

Os jogadores do Lyon adormeceram um pouco na pressão, se fosse uma defesa mais rija teria sido diferente, mas concordo contigo, teria feito algo se calhar não tão efetivo mas igualmente bom.

Um pouco fora do loop, uma coisa interessante seria alguém ir à procura tanto do gajo que descobriu o Pastore como o Dybala para o Palermo. Os clubes portugueses precisam de um scout assim!

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