10 de abr de 2017

O jogo sem bola quando a nossa equipa a tem - Jorge Jesus e Francisco Geraldes


"Todos estes jovens têm qualidade individual, mas o futebol tem duas componentes, coletiva e individual. Olhando para os 90 minutos de um jogo, tirando o Messi, em 80 minutos os jogadores não têm bola. Por isso se não ensinarmos os jogadores os aspectos táticos não serve de nada ter muita técnica. Se passa 85 minutos sem bola no pé, não interessa nada. O Messi e o Ronaldo é que passam mais tempo com bola. Nós só olhamos para o jogador quando ele tem bola e não pode ser assim."

Estas palavras foram ditas por Jorge Jesus, há exactamente um mês atrás. Este proferiu-as no sentido de responder a uma pergunta que lhe foi feita por um jornalista sobre a possibilidade de Francisco Geraldes jogar na posição "8", no seu modelo, mas, como se percebe, Jorge Jesus vai um bocado para além dessa questão.

Quanto à afirmação propriamente dita, e que serve de ponto de partida para o post, tenho a dizer que concordo em grande parte com ela, mas que tenho mais reservas quanto à intenção de Jorge Jesus ao dizê-la. Concordo em grande parte porque, de facto, é extremamente comum ignorar-se o que um jogador faz quando não tem a bola em seu poder, quando é exactamente nessa situação que passam a esmagadora maioria do jogo e na qual têm de ser fortes para criarem, através da sua movimentação, os melhores contextos possíveis para a equipa. Mas parece-me que há aqui um certo preconceito de Jorge Jesus, ao usar estas palavras para se referir, em parte, ao caso de Francisco Geraldes.

Quando se fala dele, normalmente gaba-se a criatividade, inteligência e qualidade técnica que possui. E bem, claro. Mas o que pode não ser tão claro, e que servirá de ponto principal deste post, é que essa criatividade e inteligência que ele tem não se manifesta apenas quando ele tem a bola. Também nos momentos em que são os colegas que têm a bola esses atributos aparecem, na forma como ele se movimenta e procura os posicionamentos mais adequados ao contexto e, acima de tudo, que mais agridam o adversário. Jorge Jesus referiu que a maioria dos jogadores passam 80 minutos sem tocar na bola, mas há que ver que, num contexto em que a equipa deles passe mais de 60% dos jogos com bola, a maioria desses 80 minutos em que os jogadores não têm a bola são passados em momentos ofensivos. Segundo a própria lógica de Jorge Jesus, há então que admitir que estes momentos são absolutamente cruciais para definir um jogador, e os parágrafos e pequenos vídeos seguintes servirão para mostrar o que de bom Francisco Geraldes tem, hoje, para apresentar neles.

Como foi dito, a inteligência está longe de se manifestar apenas nas decisões que se tomam com bola. E o notável jogador do Sporting mostrou-o, nos cerca de 15 minutos que passou em campo no jogo do passado sábado, com o Boavista. Já Podence tinha estado a um nível acima do habitual titular (Gelson) a esse respeito, ao procurar muito mais espaços centrais e tentar dar soluções diferentes do habitual, mas com a entrada de Geraldes então viu-se algo que só tem paralelo no que fazia João Mário no ano transacto. Numa ou noutra situação o posicionamento do jogador não foi o ideal (por se aproximar demasiado), mas na maioria das situações esse apoio curto que o jogador forneceu não só era o necessário, como era o que invadia o espaço mais perigoso, sendo normalmente entre sectores de adversários. Mas passemos aos vídeos, que permitirão explicar mais alguns pormenores... Em primeiro lugar, alguns vídeos de acções em que o Geraldes não faz nada de minimamente especial com a bola (em metade dos clips nem sequer lhe toca).





Um pouco por todos estes pequenos clips, salta à vista a intenção do jogador leonino em invadir espaços entre as linhas do adversário, de dar boas linhas de passe horizontais/diagonais quando a bola está no corredor lateral e, acima de tudo, a percepção muito interessante que tem da melhor forma de, realmente, dar essas linhas de passe. Às vezes há a tendência deste tipo de jogadores se aproximarem demasiado do portador da bola a todo o instante, quase como se lha fossem pedir ao pé porque a sua vontade é simplesmente de a terem. Isto faz com que dificilmente (embora não seja impossível) recebam a bola em melhor situação do que a do anterior portador. Já o Geraldes, na clara maioria das situações, procura sempre dar opção num local em que, a receber o passe, se crie qualquer tipo de vantagem (dando um exemplo rápido, como nesta imagem).

É esta qualidade que, parece-me, Jorge Jesus ainda não percebeu exactamente em Geraldes, e que, a juntar a tudo o resto, o leva a ser, a meu ver, claramente a melhor opção para jogar na direita, porque a equipa do Sporting está claramente necessitada de um jogador que, partindo da faixa, ofereça este tipo de dinâmica posicional e ligações a zonas fulcrais em posse.

Mas claro, mesmo jogando pouco tempo, também não podia deixar de ter as suas características acções de qualidade com bola (a tal "qualidade individual" de que Jorge Jesus fala):




O passe a rasgar na 1ª situação será, obviamente, o que mais saltará à vista, mas a calma com que procura uma solução curta e vertical mesmo que dentro da sua própria área e ligeiramente pressionado (embora aqui, diga-se, o momento em questão ajude um pouco) na 2ª situação e especialmente o passe para Alan Ruiz na 3ª indiciam claramente a qualidade dele com bola, que já todos conhecemos.

Para o final, deixei uma situação que considero quase paradigmática. Porque, apesar de curta, mostra muita coisa sobre dois jogadores do Sporting. Dois perfis de decisão e formas de ver o jogo opostas, a meu ver uma (muitíssimo) melhor que a outra. 


Geraldes faz tudo bem. Mal Schelotto recebe a bola, procura dar o máximo de profundidade num primeiro momento, por forma a ou conseguir encontrar espaço nas costas da defesa ou, o mais provável, de a obrigar a recuar rápido, isto enquanto acompanha a corrida do colega. Depois, no momento certo, trava, aproveitando que a defesa ia agressivamente na direcção oposta e oferece uma linha de passe central. Infelizmente para ele, jogadores como Schelotto (que, embora seja um dos piores casos a este respeito, está muito longe de ser o único nesta equipa do Sporting) não sabem muito bem o significado da palavra "travar". Nem da ideia "pensar enquanto jogo à bola", note-se... Em vez de perceber a ideia do colega, nem sequer o viu, qual burro com palas, continuando a correr furiosamente até à bandeirola de canto, conseguindo mesmo "ganhá-lo". Alvalade aplaudiu, pois claro, e só não aplaudiu com uma intensidade muito maior porque o jogo estava resolvido. Este tipo de jogador ter muitos minutos é uma das maiores causas para o insucesso contínuo do Sporting, e aqui refiro-me a muito mais que ao Schelotto, que houve e há vários, ao longo dos anos, que enganam muito mais que ele (também são melhores, o que não é propriamente complicado). Mas isso é conversa para outros posts...

13 comentários:

Mike Portugal disse...

O último lance do post, gritei e chamei nomes ao Schelotto por correr feito "Capel" sem sequer se aperceber que não tinha ninguém perto da baliza adversária. Mas este é um dos piores jogadores do SCP, portanto não esperaria melhor dele.

Kant disse...

Muito bom. mas acho que qnd o JJ falou de jogo sem bola tinha que ver com o momento de transição e organização defensiva.

De resto excelente post. keep Going

Rfm disse...

Meu caro tudo muito bonito até ao ponto em que não percebeste nada do que o JJ disse. Jogo sem bola no capítulo defensivo.

RMSCP disse...

Bom post. Só não gostei da "comparação" com o Schelotto. Isso é criminoso!

Sou dos poucos sportinguistas que acha que o Gélson tem feito mais mal que bem ao jogo do Sporting. Teve ali uma boa fase em que as coisas lhe saíam bem mas os posicionamentos que ele toma são completamente diferentes do Podence e do Geraldes. Joga quase sempre pele linha e a abécula que temos a lateral direito também. Isso faz com que só que saiam dali cruzamentos e rasgos individuais do Gélson (os do Schelotto, embora sejam aplaudidos, vão parar para fora).

Cumps

carlos disse...

Para que é que perdem tanto tempo a falar de Francisco Geraldes, quando é um tipo que nunca joga?

Cantinho do Morais disse...

Excelente post!
Tive o privilégio de assistir ao jogo na Lateral A, onde se vê o jogo de maneira brutal (o meu lugar é na Superior Sul).
A entrada do Geraldes só teve um aspecto negativo: coincidiu com a saída do Podence.

Não é preciso replicar o que está tão bem explicado no post. Mas vi uma coisa que não gostei: tanto William como Adrien (especialmente este último), tiveram sempre grande relutância em responder às solicitações de Geraldes. O lance do 1º vídeo valeu uns berros lá no estádio (é pena darem um pormenor do jogador do Boavista, não se vê Geraldes a pedir a bola ao Adrien). Estava no enfiamento dessa jogada e linha de passe era excelente. Optou-se quase sempre por se dar a bola a Ruiz...

Schelotto é uma anedota. Perder tempo com ele é inglório. Porque joga? Um mistério... ou então a razão é tão óbvia que temos medo de assumi-la.

Quanto ao Gelson, recordo o seu nível exibicional quando esteve em campo, em simultâneo, com Podence e Matheus (em Tondela). Foi notório que os outros foram muito melhores. Foi surpreendente? Para mim, não.

O Sporting está arredado do título desde Janeiro porque foi assim que se preparou em Julho e Agosto.

continuação de um bom trabalho.

Anônimo disse...

Já somos 2, é um jogador fantástico mas o que lhe foi pedido esta época está para além do que ele consegue (levar a equipa às costas quase a época toda). A lesão recente vai ser recorrente se ele continuar assim...que jogue o Geraldes, é o mais parecido com o JM que temos e a qualidade está lá

AD disse...

Rfm (e tocando também no que o Kant disse), acho que tu é que não percebeste muito bem o post... Eu sei muito bem que o JJ se estava a referir mais concretamente aos momentos de organização e transição defensiva. Daí ter dito que, apesar de concordar em grande parte com as declarações em si, tinha muito mais reservas sobre as intenções da mesma, exactamente por o JJ ter dito aquilo como referência maioritária ao momento defensivo. Por isso, peguei na própria lógica de JJ para explicar que, se é verdade que um jogador passa a esmagadora maioria do tempo sem a bola, também é verdade, no contexto de um grande português, que a maioria do tempo que passam sem bola ocorre quando a equipa a tem, ou seja, em transição e organização ofensiva, e daí se partiu para o post propriamente dito...

RMSCP, concordo com o que dizes do Gelson. É um jogador com qualidades muito interessantes, mas cujo actual perfil de decisão tem contribuído para afastar a equipa do sucesso, embora o possa levar a números mais ou menos interessantes de assistências (como o Capel as chegou a ter, e atenção que não estou a comparar os jogadores). Neste momento, e caso a valorização aparente dele no mercado seja real, acho que o Sporting tinha tudo a ganhar em aproveitá-la. Porque há muitas soluções cá dentro para o lugar dele, a meu ver com tanta ou mais qualidade.

Carlos, falar de Francisco Geraldes não é tempo perdido, é tempo ganho...

Cantinho do Morais, sim, também notei que as movimentações do Geraldes foram ignoradas algumas vezes pelos colegas. Mas acaba por ser normal, que já não estão propriamente habituados a quem dê aquele tipo de linhas de passe.

Cantinho do Morais disse...

"Mas acaba por ser normal, que já não estão propriamente habituados a quem dê aquele tipo de linhas de passe."

porra... podíamos ser uma equipa muito melhor... incrível o desperdício de talento e qualidade.
J. Mário, William, Adrien, Montero, André Martins (e agora Dost, Geraldes, Guald, Chaby, Podence, Matheus, Gelson). Como é possível passarem por aqui e não serem campeões??

JG disse...

Excelente análise. Geraldes é um jogador notável, o mais próximo em potencial de João Mário mas com características únicas que apenas alguns, poucos, possuem. O Sporting não conseguirá adquirir nenhum jogador para o plantel da próxima época com as qualidade de Geraldes, porque não existem jogadores assim no Mercado abaixo dos 20 milhões.
O post desconstrói as referências de JJ feitas, erradamente, a propósito de Geraldes. O que os quinze minutos deste jogo mostraram - e a selecção de vídeos testemunha - é que Geraldes acrescenta muito ao colectivo, torna-o mais capaz, mais capaz de ter a bola e de a trocar com qualidade, mais capaz de recuperar rapidamente a bola, melhor equipa. A ideia de se trata de um jogador que só joga com a bola nos pés é falsa, como se sabia, e aqui se evidencia. Espero que JJ tenha visto o jogo com atenção ou que em alternativa tenha vagar para ler esta excelente análise.

Excelente análise.

Miguel Jesus disse...

Sou da mesma opinião... Continua a dizer que ele é dos piores nada de bom acrescenta... Um jogador médio que querem fazer dele bom jogador... À imagem de outros... Com o podem e ganhamos muito mais coisas... O Geraldes é craque... Pena a táctica do 4-3-3... Mas isso é culpa do "inteligente" do Jesus...

mike gil disse...

Acho completamente injusto o que alguns dizem sobre o gelson. Um pouco á nossa imagem, como sportinguistas, auto-destrutivos. Dizer que podemos estar arredados do titulo em parte por causa dele é incrivel. É preciso lembrar que andamos quase uma época inteira a depender SÓ dele e da sua criatividade (um miudo de 20 anos)? É preciso lembrar que andamos uma época inteira sem extremos ESQ, e 2'PL(o alan apareceu agora)? tivesse o bryan tido metade do rendimento dele e távamos em 1'.. Percebo quando se diz que ele nao lê tao bem o jogo como geraldes por exemplo..É mais vertical, e ainda peca nalgumas tomadas de decisao (o que é normal), agora o que ele ofereceu esta época foi muito superior ao que nao ofereceu. Para mim, muito sinceramente, o que seria muito dificil, era a nivel ofensivo, ter juntos a jogar o gelson, podence e geraldes..A nivel de criatividade não se poderia pedir mais em portugal..agora percebo que o futebol é muito mais do que jogar para a frente.

JG disse...

As expectativas de que JJ perceba a importância de Geraldes e o seu potencial podem bem ir dar uma volta ao bilhar grande. Fora da convocatória para Setúbal que aqueles 15 minutos já deram para o miudo se esticar. Isto depois de uma semana em que o treinador fez os maiores elogios ao "seu jogador" - Alain Ruiz - que ele descobriu numa "equipa pequena", sendo os 8 milhões que o Sporting pagou à equipa pequena um ... detalhe. A questão que se coloca é muito simples: se Geraldes beneficiasse de metade das oprtunidades que JJ deu a Alain Ruiz o que ganharia o Sporting com isso?

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