18 de jun de 2017

Os Ases Suecos


A Suécia é, evidentemente, associada no mundo do futebol a um nome em particular - Zlatan Ibrahimovic. Mas não é de um dos melhores avançados-centro da História do Jogo que pretendo falar aqui… pretendo, isso sim, falar de outros dois talentos suecos. Dois jogadores que, eventualmente, passarão actualmente despercebidos aos olhos da maioria dos que vêem futebol, mas cujo talento os projectará para a ribalta rapidamente.

Começo por dizer que ambos representam, a meu ver, o tipo de extremo que se procurará no futuro. Não um extremo simplesmente de 1x1, que jogue fundamentalmente perto da linha lateral e cujo rendimento possa ser traduzido em eventuais desequilíbrios individuais que crie (visto que pouco mais terá a oferecer), mas sim jogadores mais capazes em espaços curtos, capazes de jogar, não só por fora, mas acima de tudo por dentro e com recursos cognitivos a um nível que lhes permita exponenciar as formas que estes têm de criar desequilíbrios no adversário. Continuará obviamente a ser importante que tenham competências no drible, mas não só o tipo de drible mais necessário será diferente – menos um drible longo, com muito espaço para correr e adversários para superar, e mais um drible curto, em zonas povoadas por adversários, que lhes permita manter a bola enquanto magicam soluções para os problemas que lhes são colocados (soluções essas que podem ser estritamente individuais também, dependerá sempre do contexto) – como terão de ter bem mais que isso.

Sem mais demoras, passemos aos jogadores em questão. O primeiro, em bom rigor, será já relativamente conhecido, devido ao nível que apresentou na Bundesliga da temporada que agora findou. Falo de Emil Forsberg, jogador do RasenBall Leipzig. Formado no Malmö, foi contratado pela equipa Alemã e, nas duas épocas completas em que esteve no clube, foi o melhor jogador da equipa (nesta segunda época partilhou esse estatuto com Naby Keita, diga-se) e um jogador fulcral para que a equipa conseguisse subir de divisão – na primeira época – e conseguir um relativamente surpreendente 2º lugar na sua época de estreia na Bundesliga. Forsberg não sentiu minimamente o salto competitivo de uma divisão para a outra, porque a sua qualidade era simplesmente demasiado grande, e permite ao Leipzig ter mais recursos no seu jogo. É um jogador exímio na forma como se movimenta, percebendo sempre se a sua equipa precisa de uma linha de passe exterior ou interior e, mais do que isso, sabendo perfeitamente quais os sítios mais perigosos a invadir, consoante o contexto, para magoar o adversário entre os seus sectores/linhas. E a essa qualidade sem bola junta uma ainda maior com ela… Tem um pé direito incrível, que lhe permite ter, por exemplo, uma qualidade exímia a executar passes complicados. É raro a bola não sair exactamente para o espaço onde deve (que cria a melhor e mais fácil situação ao colega que recebe). Não sendo um jogador extremamente rápido, tem uma velocidade de condução assinalável e grande competência no drible curto, conseguindo desembaraçar-se de vários adversários em espaços reduzidos com facilidade. E, acima de tudo, é um jogador extremamente criativo. Não vou estar a definir “criatividade” outra vez, porque já o fiz em vários posts, mas a forma como define os lances – tanto os mais “simples” (e tantos, tantos há que os estragam constantemente!!) como os mais complexos – é notável e leva-o a conseguir traduzir toda a sua qualidade técnica num contributo enorme à sua equipa, tanto no “palpável” (foi um dos jogadores com mais assistências na Europa, por exemplo) como especialmente no “não palpável”. Mais cedo ou mais tarde irá jogar numa equipa de topo, estou convicto, e mostrar por que motivo, apesar de não jogar na mesma posição, é o verdadeiro herdeiro de Zlatan Ibrahimovic na selecção sueca. Abaixo ficam alguns vídeos que permitem vislumbrar as competências do jogador:







O outro jogador a quem me refiro está num patamar de carreira inferior, por agora, e é normal que seja mesmo desconhecido da maioria, até dos que vão acompanhando algumas ligas para além da nossa. No entanto, a qualidade que tem apresentado na Eredivisie promete levá-lo a patamares mais exigentes com alguma brevidade. Falo de Sam Larsson (quem o reconheceu pela imagem já sabia :) ), jogador do Heerenveen. Chegou ao clube holandês há três temporadas, proveniente do Gotemburgo, e cada vez mais se afirma como um jogador de enorme qualidade. A liga holandesa é uma liga que pode trazer várias dificuldades na análise de talentos, como muitos clubes bem sabem por experiência própria, por ser uma liga em que os jogadores, especialmente de ataque, têm bateladas de espaço para fazer o que bem lhes aprouver e na qual é relativamente fácil conseguirem grandes números de golos e assistências. Mas estou claramente convencido que não é o caso deste jogador, até porque, ao contrário do que é habitual, ele cresce realmente é na situação oposta. É quando o espaço escasseia que ele mostra toda a sua qualidade. Apesar de ser um extremo ligeiramente mais “clássico” que Forsberg, está muito longe de decidir como um. Adora procurar apoios frontais, define com imensa qualidade e sabe transformar os desequilíbrios individuais que consegue criar em lances com verdadeiro potencial. A descrição que foi feita para Forsberg tem bastantes pontos de contacto com a dele, aliás, embora não esteja exactamente ao nível deste nas movimentações em organização ofensiva (procura mais partir de zonas relativamente exteriores para dentro, embora seja muito forte a jogar estando logo dentro). Qualidade técnica acima de qualquer suspeita, 1x1 muito forte (tendo até mais recursos nesta área que Forsberg, por algum motivo o seu apelido no país de origem é “Samba”), aos quais junta a já referida qualidade em termos cognitivos. Seria uma aposta fantástica para, por exemplo, um dos grandes portugueses, entrando a meu ver directamente para o onze inicial de qualquer um deles (acima de tudo no do Sporting, diga-se) visto que junta à qualidade técnica e de desequilíbrio que muitos deles têm a uma capacidade para descobrir soluções em espaços curtos e para tomar constantemente a melhor decisão que, essa sim, escasseia mais em equipas a esse nível (e nem falo necessariamente das portuguesas em particular, aqui. Mais uma vez, abaixo deixo alguns vídeos do jogador:






No fundo, e para concluir, a Suécia está futebolisticamente bem entregue, apesar de o seu melhor jogador de sempre estar cada vez mais perto do fim de carreira. É impossível não reconhecer a qualidade tanto de Emil Forsberg como de Sam Larsson, e, com o grau de certeza relativo que se tem sempre de ter neste tipo de coisas, ambos alcançarão um estatuto e jogarão num patamar superior àquele em que se encontram actualmente – especialmente Sam Larsson.

3 comentários:

omeiocampo disse...

Discordo só numa coisa. Não acho que esse perfil vá ser o que se procura no futuro... Esse é o perfil que já se procura agora! Mesmo nos casos que À primeira vista possam estar mais distantes... Como é por exemplo o caso do Dembelé. Vejam este vídeo
https://twitter.com/BreathingMessi/status/875066524335296512

Também o Mónaco, uma das sensações desta época é exemplo disso, onde os jogadores que ocupavam as alas eram Bernardo Silva e Lemar que tem um perfil algo próximo do aqui apresentado.

De resto, ambos os suecos são enormes jogadores sendo que o Larsson é imensamente underrated e, como disseste e bem, não me parece que vá ser um daqueles jogadores que dá nas vistas na Holanda e fracassa fora dela devido à falta de espaço porque, efectivamente, uma das qualidades do larsson é precisamente a forma como se desenvencilha de situações apertadas

AD disse...

omeiocampo, concordo que agora se procure mais esse perfil que no passado, mas acho que com o passar do tempo vai ser ainda mais preponderante. Ainda tens bastantes extremos, mesmo em equipas de topo, que vivem imenso do que dão individualmente, e o que eu acho é que esse número vai ser cada vez mais residual. O que não invalida que já existam vários extremos com esse perfil a ter preponderância, claro (o exemplo do Dembelé é bom).

omeiocampo disse...

Sim, e continuam muito valorizados. Sterling, Gelson etc. Acabo por concordar. Mas acho que esse paradigma já tem vindo a mudar bastante

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