11 de jul de 2017

Bom futebol "escondido" num bairro de Buenos Aires...


Apesar de este ano o ter feito muito menos do que é habitual, gosto sempre de tentar acompanhar algumas ligas e/ou equipas menos mainstream, na esperança de encontrar equipas que se destaquem por fazerem as coisas de forma diferente do que é, infelizmente, a norma. Nesse espírito, quando li o tipo de elogios que  eram feitos à equipa sobre a qual vou falar abaixo - nomeadamente o facto de ser uma equipa extremamente ofensiva, com muita qualidade em posse e na qual os jogadores conseguiam jogar um futebol bastante diferente do usual numa aguerrida, disputada e pouco pensada 2ª divisão argentina - senti a necessidade de a ir conhecer. Devido às maravilhas da internet, daqui ao bairro de La Paternal em Buenos Aires é um saltinho, por isso pude ver alguns jogos e perceber como joga, de facto, o Argentinos Juniors de Gabriel Heinze.

Sim, leram bem. Gabriel Heinze será certamente muito mais reconhecido pela sua carreira como jogador - apesar de uma passagem relativamente incógnita por Alvalade, no início da carreira - , mas o trabalho que fez este ano leva a crer que também como treinador terá algo de diferente do habitual para apresentar. Teve um começo atribulado, sendo muito criticado pelos adeptos do clube pelo estilo de jogo demasiado "rendilhado" e, acima de tudo claro está, pelos resultados titubeantes. Mas como o próprio Heinze disse recentemente, quando um jornalista lhe referiu a forma como convenceu os adeptos, "Convencer os adeptos não me interessa minimamente (...), importante é convencer os meus jogadores", e a verdade é que o fez. A equipa já garantiu a subida ao primeiro escalão argentino, a três jornadas do fim, estando muito próxima de garantir mesmo o 1º lugar da competição (sobem os dois primeiros), e isto tudo orientando um plantel muito jovem e sem ter uma qualidade individual especialmente diferenciadora da concorrência. É um confesso admirador de Marcelo Bielsa, que o orientou como jogador, e as comparações que se fazem entre ambos não são, de todo, descabidas...

Feita esta introdução, passemos ao que interessa, a forma como jogam. Partem normalmente de um 4x3x3 (embora em alguns jogos o médio-defensivo jogue mesmo a central, especialmente contra equipas com 2 avançados), e jogam, de facto, de forma contra-cultural (tendo em conta o que foi descrito acima da 2ª divisão argentina). É uma equipa que estima a bola e procura não a oferecer de barato em zonas de construção, e, acima de tudo, extremamente trabalhada com bola e na forma como pressiona/reage à perda. Tanto nos pequenos jogos posicionais que estabelece nas fases iniciais, variando o número e posicionamento dos jogadores consoante a pressão adversária (que normalmente é muito pouco compacta verticalmente, diga-se), seja ela com um avançado ou com dois, como na forma muito interessante como procuram explorar movimentos de rutura, sempre de forma muito agressiva e com variações posicionais, como por exemplo o extremo deslocar-se para fora, arrastar o lateral adversário consigo enquanto que o próprio lateral do Argentinos, estando projectado, movimenta-se também nas costas da defesa mas em direcção ao corredor central, aproveitando o espaço, isto enquanto o avançado da equipa desce para servir de apoio frontal. Há vários movimentos destes claramente mecanizados, e a equipa consegue criar imensos desequilíbrios através deles. Sem bola, é uma equipa muito agressiva tanto na pressão como especialmente na reacção à perda, conseguindo juntar a essa agressividade um nível de compactidade bastante interessante, juntando de forma muito rápida bastantes jogadores na zona da bola. A contundência já referida na invasão da área adversária em movimentos de ruptura também se mostra nos momentos em que a equipa está muito perto da área adversária, conseguindo povoá-la com 3 ou mais jogadores na clara maioria dos momentos em que se espera um cruzamento. Para além disso, também têm alguma competência na utilização da bola para gerir vantagens. No fundo, é uma equipa que se impõe constantemente aos seus adversários, muitíssimo associativa e com uma dinâmica colectiva quando ataca muito diferente do que é habitual ver-se, o que é mais um de muitos exemplos de que quem acha que o movimento ofensivo não se trabalha e que depende basicamente dos jogadores que a equipa tem devia simplesmente fazer o favor de se teletransportar para a Idade da Pedra e ficar por lá, já que as suas ideias se coadunam muito mais com esse período da História. A qualidade individual influencia e muito o que se faz com bola, claro (como até se vai ver nas críticas apresentadas abaixo), mas subestima-se de forma criminosa o que uma equipa realmente trabalhada e que procura os caminhos certos com bola pode render, mesmo não tendo os melhores jogadores...

No entanto, a estes aspectos muito interessantes, acrescem outros que, a meu ver, seriam passíveis de melhoria. E aqui falo especialmente de três detalhes. O primeiro, que na realidade não é bem um detalhe - já que se refere a todo um momento do jogo - está relacionado com a falta de pormenor que se nota no trabalho da organização defensiva da equipa. Se com bola se nota um trabalho muito grande, sem ela a equipa comete erros posicionais básicos com alguma frequência e há um exagero de referências individuais que a prejudicam em alguns momentos. O segundo tem que ver com alguns problemas, a meu ver, sentidos pela equipa em ligar a construção à criação (é sempre um bocado complicado definir onde começa e termina cada um destes momentos, mas creio que para este caso em particular ajuda à percepção falar desta forma). A equipa consegue criar superioridades num momento inicial, como já foi dito, e dar preponderância aos seus centrais para progredirem. No entanto, creio que os três médios acabam por ser demasiado rotativos (estando sempre a procurar abrir na ala ou, no caso do médio mais defensivo, a dar apoios demasiado avançados) para que a equipa se consiga ligar por dentro. Estas dificuldades da equipa em ligar-se centralmente com os médios em alguns momentos leva a que procurem em excesso o passe longo para a ala (seja para o extremo ou para o lateral quando está projectado) como forma de progressão e, embora normalmente se procure voltar a zonas mais centrais depois desse passe longo, a ligação seria mais forte caso tivessem um jogo posicional mais bem definido por parte dos médios nessa fase específica. E, por último, embora os seus movimentos na fase de criação sejam bastante interessantes, creio que falta algum equilíbrio entre os movimentos de aproximação e ruptura (exageram nos segundos em relação aos primeiros, basicamente) e, mais até do que isso, os jogadores sentem uma enorme tentação em, muitas vezes, corresponder a cada movimento de ruptura. Isto é provavelmente mais um problema da qualidade individual dos jogadores que do modelo de jogo, mas aí, a meu ver, perde-se parte da utilidade que toda esta dinâmica posicional de aproximações e rupturas pode ter, que consiste exactamente em usar esses movimentos de ruptura como ilusão. As equipas com mestria individual e colectiva suficiente para dominar esta questão (poucas, infelizmente) conseguem usar toda esta dinâmica para criar espaço entre as linhas do adversário, visto que o sector defensivo adversário tenderá (dependendo também das suas ideias) a afundar com as rupturas, e sabem exactamente quando explorar, de facto, a profundidade, e quando simplesmente fingir que o vão fazer, continuando a prender o adversário na sua teia, por assim dizer. Mas repito, isto é algo muito complicado de dominar, e ainda para mais quando a qualidade individual de quem está em campo está longe de ser brilhante.

Vistas as qualidades e os detalhes menos bons da equipa, pode-se concluir que é uma equipa muito interessante, e o futebol que já jogam em apenas um ano de trabalho mostra a competência que o Heinze já tem como treinador. Apesar disso, deverá tentar dar mais alguma atenção ao momento de organização defensiva da sua equipa (especialmente se ficar no Argentinos Juniors para o ano, na 1ª divisão irá enfrentar adversários bem mais fortes) e tentar que as suas equipas se sintam menos tentadas a corresponder aos movimentos de ruptura independentemente do contexto, já que isso os leva a ignorar espaços mais valiosos (entre defesas e médios adversários). De qualquer modo, creio que este grande ex-jogador vai surpreender muita gente que o desconhece como treinador, ficando na sua actual equipa ou assinando por uma equipa de cartel superior.

Abaixo fica um vídeo bastante curto com alguns lances da equipa em certos momentos. Não é um vídeo de análise, até porque só se pretende mostrar ligeiramente aqui exemplos do que a equipa faz melhor, nomeadamente (e por ordem): reacção à perda; saída de pressão de zonas recuadas e movimentos de ruptura.

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