22 de ago de 2017

Velocidade de Raciocínio... e as declarações de Manuel Machado


Este vai ser um texto muito simples, com duas partes...

Iuri Medeiros e a Velocidade de Raciocínio

Esta primeira parte do texto é sobre um momento do jogo que opôs o Vitória SC ao Sporting, mais concretamente a assistência de Iuri Medeiros para o quinto golo da equipa comandada por Jorge Jesus. Muito haveria a discutir sobre este Sporting (tanto numa perspectiva mais imediata como noutra muito mais abrangente), mas a ideia desta primeira parte do texto é só perceber onde está o mérito desta acção de Iuri Medeiros. A execução em si foi simplicíssima, mas a confusão entre a simplicidade de uma execução e o raciocínio a que esta subjaz - ou seja, achar-se que a dificuldade na acção de um jogador com bola é directamente proporcional à dificuldade técnica da mesma - leva a que uma acção como esta não seja gabada como merece. O mérito de Iuri aqui é puramente intelectual, na forma como leu a situação antes de toda a gente, percebeu qual o movimento do defesa contrário antes sequer de lhe chegar a bola e que, devolvendo a bola a Adrien de primeira e contra o movimento do defesa, isolaria imediatamente o colega. A velocidade - e qualidade! - de raciocínio que Iuri demonstrou num lance tão aparentemente simples é, de resto, o que muitas vezes tem faltado ao ataque do Sporting neste início de temporada (inclusive no jogo em Guimarães, apesar do resultado), pelo que faz todo o sentido que lhe seja dado um papel cada vez mais preponderante na equipa. Ultrapassar definitivamente Bruno César no lote de opções para a posição já seria um começo agradável...

As declarações - e a latente incoerência - de Manuel Machado

A segunda parte deste texto versará sobre as declarações de Manuel Machado no final do jogo entre o Porto e o Moreirense. O treinador português falou sobre a forma como os resultados da terceira jornada do campeonato espelham o desnível enorme entre os três grandes do futebol nacional e os restantes clubes, e que este desnível tão grande contribui muito negativamente para o espectáculo oferecido pelo futebol português, na globalidade. Ora, obviamente é complicado discordar destas declarações. O nosso futebol é, de facto, brutalmente desnivelado, e esse desnível (nomeadamente na distribuição monetária dos direitos televisivos), que tem tendência a aumentar ainda mais, a longo prazo só traz consequências negativas a todo o nosso futebol, incluindo os que no curto prazo são claramente mais beneficiados por receberem uma parte maior do bolo - os três grandes clubes portugueses.

Mas, ao mesmo tempo que alerta - e muito bem! - para os enormes problemas que uma liga cada vez mais tricéfala traz ao nosso futebol e ao espectáculo proporcionado, Manuel Machado diz também isto:

"A organização e cumprimento da estratégia delineada, que passava por jogar com um bloco baixo e sair em contra-ataque, deixa-me satisfeito. Não foi a estratégia que falhou, foram erros individuais, particularmente no segundo golo, em que tentámos sair com o FC Porto a pressionar num bloco subido."

Considerando que a parte de "sair em contra ataque" só foi minimamente cumprida quando o jogo já estava resolvido, estas declarações põem claramente em cheque as ideias discutidas acima. Uma equipa que, independentemente da diferença de recursos para o adversário, abdica de jogar de tal forma que apenas acerta quatro passes em 22 minutos (!!!) contribui de que forma para o espectáculo? E o que o treinador retira é que a equipa esteve mal... quando tentou sair da pressão do FCP (ou seja, tentou jogar à bola) e falhou. Como é que uma pessoa que diz isto pode nas mesmas declarações mostrar preocupação com o "fim do espectáculo"? E o facto de o desnível entre as equipas ser grande não é desculpa. Aliás, se o próprio treinador dá claramente a entender que o jogo estava perdido à partida, e se está, de facto, preocupado com a deterioração do espectáculo, o que tinha a perder em vir tentar discutir minimamente o jogo? Será que tinha medo de ser goleado? Dando um exemplo rápido de uma equipa com recursos similares, o Feirense com Nuno Manta disputou 4 jogos com os grandes na época passada, apenas perdeu dois (ambos pela diferença mínima, diga-se) e em nenhum deles entrou em campo só para jogar nos últimos 30 metros e sem tentar fazer o que quer que fosse com a bola.

Apesar de achar que é uma abordagem profundamente errada, consigo aceitar que um treinador defenda que, nestas circunstâncias, a melhor opção é passar o jogo todo a defender e nem sequer tentar atacar minimamente o adversário. Agora, vir defender isso e ao mesmo tempo passar a ideia que se preocupa com o espectáculo é, no mínimo, risível. É, de facto, muito importante que se olhe seriamente para o nosso campeonato e se procurem formas de ter um campeonato mais forte, equilibrado (ou seja, um maior equilíbrio por cima) e em que o espectáculo seja mais valorizado. E um bom primeiro passo para isso era despedir treinadores como Manuel Machado e arranjar quem valorize um bocado mais o jogo...

12 de ago de 2017

Situações idênticas, decisões diferentes



Duas situações muito parecidas, decididas de forma completamente diferente. Em ambas as situações, o lateral direito recebe a bola e é pressionado pelo lado cego, com o adversário a concentrar muitos jogadores no corredor lateral onde a bola se encontra.

Situação A)

Pressionado pelas costas, o lateral do Braga decide rodar e realizar um passe, em esforço, para a frente. Rodeado por 3 adversários nem teve tempo e espaço para perceber o posicionamento dos colegas, e entregou a bola ao adversário. Em cobertura ofensiva tinha o central do lado direito, com todas as condições para receber a bola e rodar o centro de jogo para o lado contrário.

Situação B)

O lateral direito do Sporting, pressionado pelas costas, entrega a bola fácil na cobertura ofensiva. O jogador na cobertura utiliza o guarda-redes para fazer chegar a bola ao corredor lateral oposto, e o Sporting garante condições para entrar com a bola controlada no meio campo defensivo do adversário. 

3 de ago de 2017

As aparências iludem - Kalidou Koulibaly, muito mais que um monstro físico

Apesar de não ser tão falado como outros, Koulibaly, é neste momento, um dos centrais mais completos do futebol. Apesar de à primeira vista parecer o típico central que tem como mais valia a sua envergadura física, Koulibaly é dos poucos que consegue apresentar qualidade em todos os momentos do jogo, sejam eles de cariz defensivo ou ofensivo. É muito raro vê-lo falhar um posicionamento defensivo, seja em zonas mais próximas da sua baliza, seja em zonas mais afastadas. Exímio no que diz respeito ao controlo dos cruzamentos, seja ele o central mais perto da bola ou o que se encontra mais longe. Sempre com perfeita noção dos momentos em que tem que aproximar mais do lateral para controlar a largura, ou de se afastar para controlar os cruzamentos. São raríssimas as situações em que Koulibaly é apanhado com os apoios mal orientados, no que diz respeito ao controlo da profundidade.

Ofensivamente, a qualidade no passe vertical é uma das imagens de marca. Sempre que tem colegas em condições de receber a bola no espaço entre a linha defensiva e a linha média do adversário, é lá que Koulibaly coloca a bola, deixando sempre vários adversários "fora" do lance. 

Sempre bem posicionamento no que diz respeito ao controlo dos cruzamentos
Nas situações em que o cruzamento não é uma possibilidade, controla a largura, aproximando do lateral do lado da bola
Esse controlo da largura é sempre feito com os apoios bem orientados para reagir mais rápido o mais rápido possível a um passe para a profundidade
Apoios sempre bem orientados, mesmo enquanto encurta o espaço para a linha média


O controlo da profundidade. Baixar até uma zona próxima da grande área para não permitir o passe nas costas, e depois sair ao portador da bola para condicionar a sua acção

Ofensivamente, a constante procura pelo passe vertical, que permite à equipa do Nápoles "queimar" linhas adversárias



Mesmo pressionado, procura sempre construir de forma apoiada e fá-lo sempre com qualidade
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