5 de set de 2017

“Se Queda!”. Ou a posição “6” do Sporting


Parecia iminente a saída de William Carvalho do Sporting. De início, todos os rumores apontavam para terras britânicas, e mais especificamente a Premier League. Entretanto, outros rumores foram surgindo, com propostas vindas de Espanha e França. A certa altura, o West Ham assumiu-se como o principal candidato à sua contratação – numa “novela” que muita tinta fez (e ainda faz) correr na imprensa – e parecia relativamente seguro afirmar-se que, após várias épocas de especulação e muitos rumores depois, o “14” de Alvalade se preparava para dar o salto competitivo que a sua qualidade há muito justifica.

Parecia...mas ainda não foi desta. Mantém-se assim por terras lusitanas o melhor médio defensivo da liga portuguesa nos tempos mais recentes (desde que Nemanja Matic partiu, também ele, para Inglaterra), um dos melhores jogadores da liga e, provavelmente, o melhor médio a vestir as cores dos “leões” desde o mágico Pedro Barbosa. É também – como provavelmente se consegue depreender da tendência inicial deste artigo – a manutenção daquele que se entende ser o melhor jogador do Sporting.

Um dos capitães de equipa (possivelmente “O” capitão, caso se confirme a transferência de Adrien Silva para o Leicester), é um jogador “da casa” e é peça fundamental do conjunto leonino há já quatro épocas. A dupla que forma com Adrien tem sido o principal ponto de estabilidade do futebol do Sporting nas últimas temporadas, e na sua melhor forma, contam-se pelos dedos os médios defensivos que oferecem maior qualidade ao jogo. É um jogador com estirpe de topo mundial - talvez o único em todo o plantel leonino – e está plenamente adaptado ao clube e ao modelo de jogo actual.

Porque é William tão bom?

Há, frequentemente, uma percepção errada do perfil de jogador que é William. Tradicionalmente, construíram-se no futebol dois estereótipos que ele destrói sempre que entra em campo. O primeiro é relativo à sua morfologia. Com quase 1,90m de altura e de origem luso-angolana, facilmente se tentaria colar a alguém do seu perfil a imagem de um médio que serve essencialmente para destruir jogo, e que não é muito capaz com a bola nos pés.

Nada mais falso. William afasta-se quase radicalmente dessa imagem, e é com bola que mais brilha. Tecnicamente refinado, a sua capacidade para descobrir opções de passe que permitam avançar de forma sustentada no campo é especial, mesmo entre médios que tradicionalmente não seriam associados ao estereótipo acima referido. No entanto, o que mais impressiona nele (e que influencia todas as suas qualidades com bola) é a forma quase gélida como é capaz de resistir à pressão. O "14" dos leões sente-se naturalmente confortável em espaços curtos e congestionados, e a pressão adversária nunca afecta a calma e a serenidade com que pensa, decide e executa. Recebe, sempre de cabeça levantada, procura a melhor solução e define. E quando a solução não surge de imediato, é também perito a temporizar e a fazer a bola circular, até que estejam criadas as condições para o desequilíbrio. A partir da posição 6, gere a equipa quando esta se encontra em momentos de organização ofensiva, e liga-a com maior qualidade em todos os momentos com bola. Uma característica genética e rara, que o distingue de muitos outros bons médios.

O segundo estereótipo é o de que o médio defensivo está lá, principalmente, para defender, e que para tal tem de estar constantemente na zona da bola, de forma a poder desarmar o portador da mesma e travar os ataques adversários. Sim, é verdade que, com William no lugar de Battaglia (e com a saída de Adrien), a equipa provavelmente perderá alguma solidez defensiva nos momentos de transição ataque-defesa, bem como alguma capacidade de sucesso nos duelos individuais e nas bolas divididas. No caso específico da posição “6”, no entanto, isso não se deve a uma menor qualidade defensiva de William no geral, mas antes à natureza mais impulsiva de Battaglia e Adrien, que cobrem um maior raio de acção e, consequentemente, disputam (e ganham) um maior número de duelos. 

É sobretudo nas qualidades cognitivas que residem as maiores valias de William. Um "6" que defende de forma diferente. Pela forma como procura recuperar a bola em vez de "cortá-la", é um médio que já está preocupado com a qualidade da sua equipa com bola, mesmo quando esta ainda não a tem. Pode-se afirmar, por outras palavras, que defende de uma forma moderna, procurando antecipar e influenciar acções adversárias através do seu posicionamento e da sua postura (sendo um jogador quase exemplar nos aspectos mais técnicos, como a correcta colocação dos apoios, por exemplo), e que dessa forma consegue forçar vários erros que permitem a recuperação da bola. 

Não raras vezes, a forma como William se move dentro do campo é alvo de crítica e até chacota, e as acusações à sua velocidade de deslocamento são já clássicas. No entanto, nas velocidades que mais influenciam o jogo - a de execução e a de raciocínio -, William é um jogador bastante veloz.

Para além de William

Face à tremenda qualidade que possui, é natural que a diferença entre William e as restantes opções para a posição “6” seja qualitativamente significativa. João Palhinha é ainda um jovem sem a qualidade necessária para assumir a posição, sendo até possível que coleccione alguns minutos na equipa B e que volte a ser cedido a um clube da primeira liga em Janeiro, para jogar com regularidade. Já Radosav Petrovic encaixa no perfil estabelecido por William ao longo das últimas temporadas. O sérvio é um médio com a serenidade e compostura com bola que se exigem para o lugar. No entanto, defensivamente apresenta-se muito pouco intenso, e mesmo em termos posicionais não prima pela excelência. Noutro contexto, até poderia ser uma boa alternativa a um titular da posição, mas esse não parece ser o caminho escolhido pelo treinador. Ambos os jogadores deverão ser carta fora do baralho na maioria das partidas, embora Petrovic até possa ter alguma utilidade, sobretudo nos jogos teoricamente mais acessíveis e disputados em Alvalade.

Depois, há Rodrigo Battaglia, que foi até agora a escolha de Jorge Jesus para o lugar. O argentino possui a capacidade física e atlética que o treinador do Sporting tanto aprecia, e adiciona-lhe algumas qualidades técnicas, nomeadamente ao nível do transporte de bola. Por outro lado, é mais uma adaptação ao lugar, pois jogou os últimos anos da sua carreira como “box-to-box” (com alguma qualidade, refira-se), sendo que todas as suas características com bola apontam também para esse papel dentro do terreno de jogo. Possui limitações claras em termos cognitivos – principalmente ao nível da correcta percepção e gestão do ritmo do jogo, que depois influencia negativamente a sua tomada de decisão – e apesar da capacidade de transporte, o facto de se decidir muitas vezes por uma má opção (ou de nem sequer conseguir identificar propriamente as opções à sua disposição em cada jogada) faz com que a sua capacidade de ligar sectores e corredores seja mediana, na melhor das hipóteses.


Perante este cenário – e apesar da perceptível vontade do jogador em rumar a outros campeonatos, mais competitivos –, é inegável que a manutenção de William Carvalho é uma excelente notícia para Jorge Jesus e para o Sporting. Veremos agora como irá o jogador entrar na equipa actual.

1 comentários:

Anônimo disse...

grande texto mas comparar WC a Pedro Barbosa devia ser crime, na minha opinião nem nos 10 melhores médios de sempre PB devia constar

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