27 de jan de 2018

Algumas Reflexões sobre a Lei do (Fora de) Jogo


No meu primeiro post aqui, falei, entre outros temas, de uma das teses que Juanma Lillo defende – que o melhor e mais informativo livro alguma vez escrito sobre o Jogo é o Regulamento do mesmo. Podemos pegar nas regras do futebol e extrair delas várias deduções lógicas, que nos colocam em vantagem competitiva sobre quem não o faz. Dando o exemplo mais claro – e, por isso, de tal forma óbvio que não há quem não o entenda - de uma dedução; se a Lei do Jogo nos diz que podemos jogar com até 11 jogadores, não vamos jogar com menos, já que isso nos colocaria de forma imediata numa situação de clara desvantagem perante o rival. Mas da mesma forma como se podem deduzir coisas absolutamente óbvias do regulamento, como a que referi, é possível tirar outras conclusões bastante mais intrincadas e que podem facilmente distinguir uma equipa das demais, e vou falar num exemplo disso mesmo em algum detalhe mais abaixo.

Em termos históricos, as equipas que mais impacto criaram no jogo foram as que mais e melhor souberam compreender verdadeiramente essas regras e que as souberam subverter. Até vou mais longe… um dos aspectos que normalmente distingue as equipas que mais revolucionaram mais o jogo em termos ideológicos das demais é o facto de provocarem uma sensação de impotência tal nos seus adversários que levam a opinião pública a procurar que certos regulamentos do jogo que essas equipas especiais manipularam sejam alterados por forma a tornar o jogo mais “equilibrado”. Não há maior prova de superioridade ideológica (no contexto de um jogo, note-se) do que criar nos adversários a necessidade de tentar alterar as regras desse mesmo jogo para poder competir. Aconteceu por exemplo com o Barcelona de Guardiola, que dominava de tal forma todos os seus adversários que fez com que ganhasse alguma força a ideia de, como em outros desportos colectivos, se criar um limite para o tempo de cada posse de bola. Só que nesse caso específico, essa mudança traria efeitos nefastos ao jogo, já que boa parte da complexidade do jogo iria pela janela e seria basicamente um jogo de transições e contra-transições; parada e resposta, pelo que obviamente essa mudança nunca foi para a frente. Mas temos exemplos de equipas cujo aproveitamento de certos regulamentos foi de tal modo genial que potenciou ou até obrigou à sua alteração. E vamos falar de um deles agora...

Neste post, o foco estará naquela que considero a lei mais importante do jogo: a Lei do Fora de Jogo. É a mais importante, a meu ver, porque é a que permite a qualquer uma das equipas que se opõem manipular o espaço e tornar a conquista da baliza adversária muito mais complexa, o que traz riqueza ao jogo e o distingue de quase todos os outros desportos colectivos.


A equipa que mudou a Lei do Fora de Jogo

É ao Milan de Sacchi que me refiro aqui. Ou, mais precisamente, à forma como esse Milan compreendeu a lei do fora de jogo vigente no seu tempo, e como utilizou essa compreensão mais profunda para criar uma vantagem competitiva. Como alguns saberão, até há menos de 30 anos para existir uma situação de fora de jogo bastava que qualquer um dos 11 jogadores da equipa em posse estivesse à frente do penúltimo defesa da equipa contrária no momento de um passe vertical, sendo a interferência desse jogador em posição adiantada no lance completamente irrelevante para a decisão do árbitro (bastava mesmo estar nessa posição). Através deste ponto do regulamento é possível deduzir que a) era muito mais fácil do que é agora uma determinada acção acabar em Fora-de Jogo e b) que, assim sendo, a linha defensiva pode assumir comportamentos agressivos com uma taxa de sucesso bastante elevada. Enquanto que agora basta o jogador que vai receber a bola ter o cuidado de estar atrás ou em linha com o penúltimo defesa no momento do passe, no tempo do Milan de Sacchi (início dos anos 90) era necessário todos os jogadores terem esse cuidado, o que é naturalmente muito mais complicado de conseguir. Abaixo fica um vídeo que mostra um pouco a forma como exploravam esse aspecto:


A forma como a equipa de Sacchi subverteu em seu benefício este regulamento tornava-a uma equipa extremamente difícil de atacar, e ao mesmo tempo permitia-lhe pressionar o adversário agressivamente. Boa parte do campo ficava basicamente inutilizável quando o Milan subia a linha defensiva, e isso dava ainda mais conforto ao Milan para pressionar o portador da bola já que era praticamente impossível este apanhá-los em contra-pé. Obviamente que a maior fatia do sucesso dessa equipa se deve à qualidade individual enorme que tinha, com nomes como Van Basten ou Gullit, mas foi a forma como defendia que a imortalizou, tanto em termos teóricos (de quem estuda e conceptualiza o jogo) como em termos práticos (já que obrigou directamente a que a lei do jogo mudasse).

Depois desta parte mais "factual" do post, ou seja, da equipa que objectivamente causou uma mudança na Lei do Jogo, é hora de ir um pouco para além disso, ou seja, do que já aconteceu. E pretendo dar esse salto ao reflectir sobre duas questões, relacionadas com o que foi dito acima mas mais viradas para o futuro. E as ditas questões são as seguintes:

"Podemos retirar mais alguma coisa desta mudança na Lei do Jogo, para além dos dois pontos referidos acima?"

"É possível que mais alguma equipa ou até jogador possa causar uma nova mudança na Lei do Jogo num futuro relativamente próximo?"

Possível dedução a retirar dessa mudança na Lei

Como é fácil de perceber por este cabeçalho, a resposta à primeira pergunta é que sim, creio que podemos tirar mais conclusões. Isto porque, acima, pensámos acima de tudo na perspectiva do Milan de Sacchi quando não tinha a bola. Mas e se pensarmos na perspectiva de quem ataca? De forma muito resumida, o que esta mudança na lei fez foi acabar com o fora de jogo posicional. Ou seja, é possível ter jogadores em posição irregular e mesmo assim passar para a frente de forma legal, desde que seja para alguém que esteja em jogo. Isto, obviamente, veio beneficiar indirectamente quem ataca, porque boa parte dos lances que eram irregulares antes não o são hoje, o que permite à equipa continuar o seu ataque e possivelmente marcar. 

Apesar disto, muito poucos são os que procuram utilizar activamente esta mudança da Lei por forma a criar um benefício. Assumindo como premissa - já que vem ao encontro das ideias defendidas neste espaço - que o objectivo último de uma jogada de ataque é criar a melhor (mais fácil) situação de finalização possível, é interessante ter alguém deliberadamente em fora de jogo posicional e, em simultâneo, ter outros jogadores a fazer movimentos de ruptura desde trás. Esse jogador em fora de jogo posicional seria teoricamente um a menos enquanto estivesse nessa situação, mas a diferença é que a equipa não só pode continuar a progredir com ele nessa posição, como o pode "activar" repentinamente se conseguir que ele esteja em linha com a bola, mesmo estando à frente dos defesas. Estava a pensar em criar um pequeno desenho para explicar isto, mas felizmente o primeiro golo do Barcelona no jogo de dia 25 de Janeiro com o Espanyol exemplifica bem o que quero explicar:


Para complementar, encontrei um tweet interessante (@JuanGenova980) com imagens dos momentos mais relevantes do lance para este post. Nas poucas vezes em que vejo coisas destas acontecer (e não falo de estar apenas um ou dois metros atrás da defesa adversária) parece-me que normalmente se deve a movimentações individuais de certos avançados que intuem que este pode ser um bom recurso para ter uma finalização fácil (para além do Suárez, o Kane também o faz por vezes), mas acho que podia ser algo que partisse mesmo do treinador. Escusado será dizer que não me refiro a ter o avançado numa posição desse género o jogo todo, muito longe disso, mas em certos momentos de organização ofensiva esta pode ser uma arma eficaz para criar problemas às organizações defensivas da actualidade, cada vez mais compactas e com comportamentos relativamente zonais, já que um passe de ruptura por zonas laterais (por exemplo) pode logo criar uma situação de 2x0+GR, que é possivelmente a melhor para quem ataca.

No fundo, é possível usar o fora de jogo posicional como uma ilusão de segurança, para quem defende. Gostava muito de ver algumas equipas com boa organização ofensiva - porque se se recorrer a isto simplesmente ao despejar bolas nas alas o adversário consegue defender este recurso com alguma facilidade - explorar isto em certos momentos, porque ia criar um problema adicional ao adversário, e quanto mais problemas diferentes os adversários sentem que têm de resolver mais facilmente essas equipas de qualidade os manipulam e entram por onde querem.


O Guarda-Redes que pode "imitar" Sacchi

Para concluir o post, vou abordar a segunda questão que coloquei, sobre se acho que pode haver alguma mudança nas regras do jogo num futuro relativamente próximo. E, mais uma vez, acho que sim. A lei do fora de jogo não se aplica a pontapés de baliza, na actualidade, pelo que é possível, em teoria, um jogador estar muito à frente do penúltimo adversário no momento do pontapé de baliza e, ainda assim, receber directamente a bola. Mas nunca ninguém perdeu muito tempo a pensar nesse assunto, a meu ver, porque é incrivelmente complicado ter um guarda-redes capaz de colocar a bola a distâncias dessa magnitude com uma precisão elevada, e por isso dificilmente alguém conseguiria explorar isso. A afirmação de Ederson numa equipa como este City de Guardiola, no entanto, vem colocar isso em causa. Abaixo deixo um exemplo rápido daquilo a que me refiro:


Com Ederson, a equipa de Guardiola cria um dilema muito complicado em alguns dos seus adversários nos pontapés de baliza. Podem deixá-los construir sem qualquer sobressalto desde trás, o que para equipas dominadoras pode ser contra-intuitivo, pressioná-los de forma pouco compacta (linha defensiva muito atrás do resto dos jogadores, exactamente por não haver fora de jogo), ou pressionar alto e arriscar. Só que Ederson, para além de ter um jogo curto de enorme qualidade, tem a facilidade que o vídeo mostra em colocar a bola à distância. Já fez inclusive assistências para golo desta forma enquanto jogava pelo Benfica, e não duvido que o faça em breve pelo City. Caso este City consiga, como promete, afirmar-se como uma das equipas mais marcantes dos próximos cinco anos (pelo menos), esta qualidade de Ederson pode dar uma vantagem competitiva interessante ao City e fazer com que muitas vozes se levantem para que, de facto, passe a existir fora de jogo num pontapé de baliza como existiria em qualquer situação de jogo corrido (a partir do meio-campo adversário). Se de facto isto acontecerá como descrevo ou não só o tempo dirá, mas não me parece uma possibilidade a desprezar, de todo.

2 comentários:

Fanuca Menezes disse...

Concordo com as ideias referidas, mas em relação ao fora de jogo, acho que deveria ser feita outra alteração.
Na minha opinião, seria bastante interessante que, por exemplo, no momento do passe, se o avançado estivesse fora de jogo, mas se ao receber a bola estivesse atras da linha defensiva (ou de pelo menos um defesa), a jogada prosseguisse e nao fosse assinalado fora de jogo. Desta forma, o avançado apenas teria uma vantagem relativa em estar em posição de offside, uma vez que ao receber a bola nestas condições, já tinha permitido a pelo menos um defesa recuperar a posição. Com esta ideia, a equipa atacante poderia explorar as costas do adversário com uma estrategia diferente, como também haveria jogo "jogado" em mais campo. Recordo me do golo de fredy montero contra o benfica na epoca 2013/14, como um bom exemplo.
Por último, de referir tambem que alguma polemica sobre as arbitragens iria diminuir, uma vez que seria menos um tipo de jogada sujeita a intervenção do arbitro, sendo este jogada muitas vezes de dificil analise para o "bandeirinha", como também seria menos uma interrupção do jogo e só iria contribuir para a fluidez do mesmo.

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