5 de dez de 2018

Lateralizando (vai que é tua, Thierry)



Imaginemos que um bom lateral é um lateral que chega muitas vezes à linha e sabe cruzar bem. Vamos ignorar os processos utilizados para aparecer nessa zona do campo, se cruza sob pressão ou não, se tem ou não melhores alternativas do que a execução do cruzamento – porque, de facto, ele é mesmo muito bom é a cruzar. Portanto, mais de 90% das acções ofensivas desse jogador resumem-se ao seu critério nesse momento do jogo.

Mas, afinal, o que se entende por “cruzar bem”? Basta ‘despejar’ a bola na área a uma altitude razoável? Do género: a sorte que faça o resto, pode ser que apareça por lá o avançado, que habitualmente é um tipo alto e forte nos duelos físicos. Haja noção.

Um bom lateral (tal como um bom médio, um bom avançado, um bom extremo) tem de possuir uma leitura do jogo acima da média. Contudo, ao que parece, a linha defensiva foi caindo no descrédito da inteligência, ou seja, para se ser central ou lateral bastam as boas características físicas (porque a agressividade advém, obviamente, da estatura). Na folha de recrutamento, caso se leia que o jogador tem 1,60m, é automaticamente excluído dessas posições, pois houve quem quisesse tornar o futebol mais atlético do que cerebral. Não o é.

O rendimento dos laterais também está intimamente ligado com o modelo de jogo da equipa. Pegando no exemplo inicial, é totalmente diferente cruzar com ou sem oposição, que depende do processo utilizado para chegar perto da grande área, que influencia as alternativas, que afecta o critério. Por isso é que, “no futebol, o todo é mais do que a soma das partes”.

Quando o apoio frontal junto às linhas faz parte do lote de processos de uma equipa, o lateral tem de saber interpretar essa movimentação e o que fazer no espaço que surge para progredir, sendo que explorar o corredor central aproxima-o quase sempre do sucesso. Por outro lado, a obsessão com a chegada à linha revela-se uma escolha geralmente negativa se os colegas oferecerem combinações no último terço. Quem é que não se recorda da diferença exibicional entre o Schelotto da época 2015/16 e o de 2016/17? Devido à mobilidade do Sporting na primeira temporada de Jorge Jesus, as debilidades do lateral argentino camuflaram-se, porque a bola chegava-lhe várias vezes em situações que podia partir para o 1x1 ou aproveitar a desorganização adversária, justificada pelas constantes associações no corredor central. Já no ano seguinte, em que os leões perderam essa capacidade, as fragilidades de Schelotto ficaram a nu. O mesmo se pode dizer, mas ao contrário, em relação a Jefferson. Não é por ter feito duas assistências frente ao Lusitano Vildemoinhos que se tornou um bom lateral. Ao invés, beneficiou do bom jogo interior do Sporting, que deixa o brasileiro mais solto de marcação e capaz de potenciar uma das suas melhores características, o cruzamento.


Uma vez que se sabe que qualquer equipa que procure ter bola quer passar mais tempo a atacar do que a defender, um bom lateral precisa de apresentar características ofensivas – na minha opinião, até vêm antes do que as defensivas –, mas é impensável cometer erros básicos defensivamente. Por agora, Acuña é o único jogador do Sporting, nessa posição, que dá garantias a Marcel Keizer (e Thierry Correia, caso venha a ser aposta, tem condições para tirar o lugar a Bruno Gaspar ou Ristovski no lado direito). Mesmo assim, Janeiro deverá servir para o clube se reforçar, porque se os recursos actuais vão chegando para vencer, lanço as minhas dúvidas se assim continuará a acontecer nos jogos frente aos rivais directos ou das competições europeias.

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