4 de jan de 2019

Era uma vez a merda dos três pontos

                                      Foto Isabel Cutileiro
Futebol não é ginástica de trampolim. Na ginástica de trampolim, a exibição de Diogo Ganchinho é pontuada mediante um conjunto de directrizes que guiam o júri na avaliação da série – nota de dificuldade, nota de execução e tempo de voo, itens cotados individualmente com o propósito de gerar um resultado final. No futebol, que não é uma modalidade individual, mas cujo rendimento dos individuais deve ser avaliado, também existem directrizes, sendo que a principal diferença sustem-se na inexistência de um júri que as ligue ao resultado final e que esclareça ao espectador que o facto de Bruno Gaspar ter marcado um golo é óptimo, mas não uma borracha capaz de apagar as fracas notas que perfazem os restantes itens da sua exibição.

Confrontados com a perpétua realidade de que os únicos júris do futebol irão continuar a ser aqueles que contemplam as equipas de arbitragens, cabe aos treinadores, aos analíticos, aos jornalistas e aos comentadores mediar a transacção de conhecimentos com o público. Caso contrário, os golos fazem de Bruno Gaspar o homem do jogo (não foi) e a merda dos três pontos faz do Sporting o melhor conjunto em campo (não foi). Felizmente, na Liga NOS, existem profissionais como Luís Castro, Ivo Vieira ou Marcel Keizer.

Vamos ‘ouvir’ as palavras do técnico leonino após o triunfo por 2-1 frente ao Belenenses SAD: “Para mim, foi um mau jogo. Tivemos dificuldades no passe. Ganhámos, mas não foi bom”

Agora, passamos para as declarações de Rui Vitória no seguimento do empate (1-1) na Vila das Aves, que qualificou o Benfica para a final-four da Taça da Liga: “Se houvesse necessidade de vencer teríamos uma abordagem diferente. Mas atingimos o que queríamos” 

Cada treinador tem o direito de escolher o estilo do seu discurso, embora também lhe seja apontado o dever de instruir os adeptos, ao invés de lhes gostar de contar consecutivas narrativas retiradas de histórias de encontros que nunca existiram. Finalmente – e é bom que os ‘três grandes’ sejam palco de metamorfoses positivas, dado o maior mediatismo –, parece que a merda dos três pontos começa a revelar-se insuficiente para encobrir o fraco futebol. Assim se explicam os despedimentos de José Peseiro e Rui Vitória, que apesar de terem oficializado as saídas dos respectivos clubes depois de duas derrotas, afastaram-se (ou foram afastados) antes de comprometerem as épocas das equipas.

Por outro lado, os restantes emblemas começam a dar maior valor ao bom futebol na relação exibições/resultados. Vejamos que, à passagem pela sétima jornada, o Portimonense de António Folha recebeu e venceu o Sporting de José Peseiro por 4-2, mas ocupava o 15.º lugar da classificação. À entrada para a 17.ª, estaciona-se num merecedor 7.º posto. Vitória Guimarães, Moreirense, Belenenses SAD e Nacional, todos na primeira metade da tabela, são outros exemplos de que as dores de crescimento da prática de um futebol positivo valem a pena num projecto a longo prazo.

Gostava de ver a nossa Liga a crescer, porque num país onde há tanta matéria-prima de qualidade, por vezes parecemos escravos da ignorância. Se o número de pessoas a opinar sobre futebol fosse o mesmo do que aquele que opina sobre ginástica de trampolins… seríamos muitos.

3 comentários:

ADexterA disse...

Parabéns Sofia. Não só por este texto, mas por todos os que tem assinado.

Cenas da Bola disse...

"(...)À entrada de 16a jornada(...)", fica a pequena correção.
O que dizes tu e Keiser está aqui: http://cenas-da-bola.blogspot.com/2019/01/liga-nos-18-19-sporting-cp-2-1.html?m=1

Caetano Lins disse...

Muito bom esse Jogo Hoje.

© Domínio Táctico 2012 | Blogger Template by Enny Law - Ngetik Dot Com - Nulis