12 de jun de 2019

O esplendor de Portugal


Até 2016, Portugal nunca tinha vencido uma fase final de uma competição internacional com a sua selecção A. Em 2019, três anos depois, Portugal festeja ainda a sua segunda grande competição internacional, a Liga das Nações (na sua edição inaugural), após vencer a Holanda por 1-0 no Estádio do Dragão.

O sucesso pode chegar de um momento para o outro, no futebol, e no caso de Portugal chegou a dobrar num curto espaço de tempo. Primeiro, a conquista do Euro 2016 em França, quase de forma heróica pelas circunstâncias extraordinárias de uma final que praticamente não teve Cristiano Ronaldo e que eternizou Éder na história do futebol português. Pelo meio, as conquistas dos Europeus de sub-17 (em 2016) e de sub-19 (em 2018). E por fim, uma vitória na mais recente competição de selecções da UEFA, que consolida o estatuto e o peso de Portugal no futebol europeu e mundial.

O país começa a habituar-se à sensação de vitória, começa a respirar confiança quando se aproximam as principais competições, começa a elevar a exigência para com a equipa. Apesar de alguns passos em falso, é notório o crescimento do futebol português no panorama internacional. Não só os resultados têm sido maioritariamente convincentes, como os jogadores portugueses estão, na actualidade, tremendamente valorizados, sendo já um dado adquirido que, nos campeonatos de topo do futebol europeu, marcam presença dezenas de futebolistas do nosso país, muitos deles com enorme preponderância em algumas das melhores equipas do planeta.

Esta é a verdadeira “geração de ouro” de Portugal. Por muito respeito e saudosismo que exista pela geração de 2000, onde pontificavam nomes como Luís Figo, Rui Costa, Fernando Couto, João Vieira Pinto ou Nuno Gomes, nenhuma outra geração portuguesa reuniu tanta e tão boa qualidade como a actual.


Há jogadores de topo em várias posições (Rui Patrício, William Carvalho, Bernardo Silva). Há vários talentos de primeira linha europeia (qualquer uma das opções para a lateral direita, desde Nélson Semedo a João Cancelo, passando por Ricardo Pereira; Raphael Guerreiro, Rúben Neves, Bruno Fernandes). Há jogadores de qualidade internacional que complementam e solidificam uma base de um nível qualitativo muito elevado (Rúben Dias, Pepe, Danilo Pereira, João Moutinho, Pizzi, Rafa, João Mário, Gonçalo Guedes, Bruma, André Silva). Há ainda jovens de enorme potencial e que já acrescentam ou poderão acrescentar qualidade neste patamar a curto/médio-prazo (com João Félix à cabeça, mas também com Ferro, Diogo Dalot, Rúben Vinagre, Diogo Leite, Florentino, Gedson, Jota ou Rafael Leão).

Quase 30 nomes bem exemplificativos de uma autêntica “mina de talentos” que sempre existiu neste “jardim da Europa à beira-mar plantado”, como em tempos o escritor Tomás Ribeiro exaltou nos seus poemas. Uma mina que, no entanto, apenas nos últimos anos tem sido bem explorada, graças ao trabalho de qualidade desenvolvido pela FPF, nomeadamente ao nível da profissionalização das suas estruturas organizacionais, do aumento da qualidade das suas infra-estruturas e da alteração dos seus quadros competitivos (com o regresso das equipas B a assumir-se como um marco de mudança neste aspecto), mas sobretudo pelo trabalho desenvolvido pelos clubes que, apesar de não terem ainda um projecto bem definido de aposta e potencialização dos talentos que formam (e pode ser esse o passo decisivo para uma nova revolução no futebol português), investiram significativamente na melhoria das suas formações nos últimos anos.

E, em cima de todo esse talento, há Cristiano Ronaldo. Aos 34 anos, o capitão da selecção já não está no seu auge. Já não tem o rendimento surreal de outras épocas. Já sente clara necessidade de gerir minuciosamente os seus minutos ao longo da temporada. Mas é agora, mais do que nunca, o líder da equipa nacional. Se durante anos a sua maturidade e capacidade para lidar a formação das “quinas” em campo foi colocada em causa (em alguns casos, de forma bem pertinente), hoje Ronaldo é acima de tudo o capitão que se idealizava há alguns anos atrás. Uma figura que motiva os restantes colegas pelo estatuto de lenda que já conquistou, e que cada vez mais replica na selecção o rendimento que há várias épocas atinge no Real Madrid e, agora, na Juventus. Na Liga das Nações, voltou a ser decisivo, apontando o “hat-trick” com que Portugal bateu a Suíça na meia-final (3-1). Mesmo que o presente e o futuro estejam já em boas mãos (ou pés, futebolisticamente falando), Ronaldo é a cereja no topo do bolo. O toque final e diferenciador. 


Hoje em dia, Portugal não é mais um país de segunda linha mundial no futebol, longe dos principais candidatos à vitória nas grandes competições. Não é mais um país que se possa contentar com meras presenças em fases finais, como acontecia há não muito tempo atrás. Não é mais uma equipa que entra em campo sem a obrigação de discutir, taco-a-taco, a vitória com qualquer adversário que se lhe oponha.

Portugal já não pode mais fugir a um desígnio que se assume cada vez mais unânime: o do favoritismo.

Não pode escudar-se na falta de qualidade individual, pois essa está hoje ao nível dos maiores e melhores países mundiais.

Não pode alegar que o seu talento não é potenciado da melhor forma, pois pese embora o facto do seu futebol não ser de elevada qualidade, a selecção portuguesa é um conjunto organizado, equilibrado, pragmático e que retira rendimento q.b. das suas principais referências.

Hoje, Portugal é uma potência no futebol mundial. Não pode mais escapar a esse epíteto. Tem a dimensão histórica. Tem o talento. Tem a qualidade. Tem a competência. E o histórico recente dita também que tem o sucesso que o comprova. A forma como caminhamos pode nem sempre ser a melhor ou a mais confortável, mas é já seguro afirmar que estamos, sem dúvida, na estrada certa.

1 comentários:

Benfiquista Primário disse...

Só falta um treinador que ponha esta selecção a jogar com a qualidade de jogo que o valor dos jogadores merece. A verdade é que temos ganho jogando "poucochinho" e isso não costuma dar vitórias de forma consistente, continuar a jogar tão pouco é estar a pedir para deixar de ganhar...veja-se o Benfica de RV...

Portugal tem obrigação de jogar muito melhor futebol porque tem jogadores para isso. Paulo Fonseca, Luís Castro ou Vítor Pereira? Lage não pode ser porque está reservado pelo meu Benfica...;-)

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