Predominância do cérebro sobre o físico: Foi por este slogan que me converti em Lateral Esquerdo ainda que jogue com o pé direito. Ou melhor, que joga com a cabeça, que por sua vez comanda o pé direito. E passei de Lateral a não convocado e depois a dispensado porque tenho muita dificuldade em escrever coisas sobre as quais não tenho a mais profunda e enraizada crença. Com argumentação sólida, sem os chavões com que nos habituaram para avalizar teses. Com lógica, com coerência, com congruência. É por isto que me movo. Se não estiver convicto, convencido, com a questão bem afinada, não sai. Porque, afinal, a maior parte dos meus pensamentos não são ouro. E mesmo alguns dos que partilho, apesar da convicção, percebo depois que não são tão relevantes assim. Aceito a crítica porque a faço a mim mesmo. Tento não repetir. E a palavra chave para esta introdução é esta: Relevância. O cataclismo começa quando começamos a não ser relevantes, e apesar da popularidade crescente o maior argumento para demonstrar determinado ponto de vista é: Falei com o Messi e ele disse-me que Deus fez o céu para que se possa jogar pelo ar, uma vez que lá não existe oposição. Portanto, se o Messi disse que Deus fez, e Deus é argentino (Maradona), é porque está certo. Ignore-se tudo o resto; a evolução está aí e quem não evoluir nesse pensamento vai ficar para trás. Já está atrás, a nova Era chegou!
O react é uma ferramenta desta nova era. Para quem não está familiarizado com o termo, é o que os Rojas do Youtube fazem em reacção às novas faixas que os músicos de todas as categorias lançam. Neste caso o Rojas (que tem a particularidade de ter sido, também, Lateral Esquerdo) sou eu.
O 25 de Abril trouxe coisas destas: Trouxe a possibilidade de nos expressarmos livremente, de dizer toda a merda que nos apetece, mas com isso vem a responsabilidade de ouvir de forma crua e cruel que o que estamos a partilhar é merda. Vem isto ao caso da mudança de catálogo. Hoje é normal defender uma ideia e o seu oposto em função do que nos dá jeito. Isto é: num jogo de escolhas, onde se sabe que não se pode ter tudo sob o risco de não se ter nada (veja-se Mourinho!), somos agora incapazes de dizer que defender à zona, sim zona pura, tem mais vantagens do que defender ao homem. De repente, a forma mais primitiva de todas de defender parece ter-se tornado num desafio incrivelmente difícil de contornar. Está tudo à espera de um deslize da defesa zonal, que tem as suas falhas, para se apontar aquilo que já se sabia anteriormente. Receia-se dizer que os méritos de uns são superiores aos de outros para não desapontar ninguém. Coloca-se no mesmo patamar a inteligência e a desinteligência, o charuto e desarme em que o defesa fica com bola porque os dois ganham jogos. Numa liga fraca como a nossa, onde todos batem e a maioria joga para o pontinho, há quem espere a queda de alguém que é mais positivo do que a maioria por ser novo e estrangeiro. Isso é o retrato do nosso futebol, é o que norteia o meio envolvente, é o futebol que merecemos. Não há congruência. Não há uma linha orientadora que nos faça perceber que caminhos são esses que se estão a percorrer. E tenho assistido sem reacção, impávido e sereno, à derrocada de um cantinho, de uma horta, por força das escolhas que se fazem ou deixaram de se fazer. Mas isso acaba hoje! Não precisamos de aprender só com os maus exemplos: veja-se Bernardo Silva. Na escolha do Bernardo entre os dois rivais de Manchester predominou o cérebro.
A falta de Categoria reside na falácia. Não há ninguém em quem o cérebro predomine que possa acreditar numa equipa onde o modelo de jogo reside na estratégia. Estratégia sem identidade, estratégia que perde a identidade. E nessa nova Era onde se quis relevar os méritos de uma abordagem que liga os jogadores com fios diferentes todas as semanas, que no fundo acaba por desligar os jogadores, é muito fácil criar desinformação para satisfazer quem tem preguiça de olhar para lá do óbvio. Veja-se:
"Contudo, Mourinho, acreditem, foi o primeiro a reconhecê-lo. Assim não fosse e ele não criticaria constantemente os seus jogadores e a sua direcção por não lhe dar intérpretes que pudessem mudar aquilo que Van Gaal, Moyes e os últimos anos de Ferguson, (des)caracterizaram. E para jogar e tentar ganhar como uma equipa que fez dele um ‘ungrateful bastard’ Mou teve de mudar método e abordagem para tentar esconder debilidades que, acreditem, seriam mais visíveis se Mourinho tentasse uma abordagem mais Guardiolista."
Não. Os jogadores foram os primeiros a perceber que Mourinho mudou, que não é o Special One; É uma versão rasca dele. Não é tão empático e tão preocupado com eles, não é tão focado na criação de um grupo de trabalho que dava tudo por ele pela força das ideias. Claro que num balneário é impossível convencer todos. Mas passou de convencer quase todos a não convencer quase nenhum porque não criou nem trabalhou para criar uma identidade colectiva - essa coisa abjecta que não existe na nova Era -. Perdão!, a identidade era fundamentada pela estratégia e por isso gabaram-lhe estar à frente do seu tempo, não era? Os melhores do mundo, cada um no seu estilo, era isso!? Coisas da Era que ficaram por explicar.
Não se deixem enganar, ninguém pede ao Mourinho para ser Guardiola ou para ser Simeone; pede-se que seja uma coisa qualquer. Que seja alguém que ao falar-se do seu nome fique associado a determinados comportamentos colectivos, a uma ideia, seja ela qual for. Qual é o estilo do Mourinho? O que é Mourinho hoje? A equipa de Mourinho é forte em que momento do jogo? É caracterizada por que comportamentos? Neste momento, no estado actual da equipa, quase todos os treinadores conseguirão fazer melhor do que ele, porque qualquer um vai apresentar qualidade numa situação de jogo, nem que seja nos lançamentos laterais. De Mourinho só se ouve hoje: é um treinador ganhador! Joga para ganhar, sem interessar o jogo. Os outros jogam para perder?! Bom.
"Sem definição de topo, decisão de topo, magia, criatividade e o motto ‘cães de caça sem ela (a bola)’ foi traumático ver José Mourinho passar por azelha para ficar de frente para o jogo com várias unidades que, ainda assim, pouco descanso lhe garantiam. É fácil dizer que o United deveria ter jogado mais (e devia) mas é fácil esquecer o desastre que foi a 1.a época de Guardiola ao serviço dos cityzens. E como corrigiu Pep o falhanço na estreia? Com métodos, diferentes abordagens mas, sobretudo com milhões (muitos mais do que aqueles que tornaram Mourinho em Chourinho) que lhe permitiram escolher jogadores por um catálogo que se adequasse totalmente na insistência do seu (excelente e extremamente evoluído) modelo."
Não tem decisão, não tem definição, não tem magia, não tem criatividade, não tem cães de caça. Para que servem aqueles jogadores então?! Quem os contratou? Custaram tanto porquê? A equipa com a maior folha salarial não tem nenhuma qualidade? Não pode jogar em posse nem pode jogar em transições, não pode pressionar alto nem jogar em bloco baixo. Teria que ter levado dos seus rivais Bernardo para além de Bailly, Fred e Alexis. Tem que mudar 20 jogadores como fez Guardiola para não passar por mais desastres. Estranho. Queria ver Walker, Stones, Otamendi, Zinchenko, Delph, Fernandinho, David Silva, Gundogan, Bernardo Silva, Sterling, Sane, Foden, Aguero e Gabriel com Mourinho. Como jogavam, onde jogavam e quando jogavam. Se estaríamos hoje a falar do que rendem esses jogadores, como se não fossem as ideias a valorizar e a elevar os jogadores.
"Quebra, por falta de lógica, a ideia de que Mourinho devesse insistir na posse, como se por magia ou wishful thinking, isso fizesse com que os vários cepos que tem na equipa ganhassem pés e visão de Iniestas. E como o desastre da 1.a época de Guardiola provou, não bastam quatro ou cinco para bailar como Pep gosta. E eu sinceramente, no United, vejo mais gente com paralelos a fazer de pés, do que propriamente os quatro ou cinco constantemente invocados na já longa série de ‘Mourinho tem de ser Pep’."
Mourinho tem de ser Mourinho. Mas quem é Mourinho? É repetitiva e simplista a ideia que o jogo dele deveria ser como o de Guardiola. Difícil é caracterizar o jogo dele. Que qualidades, e que defeitos. Isso é que seria relevante, isso é que se quer ver!
"Não quer isto dizer (antes que me acusem de ser avençado de Mou) que o próprio não pudesse ter arranjado melhores formas de retirar mais de um plantel que o decepcionou profundamente. Duvido é que ele quisesse estar mais tempo num clube onde não lhe satisfaçam a sua vontade. E, na sua cabeça, para reconstruir aquele United seriam sempre precisos muitos mais milhões do que aqueles que gastaram consigo. Talvez Florentino seja mais amigo. Não quer isto dizer que, para mim, esses milhões fossem a solução. Mas quem contratou Mourinho (e quem contrata Pep) tem de contar que para haver categoria tem de haver catálogo."
Se não queria estar mais tempo no clube prejudica o clube com a falta de ideias para o jogo e para os jogadores? Por que motivo não sai em discordância com a política do clube? Mais milhões como os do Tottenham ou os do Arsenal? Os jogadores mais caros da Premier não são catálogo? O jogador mais bem bago da Premier não é categoria? Hmmm.
Termino dizendo que como o Rojas estou disponível para ser rasgado por Mourinho num outro livro. Mas, manifestar o meu desagrado pela decadência sucessiva de um espaço cada vez mais popular e populoso faz parte de um jogo que se fazia no tempo da pedra quando um sueco vendia gato por lebre no La Stratégie.