Este post poderia muito bem ser sobre a exibição fantástica do Sporting de Marcel Keizer - entrevista interessantíssima dada pelo actual treinador leonino aqui - em Baku. O treinador holandês trouxe, em duas semanas, uma melhoria drástica - e saliento, drástica - ao futebol da equipa: de uma equipa medrosa e cobarde, que nem com espaço se propunha a construir passou a uma equipa corajosa, com dinâmicas e capaz de superar uma pressão agressiva do adversário em vários momentos; de uma equipa cinzenta, sem a mínima variabilidade de recursos ofensivos e que não trabalhava minimamente os lances passou a uma equipa criativa, que prioriza claramente a tabela entre os seus elementos e que procura os melhores caminhos para atacar; e de uma equipa passiva e expectante passou a uma equipa extremamente agressiva tanto na pressão como especialmente na reacção à perda, tendo os jogadores muito próximos e conseguindo rapidamente condicionar o adversário. Há que dizer, claro, que tudo isto tem de ser lido de forma cautelosa. A melhoria foi gigante para o pouco tempo de trabalho existente, mas esse tempo não deixa de ser pouco, o que implica obviamente que ainda há deficiências várias e uma inconsistência enorme nesta forma de jogar. É provável que a equipa venha a sofrer as chamadas dores de crescimento pelo futebol que tenta jogar, e que nesses momentos as críticas se multipliquem. No dia em que escrevo este post, aliás, o Sporting vai ter um jogo muito complicado em Vila do Conde, que pode eventualmente expor alguma da falta de trabalho que ainda há sobre esta ideia de jogo. Mas, ao contrário do futebol de Peseiro, que estava desde início votado ao insucesso, o que Keizer está a trazer promete, e muito. O sucesso que terá - ou não - é evidentemente uma incógnita para qualquer um, mas a pequena amostra inicial exige, desde já, a minha atenção. O que é mais do que posso dizer da grande maioria do campeonato português...
Mas não, apesar de me ter esticado no parágrafo inicial, o tema do post é outro. Na noite de quinta feira, decidi ver o programa "Grande Área", da RTP3. Costuma ser um programa de futebol algo superior às... vamos chamar-lhes banalidades, que poluem a televisão nacional, e um dos seus analistas regulares, em particular, é alguém cuja opinião estimo (Rui Malheiro). Eventualmente chegaram ao jogo do Sporting em Baku, e a um certo ponto Manuel José faz o seu comentário, que podem ver abaixo:
Manuel José, no fundo, rasga completamente o jogo de Wendel por este ter "individualizado as acções todas", ao contrário dos colegas, que jogavam a "um ou dois toques", e com a aparente anuência do restante painel. Fiquei imediatamente perplexo, porque a ideia com que fiquei do jogo que Wendel fez foi literalmente a oposta, e como estamos a falar de uma questão de facto... É que dizer que um jogador jogou bem ou mal pode ser opinião, mas é possível averiguar se tentou passar a bola aos colegas ou "individualizou as acções todas", mesmo dando de barato alguma hipérbole na afirmação, visto que é algo contável. Por isso, restavam três opções: ou Manuel José é cego, ou mentiu descaradamente, fiando-se na ideia de que Wendel, como o típico médio brasileiro, teria de certeza tentado fugir da dinâmica colectiva da equipa e tentado fintar toda a gente; ou então fui eu que vi tudo completamente ao contrário e, na verdade, Wendel terá feito o contrário do que eu tinha visto quando o jogo foi transmitido em directo.
Como eu sou da opinião que a pessoa de quem devemos duvidar mais é de nós mesmos, fiquei curioso e achei por bem ir rever o jogo. Afinal, era bem possível que eu tivesse visto mal, e nesse caso não só aprenderia algo sobre o jogo que Wendel fez, como desconfiaria ainda mais da minha própria falibilidade - o que é sempre saudável, diria. Ao rever o jogo, no entanto, a minha perplexidade aumentava a cada acção do médio brasileiro. E aumentava porque, de facto, se se pode fazer alguma crítica à exibição de Wendel... é exactamente a oposta. O médio brasileiro procurava constantemente jogar em poucos toques e associar-se com os colegas, e em alguns lances isso até nem era a acção mais recomendada. Destaco, por exemplo, a assistência de Wendel (a primeira de três) para o terceiro golo do Sporting, em que apesar de para a estatística ficar uma acção brilhante, uma análise mais atenta ao lance mostra claramente que o médio do Sporting - que havia estado muito bem no mesmo lance, momentos antes, ao devolver a tabela de primeira como o contexto exigia - podia e devia ter continuado a conduzir a bola, e que ao passar a Nani na altura em que o fez lhe criou dificuldades desnecessárias. Não obstante a enorme mestria individual do extremo português ter feito com que o lance acabasse em golo, a decisão de Wendel nessa parte do lance foi incorrecta, mas pelo motivo oposto ao que Manuel José criticou no jogo dele. Toda esta dissonância entre o que aconteceu e o que Manuel José referiu levou a que eu compilasse um vídeo com todas as acções, com bola, do médio brasileiro. Vídeo esse que (adivinharam!) podem ver abaixo:
Se alguém conseguir descortinar ali o que raio Manuel José viu (ou não), a caixa de comentários está disponível. O meu descontentamento foi tal que, vejam lá, até fiz um exercício que será, possivelmente, a coisa mais inútil que já me dei ao trabalho de fazer na minha vida, que foi contabilizar, de todas as acções do jogador - por acção defina-se "tudo entre o momento em que o jogador recebe a bola até que, por uma multitude de factores, a deixa de ter" - quais terminaram em passes e quais, das que terminaram em passes, envolveram menos de três toque na bola (ou um ou dois). Das 65 acções totais excluí as 2 que acabaram em remates de Wendel isolado perante o guarda-redes - os tais "dois golos falhados de baliza aberta" que Manuel José menciona, ficando com 63 totais. E dessas, 53 acabaram em passes - não discriminando se foram acertados, falhados, ou se bem ou mal decididos, visto que não foi isso que o ex-treinador português criticou - e desses 53, 44 foram em um ou dois toques. Ou seja, mais de 84% das acções de Wendel acabaram em passe... e quase 70% (aproximadamente 69,84%) de todas as acções do jogador foram ou passes de primeira ou passes imediatamente após a recepção!!! O que também contei foram as vezes que Wendel "inventou dribles quando tinha um defesa nas costas"... felizmente esta foi mais fácil, foi uma (aos 3:25 do vídeo). E nem sequer será àquele tipo de acção que Manuel José se refira, imagino, já que foi no último terço, encostado à linha e, aponto eu, que demonstrou uma percepção notável daquele contexto particular. Já que aguentou a bola até Jefferson lhe passar nas costas, o que atraiu o defesa que estava com Wendel a cobrir um eventual passe, abrindo uma cratera no meio que o médio brasileiro aproveitou imediatamente. Portanto, bem analisado, Wendel nunca fez o que Manuel José o acusou de o fazer. Aliás, recebeu a bola em várias situações que encaixam no que Manuel José refere (de costas, com pressão e numa zona central do terreno), e em todas fez o que o português disse que não fez. É possível ser-se mais estúpido?
Isto tudo para provar que, afinal, ficamos mesmo só com duas das três hipóteses que apresentei: ou Manuel José é cego ou é mentiroso. E é algo que exige uma breve reflexão sobre os programas de análise desportivo que temos: se até naqueles que são menos maus há comentadores que procuram levar avante narrativas que nem pelo crivo aparentemente simpático dos factos passam, como é que podemos querer ensinar a população a ver o Jogo que mais as apaixona? A verdade é a seguinte: qualquer pessoa que tenha visto o Grande Área, mas não o jogo do Sporting em Baku, ficou com uma ideia que é logicamente equivalente a dizer que um jogo de Futebol tem 47 jogadores. E quão triste é ter essa noção!? Se este post conseguir que sequer uma dessas pessoas possa ver com os seus olhos o que, de facto, Wendel fez no jogo e que, por isso reformule a opinião que Manuel José formou por ela, o objectivo do mesmo está mais que cumprido.







