"Forçámos de todas a maneiras e feitios para fazer golo, mas não conseguimos."
Esta frase é de Arnaldo Teixeira, adjunto de Rui Vitória, após a derrota do Benfica em Setúbal. E parece-me que pode trazer um tópico de discussão interessante, juntamente com o que se passou no final do encontro. O Benfica teve imensas dificuldades em criar lances de perigo ao longo do encontro, sendo que nos dez minutos finais, mais coisa menos coisa, decidiu começar a despejar bolas na área do seu adversário a torto e a direito. O sucesso dessa ideia foi obviamente muito diminuto, tendo apenas conseguido um remate de Mitroglou, na sequência de uma segunda bola. Isto tudo até ao último lance do jogo, claro. Esse lance foi imensamente escrutinado por todo o país, mas, claro, no sentido de saber se o lance era passível de grande penalidade ou não. Aqui a ideia é fazer um pouco diferente, por isso não é, de todo, esse o meu foco. O interesse do lance, a meu ver, está no início do mesmo e não no fim.

Falta literalmente um segundo para acabar o tempo adicional mínimo, a equipa tinha, como referido, passado os dez minutos anteriores a despejar na área e Carrillo estava numa posição em que a grande maioria dos jogadores, mesmo numa situação diferente, cruzariam. Pelo que o desfecho da jogada deveria ser mais do que óbvio, uma bola na área. Mas Carrillo é um jogador que poucos percebem, e que tem tendência a não fazer o que todo o mundo acha óbvio. Muito acusado de ser irresponsável nos momentos defensivos e, de facto - já que a primeira afirmação é mais questionável do que se pensa - tem oscilações gigantes de rendimento consoante os seus níveis de confiança e conforto na equipa em que se encontra (o que o leva a entrar em ciclos negativos viciosos com facilidade, como foi bem visível no Sporting por exemplo). Apesar disso, é um jogador de elevadíssima qualidade, porque alia qualidades físicas e técnicas superlativas a um conhecimento do jogo deveras subvalorizado. Vejamos a jogada:
Ao não fazer o óbvio, e em vez disso procurar uma melhor solução, Carrillo aproximou-se muito mais do sucesso do que se tivesse feito o que toda a gente lhe ordenaria que fizesse na situação descrita. Foi, aliás, traído pela sua recepção após a devolução do colega (que também lhe dificulta a vida), que se lhe sai bem o colocaria numa situação muitíssimo favorável. Mas interessa mais falar da falácia que é a ideia que todos os treinadores têm de ter um "Plano B" para este tipo de circunstâncias - que consiste sensivelmente no que o Benfica fez neste período: tudo na área e bola lá em cima! Daí também o interesse de Arnaldo Teixeira em passar a ideia de que a equipa tentou chegar ao golo de todas as formas - visto que é algo tido como positivo e recomendável. Por isso mesmo, não é a verdade dessa ideia que se discute aqui (ou seja, se o Benfica procurou mesmo o golo de todas as formas) , mas sim o facto de essa ideia ser algo de positivo. Ao ignorar tais preconceitos e focar-se na melhor solução, Carrillo mostrou aos seus colegas e até à sua equipa técnica que, se o Benfica se tivesse focado nas melhores formas de chegar ao golo nos últimos 10 minutos - e não em todas, podia não ter saído do Bonfim sem pontos...