É um jogador do mais normal que há em termos físicos. Apesar de ser relativamente alto (1m80), não é particularmente forte, nem particularmente ágil, nem... bem, particularmente nada. Tecnicamente, sendo bastante evoluído, está longe de ser minimamente espalhafatoso ou de ter competências especiais no drible e na condução, como bastantes médios-defensivos ou médios-centro na actualidade. O observador normal, que apenas olha aos aspectos técnicos e físicos, ver-lhe-à qualidade no passe e na recepção, mas pouco mais.
E, no entanto, sinto-me bastante seguro em dizer que o considero um dos dez melhores médios-defensivos a nível mundial (diga-se de passagem que muito facilmente iria mais longe que isto). E o motivo é muito simples - Jorginho tem o jogo na cabeça. Reparem que digo isto no sentido menos hiperbolizado que possam imaginar, porque tem mesmo muito poucos rivais na sua posição, no que ao conhecimento do jogo (com e sem bola!) e tomada de decisão diz respeito (talvez apenas Busquets e Weigl o sejam). A ideia central do post é mesmo, com uma mistura entre análise e vídeo, mostrar isso da melhor forma que consigo. Nesse sentido, construí um vídeo do jogador no mais recente jogo do Nápoles, em casa do Chievo Verona.
Quanto a esse vídeo, algumas notas. Contém todas as acções de Jorginho no jogo, com bola, e os lances em que por acção dele, directa ou indirecta, a equipa a recuperou. Ainda assim não mostrará tudo, claro, mas não só o vídeo já possui uma extensão assinalável na forma actual (pouco mais de 12 minutos), como trouxe também mais um pormenor para destacar que não lá está incluído. Para além disso, em algumas acções deixei propositadamente alguns lances completos no vídeo, mesmo que as intervenções directas dele nos mesmos distem vários segundos umas das outras. Nesses casos, que constituirão os clips mais longos, recomendo que se tentem abstrair da bola e olhem directamente para ele e para a forma como está a interpretar a situação em seu redor. Também me sinto na obrigação de referir que este não foi, de todo, um jogo muito acima do habitual por parte do Jorginho. Foi, aliás, muito na linha do que faz constantemente, tendo até cometido um ou outro erro que não lhe é habitual. Erros esses que, obviamente, estão contidos no vídeo, visto que como foi dito nele podem ser observadas todas as acções do jogador com bola, o que evidentemente incluirá tanto as boas como as más.
Mas antes do vídeo propriamente dito, trago um lance adicional, no qual o Nápoles tem a bola mas sem que o Jorginho a receba uma única vez. Questionar-se-ão, acredito, qual será então a relevância desse lance. Esta reside no facto de ser nele nítida a forma quase obsessiva como o Jorginho está os 90 minutos a interpretar situações, a analisar o contexto e, mais do que isso, a tentar guiar/ordenar os colegas na acção correcta a tomar.
Acho que não estou a incorrer em nenhum exagero se disser que, em 99% dos casos, quando um jogador dá ordens a um colega que tem a bola durante o jogo é no sentido de este lha passar. Não é, de todo, esse o caso do jogador aqui analisado. Ele tanto ordena a um colega que lhe passe a bola, como que conduza ou até que passe a outro jogador. Não o faz por notoriedade, claramente. A meu ver, fá-lo quase como sintoma da sua reflexão e análise obsessiva das situações do jogo. Como está sempre a analisar tudo e a tentar pensar algumas jogadas à frente, qual xadrezista de qualidade, percebe quase sempre qual a melhor solução que os colegas têm para dar seguimento ao jogo, e sente a necessidade de os guiar.
No caso em particular que aqui mostro, fá-lo quatro vezes, e felizmente a sua linguagem gestual é clara o suficiente para que seja possível a quem está de fora ler minimamente as intenções dele. Na primeira, ordena a Koulibaly que avance e se desloque para a sua esquerda, de modo a que este não esteja a ocupar a mesma coluna vertical que ele. Na segunda vez, vendo que o Chievo está com uma concentração grande de jogadores naquela zona, ao contrário do Napoli (que apenas tem Hamsik e, pior do que isso, ele teria depois poucas possibilidades de ligação com os colegas caso a bola lhe chegasse), sugere a Insigne que devolva a Koulibaly para se procurar uma entrada no bloco adversário em melhores condições. Na terceira, vendo que Albiol tem bastante espaço à sua frente e que ele próprio está quase que preso num banco de 6 adversários, ordena-lhe que conduza, aproveitando o espaço livre e acima de tudo atraindo alguns deles para que depois a bola entre melhor na frente da 1ª linha de pressão. E por fim, na quarta vez, diz a Koulibaly que devolva a bola a Albiol, colocando-se imediatamente em posição para receber um passe deste (que acaba por não sair) à frente da 1ª linha de pressão. Para além destes 4 detalhes, podemos, ao olhar atentamente para Jorginho, constatar a forma como este está constantemente a rodar o pescoço, para perceber o contexto à sua frente. Mas sobre este último detalhe falaremos mais claramente abaixo...
Passemos então ao dito vídeo:
Antes de partir para uma análise mais geral, vou destacar alguns lances que me pareceram ter pormenores que merecem a referência. Não necessariamente por serem os mais brilhantes (embora também o possam ser :) ), mas por um ou outro motivo, que depois explicarei abaixo, me chamarem à atenção... Os intervalos temporais apresentados abaixo são os do vídeo.
42 segundos (0:42) - Este lance, à primeira vista, não tem nada de especial. Aliás, no que é facilmente perceptível o Jorginho até esteve mal, visto que o passe dele para o Koulibaly saiu muito curto (erro técnico), acabando por criar dificuldades desnecessárias ao colega num lance simples. Mas este primeiro lance não tem como intenção elogiar uma acção do Jorginho, mas sim demonstrar um pormenor que está claramente explícito aqui e que ajuda a perceber um recurso que ele usa para estar sempre alguns passos à frente de todos os outros. Olhem para ele com toda a atenção que conseguirem, e contem as vezes que ele roda o pescoço para trás (ou seja, para a frente do campo, visto que ele estava a correr para trás). Eu contei 5, e pelo menos 4 delas parecem-me nítidas. Como digo, este lance não é destacado pelo que é, mas pelo que mostra do jogador. Neste caso, a forma quase obsessiva com que ele tenta olhar para a frente serve para perceber se tem condições para verticalizar, e até para entender o melhor possível eventuais mudanças de contexto e ter o máximo de dados possíveis para a tomada de decisão. Neste caso em particular, percebeu que não estavam reunidas as condições para verticalizar, e devolveu atrás.
1:24 - Mais uma vez, o aspecto referido acima de tentar sempre guiar os colegas quando têm a bola. Destaque para a irritação que demonstra quando o Albiol não lhe devolve a bola, quando este tinha condições para a receber e gente com quem jogar (Allan e Insigne).
02:00, 03:20 e 07:44 - Fundamentos da posição. Mais concretamente, a primazia absoluta ao passe vertical, a queimar linhas, e a preocupação constante em servir de apoio recuado em organização ofensiva. Estes clips são maiores exactamente por isso, para mostrar essa preocupação dele em
fornecer sempre um apoio, mesmo quando a equipa muda de lado a atacar.
fornecer sempre um apoio, mesmo quando a equipa muda de lado a atacar.
10:10 - Percepção do contexto. Na maioria dos casos, a função que lhe cabe em termos posicionais, na organização ofensiva é, como foi dito, servir de apoio recuado. Mas, correndo algum risco de entrar em contradição, o jogo é demasiado complexo para se dizer que um jogador pode, na verdadeira acepção do termo, ter funções. De uma determinada opção ser a melhor a tomar na maioria dos momentos, não se segue que o seja sempre, e o Jorginho, como jogador extremamente inteligente que é, percebe isso perfeitamente. O clip começa aos 10:10, mas a parte que me interessa destacar ocorre sensívelmente a partir dos 10:24 (embora tudo o que o Jorginho faz neste lance em particular seja muito bom). Percebendo que a bola tem de entrar no Insigne, avança por forma a dar uma linha de passe horizontal ao colega que lhe permita receber em melhores condições de, em seguida, logo enquadrar o colega. Seria fácil simplesmente ficar atrás, mas mais uma vez, ao identificar a solução que o contexto pedia, ficou bem patente todo o conhecimento do jogo que tem o Jorginho...
8:35 - Classe. Tanto a forma como mata no peito e sai da pressão como depois aquele passe de primeira para o Hamsik são dignas de destaque. Acções de elevado grau de dificuldade, que ele executou com mestria.
Um pouco por todo o vídeo, é facilmente perceptível o critério do jogador, na forma como prioriza passes que eliminem adversários do lance (o chamado passe vertical) mas como também percebe que nem sempre dá para optar por eles, e nesse caso há que criar condições de penetração de outra forma. Sem bola, a forma como está constantemente a servir de cobertura ofensiva quando a equipa está no último terço, e como liga os sectores da equipa em construção são também notáveis. E isto num jogo em que o Chievo lhe dificultou muito mais a vida do que grande parte dos adversários, nessa fase de construção. De destacar também a forma como, apesar de fisicamente não ter atributos diferenciadores, consegue, por acção directa ou indirecta (e algumas destas últimas não estão aqui!), que a equipa recupere a bola. O facto de ter óptimas noções posicionais ajuda-o bastante nisto, evidentemente, bem como o facto de, normalmente, saber discernir quais os momentos para ser agressivo. Percebe-se, no fundo, que é a forma como percepciona o jogo que o eleva a um patamar superior. E mais do que isso, percebe-se que mesmo não se destacando fisicamente em nada, nem tendo atributos técnicos especiais para além do passe e da recepção, um médio-defensivo pode ganhar de goleada a muitos que metam sempre a bola onde querem e consigam conduzir a bola 40 metros com adversários em cima, por exemplo. É um dos jogadores que me lembro de ver jogar que melhor conhecem o jogo, e isso, e nada mais do que isso, é o que o torna um jogador especial. Mas, voltando ao início do post, só lhe é possível apresentar toda esta qualidade porque joga numa equipa onde o seu futebol se sente em casa, e mesmo o próprio Jorginho evoluiu bastante como jogador integrado numa equipa que o estimulou desta forma. Sempre foi um médio muito inteligente, mas foi com Maurizio Sarri que elevou essa inteligência a níveis estratosféricos.
Deixo o último parágrafo para, exactamente, falar de Sarri. É um treinador soberbo, facilmente um dos meus três treinadores favoritos na actualidade, e já o é desde que seguia o seu Empoli. Mereceria até um post só para si, para elogiar todos os seus méritos, mas aqui vou ter de lhe fazer uma pequena crítica (embora antecedida de muitos elogios). A abordagem dele a esta época tem sido, na globalidade, fantástica. Mesmo perdendo o máximo goleador da história da Serie A numa só temporada, soube reinventar ligeiramente a organização ofensiva da equipa com a chegada do Milik, que é um avançado algo diferente (o Honoris fala um pouco sobre isso aqui) e, mais que isso, quase que "inventar" um avançado do nada com a lesão deste. Quando ainda existe o dogma de que é obrigatório ter um matador (normalmente, o tal avançado grande, forte e mau que marca muito) para se marcar golos, a aposta num extremo de 1m69 para a posição parecerá certamente uma heresia. Mas a verdade é que tanto ele como a equipa marcaram imenso, o que, se esse dogma fosse uma porta, representaria mais um tiro numa porta que já foi arrombada, baleada e pontapeada vezes sem conta, apesar de ainda haver quem não o perceba. Soube também integrar o Zielinski nas suas opções regulares para o 11, que é um jogador superior ao Allan. Mas, e aqui vem a crítica, parece-me que foi demasiado lesto em apostar no Diawara no lugar do Jorginho. O primeiro é um médio defensivo de qualidade e acima de tudo com imenso potencial, há que notar. Já tem muitas prioridades certas com bola, alguma qualidade técnica, uma calma sobre pressão interessante e é fisicamente bastante bom. Mas neste momento, está claramente numa liga inferior ao Jorginho, e, por isso, ainda não devia discutir activamente com este a titularidade (no sentido de o ser tantas ou mais vezes que ele).





