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27 de mar. de 2018

O jogo, o jogador e tudo o que os separa

[Por vezes não quero sair de casa - André Gomes]

Recentemente, uma entrevista de André Gomes, internacional português a jogar actualmente no FC Barcelona, chocou grande parte da comunidade futebolística. Nela, o jogador dá claramente a entender que não se sente feliz no exercício daquela que é a sua profissão. O André não é feliz, mesmo fazendo aquilo que gosta.

Se em qualquer sector profissional a motivação para a função e a estabilidade psicológica se assumem como factores fundamentais para o sucesso, no futebol esses aspectos são mesmo condição sine qua non para um bom rendimento. Sendo certo que é o corpo que sobressai aos olhares menos atentos e perspicazes - seja através das características físicas e atléticas, seja através da destreza técnica - é a mente que faz com que tudo funcione naturalmente.

Não raras vezes, adeptos, dirigentes e até treinadores revelam ignorância, desprezo e desdém pelo aspecto mental e psicológico do jogo. Sempre que determinado jogador não apresenta rendimento, por um ou outro motivo, de imediato surgem as críticas e reparos às suas limitações mentais, e facilmente se colocam dúvidas em relação às suas valias futebolísticas. "Não aguenta a pressão", "não tem estaleca para isto" ou "não é assim tão bom" são argumentos que de imediato são disparados a torto e a direito. E se no caso dos treinadores de bancada há a atenuante de não possuírem conhecimentos suficientes sobre a matéria e/ou de não conseguirem discernir a diferença entre falta de qualidade e falta de rendimento, no caso de dirigentes e sobretudo treinadores a conversa muda de tom.

Todos os jogadores são diferentes, e esta verdade universal aplica-se também à pessoa por detrás do jogador. Não há duas formas iguais de lidar com a mesma situação, seja dentro ou fora do campo. Desde logo, as próprias questões extra-futebol têm um peso gigantesco no bem-estar do jogador. Por exemplo, foi notória a quebra de rendimento de Willian, extremo brasileiro do Chelsea, aquando do falecimento da sua mãe, no ano passado. O contexto futebolístico não se alterou, de forma nenhuma, mas de um dia para o outro, o contexto pessoal do jogador alterou-se definitivamente, e isso reflectiu-se no seu rendimento em campo.

Mas mesmo deixando de parte as questões pessoais - que obviamente podem impactar a vida de qualquer jogador -, é assustadora a rigidez com que é feita a gestão dos recursos humanos de um plantel. Como se exige e se cobra de igual ou até mais exigente forma o mesmo a um jogador que tem a confiança do treinador e que possui um lugar estável no grupo, e a um jogador que vem de uma realidade diferente (seja um outro clube, seja quando é promovido desde os escalões de formação) e se depara com um choque contextual que envolve estatutos, dinâmicas de grupo, métodos, ideologias e todo um sem número de outros factores.

O caso de Rafa, no Benfica, leva-nos ao primeiro factor crucial para que um jogador possa ter condições que, de facto, lhe permitam render ao seu melhor nível: a confiança. O extremo português tem visto ser-lhe associado, continuamente, o rótulo de "flop" desde que chegou à Luz. Já no Braga, o seu talento saltou à vista de todos, incluindo do seleccionador nacional, pois as suas prestações nos bracarenses levaram-no à estreia na selecção A. Foi, de resto, esse rendimento em campo que fez o Benfica pagar cerca de 16M€ pelo jogador.

Apenas recentemente, tem Rafa demonstrado com a camisola encarnada todas as capacidades que possui e sempre possuiu no seu jogo. Até aqui, o seu rendimento foi sempre inconstante, alternando grandes exibições e pormenores de génio, com partidas cinzentas e sem grande impacto na dinâmica colectiva.

O que mudou então? Não terá sido o contexto, dado que o Braga onde jogou já actuava na maior parte dos jogos com a mesma postura com que qualquer um dos grandes actua nas competições nacionais. Rafa já estava acostumado a que a sua equipa tivesse mais bola e controlasse o rumo do jogo, e também já se habituara a defrontar adversários organizados em bloco baixo e com uma grande aglomeração de jogadores próximos da sua própria baliza, consentindo (ou tentando, pelo menos) poucos espaços nos seus últimos 30 metros.

Para além disso, esta é também a segunda temporada de Rafa no Benfica, pelo que já não será uma questão de adaptação ao clube, ao grupo e à equipa técnica. Não será, também, uma questão de aplicação e empenho no treino, dado que isso nunca terá sido impedimento para que tivesse tido oportunidades anteriormente. No entanto, o que mudou foi a regularidade com que o jogador passou a ser utilizado por Rui Vitória.

Com a lesão de Salvio, foi dada a Rafa consistência e continuidade no lado direito do ataque das águias. Foi-lhe transmitida uma confiança que até aqui não tinha existido. Por sua vez, a sucessão de exibições e boas sensações em campo aumentaram a sua própria confiança e despoletaram a fluidez e a naturalidade que antes lhe faltava. Sem surpresa, o jogador tem agora demonstrado todos os atributos que fazem dele um dos mais talentosos jogadores ofensivos da sua geração em Portugal.

Vejamos outro caso: o de Marega no Porto. Duas épocas no clube, dois treinadores diferentes, dois rendimentos completamente distintos. Foi a qualidade intrínseca do jogador que se alterou? Muito dificilmente. Não se notam melhorias nos gestos técnicos, e muito menos na coordenação motora, aspecto onde o maliano sempre demonstrou dificuldades. Terá sido o seu empenho no treino? Não consta, na sua passagem por qualquer clube, que isso algum dia tenha sido uma questão problemática. Foi a sua confiança - proporcionada pela aposta contínua do treinador no jogador -, isso sim, que mudou drasticamente.

Da incapacidade para realizar simples recepções de bola e passes sem grande complexidade, passou a existir um jogador capaz até de finalizar com sucesso através de gestos técnicos de requinte. De 5 golos em 24 jornadas, passou a 20 no mesmo número de jogos no campeonato português. De dispensado e principal alvo de gozo dos adeptos, passou a peça fundamental e a ídolo de muitos daqueles que, provavelmente, dele troçavam há não muito tempo atrás.

Rafa e Marega são dois exemplos de sucesso, no momento actual das suas carreiras, que fazem pensar e questionar quantos mais jogadores não conseguirão demonstrar todo o talento e qualidade que possuem, apenas porque os agentes do jogo que são também decisivos nas suas carreiras não conseguem ver para lá das suas fraquezas, de forma a poderem reconhecer as suas forças.

O rendimento de um jogador - seja no jogo, seja no treino - depende de infinitos factores, com um sem número de variáveis por ele incontroláveis. No entanto, assume-se como o único aspecto considerado por uma grande parte dos treinadores aquando da "cobrança" aos seus jogadores. Se rende é bom e joga, se não rende é mau e senta-se no banco ou na bancada. Sendo certo que o futebol de alta competição exige dos treinadores resultados imediatos, exige-se também deles que não esgotem na percepção técnico-táctica do jogo (que, na grande maioria dos casos, não é tanta quanto se tem feito crer no que ao treinador português diz respeito) as suas competências para um cargo cujas responsabilidades vão muito para além de tirar o Quim para meter o Manel, apenas porque o Manel rende, não questiona e não promove discussão (e consequente evolução) sobre o jogo. 

28 de jan. de 2016

A importância das vitórias na criação/evolução do modelo de jogo

"Temos tendência para reter os dados que são compatíveis com as nossas convicções e as nossas ideologias, e que nos convêm" (Abravanel)

Quando um treinador procura criar/evoluir um modelo de jogo, ou seja, uma relação coletiva que ajude os jogadores a perceber e interpretar melhor as diversas situações ao longo do jogo, torna-se fundamental que os jogadores acreditem no que é feito, porque só assim vão adquirir os comportamentos que o treinador pretende. De modo a que o funcionamento colectivo de uma equipa resulte, é fundamental que os jogadores, acreditem que aquilo que estão a fazer os vai aproximar do sucesso, tanto a nível individual como colectivo

Assim sendo, Guilherme Oliveira refere que a aprendizagem de um comportamento por parte de um jogador, será tanto melhor quanto maior for a compreensão do jogador relativamente a esse comportamento, e depois, a percepção de que o mesmo é benéfico tanto para ele como para a equipa. Quantas e quantas equipas não vimos já, piorar a qualidade do seu jogo porque os resultados não apareciam? Os índices de confiança dos próprios jogadores diminuem mas há mais: a falta de confiança no trabalho do treinador, ou seja, nas suas ideias e nos princípios de jogo que tenta incutir. 

Lembro-me do caso do Villarreal o ano passado. A certa altura da época, e mesmo praticando um futebol de qualidade, com princípios ofensivos bons, as vitórias não apareciam. Por um motivo ou por outro, a qualidade apresentada em campo não se traduzia no marcador. Isto levou a que os jogadores começassem a perder a convicção nas ideias do seu treinador. Ao fim de alguns jogos consecutivos sem ganharem, o Villarreal parecia outra equipa. A qualidade exibicional baixou bastante porque os comportamentos que os jogadores demonstravam em campo já não iam ao encontro do que o treinador idealiza. Deixou de haver, por parte dos jogadores, convicção no trabalho do seu treinador. 

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