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27 de jan. de 2018

Algumas Reflexões sobre a Lei do (Fora de) Jogo


No meu primeiro post aqui, falei, entre outros temas, de uma das teses que Juanma Lillo defende – que o melhor e mais informativo livro alguma vez escrito sobre o Jogo é o Regulamento do mesmo. Podemos pegar nas regras do futebol e extrair delas várias deduções lógicas, que nos colocam em vantagem competitiva sobre quem não o faz. Dando o exemplo mais claro – e, por isso, de tal forma óbvio que não há quem não o entenda - de uma dedução; se a Lei do Jogo nos diz que podemos jogar com até 11 jogadores, não vamos jogar com menos, já que isso nos colocaria de forma imediata numa situação de clara desvantagem perante o rival. Mas da mesma forma como se podem deduzir coisas absolutamente óbvias do regulamento, como a que referi, é possível tirar outras conclusões bastante mais intrincadas e que podem facilmente distinguir uma equipa das demais, e vou falar num exemplo disso mesmo em algum detalhe mais abaixo.

Em termos históricos, as equipas que mais impacto criaram no jogo foram as que mais e melhor souberam compreender verdadeiramente essas regras e que as souberam subverter. Até vou mais longe… um dos aspectos que normalmente distingue as equipas que mais revolucionaram mais o jogo em termos ideológicos das demais é o facto de provocarem uma sensação de impotência tal nos seus adversários que levam a opinião pública a procurar que certos regulamentos do jogo que essas equipas especiais manipularam sejam alterados por forma a tornar o jogo mais “equilibrado”. Não há maior prova de superioridade ideológica (no contexto de um jogo, note-se) do que criar nos adversários a necessidade de tentar alterar as regras desse mesmo jogo para poder competir. Aconteceu por exemplo com o Barcelona de Guardiola, que dominava de tal forma todos os seus adversários que fez com que ganhasse alguma força a ideia de, como em outros desportos colectivos, se criar um limite para o tempo de cada posse de bola. Só que nesse caso específico, essa mudança traria efeitos nefastos ao jogo, já que boa parte da complexidade do jogo iria pela janela e seria basicamente um jogo de transições e contra-transições; parada e resposta, pelo que obviamente essa mudança nunca foi para a frente. Mas temos exemplos de equipas cujo aproveitamento de certos regulamentos foi de tal modo genial que potenciou ou até obrigou à sua alteração. E vamos falar de um deles agora...

Neste post, o foco estará naquela que considero a lei mais importante do jogo: a Lei do Fora de Jogo. É a mais importante, a meu ver, porque é a que permite a qualquer uma das equipas que se opõem manipular o espaço e tornar a conquista da baliza adversária muito mais complexa, o que traz riqueza ao jogo e o distingue de quase todos os outros desportos colectivos.


A equipa que mudou a Lei do Fora de Jogo

É ao Milan de Sacchi que me refiro aqui. Ou, mais precisamente, à forma como esse Milan compreendeu a lei do fora de jogo vigente no seu tempo, e como utilizou essa compreensão mais profunda para criar uma vantagem competitiva. Como alguns saberão, até há menos de 30 anos para existir uma situação de fora de jogo bastava que qualquer um dos 11 jogadores da equipa em posse estivesse à frente do penúltimo defesa da equipa contrária no momento de um passe vertical, sendo a interferência desse jogador em posição adiantada no lance completamente irrelevante para a decisão do árbitro (bastava mesmo estar nessa posição). Através deste ponto do regulamento é possível deduzir que a) era muito mais fácil do que é agora uma determinada acção acabar em Fora-de Jogo e b) que, assim sendo, a linha defensiva pode assumir comportamentos agressivos com uma taxa de sucesso bastante elevada. Enquanto que agora basta o jogador que vai receber a bola ter o cuidado de estar atrás ou em linha com o penúltimo defesa no momento do passe, no tempo do Milan de Sacchi (início dos anos 90) era necessário todos os jogadores terem esse cuidado, o que é naturalmente muito mais complicado de conseguir. Abaixo fica um vídeo que mostra um pouco a forma como exploravam esse aspecto:


A forma como a equipa de Sacchi subverteu em seu benefício este regulamento tornava-a uma equipa extremamente difícil de atacar, e ao mesmo tempo permitia-lhe pressionar o adversário agressivamente. Boa parte do campo ficava basicamente inutilizável quando o Milan subia a linha defensiva, e isso dava ainda mais conforto ao Milan para pressionar o portador da bola já que era praticamente impossível este apanhá-los em contra-pé. Obviamente que a maior fatia do sucesso dessa equipa se deve à qualidade individual enorme que tinha, com nomes como Van Basten ou Gullit, mas foi a forma como defendia que a imortalizou, tanto em termos teóricos (de quem estuda e conceptualiza o jogo) como em termos práticos (já que obrigou directamente a que a lei do jogo mudasse).

Depois desta parte mais "factual" do post, ou seja, da equipa que objectivamente causou uma mudança na Lei do Jogo, é hora de ir um pouco para além disso, ou seja, do que já aconteceu. E pretendo dar esse salto ao reflectir sobre duas questões, relacionadas com o que foi dito acima mas mais viradas para o futuro. E as ditas questões são as seguintes:

"Podemos retirar mais alguma coisa desta mudança na Lei do Jogo, para além dos dois pontos referidos acima?"

"É possível que mais alguma equipa ou até jogador possa causar uma nova mudança na Lei do Jogo num futuro relativamente próximo?"

Possível dedução a retirar dessa mudança na Lei

Como é fácil de perceber por este cabeçalho, a resposta à primeira pergunta é que sim, creio que podemos tirar mais conclusões. Isto porque, acima, pensámos acima de tudo na perspectiva do Milan de Sacchi quando não tinha a bola. Mas e se pensarmos na perspectiva de quem ataca? De forma muito resumida, o que esta mudança na lei fez foi acabar com o fora de jogo posicional. Ou seja, é possível ter jogadores em posição irregular e mesmo assim passar para a frente de forma legal, desde que seja para alguém que esteja em jogo. Isto, obviamente, veio beneficiar indirectamente quem ataca, porque boa parte dos lances que eram irregulares antes não o são hoje, o que permite à equipa continuar o seu ataque e possivelmente marcar. 

Apesar disto, muito poucos são os que procuram utilizar activamente esta mudança da Lei por forma a criar um benefício. Assumindo como premissa - já que vem ao encontro das ideias defendidas neste espaço - que o objectivo último de uma jogada de ataque é criar a melhor (mais fácil) situação de finalização possível, é interessante ter alguém deliberadamente em fora de jogo posicional e, em simultâneo, ter outros jogadores a fazer movimentos de ruptura desde trás. Esse jogador em fora de jogo posicional seria teoricamente um a menos enquanto estivesse nessa situação, mas a diferença é que a equipa não só pode continuar a progredir com ele nessa posição, como o pode "activar" repentinamente se conseguir que ele esteja em linha com a bola, mesmo estando à frente dos defesas. Estava a pensar em criar um pequeno desenho para explicar isto, mas felizmente o primeiro golo do Barcelona no jogo de dia 25 de Janeiro com o Espanyol exemplifica bem o que quero explicar:


Para complementar, encontrei um tweet interessante (@JuanGenova980) com imagens dos momentos mais relevantes do lance para este post. Nas poucas vezes em que vejo coisas destas acontecer (e não falo de estar apenas um ou dois metros atrás da defesa adversária) parece-me que normalmente se deve a movimentações individuais de certos avançados que intuem que este pode ser um bom recurso para ter uma finalização fácil (para além do Suárez, o Kane também o faz por vezes), mas acho que podia ser algo que partisse mesmo do treinador. Escusado será dizer que não me refiro a ter o avançado numa posição desse género o jogo todo, muito longe disso, mas em certos momentos de organização ofensiva esta pode ser uma arma eficaz para criar problemas às organizações defensivas da actualidade, cada vez mais compactas e com comportamentos relativamente zonais, já que um passe de ruptura por zonas laterais (por exemplo) pode logo criar uma situação de 2x0+GR, que é possivelmente a melhor para quem ataca.

No fundo, é possível usar o fora de jogo posicional como uma ilusão de segurança, para quem defende. Gostava muito de ver algumas equipas com boa organização ofensiva - porque se se recorrer a isto simplesmente ao despejar bolas nas alas o adversário consegue defender este recurso com alguma facilidade - explorar isto em certos momentos, porque ia criar um problema adicional ao adversário, e quanto mais problemas diferentes os adversários sentem que têm de resolver mais facilmente essas equipas de qualidade os manipulam e entram por onde querem.


O Guarda-Redes que pode "imitar" Sacchi

Para concluir o post, vou abordar a segunda questão que coloquei, sobre se acho que pode haver alguma mudança nas regras do jogo num futuro relativamente próximo. E, mais uma vez, acho que sim. A lei do fora de jogo não se aplica a pontapés de baliza, na actualidade, pelo que é possível, em teoria, um jogador estar muito à frente do penúltimo adversário no momento do pontapé de baliza e, ainda assim, receber directamente a bola. Mas nunca ninguém perdeu muito tempo a pensar nesse assunto, a meu ver, porque é incrivelmente complicado ter um guarda-redes capaz de colocar a bola a distâncias dessa magnitude com uma precisão elevada, e por isso dificilmente alguém conseguiria explorar isso. A afirmação de Ederson numa equipa como este City de Guardiola, no entanto, vem colocar isso em causa. Abaixo deixo um exemplo rápido daquilo a que me refiro:


Com Ederson, a equipa de Guardiola cria um dilema muito complicado em alguns dos seus adversários nos pontapés de baliza. Podem deixá-los construir sem qualquer sobressalto desde trás, o que para equipas dominadoras pode ser contra-intuitivo, pressioná-los de forma pouco compacta (linha defensiva muito atrás do resto dos jogadores, exactamente por não haver fora de jogo), ou pressionar alto e arriscar. Só que Ederson, para além de ter um jogo curto de enorme qualidade, tem a facilidade que o vídeo mostra em colocar a bola à distância. Já fez inclusive assistências para golo desta forma enquanto jogava pelo Benfica, e não duvido que o faça em breve pelo City. Caso este City consiga, como promete, afirmar-se como uma das equipas mais marcantes dos próximos cinco anos (pelo menos), esta qualidade de Ederson pode dar uma vantagem competitiva interessante ao City e fazer com que muitas vozes se levantem para que, de facto, passe a existir fora de jogo num pontapé de baliza como existiria em qualquer situação de jogo corrido (a partir do meio-campo adversário). Se de facto isto acontecerá como descrevo ou não só o tempo dirá, mas não me parece uma possibilidade a desprezar, de todo.

16 de set. de 2017

De Alvalade para o Mundo - O Paradoxo da Falta de Espaço


Nos posts que já fiz aqui, sempre me agradou abordar a forma como o jogo é visto, tanto por adeptos como pelas pessoas com real poder de decisão (treinadores, dirigentes, etc.). Por motivos já referidos (nomeadamente aqui), a irracionalidade é algo complicada de dissociar da análise que boa parte das pessoas faz do jogo em si, incluindo parte significativa dos tais agentes decisores, e este post servirá para falar das consequências negativas dessa irracionalidade para um certo perfil de jogadores, definido (a bold, para se ver bem) no parágrafo seguinte, e para expor os problemas de uma conclusão que se tira da evolução do jogo moderno, que é o tal paradoxo que está no título do post...

Este primeiro parágrafo parece - e, por si só, é mesmo - um pouco confuso, mas acompanhem-me. Este post vai procurar, de forma relativamente profunda, analisar os problemas a que, cada vez mais, são sujeitos os jogadores cujos únicos atributos especiais são a sua capacidade de raciocínio em espaços curtos, criatividade, competência para temporizar em busca da melhor solução caso necessário (ou seja, a competência cognitiva do jogador) e a capacidade técnica para que esses atributos se possam mostrar, e defender a necessidade de valorizar esses jogadores no futebol moderno. É esse, e apenas esse, o objectivo do post, e é nesse sentido que toda a análise caminhará.

Para a análise, e daí a primeira parte do título, vou partir de um case study, que é nem mais nem menos que o Sporting. Ressalvando, desde já, que me refiro ao Sporting no contexto dos últimos 20 anos, e não apenas à actualidade, na qual, apesar de tudo, o clube tem melhorado significativamente na maioria dos sentidos e voltou, finalmente, a ser um clube competitivo. Ainda assim, continua a cometer com bastante frequência os erros que aqui vão ser expostos. Adiante, escolhi o Sporting por dois motivos. Em primeiro lugar, é de longe o clube sobre o qual tenho maior conhecimento no que diz respeito aos tais comportamentos dos agentes, tanto adeptos como dirigentes, já que eu próprio sou adepto do clube e tenho lugar cativo no estádio há já alguns anos. E, para além disso, é um clube que tem personificado de forma clara o problema de que irei falar... Mas como é perceptível pelo título, não quero aqui, de todo, dizer que isto é um problema específico do Sporting. Poderia ter facilmente escolhido outro clube, tanto nacional como internacional, já que não são muitas as excepções que fogem a este problema (o Barcelona será a mais flagrante), mas pelos motivos acima sinto-me mais capaz de comentar com alguma propriedade o caso do clube leonino.

Ao longo dos anos, uma série de jogadores que se encaixam na descrição a bold - a qual é preciso ter sempre em mente na leitura deste post - foram desperdiçados pelo clube. Jogadores como Bryan Ruiz, Fredy Montero (depois da fase goleadora), Matías Fernández e Leandro Romagnoli, por exemplo tiveram todos começos relativamente interessantes no clube, mas, e embora por diferentes motivos, todos acabaram por finalizar as suas carreiras no clube de forma relativamente inglória. De onde vieram estes quatro exemplos há mais, mas parecem-me suficientes para podermos começar a pensar numa tendência, que importa perceber. Mas a que se deverão estes problemas do clube, embora com excepções claro (João Mário, por exemplo) em aproveitar este tipo de jogadores, tanto quando os compra como quando vêm da formação? A meu ver, podemos falar de três factores, mas como o terceiro merecerá uma análise mais profunda no final do post vamos por agora falar de dois: os adeptos (nomeadamente os que vão ao estádio) e os treinadores que têm passado pelo clube.

Começando pelo mais controverso, os adeptos. Parecerá absurdo, já que falamos de clubes profissionais, dizer que os adeptos podem "escolher" os jogadores que jogam. E obviamente que não o fazem, pelo menos directamente. Mas é, no mínimo, ingénuo, ignorar a influência que todo um estádio pode ter nos pequenos pormenores que se passam em campo. Um ambiente de um estádio pode perfeitamente influenciar vários detalhes da forma como a equipa joga, nomeadamente na sua tolerância/falta dela a certo tipo de acções. Dando o exemplo de Alvalade, que é o que conheço bem, é extremamente frequente qualquer acção que envolva alguma temporização ou calma ser criticada ou mesmo assobiada por vários adeptos. Na senda da tal irracionalidade referida acima, o Sporting quando, por exemplo, tenta gerir uma vantagem curta com bola, perto do final do jogo, não tem só de enfrentar os 11 jogadores adversários. Tem também, normalmente (depende também do contexto mais geral em que a equipa se encontre, claro), de manter o sangue frio perante um estádio com boa parte dos 40 mil adeptos do próprio clube exaltados e a tentarem, a todo o custo, que a equipa ataque rapidamente a baliza adversária, assobiando qualquer acção que não vise directamente esse sentido. É um público que, como a maioria dos públicos de futebol na verdade, aplaude o esforço, a dedicação e as decisões rectilíneas, mas com pouca paciência para os jogadores que não têm pruridos em segurar a bola quando é caso disso, sem o fazerem caminhando em direcção à linha para cruzar ou para ganharem no drible em qualquer zona, mas sim de forma aparentemente inconsequente, mas verdadeiramente interessante, visto ser na procura de melhores soluções (mais sobre o assunto aqui). Nenhum dos jogadores referidos acima agradou propriamente ao "tribunal" de Alvalade, e até temos exemplo como o de Carrillo (antes da questão extra-jogo que surgiu), que sendo um jogador que tendo até mais características especiais que as assinaladas a bold (post sobre ele aqui) - habilidade enorme no 1x1 e fisicamente fortíssimo - foi constantemente assobiado pelo público de Alvalade exactamente por ter um perfil de decisão que se aproxima, de certo modo, do dos jogadores referidos acima. Como é óbvio, há jogadores com atributos destes que são aclamados no estádio, da mesma forma que os próprios jogadores referidos acima também o foram em certos momentos - daí a tal irracionalidade de que se fala, tão comum no adepto de futebol - , mas quase sempre devido a motivos circunstanciais e que têm pouco que ver com as tais capacidades intelectuais dos jogadores (a fase em que Montero marcava imenso, por exemplo), e isso acaba por complicar a vida daqueles que pouco têm para apresentar para além do que grande parte dos adeptos ignora ou até detesta...

Passemos agora aos treinadores. Aqui, quando me refiro a treinadores, não falo propriamente da qualidade deles. Ou melhor, pelo menos no caso dos treinadores que o clube teve com Bruno de Carvalho na presidência, que em grande parte dos anteriores treinadores a qualidade escasseava imenso... Olhando por exemplo a Jorge Jesus, é indubitavelmente um treinador competentíssimo, que monta equipas bastante organizadas em todos os momentos do jogo, especialmente os defensivos, e isso não poderá ser posto em causa. No entanto, é um treinador que costuma ter problemas com jogadores do perfil referido. Apostou em João Mário, Bryan Ruiz (embora o tenha dispensado esta época) e mesmo nos incríveis Aimar e Saviola (que também acabou por ser descartado), sim, mas quando são jogadores de menor estatuto notam-se claramente os preconceitos do treinador para com esse tipo de jogador (Bernardo Silva, Francisco Geraldes e Ryan Gauld são jogadores que vêm à cabeça). E falamos aqui de um treinador, como já foi dito, bastante competente, e que até foi capaz de não ignorar alguns casos. Dou aqui exemplos recentes, que estão mais frescos na memória das pessoas, mas este tipo de desperdício, como foi salientado inicialmente, está muito longe de ser uma coisa recente. Pelo contrário! Há uma tendência dos treinadores do Sporting em preferirem o jogador mais forte e desinibido ao mais esclarecido, que a meu ver é um factor que contribui bastante para o insucesso do clube no século XXI...

Basicamente, os tais dois aspectos referidos constituem as pessoas que vêem o jogo e que possuem alguma influência no mesmo, tanto directa (treinadores e, embora não referidos, dirigentes) como indirecta (os adeptos, especialmente os que vão ao estádio). A forma como se vê, de uma forma geral, o jogo de futebol, prejudica enormemente este tipo de jogadores, visto que passa por cima do que eles têm para mostrar, e é importante combater esta mentalidade relativamente generalizada, sob pena de perdermos cada vez mais talentos e "ganharmos" jogadores com todas as competências físicas do mundo mas com pouco talento para tudo o que envolve o jogo. É que os jogadores que juntam às tais competências a que este post se refere outras que são vistas como verdadeiramente relevantes pela maioria vão (quase) sempre ter sucesso, mas há que perceber que esses são os casos especiais, os outliers. Que se continuarmos a priorizar os mais fortes ou até os mais habilidosos no 1x1/explosivos sem o saberem aplicar ao jogo propriamente dito em detrimento do tipo de jogador para que este post remete, vamos continuar a ter outliers, sim, mas cada vez menos jogadores verdadeiramente competentes e que dominam verdadeiramente o jogo que estão a jogar, e cada vez mais "atletas com bola".

Mas falta o tal terceiro aspecto, ao qual já se aludiu várias vezes durante o post mas nunca se explicou exactamente. É a ele que, no fundo, a segunda parte do título diz respeito... O que é isto do "Paradoxo da Falta de Espaço"? Explicarei obviamente o que quero dizer com isto, e de que forma influencia estes jogadores...

Como podem ler no primeiro parágrafo (que talvez agora pareça mais inteligível), isto, a meu ver, afecta estes jogadores sob a forma de uma externalidade (embora, como disse acima, a palavra externalidade possa não ser a melhor). Ou seja, é da interpretação que se faz do facto, e não do facto em si... Concretizando, é relativamente consensual que o futebol europeu (que é o mais relevante, claramente) está cada vez mais evoluído tacticamente, quando não se tem a bola. As equipas cada vez mais procuram ser compactas no momento defensivo, havendo assim muito menos espaço para o adversário jogar, e esta evolução requer de todos os jogadores da equipa bastante trabalho defensivo, quando em outras épocas era comum deixar os jogadores mais ofensivos quase a "descansar" na frente. E que, para isso, é necessário ter jogadores capazes de cumprir da melhor forma com essas exigências, tendo para isso de ser fisicamente muito fortes e, com bola, extremamente rápidos a fazer tudo, exactamente pela ausência desse espaço. De facto, o futebol europeu está mais evoluído tacticamente e, por isso, as equipas são mais competentes a restringir espaços ao oponente. O tal paradoxo não está, obviamente, aí. O problema é extrair-se, como a maioria faz, que para jogar neste futebol de maior organização e compactidade (aspectos positivos, atenção!) é necessário ter os jogadores mais fortes e rápidos a executar. Pensa-se que, por se ter evoluído num ponto de vista defensivo em termos de concepção geral do jogo, é preciso pensar sempre segundo esse raciocínio "defensivo". Logo, temos de ter os que melhor cumprem fisicamente com a ideia, sem bola, e que mais fortes, rápidos a executar e com drible, com ela, não havendo assim lugar para aqueles que, não sendo tão fortes ou tão rápidos de pernas, interpretam tudo antes dos demais e que sabem manipular esse tipo de organizações . Mas este último ponto é errado. Fazendo uma analogia, o futebol (sob a forma de cada vez mais equipas europeias) actual está a construir uma parede cada vez mais sólida, e as equipas acham que a melhor forma de a derrubar é à cabeçada, em vez de se procurar criar fendas em zonas estratégicas por forma a, no momento certo, a podermos fazer colapsar sobre si própria... O jogador franzino, não muito rápido e criativo tem lugar na chamada "era da organização", sim! Aliás, até deve assumir um papel mais preponderante, visto que os problemas que os ataques têm de resolver são, no geral, mais complexos. E quem melhor para resolver problemas complexos que um Pastore, um Bryan Ruiz ou, quando jogava, um Riquelme? Bem, haver melhor há... há Messi, e eventualmente outros que encaixam nos tais outliers. Mas se compararmos com os tais "atletas com bola" que proliferam no futebol actual, percebemos que muito mais facilmente um Pastore desmonta, inserido numa boa equipa, um bloco bem organizado que um Cuadrado. O Paradoxo da Falta de Espaço é, no fundo, achar-se que por o espaço para jogar ser cada vez menor, se deve valorizar quem fisicamente está mais apto para correr muito e aguentar o choque (já que há mais adversários perto), e não quem... descobre melhores soluções nessa mesma falta de espaço.

Em Alvalade tem-se feito muita coisa bem nos últimos anos, e o clube está cada vez mais perto de títulos, mas não nos enganemos, este desprezo que ainda existe a este tipo de jogador prejudica mais o clube do que o beneficia. E no Mundo, corremos o risco de ter cada vez menos jogadores deste género, incapazes de deslumbrar regularmente o adepto comum mas capazes de impulsionar uma verdadeira revolução ofensiva generalizada em termos tácticos, como resposta à que ocorreu em termos defensivos. E seria uma pena...

PS: Nunca é demais ressalvar este ponto: obviamente, é possível um clube não dar a atenção devida a este tipo de jogador e, não só ter sucesso como até jogar um futebol interessante. Não se pretende aqui dizer que é completamente ilógico preferir outro perfil de jogador, mas sim que, embora se possam perceber os motivos, ignorar este tipo de jogador é prejudicial pelos motivos aqui expostos...

PS2: Numa eventual discussão futura do post (nos comentários), pedia que se focassem mais nas ideias que aqui são transmitidas, rebatendo o que não concordam, do que propriamente nos jogadores que foram sendo dados como exemplo, que são mesmo só isso, exemplos, que servem apenas e só para tentar ilustrar essa ideia. Só digo isto para ver se a caixa de comentários não tem gente a dizer "Ah, mas o Bryan Ruíz é péssimo!!!" ou coisas do género.

28 de jan. de 2016

A importância das vitórias na criação/evolução do modelo de jogo

"Temos tendência para reter os dados que são compatíveis com as nossas convicções e as nossas ideologias, e que nos convêm" (Abravanel)

Quando um treinador procura criar/evoluir um modelo de jogo, ou seja, uma relação coletiva que ajude os jogadores a perceber e interpretar melhor as diversas situações ao longo do jogo, torna-se fundamental que os jogadores acreditem no que é feito, porque só assim vão adquirir os comportamentos que o treinador pretende. De modo a que o funcionamento colectivo de uma equipa resulte, é fundamental que os jogadores, acreditem que aquilo que estão a fazer os vai aproximar do sucesso, tanto a nível individual como colectivo

Assim sendo, Guilherme Oliveira refere que a aprendizagem de um comportamento por parte de um jogador, será tanto melhor quanto maior for a compreensão do jogador relativamente a esse comportamento, e depois, a percepção de que o mesmo é benéfico tanto para ele como para a equipa. Quantas e quantas equipas não vimos já, piorar a qualidade do seu jogo porque os resultados não apareciam? Os índices de confiança dos próprios jogadores diminuem mas há mais: a falta de confiança no trabalho do treinador, ou seja, nas suas ideias e nos princípios de jogo que tenta incutir. 

Lembro-me do caso do Villarreal o ano passado. A certa altura da época, e mesmo praticando um futebol de qualidade, com princípios ofensivos bons, as vitórias não apareciam. Por um motivo ou por outro, a qualidade apresentada em campo não se traduzia no marcador. Isto levou a que os jogadores começassem a perder a convicção nas ideias do seu treinador. Ao fim de alguns jogos consecutivos sem ganharem, o Villarreal parecia outra equipa. A qualidade exibicional baixou bastante porque os comportamentos que os jogadores demonstravam em campo já não iam ao encontro do que o treinador idealiza. Deixou de haver, por parte dos jogadores, convicção no trabalho do seu treinador. 

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