A Suécia é, evidentemente, associada no mundo do futebol a
um nome em particular - Zlatan Ibrahimovic. Mas não é de um dos melhores
avançados-centro da História do Jogo que pretendo falar aqui… pretendo, isso
sim, falar de outros dois talentos suecos. Dois jogadores que, eventualmente,
passarão actualmente despercebidos aos olhos da maioria dos que vêem futebol,
mas cujo talento os projectará para a ribalta rapidamente.
Começo por dizer que ambos representam, a meu ver, o tipo de
extremo que se procurará no futuro. Não um extremo simplesmente de 1x1, que
jogue fundamentalmente perto da linha lateral e cujo rendimento possa ser
traduzido em eventuais desequilíbrios individuais que crie (visto que pouco
mais terá a oferecer), mas sim jogadores mais capazes em espaços curtos,
capazes de jogar, não só por fora, mas acima de tudo por dentro e com recursos
cognitivos a um nível que lhes permita exponenciar as formas que estes têm de
criar desequilíbrios no adversário. Continuará obviamente a ser importante que
tenham competências no drible, mas não só o tipo de drible mais necessário será
diferente – menos um drible longo, com muito espaço para correr e adversários
para superar, e mais um drible curto, em zonas povoadas por adversários, que
lhes permita manter a bola enquanto magicam soluções para os problemas que lhes
são colocados (soluções essas que podem ser estritamente individuais também,
dependerá sempre do contexto) – como terão de ter bem mais que isso.
Sem mais demoras, passemos aos jogadores em questão. O
primeiro, em bom rigor, será já relativamente conhecido, devido ao nível que
apresentou na Bundesliga da temporada que agora findou. Falo de Emil Forsberg,
jogador do RasenBall Leipzig. Formado no Malmö, foi contratado pela equipa
Alemã e, nas duas épocas completas em que esteve no clube, foi o melhor jogador
da equipa (nesta segunda época partilhou esse estatuto com Naby Keita, diga-se)
e um jogador fulcral para que a equipa conseguisse subir de divisão – na primeira
época – e conseguir um relativamente surpreendente 2º lugar na sua época de
estreia na Bundesliga. Forsberg não sentiu minimamente o salto competitivo de
uma divisão para a outra, porque a sua qualidade era simplesmente demasiado
grande, e permite ao Leipzig ter mais recursos no seu jogo. É um jogador exímio
na forma como se movimenta, percebendo sempre se a sua equipa precisa de uma
linha de passe exterior ou interior e, mais do que isso, sabendo perfeitamente
quais os sítios mais perigosos a invadir, consoante o contexto, para magoar o adversário entre os seus
sectores/linhas. E a essa qualidade sem bola junta uma ainda maior com ela… Tem
um pé direito incrível, que lhe permite ter, por exemplo, uma qualidade exímia
a executar passes complicados. É raro a bola não sair exactamente para o espaço
onde deve (que cria a melhor e mais fácil situação ao colega que recebe). Não
sendo um jogador extremamente rápido, tem uma velocidade de condução
assinalável e grande competência no drible curto, conseguindo desembaraçar-se
de vários adversários em espaços reduzidos com facilidade. E, acima de tudo, é
um jogador extremamente criativo. Não vou estar a definir “criatividade” outra
vez, porque já o fiz em vários posts, mas a forma como define os lances – tanto
os mais “simples” (e tantos, tantos há que os estragam constantemente!!) como
os mais complexos – é notável e leva-o a conseguir traduzir toda a sua
qualidade técnica num contributo enorme à sua equipa, tanto no “palpável” (foi
um dos jogadores com mais assistências na Europa, por exemplo) como
especialmente no “não palpável”. Mais cedo ou mais tarde irá jogar numa equipa
de topo, estou convicto, e mostrar por que motivo, apesar de não jogar na mesma
posição, é o verdadeiro herdeiro de Zlatan Ibrahimovic na selecção sueca.
Abaixo ficam alguns vídeos que permitem vislumbrar as competências do jogador:
O outro jogador a quem me refiro está num patamar de
carreira inferior, por agora, e é normal que seja mesmo desconhecido da
maioria, até dos que vão acompanhando algumas ligas para além da nossa. No entanto,
a qualidade que tem apresentado na Eredivisie promete levá-lo a patamares mais
exigentes com alguma brevidade. Falo de Sam Larsson (quem o reconheceu pela
imagem já sabia :) ), jogador do Heerenveen. Chegou ao clube
holandês há três temporadas, proveniente do Gotemburgo, e cada vez mais se
afirma como um jogador de enorme qualidade. A liga holandesa é uma liga que
pode trazer várias dificuldades na análise de talentos, como muitos clubes bem
sabem por experiência própria, por ser uma liga em que os jogadores,
especialmente de ataque, têm bateladas de espaço para fazer o que bem lhes
aprouver e na qual é relativamente fácil conseguirem grandes números de golos e
assistências. Mas estou claramente convencido que não é o caso deste jogador, até
porque, ao contrário do que é habitual, ele cresce realmente é na situação
oposta. É quando o espaço escasseia que ele mostra toda a sua qualidade. Apesar
de ser um extremo ligeiramente mais “clássico” que Forsberg, está muito longe
de decidir como um. Adora procurar apoios frontais, define com imensa qualidade
e sabe transformar os desequilíbrios individuais que consegue criar em lances
com verdadeiro potencial. A descrição que foi feita para Forsberg tem bastantes
pontos de contacto com a dele, aliás, embora não esteja exactamente ao nível
deste nas movimentações em organização ofensiva (procura mais partir de zonas
relativamente exteriores para dentro, embora seja muito forte a jogar estando
logo dentro). Qualidade técnica acima de qualquer suspeita, 1x1 muito forte
(tendo até mais recursos nesta área que Forsberg, por algum motivo o seu
apelido no país de origem é “Samba”), aos quais junta a já referida qualidade
em termos cognitivos. Seria uma aposta fantástica para, por exemplo, um dos
grandes portugueses, entrando a meu ver directamente para o onze inicial de
qualquer um deles (acima de tudo no do Sporting, diga-se) visto que junta à
qualidade técnica e de desequilíbrio que muitos deles têm a uma capacidade para
descobrir soluções em espaços curtos e para tomar constantemente a melhor
decisão que, essa sim, escasseia mais em equipas a esse nível (e nem falo
necessariamente das portuguesas em particular, aqui. Mais uma vez, abaixo deixo
alguns vídeos do jogador:
No fundo, e para concluir, a Suécia está futebolisticamente bem
entregue, apesar de o seu melhor jogador de sempre estar cada vez mais perto do
fim de carreira. É impossível não reconhecer a qualidade tanto de Emil Forsberg
como de Sam Larsson, e, com o grau de certeza relativo que se tem sempre de ter
neste tipo de coisas, ambos alcançarão um estatuto e jogarão num patamar
superior àquele em que se encontram actualmente – especialmente Sam Larsson.