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29 de mar. de 2019

Movimentos Para Atacar a Profundidade

O Chelsea de Maurizio Sarri tem vivido dias conturbados e problemas em quase todas as áreas onde seria possível tê-los. Desde as questões da direcção do clube e os problemas com os adeptos até à forma como do ponto de vista mental a equipa quebra com a facilidade de um castelo de cartas sem que as incidências do jogo o façam prever. Há ainda a descrença de alguns elementos importantes na filosofia de jogo, e a desconfiança por parte de outros tendo em conta os resultados não terem ido de encontro ao expectável no início da época. Depois, o facto de não ter escolhido o plantel e de não ter tido uma pré-época em nada ajuda na implementação de um estilo de jogo muito particular e pouco habitual para os jogadores. Há uma série de problemas que estão ligados mas desses interessa-me focar num aspecto do modelo de jogo que tem sido pobre tendo em conta as ideias que Sarri quer implementar.

As equipas de posse, que querem jogar em ataque posicional, fazem-no por entenderem ser essa a melhor forma de marcar, mas também por ser a melhor de se defender dos ímpetos do adversário. Ou seja, as equipas provocam o adversário colocando-o no último terço para que em termos de espaço estejam sempre o mais próximos possível da baliza que defendem e, consequentemente, o mais longe possível da baliza que atacam. Não é uma obrigação uma vez que quando são pressionados na primeira fase de construção e conseguem vantagem espacial e numérica em zonas importantes aceleram; mas, fundamentalmente, a equipa prepara o ataque com objectivos com a seguinte precedência:
  • Numa primeira fase o fundamental é entrar no meio campo ofensivo com a bola controlada. colocar o adversário numa situação onde tem de percorrer muitos metros para atacar a baliza.
  • Segue-se a preparação da estrutura posicional da equipa, já dentro do meio campo ofensivo, com os jogadores a colocarem-se nas posições trabalhadas para dar início ao ataque à baliza. Que é fundamental do ponto de vista ofensivo, para que a equipa entre nas dinâmicas que o treina, mas também para o equilíbrio posicional da equipa no momento em que perde a bola por haver jogadores colocados para reagir à perda no centro de jogo, e também por existirem outros colocados de forma a parar os contra ataques no caso dessa primeira pressão ser batida.
  • Só depois a equipa começa a acelerar para as situações colectivas e para as nuances individuais que visam criar ou aproveitar os espaços para atacar a baliza. E percebe-se facilmente que, não cumprindo com uns os outros ficam comprometidos.
Isto leva a que a equipa enfrente, por opção do seu treinador, muitos jogadores em pouco espaço. E se do ponto de vista defensivo isso garante mais alguma segurança, do ponto de vista ofensivo é bem mais desafiante do que jogar com menos oposição e mais espaço. Claro que, por norma, as acções em ataque posicional têm a vantagem de na construção existir mais tempo e espaço para executar, e de os jogadores conseguirem com acções mais seguras cumprir com os objectivos da mesma; mas no momento de criação há muito mais pernas para enfrentar sem muito espaço entre sectores e sem espaço para explorar a profundidade. E é aqui que se tornam fundamentais os movimentos para atacar a profundidade, os movimentos para criar espaço.

O Nápoles de Sarri, como o Barcelona de Guardiola, transformou-se numa máquina de criação de espaços. A equipa, cada jogador, percebia perfeitamente o objectivo e os timings de cada movimento, e todo entendiam de imediato os efeitos que causavam no adversário e conseguiam, por isso, muito mais rapidamente aproveitá-los. E é dessa forma que Sarri, que o Nápoles de Sarri, mostrava superioridade sobre a esmagadora maioria dos rivais que enfrentava: era fabuloso em todos os momentos do jogo, mas sobretudo no últimos 30 metros. Os jogadores brincavam com a oposição, e tinham milhares de soluções para os movimentar e acelerar para o espaço que ficara criado. Ao Chelsea, como a muitas equipas que tentam jogar dessa forma, faltam movimentos para deslocar o adversário. Falta tempo para que os jogadores entendam que tipo de movimentos devem tentar consoante a situação, e falta tempo para uma melhor percepção do efeito que cada movimento tem na estrutura adversária. Com bola no pé, só com a bola no pé, e sem movimentos de ruptura é quase impossível penetrar as vezes suficientes para que se criem situações em qualidade e número suficiente para se desmarcar no resultado.

No lance que vamos demonstrar abaixo, em comparação com outros lances do mesmo género no Nápoles, perceber-se-à a grande inércia ao nível de movimentos e percepção das situações que o Chelsea ainda tem. Neste lance com dois jogadores diferentes do Chelsea, e sendo dois jogadores que têm responsabilidade superior no ataque à profundidade no modelo de jogo do treinador italiano por serem avançados, vamos conseguir perceber aquele que tem sido um dos maiores problemas que no meio de toda tempestade Sarri está a tentar resolver.


Em Nápoles, Sarri trabalhou várias variantes para atacar a profundidade: Com jogadores envolvidos no lance a entrar, e noutras situações com jogadores a aparecerem de uma segunda linha, etc. Será sempre mais fácil começar pelos movimentos de quem está envolvido do que pelos outros; e para já, ainda há pouca competência nos movimentos menos complexos.

29 de nov. de 2018

Treinadores: É nos momentos de aperto que se percebe a real valia do seu trabalho.

Há sempre muitas dúvidas sobre que critérios se devem utilizar para avaliar um treinador. Para a maior parte das pessoas são os resultados, são os títulos. Para outra parte das pessoas são os modelos de jogo, os sistemas de jogo, ou a liderança dos treinadores. Para outros ainda, os treinadores devem ser avaliados pela adaptação ao contexto competitivo do ponto de vista estratégico, ou por lançarem mais ou menos jogadores da formação do clube. Para mim, porém, o critério mais importante não é esse. Se tivesse que escolher um treinador, seja lá para que equipa fosse, a primeira coisa para que olhava seria se nos trabalhos anteriores o treinador tinha conseguido convencer os jogadores a seguirem a sua ideologia. Depois, tudo o resto. Porque para mim, é essa a diferença fundamental entre os grandes treinadores (independentemente da ideia de jogo) e os treinadores banais. É isso que distingue, de forma categórica, as equipas de uns e de outros: olha-se para o jogo e o que se vê é o reflexo do treino. Se os jogadores reproduzem de forma fiel os princípios de jogo que o treinador impõe, e se a ideia de jogo está tão entranhada neles que não sejam capazes de se libertar dela sob que circunstância for. Um grande treinador tem isto. Consegue influenciar o jogador de tal forma que quando se separam durante muito tempo ele continua a jogar aquele jogo que aprendeu com ele, e começa até a rejeitar outras formas de estar no jogo.

Costuma-se dizer que quando o jogo está perdido, que quando as equipas percebem que não têm hipótese de chegar ao resultado pretendido, o jogo acaba para elas. Eu discordo. Acho que é precisamente nesses momentos que devemos estar mais atentos para perceber a influência do treinador nos jogadores. Se a equipa se perde e adopta acções que não fazia habitualmente e se aproveita a oportunidade para se libertar do treinador por não ter confiança absoluta nos processos impostos, ou se mesmo aí os jogadores reproduzem de forma cabal aquilo que vai na cabeça do treinador. A diferença entre as duas situações é só uma: a linguagem do treinador é também a dos jogadores ou não? Os jogadores estão perfeitamente convencidos que aquela forma é a melhor forma para se chegar ao resultado que pretendem, para se chegar ao golo, ou não? O jogador acredita no treinador ou não?! Há vários exemplos cabais disto, desde o Atleti de Simeone ao Nápoles de Sarri ou o Dortmund do Klopp. Mas, há dois exemplos inequívocos e um deles bem recente desta mesma ideia. O primeiro exemplo leva-nos de volta à melhor equipa da história: O Barcelona do Guardiola. Regressamos à segunda mão da final, contra o Inter de Mourinho, já nos descontos quando a equipa conquista um canto. Faltava cerca de um minuto para acabar o jogo e o que é que os jogadores decidem fazer deste canto? Sair a jogar curto, pois claro. Faltando apenas um golo para a final, num momento de desespero e pouco discernimento, os jogadores não conseguiram fugir daquilo que eram: Notável! O Barcelona acabou eliminado, mas naquele momento e apesar de ter perdido Guardiola mostrava ao mundo de que espinha era feito. Porque convenceu os jogadores de tal forma que eles foram capazes de morrer por aquela ideia. Para eles era aquela a fórmula para o sucesso, e era atrás dessa fórmula que iam. Com aquela escolha, os jogadores de Guardiola o separavam dos comuns e marcavam a diferença entre o seu treinador e a maior parte dos outros. É mesma diferença que Cruyff ou Sacchi marcaram: a ideia que eles vendiam aos jogadores triunfou. Não venceu os adversários, mas venceu o maior desafio que um treinador encontra: os seus jogadores.

E há na equipa de Paulo Fonseca uma semelhança incrível com tudo isto. Ontem, não ganhou o apuramento para a fase seguinte e ainda pode ser eliminado; mas ganhou algo bem maior. Ele hoje sabe que os jogadores dele não duvidam do seu processo de jogo e que o processo já é, também, deles. A vitória começa em Pyatov quando recolhe a bola depois de um livre directo. O guarda-redes como os comuns poderia, tendo em conta a situação e desespero, sabendo que precisava de marcar um golo com muita urgência, pontapear a bola para os colegas que se deslocavam na frente. Mas não. Não é isso que o treinador pede, não é isso que o treinador quer, não é para isso que o treinador trabalha. Ele coloca a bola jogável pelo chão. Rapidamente, como se impunha, mas a tentar fugir da aleatoriedade do jogo. O resto, o facto da equipa ter entrado dentro da área com a bola controlada, o facto dos jogadores terem feito pausas para dar tempo à chegada e ao movimento dos colegas, o não terem rematado de fora área assim que tiveram possibilidade, o não terem despejado a bola na área de qualquer forma, o terem combinado para tentar furar a defesa, e o terem criado uma possibilidade de quem finaliza fazer um passe para a baliza, é motivo para o treinador sorrir até ao final da sua carreira. Ainda que não o tenha feito naquele momento, talvez pela tensão do jogo e por sentir que não estava terminado. Paulo Fonseca não é Cruyff, não é Sacchi, nem é Guardiola. Mas é um treinador à sério, ainda que sejam outros a conquistar Ligas dos Campeões. Ser treinador com T é ser isto. Os outros podem ganhar mais e por isso serem mais falados, mas eu espero sempre que a diferença entre um treinador de nível mundial ou um qualquer curioso do jogo seja bem evidente.


12 de mar. de 2017

Nápoles: controlo da profundidade. Bola descoberta



Neste tipo de situações, este é na minha opinião o comportamento defensivo que garante mais sucesso. Portador da bola em progressão, toda a linha defensiva recua para controlar a profundidade. Quando o portador se aproxima da área, alguém sai na contenção para dificultar a execução do passe ou remate, enquanto que os restante oferecem cobertura defensiva. 

  • Se sair passe, e mesmo havendo a possibilidade de ser bem sucedido, é um passe de maior dificuldade, uma vez que o menor espaço entre a linha defensiva e o guarda-redes exige que o passe seja feito com mais precisão e com a força ideal. 
  • Se sair remate, já vai estar condicionado pelo jogador que saiu na bola. 
  • Caso o portador decida fintar o jogador que sai na contenção, os restantes 3 que oferecem cobertura, e que não entram na área, estão suficientemente próximos para reagir rápido.

22 de fev. de 2017

Jorginho, o craque que poucos compreendem


Defendo, desde há bastante tempo a esta parte, que os critérios de escolha de grande parte dos treinadores, por não estarem hierarquizados devidamente, levam a que um pouco por todo o lado haja uma quantidade obscena de talentos desperdiçados. Foi claramente o caso do jogador a quem este post se vai dedicar quando orientado por Benítez, por exemplo. Mas, mais do que isso, muito pouca gente entende o valor de jogadores como o Jorginho. E isto inclui imensos treinadores, que ou ignoram este tipo de jogador ou, não ignorando, o usam mal. Servirá este post, no fundo, para o explicar e até para dar a conhecer a mais gente a enorme qualidade deste jogador, que passará despercebido a muita gente...

É um jogador do mais normal que há em termos físicos. Apesar de ser relativamente alto (1m80), não é particularmente forte, nem particularmente ágil, nem... bem, particularmente nada. Tecnicamente, sendo bastante evoluído, está longe de ser minimamente espalhafatoso ou de ter competências especiais no drible e na condução, como bastantes médios-defensivos ou médios-centro na actualidade. O observador normal, que apenas olha aos aspectos técnicos e físicos, ver-lhe-à qualidade no passe e na recepção, mas pouco mais.

E, no entanto, sinto-me bastante seguro em dizer que o considero um dos dez melhores médios-defensivos a nível mundial (diga-se de passagem que muito facilmente iria mais longe que isto). E o motivo é muito simples - Jorginho tem o jogo na cabeça. Reparem que digo isto no sentido menos hiperbolizado que possam imaginar, porque tem mesmo muito poucos rivais na sua posição, no que ao conhecimento do jogo (com e sem bola!) e tomada de decisão diz respeito (talvez apenas Busquets e Weigl o sejam). A ideia central do post é mesmo, com uma mistura entre análise e vídeo, mostrar isso da melhor forma que consigo. Nesse sentido, construí um vídeo do jogador no mais recente jogo do Nápoles, em casa do Chievo Verona.

Quanto a esse vídeo, algumas notas. Contém todas as acções de Jorginho no jogo, com bola, e os lances em que por acção dele, directa ou indirecta, a equipa a recuperou. Ainda assim não mostrará tudo, claro, mas não só o vídeo já possui uma extensão assinalável na forma actual (pouco mais de 12 minutos), como trouxe também mais um pormenor para destacar que não lá está incluído. Para além disso, em algumas acções deixei propositadamente alguns lances completos no vídeo, mesmo que as intervenções directas dele nos mesmos distem vários segundos umas das outras. Nesses casos, que constituirão os clips mais longos, recomendo que se tentem abstrair da bola e olhem directamente para ele e para a forma como está a interpretar a situação em seu redor. Também me sinto na obrigação de referir que este não foi, de todo, um jogo muito acima do habitual por parte do Jorginho. Foi, aliás, muito na linha do que faz constantemente, tendo até cometido um ou outro erro que não lhe é habitual. Erros esses que, obviamente, estão contidos no vídeo, visto que como foi dito nele podem ser observadas todas as acções do jogador com bola, o que evidentemente incluirá tanto as boas como as más.

Mas antes do vídeo propriamente dito, trago um lance adicional, no qual o Nápoles tem a bola mas sem que o Jorginho a receba uma única vez. Questionar-se-ão, acredito, qual será então a relevância desse lance. Esta reside no facto de ser nele nítida a forma quase obsessiva como o Jorginho está os 90 minutos a interpretar situações, a analisar o contexto e, mais do que isso, a tentar guiar/ordenar os colegas na acção correcta a tomar.


Acho que não estou a incorrer em nenhum exagero se disser que, em 99% dos casos, quando um jogador dá ordens a um colega que tem a bola durante o jogo é no sentido de este lha passar. Não é, de todo, esse o caso do jogador aqui analisado. Ele tanto ordena a um colega que lhe passe a bola, como que conduza ou até que passe a outro jogador. Não o faz por notoriedade, claramente. A meu ver, fá-lo quase como sintoma da sua reflexão e análise obsessiva das situações do jogo. Como está sempre a analisar tudo e a tentar pensar algumas jogadas à frente, qual xadrezista de qualidade, percebe quase sempre qual a melhor solução que os colegas têm para dar seguimento ao jogo, e sente a necessidade de os guiar.

No caso em particular que aqui mostro, fá-lo quatro vezes, e felizmente a sua linguagem gestual é clara o suficiente para que seja possível a quem está de fora ler minimamente as intenções dele. Na primeira, ordena a Koulibaly que avance e se desloque para a sua esquerda, de modo a que este não esteja a ocupar a mesma coluna vertical que ele. Na segunda vez, vendo que o Chievo está com uma concentração grande de jogadores naquela zona, ao contrário do Napoli (que apenas tem Hamsik e, pior do que isso, ele teria depois poucas possibilidades de ligação com os colegas caso a bola lhe chegasse), sugere a Insigne que devolva a Koulibaly para se procurar uma entrada no bloco adversário em melhores condições. Na terceira, vendo que Albiol tem bastante espaço à sua frente e que ele próprio está quase que preso num banco de 6 adversários, ordena-lhe que conduza, aproveitando o espaço livre e acima de tudo atraindo alguns deles para que depois a bola entre melhor na frente da 1ª linha de pressão. E por fim, na quarta vez, diz a Koulibaly que devolva a bola a Albiol, colocando-se imediatamente em posição para receber um passe deste (que acaba por não sair) à frente da 1ª linha de pressão. Para além destes 4 detalhes, podemos, ao olhar atentamente para Jorginho, constatar a forma como este está constantemente a rodar o pescoço, para perceber o contexto à sua frente. Mas sobre este último detalhe falaremos mais claramente abaixo...

Passemos então ao dito vídeo:


Antes de partir para uma análise mais geral, vou destacar alguns lances que me pareceram ter pormenores que merecem a referência. Não necessariamente por serem os mais brilhantes (embora também o possam ser :) ), mas por um ou outro motivo, que depois explicarei abaixo, me chamarem à atenção... Os intervalos temporais apresentados abaixo são os do vídeo.

42 segundos (0:42) - Este lance, à primeira vista, não tem nada de especial. Aliás, no que é facilmente perceptível o Jorginho até esteve mal, visto que o passe dele para o Koulibaly saiu muito curto (erro técnico), acabando por criar dificuldades desnecessárias ao colega num lance simples. Mas este primeiro lance não tem como intenção elogiar uma acção do Jorginho, mas sim demonstrar um pormenor que está claramente explícito aqui e que ajuda a perceber um recurso que ele usa para estar sempre alguns passos à frente de todos os outros. Olhem para ele com toda a atenção que conseguirem, e contem as vezes que ele roda o pescoço para trás (ou seja, para a frente do campo, visto que ele estava a correr para trás). Eu contei 5, e pelo menos 4 delas parecem-me nítidas. Como digo, este lance não é destacado pelo que é, mas pelo que mostra do jogador. Neste caso, a forma quase obsessiva com que ele tenta olhar para a frente serve para perceber se tem condições para verticalizar, e até para entender o melhor possível eventuais mudanças de contexto e ter o máximo de dados possíveis para a tomada de decisão. Neste caso em particular, percebeu que não estavam reunidas as condições para verticalizar, e devolveu atrás.

1:24 - Mais uma vez, o aspecto referido acima de tentar sempre guiar os colegas quando têm a bola. Destaque para a irritação que demonstra quando o Albiol não lhe devolve a bola, quando este tinha condições para a receber e gente com quem jogar (Allan e Insigne).

02:00, 03:20 e 07:44 - Fundamentos da posição. Mais concretamente, a primazia absoluta ao passe vertical, a queimar linhas, e a preocupação constante em servir de apoio recuado em organização ofensiva. Estes clips são maiores exactamente por isso, para mostrar essa preocupação dele em
fornecer sempre um apoio, mesmo quando a equipa muda de lado a atacar.

10:10 - Percepção do contexto. Na maioria dos casos, a função que lhe cabe em termos posicionais, na organização ofensiva é, como foi dito, servir de apoio recuado. Mas, correndo algum risco de entrar em contradição, o jogo é demasiado complexo para se dizer que um jogador pode, na verdadeira acepção do termo, ter funções. De uma determinada opção ser a melhor a tomar na maioria dos momentos, não se segue que o seja sempre, e o Jorginho, como jogador extremamente inteligente que é, percebe isso perfeitamente. O clip começa aos 10:10, mas a parte que me interessa destacar ocorre sensívelmente a partir dos 10:24 (embora tudo o que o Jorginho faz neste lance em particular seja muito bom). Percebendo que a bola tem de entrar no Insigne, avança por forma a dar uma linha de passe horizontal ao colega que lhe permita receber em melhores condições de, em seguida, logo enquadrar o colega. Seria fácil simplesmente ficar atrás, mas mais uma vez, ao identificar a solução que o contexto pedia, ficou bem patente todo o conhecimento do jogo que tem o Jorginho...

8:35 - Classe. Tanto a forma como mata no peito e sai da pressão como depois aquele passe de primeira para o Hamsik são dignas de destaque. Acções de elevado grau de dificuldade, que ele executou com mestria.

Um pouco por todo o vídeo, é facilmente perceptível o critério do jogador, na forma como prioriza passes que eliminem adversários do lance (o chamado passe vertical) mas como também percebe que nem sempre dá para optar por eles, e nesse caso há que criar condições de penetração de outra forma. Sem bola, a forma como está constantemente a servir de cobertura ofensiva quando a equipa está no último terço, e como liga os sectores da equipa em construção são também notáveis. E isto num jogo em que o Chievo lhe dificultou muito mais a vida do que grande parte dos adversários, nessa fase de construção. De destacar também a forma como, apesar de fisicamente não ter atributos diferenciadores, consegue, por acção directa ou indirecta (e algumas destas últimas não estão aqui!), que a equipa recupere a bola. O facto de ter óptimas noções posicionais ajuda-o bastante nisto, evidentemente, bem como o facto de, normalmente, saber discernir quais os momentos para ser agressivo. Percebe-se, no fundo, que é a forma como percepciona o jogo que o eleva a um patamar superior. E mais do que isso, percebe-se que mesmo não se destacando fisicamente em nada, nem tendo atributos técnicos especiais para além do passe e da recepção, um médio-defensivo pode ganhar de goleada a muitos que metam sempre a bola onde querem e consigam conduzir a bola 40 metros com adversários em cima, por exemplo. É um dos jogadores que me lembro de ver jogar que melhor conhecem o jogo, e isso, e nada mais do que isso, é o que o torna um jogador especial. Mas, voltando ao início do post, só lhe é possível apresentar toda esta qualidade porque joga numa equipa onde o seu futebol se sente em casa, e mesmo o próprio Jorginho evoluiu bastante como jogador integrado numa equipa que o estimulou desta forma. Sempre foi um médio muito inteligente, mas foi com Maurizio Sarri que elevou essa inteligência a níveis estratosféricos.

Deixo o último parágrafo para, exactamente, falar de Sarri. É um treinador soberbo, facilmente um dos meus três treinadores favoritos na actualidade, e já o é desde que seguia o seu Empoli. Mereceria até um post só para si, para elogiar todos os seus méritos, mas aqui vou ter de lhe fazer uma pequena crítica (embora antecedida de muitos elogios). A abordagem dele a esta época tem sido, na globalidade, fantástica. Mesmo perdendo o máximo goleador da história da Serie A numa só temporada, soube reinventar ligeiramente a organização ofensiva da equipa com a chegada do Milik, que é um avançado algo diferente (o Honoris fala um pouco sobre isso aqui) e, mais que isso, quase que "inventar" um avançado do nada com a lesão deste. Quando ainda existe o dogma de que é obrigatório ter um matador (normalmente, o tal avançado grande, forte e mau que marca muito) para se marcar golos, a aposta num extremo de 1m69 para a posição parecerá certamente uma heresia. Mas a verdade é que tanto ele como a equipa marcaram imenso, o que, se esse dogma fosse uma porta, representaria mais um tiro numa porta que já foi arrombada, baleada e pontapeada vezes sem conta, apesar de ainda haver quem não o perceba. Soube também integrar o Zielinski nas suas opções regulares para o 11, que é um jogador superior ao Allan. Mas, e aqui vem a crítica, parece-me que foi demasiado lesto em apostar no Diawara no lugar do Jorginho. O primeiro é um médio defensivo de qualidade e acima de tudo com imenso potencial, há que notar. Já tem muitas prioridades certas com bola, alguma qualidade técnica, uma calma sobre pressão interessante e é fisicamente bastante bom. Mas neste momento, está claramente numa liga inferior ao Jorginho, e, por isso, ainda não devia discutir activamente com este a titularidade (no sentido de o ser tantas ou mais vezes que ele).

25 de jan. de 2017

Nápoles. Organização da pressão

Organização. Nenhuma palavra define melhor o que é o Nápoles de Maurizio Sarri. Como é óbvio, o momento de pressionar não foge à regra, e os posicionamentos/comportamentos estão trabalhados para que a equipa se mantenha sempre organizada. 

23 de jan. de 2017

Falar do jogo ou falar de platitudes à volta do jogo - uma questão cultural


Creio não estar a dar nenhuma novidade a ninguém, ao referir que o interesse no jogo de futebol, em Portugal, é bastante diminuto. Diz-se que o futebol move paixões no nosso país, mas uma análise minimamente atenta diz-nos imediatamente que não é o jogo em si, mas sim externalidades decorrentes e não relacionadas com a natureza do mesmo que o fazem. Em Portugal, gosta-se do clube do coração, e, como está convencionado que o desporto nacional é o futebol, é para o futebol que se olha. Acho perfeitamente legítimo que se olhe para o futebol como fenómeno social e aglutinador e não para o jogo e a sua natureza, mas não consigo deixar de achar que essas pessoas, que são a clara maioria, facilmente veriam qualquer desporto dessa mesma forma se fosse essa a convenção a seguir. E isto, invariavelmente, acaba por secundarizar o que, de facto, se passa nas quatro linhas e, por isso, empobrecer a análise que se faz do mesmo.

Ainda para mais, o futebol é um jogo cheio de ilusões, como referi até no post anterior e poderei referir noutros, e uma das mais divertidas é, pelo esforço físico a que sujeita os atletas, fazer quem o vê acreditar que deve ser jogado da mesma forma que se acartam baldes de massa - leia-se, com muito esforço, suor, ranger de dentes e velocidade para despachar a tarefa o mais rápido possível. Um desporto puramente intelectual ou puramente físico, como o xadrez ou as corridas de 100 metros, respectivamente, não nos oferecem esta ilusão. Porque se devido ao carácter intelectual do primeiro, ninguém minimamente são vai falar dele sem um mínimo de reflexão sobre o mesmo, o segundo é exactamente o que parece - um jogo em que quem fizer os 100 metros mais rápido vence. Só que o futebol, pela sua natureza específica, é mais exigente intelectualmente que o xadrez e fisicamente que os 100 metros. Muito pelo facto de conjugar ambas as exigências, física e de raciocínio (entre outras). Isto leva a que seja incrivelmente fácil para os milhares que observam o jogo formar concepções falaciosas sobre o mesmo, e entre esses incluem-se imensos jornalistas e comentadores desportivos.

Este post consistirá numa comparação simples entre duas conferências de imprensa pós-jogo, uma em Itália e outra em Portugal. Quanto ao caso italiano, apesar de a ideia de superioridade em termos estratégicos que os italianos têm em relação ao seu futebol ser altamente questionável, a verdade é que a aura que se formou no país sobre essa vertente leva a que haja no país um interesse maior no jogo, e, consequentemente, que o foco nas questões a treinadores incida muito mais sobre o que de facto se passa nas quatro linhas, e na procura pela discussão desses pormenores com os mesmos.

Sem mais demoras, ficam abaixo ambas as conferências (infelizmente estão nas línguas respectivas, mas creio que mesmo sendo em italiano a ideia é minimamente perceptível) :




Queria só deixar umas notas antes de falar dos vídeos. Em primeiro lugar, esta análise não serve, de todo, de crítica a Rui Vitória, que não tem culpa do tipo de perguntas realizadas e que, mesmo dentro delas, até tentou falar do jogo. Para além disso, não me estou aqui a prender tanto ao conteúdo e à pertinência do que é questionado em si, mas simplesmente do facto de se tentar ou não discutir assuntos que fujam da superficialidade habitual...

Posto isto, a conferência de Rui Vitória é igual a 95% das conferências de imprensa no nosso país. Muito foco em rumores de imprensa e em questões como a motivação e o estado de espírito, e, quando se tenta falar sequer do que se passa nas quatro linhas, o foco incide invariavelmente em opções individuais - por que motivo não jogou o jogador X, o que acrescentou o jogador Y ao entrar, o jogador Z é muito importante porque marcou K golos e fez M assistências, entre outras. Ou seja, ou não se fala de todo do jogo, ou se fala da forma mais superficial possível.

Já na conferência de Maurizio Sarri notam-se diferenças claras, nomeadamente a partir dos 3 minutos. Há lugar ao tipo de perguntas adoradas em Portugal, sim, mas há também interesse em falar do jogo em si, de forma mais aprofundada. Neste exemplo em particular, o primeiro jornalista inquire Sarri, com recurso a um vídeo ilustrativo, sobre o facto de a equipa do Napoli, ao tentar condicionar alto o jogo do Milan como fazia, não acabar por expor demasiado o espaço entre a linha defensiva e os restantes colegas, caso a pressão fosse ultrapassada. Já o segundo, também com recurso a vídeo, mostra um exemplo da constante projecção de Abate, lateral-direito do Milan, durante a partida, questionando Sarri sobre o motivo pelo qual os extremos do Napoli não acompanhavam as incursões dos laterais até ao fim. Obviamente que perguntas deste género permitem retirar um sumo muito maior das declarações dos treinadores, basta notar que a resposta de Sarri à primeira questão envolveu uma explicação do conceito de bola coberta - bola descoberta, bem como as dificuldades sentidas no processo de treino para corrigir o pormenor questionado e a melhoria apresentada pela equipa nesse aspecto, em relação ao jogo com a Fiorentina.

Como adepto do jogo, e não apenas das externalidades decorrentes do mesmo, vejo conferências como esta de Sarri com pena. Porque vejo um interesse no jogo que não vejo no meu país e, acima de tudo, vejo neste tipo de questões uma óptima oportunidade para o adepto comum aprender mais sobre o jogo. Infelizmente, em Portugal gostamos mais de platitudes...

19 de dez. de 2016

Dries Mertens

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Mertens sempre foi um jogador extraordinário, mas a sua adaptação à posição de falso 9 está até a exceder as minhas expectativas. Realizou um jogo simplesmente inacreditável com o Torino, e tal nem se deve tanto aos quatro golos que marcou. A sua genialidade nota-se em cada ação, em cada passe para o local exato(basta ver a intervenção dele no golo que não marcou) e mesmo em algumas ações que por algum motivo não saem. Foi claramente a figura de mais um jogo espetacular do Nápoles de Sarri, que tem praticado ultimamente, a meu ver e a uma distância considerável dos demais, o melhor futebol da Europa.

Todas as ações, com bola, de Mertens no jogo


PS: Infelizmente o vídeo está bastante rápido, mas creio que isso não dificulta muito a sua visualização.

9 de mai. de 2016

A minha equipa do ano: Nápoles de Maurizio Sarri

Qualidade acima da média em todos os momentos do jogo. Defensivamente perfeita. No controlo da profundidade, da largura, dos cruzamentos. Nos ajustes, nas coberturas. Não falha nada. Pressionam alto e agressivo, sempre de maneira organizada e colectiva. Ofensivamente, do melhor que há na Europa a explorar os apoios frontais e o corredor central. Muita dinâmica, muita mobilidade. Portador da bola sempre com várias opções de passe dentro do bloco adversário. Se há espaço, os centrais conduzem, e os médios movem-se entre-linhas para receber a bola. 


18 de out. de 2015

Nápoles vs Fiorentina: Sarri e Paulo Sousa

2 treinadores, cada um com o seu modelo de jogo, com os seus princípios, mas ambos com o mesmo objetivo: Dar condições aos seus jogadores para jogarem um futebol de qualidade. Qualidade na circulação de bola; Dificultar ao máximo a posse de bola do adversário; Apoios próximos ao portador da bola; Preferência pelo corredor central; Construção apoiada. Podem não terminar nos 2 primeiros lugares da Liga Italiana mas que são os 2 treinadores mais competentes, disso não tenho dúvidas. 

Apoios próximos ao portador da bola. Preferência pelo futebol curto e apoiado
 Jogadores entre linhas, no corredor central
 Pressão alta. Dificultar a construção do adversário, retirando-lhe tempo e espaço

1 de mai. de 2015

Empoli e o exemplo do que deve ser uma linha defensiva

Independentemente da qualidade dos executantes, é sempre possível a um treinador, apresentar comportamentos colectivos de qualidade, e Maurizio Sarri é um exemplo perfeito disso. Incrível a qualidade que a sua linha defensiva apresenta. Funcionam como um todo, pensando em conjunto e não cada um por si. Nota-se muito trabalho do treinador, trabalho de grande qualidade. Mais uma prova de que não é preciso jogadores de excelência, para que a equipa mostre qualidade nos processos. 

(portador da bola em progressão é estimulo para baixar. Se o portador estiver de costas, voltam a subir. Perfeito o movimento da linha defensiva)

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