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13 de mai. de 2019

Gelson Dala vs Benfica (vídeo)


É de jogadores como Gelson Dala que o Sporting precisa no seu plantel da próxima época. O angolano demonstra jogo após jogo uma enorme capacidade para jogar pelo corredor central - mesmo quando há pouco espaço para o fazer -, sendo um elo de ligação entre a fase de construção e a fase de criação. Nesse espaço (entre a linha defensiva e a linha média adversária), a sua qualidade técnica na maneira como resiste à pressão, e o critério com que decide, são uma clara mais valia, sendo também muito capaz no último passe. 

Ficam aqui alguns lances no jogo de ontem frente ao Benfica que comprovam isso mesmo 

4 de dez. de 2018

O ataque posicional do Sporting de Marcel Keizer


Depois de 3 jogos oficiais, já é possível perceber as ideias do novo treinador do Sporting, e, ainda que estejam longe de estar implementadas na sua totalidade, não é de todo precipitado afirmar que são ideias que potenciam os jogadores do Sporting, e que consequentemente aproximam a equipa do sucesso. 

Começando pela fase de construção em zonas recuadas. Com a utilização do guarda-redes para criar superioridade numérica numa fase inicial, com os laterais projetados e a dar largura, e com os médios a movimentarem-se nas costas da primeira linha de pressão do adversário, o Sporting tem tudo o que é preciso - no que diz respeito aos posicionamentos - para sair de forma apoiada desde trás. 

A juntar e esses posicionamentos e à dinâmica que surge dos mesmos, há uma intenção clara de valorizar cada posse de bola. Por outras palavras, o Sporting é neste momento uma equipa que procura a cada ataque, progredir nas melhores condições possíveis, não demonstrando pressa nem saltando etapas na fase de construção.  

Um exemplo no lance que se segue. Não havia condições para progredir em direção ao meio campo do Rio Ave (sem espaço e com poucos jogadores do Sporting para vários do Rio Ave), então, a solução foi atrasar a bola até ao guarda-redes. Com o Rio Ave a pressionar mais alto, o espaço entre as suas linhas defensivas aumentou e o Sporting conseguiu chegar ao espaço entre a linha média e a linha defensiva com relativa facilidade e em excelentes condições.




A maneira como o Sporting procura chegar às zonas de finalização é também completamente diferente do que era há uns meses atrás. O corredor central tem sido muito utilizado para ligar a fase  de construção com a de criação, e o Sporting tem chegado várias vezes ao último terço - pelo meio- com a bola controlada.
(Wendel está à esquerda de Gudelj. É Diaby junto a Bruno)

Nota-se que os jogadores do Sporting gostam e estão cada vez mais confortáveis a jogar este tipo de futebol apoiado, de passe e devolução. Mesmo em espaços curtos, têm demonstrando muita calma e qualidade para sair a jogar de forma apoiada, e isso, volto a referir, reflete-se na quantidade de vezes que o Sporting chega ao último terço com a bola controlada.

A utilização dos apoios frontais tem sido outra dinâmica muito vista no Sporting de Keizer. Jogador de costas para a baliza - muitas vezes a atrair consigo a marcação adversária - com o objetivo de deixar enquadrado o jogador que recebe a bola. Bas Dost cada vez mais importante neste tipo de situações, pela inteligência e qualidade no 1º toque.

3 de dez. de 2018

Ensaio(s) sobre a Cegueira


Este post poderia muito bem ser sobre a exibição fantástica do Sporting de Marcel Keizer - entrevista interessantíssima dada pelo actual treinador leonino aqui - em Baku. O treinador holandês trouxe, em duas semanas, uma melhoria drástica - e saliento, drástica - ao futebol da equipa: de uma equipa medrosa e cobarde, que nem com espaço se propunha a construir passou a uma equipa corajosa, com dinâmicas e capaz de superar uma pressão agressiva do adversário em vários momentos; de uma equipa cinzenta, sem a mínima variabilidade de recursos ofensivos e que não trabalhava minimamente os lances passou a uma equipa criativa, que prioriza claramente a tabela entre os seus elementos e que procura os melhores caminhos para atacar; e de uma equipa passiva e expectante passou a uma equipa extremamente agressiva tanto na pressão como especialmente na reacção à perda, tendo os jogadores muito próximos e conseguindo rapidamente condicionar o adversário. Há que dizer, claro, que tudo isto tem de ser lido de forma cautelosa. A melhoria foi gigante para o pouco tempo de trabalho existente, mas esse tempo não deixa de ser pouco, o que implica obviamente que ainda há deficiências várias e uma inconsistência enorme nesta forma de jogar. É provável que a equipa venha a sofrer as chamadas dores de crescimento pelo futebol que tenta jogar, e que nesses momentos as críticas se multipliquem. No dia em que escrevo este post, aliás, o Sporting vai ter um jogo muito complicado em Vila do Conde, que pode eventualmente expor alguma da falta de trabalho que ainda há sobre esta ideia de jogo. Mas, ao contrário do futebol de Peseiro, que estava desde início votado ao insucesso, o que Keizer está a trazer promete, e muito. O sucesso que terá - ou não - é evidentemente uma incógnita para qualquer um, mas a pequena amostra inicial exige, desde já, a minha atenção. O que é mais do que posso dizer da grande maioria do campeonato português...

Mas não, apesar de me ter esticado no parágrafo inicial, o tema do post é outro. Na noite de quinta feira, decidi ver o programa "Grande Área", da RTP3. Costuma ser um programa de futebol algo superior às... vamos chamar-lhes banalidades, que poluem a televisão nacional, e um dos seus analistas regulares, em particular, é alguém cuja opinião estimo (Rui Malheiro). Eventualmente chegaram ao jogo do Sporting em Baku, e a um certo ponto Manuel José faz o seu comentário, que podem ver abaixo:


Manuel José, no fundo, rasga completamente o jogo de Wendel por este ter "individualizado as acções todas", ao contrário dos colegas, que jogavam a "um ou dois toques", e com a aparente anuência do restante painel. Fiquei imediatamente perplexo, porque a ideia com que fiquei do jogo que Wendel fez foi literalmente a oposta, e como estamos a falar de uma questão de facto... É que dizer que um jogador jogou bem ou mal pode ser opinião, mas é possível averiguar se tentou passar a bola aos colegas ou "individualizou as acções todas", mesmo dando de barato alguma hipérbole na afirmação, visto que é algo contável. Por isso, restavam três opções: ou Manuel José é cego, ou mentiu descaradamente, fiando-se na ideia de que Wendel, como o típico médio brasileiro, teria de certeza tentado fugir da dinâmica colectiva da equipa e tentado fintar toda a gente; ou então fui eu que vi tudo completamente ao contrário e, na verdade, Wendel terá feito o contrário do que eu tinha visto quando o jogo foi transmitido em directo.

Como eu sou da opinião que a pessoa de quem devemos duvidar mais é de nós mesmos, fiquei curioso e achei por bem ir rever o jogo. Afinal, era bem possível que eu tivesse visto mal, e nesse caso não só aprenderia algo sobre o jogo que Wendel fez, como desconfiaria ainda mais da minha própria falibilidade - o que é sempre saudável, diria. Ao rever o jogo, no entanto, a minha perplexidade aumentava a cada acção do médio brasileiro. E aumentava porque, de facto, se se pode fazer alguma crítica à exibição de Wendel... é exactamente a oposta. O médio brasileiro procurava constantemente jogar em poucos toques e associar-se com os colegas, e em alguns lances isso até nem era a acção mais recomendada. Destaco, por exemplo, a assistência de Wendel (a primeira de três) para o terceiro golo do Sporting, em que apesar de para a estatística ficar uma acção brilhante, uma análise mais atenta ao lance mostra claramente que o médio do Sporting - que havia estado muito bem no mesmo lance, momentos antes, ao devolver a tabela de primeira como o contexto exigia - podia e devia ter continuado a conduzir a bola, e que ao passar a Nani na altura em que o fez lhe criou dificuldades desnecessárias. Não obstante a enorme mestria individual do extremo português ter feito com que o lance acabasse em golo, a decisão de Wendel nessa parte do lance foi incorrecta, mas pelo motivo oposto ao que Manuel José criticou no jogo dele. Toda esta dissonância entre o que aconteceu e o que Manuel José referiu levou a que eu compilasse um vídeo com todas as acções, com bola, do médio brasileiro. Vídeo esse que (adivinharam!) podem ver abaixo:


Se alguém conseguir descortinar ali o que raio Manuel José viu (ou não), a caixa de comentários está disponível. O meu descontentamento foi tal que, vejam lá, até fiz um exercício que será, possivelmente, a coisa mais inútil que já me dei ao trabalho de fazer na minha vida, que foi contabilizar, de todas as acções do jogador - por acção defina-se "tudo entre o momento em que o jogador recebe a bola até que, por uma multitude de factores, a deixa de ter" - quais terminaram em passes e quais, das que terminaram em passes, envolveram menos de três toque na bola (ou um ou dois). Das 65 acções totais excluí as 2 que acabaram em remates de Wendel isolado perante o guarda-redes - os tais "dois golos falhados de baliza aberta" que Manuel José menciona, ficando com 63 totais. E dessas, 53 acabaram em passes - não discriminando se foram acertados, falhados, ou se bem ou mal decididos, visto que não foi isso que o ex-treinador português criticou - e desses 53, 44 foram em um ou dois toques. Ou seja, mais de 84% das acções de Wendel acabaram em passe... e quase 70% (aproximadamente 69,84%) de todas as acções do jogador foram ou passes de primeira ou passes imediatamente após a recepção!!! O que também contei foram as vezes que Wendel "inventou dribles quando tinha um defesa nas costas"... felizmente esta foi mais fácil, foi uma (aos 3:25 do vídeo). E nem sequer será àquele tipo de acção que Manuel José se refira, imagino, já que foi no último terço, encostado à linha e, aponto eu, que demonstrou uma percepção notável daquele contexto particular. Já que aguentou a bola até Jefferson lhe passar nas costas, o que atraiu o defesa que estava com Wendel a cobrir um eventual passe, abrindo uma cratera no meio que o médio brasileiro aproveitou imediatamente. Portanto, bem analisado, Wendel nunca fez o que Manuel José o acusou de o fazer. Aliás, recebeu a bola em várias situações que encaixam no que Manuel José refere (de costas, com pressão e numa zona central do terreno), e em todas fez o que o português disse que não fez. É possível ser-se mais estúpido?

Isto tudo para provar que, afinal, ficamos mesmo só com duas das três hipóteses que apresentei: ou Manuel José é cego ou é mentiroso. E é algo que exige uma breve reflexão sobre os programas de análise desportivo que temos: se até naqueles que são menos maus há comentadores que procuram levar avante narrativas que nem pelo crivo aparentemente simpático dos factos passam, como é que podemos querer ensinar a população a ver o Jogo que mais as apaixona? A verdade é a seguinte: qualquer pessoa que tenha visto o Grande Área, mas não o jogo do Sporting em Baku, ficou com uma ideia que é logicamente equivalente a dizer que um jogo de Futebol tem 47 jogadores. E quão triste é ter essa noção!? Se este post conseguir que sequer uma dessas pessoas possa ver com os seus olhos o que, de facto, Wendel fez no jogo e que, por isso reformule a opinião que Manuel José formou por ela, o objectivo do mesmo está mais que cumprido.

26 de out. de 2018

O Sporting de José Peseiro


Independentemente do adversário, há comportamentos que caracterizam a ideia de jogo de uma equipa. Basta relembrar o Loures vs Sporting de há uns dias para confirmar isto. Uma equipa com muito menos qualidade individual que o Sporting mas que mostrou princípios, mostrou comportamentos bem trabalhados, mostrou uma ideia de jogo. Os jogadores sabiam onde se posicionar, sabiam o que fazer e quando o fazer.

No Sporting de Peseiro isto simplesmente não acontece, e contra o Arsenal foi mais uma prova disso mesmo. Peseiro disse no final do jogo que o Sporting só tinha sofrido 1 golo, e que a maior parte das equipas sofre 3 contra o Arsenal, e tem toda a razão no que disse! Esqueceu-se foi de dizer também que TODAS as equipas criam situações de golo contra o Arsenal (mesmo com o 11 habitual) e que o Sporting nem um remate em direção à baliza fez (e já nem vou falar do demérito do Arsenal em só ter feito um golo).

Reparem no seguinte lance:

Lances como este sucedem-se em todos os jogos, várias vezes por jogo, e demonstram todos o mesmo: o Sporting de José Peseiro é uma equipa muito mal trabalhada do ponto de vista coletivo. Dificuldades enormes na fase de construção - mesmo quando não são pressionados - pura e simplesmente porque os jogadores nem fazem ideia de onde se devem posicionar.

Não existe neste Sporting uma ideia de jogo bem trabalhada em termos ofensivos, principalmente com o objetivo de progredir apoiado pelo corredor central. Lances com princípio, meio e fim são praticamente inexistentes no Sporting de Peseiro.

Ou jogam direto na frente, ou então, como aconteceu neste lance, forçam pelo corredor lateral mesmo em inferioridade numérica.





15 de ago. de 2018

Não há maior cobarde que aquele que trai as próprias Ideias



Muito foi falado sobre o Sporting nestes últimos meses, e possivelmente muito terá ficado por dizer. Quase tudo numa óptica extra-futebol, por razões evidentes. Deixámos e deixaremos essas discussões para pessoas e espaços de uma índole distinta da deste, aqui o foco principal será sempre o main event e não subprodutos do mesmo, ou seja, o jogo em si.

Nessa óptica, é sobre este Sporting, e mais concretamente sobre José Peseiro, que quero falar. José Peseiro sempre foi visto como uma espécie de lírico, alguém com um futebol ofensivo de grande qualidade mas que era quase sempre traído por tudo o resto. Por isso a opinião pública a seu respeito é bastante negativa, como o é acerca de treinadores como Bielsa, visto que o imediatismo e os vícios de raciocínio costumam toldar a análise da opinião pública. A associação entre "treinador vencedor" e "pragmatismo" (na definição popular, ou seja uma preocupação grande com os equilíbrios) é imediata para várias pessoas, e embora existam treinadores como Guardiola a meter esse paradigma em cheque, a ideia continua a ecoar mais do que devia. Esta temática mereceria um post exclusivo, se calhar, mas não será este.

Não, este post versará sobre o início desta "aventura" de Peseiro no Sporting. E, tendo a noção tanto do pouco tempo de trabalho como da conjectura do clube, direi algo que parecerá absolutamente reaccionário mas que será argumentado e contextualizado nos parágrafos seguintes: perdi quase toda a consideração que tinha por Peseiro como treinador. E este "quase" está aqui na esperança que o treinador ribatejano perceba isto e que reverta este caminho em que tem entrado...

Adiante, isto é algo que vai para além de gostar ou não de uma ideia de jogo. Há vários treinadores, com níveis de sucesso variados, cujas ideias de jogo fogem muito das minhas mas que se mantêm fiéis às mesmas. Ou até que se mantiveram fiéis a uma falta de ideias. Agora, o que Peseiro está a fazer é diferente. Escudando-se no contexto complicado do clube, Peseiro está a montar uma equipa de matriz extremamente diferente do que foi seu apanágio no resto da carreira, até em clubes bem mais pequenos do que o clube em que está actualmente. E diferente... para pior.

O melhor sítio para começar está mesmo em dois jogadores: Francisco Geraldes e Matheus Pereira. Dois jogadores de potencial enorme e que, especialmente no caso do brasileiro, se destacaram na época passada ao serviço do 5º e 6º classificado do campeonato nacional, respectivamente. Seria de esperar que ganhassem mais expressão com um treinador com um modelo menos "rígido". Como disse Miguel Cardoso acerca de Francisco Geraldes - um jogador que alguns espaços, ao contrário do que as declarações subsequentes indiciam, dizem ser muito mais apreciado por adeptos que por treinadores - quando lhe perguntaram o que faltava ao jovem médio para ser aposta num grande; "Falta que alguém tome essa decisão.". Ou seja, que alguém tenha a coragem de apostar nele. Mas José Peseiro, possivelmente por ter medo dos bichos papões que pululam pelo nosso campeonato, achou que nunca poderia jogar com mais de um médio de índole ofensiva, e que Bruno Fernandes seria o títular quase indiscutível (o que é razoável, visto que é um jogador de enorme qualidade). Ao nem sequer tentar uma forma de tentar enquadrar os dois médios mais talentosos do clube, levou a que Geraldes, ao perceber directamente do discurso do treinador que ia ter poucos minutos, procurasse ir para onde as perspectivas de ser aposta fossem maiores. Depois ainda veio com um discurso mal amanhado de que lhe tinha dito que ele ia ser muito importante e implicando até alguma soberba ao jogador por querer tanto sair, mas temos informações claras e consistentes de que não foi assim que as coisas se passaram. Isto é o menos importante para o post, há que dizer, mas ajuda a contextualizar um bocado o caso.

Passando agora ao caso - a meu ver, absolutamente escandaloso - de Matheus Pereira. Matheus foi o melhor jogador fora dos três grandes no campeonato passado, isto mesmo tendo em conta que demorou a "carburar" no Chaves. Mas o nível que demonstrou quando o fez foi tão elevado que ofuscou toda a "concorrência". Chegado ao Sporting manteve o nível, começando por ser aposta quase constante de Peseiro nos jogos de pré-época e mostrando um nível muitíssimo elevado na mesma. No entanto, o problema começou com o regresso de Acuña, que Peseiro colocou imediatamente no lugar de Matheus. Ora, há apenas dois motivos para se preferir Acuña a Matheus Pereira: ou se escolhe o argentino simplesmente por ser o mais abnegado/melhor a defender (isto num extremo de um grande, leia-se com atenção), ou porque custou mais de 10 milhões de euros e tem, no geral, bem mais estatuto. Sinceramente não sei qual dos dois motivos me causa mais repulsa - se quiserem escolher algum nos comentários estejam à vontade - mas não vejo mais nenhum. Acuña não se destaca em atributo ofensivo algum; terá uma técnica de cruzamento interessante mas é pouco efectivo no mesmo, a sua ideia de drible é literalmente virar o rabo para a linha lateral e está longe de ser um jogador inteligente. Depois, como Matheus entrou mal nos poucos minutos que teve no último amigável e até falhou um penalty, conseguiu a proeza de o colocar fora dos 18 para a 1ª jornada do campeonato, ficando atrás de Raphinha e Jovane Cabral. Raphinha é um extremo com alguma qualidade e de um perfil bem distinto do de Matheus, e se a ideia é a alternância de perfis no 11 até faria mais sentido jogar ele que Acuña, mas Jovane Cabral não tem sequer 1% do talento do extremo brasileiro. É como se no Chelsea preferissem o Victor Moses ao Eden Hazard... Matheus queixou-se do facto via redes sociais durante o jogo, o que não lhe trará benefícios nenhuns obviamente, o treinador veio mandar bocas de que o jogador ficou de fora dos 18 porque andava a treinar mal e até há quem diga que já está a treinar fora da equipa principal; mas no fundo isto é uma bola de neve que está a crescer exponencialmente... e que só existe em primeiro lugar pela incompetência na análise de Peseiro.

Um pequeno aparte quanto à questão do treino: se repararem, é o argumento favorito para justificar a não aposta em algum talento por parte da vaga dos treinadores pragmáticos. Lembro-me do tempo em que se dizia que Bernardo Silva respondeu mal a ser adaptado a lateral-esquerdo nos treinos e que isso prejudicou a sua imagem perante Jorge Jesus... saiu quase sem minutos do Benfica e alguns anos depois é uma das estrelas da melhor equipa inglesa (como disse o seu treinador, "Neste momento é Bernardo e mais 10"). O próprio João Mário, quando estava na equipa B do Sporting, desmotivado por ter claramente nível para mais, foi sentado por "amuar", e quando apostaram nele mostrou claramente que tinha razão, pois era claramente jogador para ser titular no clube desde logo. Matheus, que agora também "treina mal", chegou a ter a oportunidade de ir para o Mónaco mas rejeitou à última da hora para ficar no Sporting. Fica a pergunta: onde estaria neste momento se tem ido mesmo? E atenção, obviamente que o treino é importante, e que cada caso é um caso: haverá jogadores que de facto cuja atitude nos treinos justifique serem preteridos. Mas quando a tendência de se remeter para os treinos a ostracização de quase todos os maiores talentos que o Sporting forma é tão grande (basta lembrar Iuri Medeiros)...

O mencionado acima são, obviamente, apenas questões individuais. Que eu referi por, a meu ver, reflectirem o problema em causa, mas que obviamente não são o problema em si: era perfeitamente possível Peseiro simplesmente escolher mal mas manter-se fiel às suas ideias, como aliás é apanágio do seu antecessor no clube. Mas não é o caso. Peseiro decidiu transformar-se num pseudo-pragmático, forçando ao máximo o regresso de Battaglia, a contratação de Sturaro e possivelmente até de outro médio de perfil parecido, e fê-lo com a intenção de mandar muitas das suas ideias ofensivas às malvas, mesmo que "temporariamente" (vamos abordar isso abaixo). Até Wendel, que fisicamente é também forte e que tecnicamente é superior aos restantes cavalos, está a ser ignorado. Sobrevive Petrovic, que sendo um jogador com um raio de acção algo limitado tem qualidade técnica e calma com bola, mas quando Sturaro voltar (ou o tal outro médio) deve saltar também. A ideia de Peseiro é "encher" o meio-campo com dois tipos fortes, feios e maus para dar cacetada, apostar numa ideia muitíssimo mais limitada, com maior prevalência de passes longos, maior distância entre jogadores e, no geral, num jogo bem menos trabalhado; deixando Bruno Fernandes e Nani quase que entregues a si mesmos na criação, e esperando que Dost mantenha a enorme eficácia. Se o futebol fosse um jogo de 11 elementos desligados, isto era uma ideia muito gira, e o processo de pensamento de Peseiro deve ir nessa perspectiva, sendo algo como "Ora bem, a transição defensiva da equipa está uma miséria, por isso vou meter 2 gajos grandes e fortes no meio para me resolver isso. As minhas equipas atacam bem, por isso isso não é problema, assim defendem bem também!". A questão é que não só não é por meter cavalos que vai resolver problemas de índole estrutural - pode mitigá-los, mas continuarão a estar lá, qual casa muito bem composta e bonitinha mas com as fundações podres - como a equipa vai atacar muitíssimo pior nesta ideia, tanto em termos colectivos, como até ao ter demasiados jogadores do meio-campo para a frente que são quase inúteis com bola. Na matemática, -(-2) = 2; mas no futebol o que ele fez foi acumular problemas, não resolvê-los.

Para concluir, quero abordar só a questão que provavelmente me vão levantar ao ler isto; "Sim, mas o Peseiro disse que isto era tudo temporário, na fase inicial, e que daqui a uns meses o Sporting ia jogar bem". Pois, eu sei que disse. Só que, infelizmente, não é assim que a aquisição de uma ideia de jogo por parte de uma equipa funciona. É um processo que leva tempo, claro, mas leva tempo porque tem de haver uma insistência constante na ideia. Ou seja, para uma equipa de facto chegar a um bom nível a jogar num modelo melhor/mais exigente, tem de o trabalhar consistentemente e de insistir nele, tem de transmitir aos jogadores total convicção e confiança nesse modelo, e tem de passar pelas dores de crescimento que acarreta essa insistência. Não é como no Football Manager, em que podes dizer "olha, agora que ainda não sabemos jogar bem vamos passar o jogo a chutar para a frente, daqui a 2 meses quando a barrinha do FM do modelo de jogo estiver cheia logo mudamos". Não vejo, sinceramente, como é que a equipa vai passar de não querer jogar a jogar muito bem...

O Sporting com o Moreirense fez um jogo miserável, em que particularmente na segunda parte foi dominado de forma clara por uma equipa muitíssimo inferior; e por ironia do destino, não só ganhou como foi Jovane Cabral, o tal jogador que foi escolhido em detrimento de outro muitíssimo mais talentoso, a sofrer o penalty que acabaria por virar o jogo e ser decisivo. Para muita gente, e se calhar até para Peseiro, não interessa que a equipa tenha estado muito mais perto de perder o jogo que de o ganhar, nem que o tal lance do penalty tenha sido um em que Jovane se limita a correr com a bola e o adversário vai, sem qualquer necessidade, contra ele, num óbvio erro não forçado; mas como correu bem sentem as decisões justificadas. Feliz ou infelizmente, o tempo costuma ser pouco perdulário a este tipo de brincadeiras, e, caso estas ideias e aposta no meio-campo e Acuña se mantenham, acho muito complicado que os resultados negativos não apareçam muito em breve.

Peseiro, até porque não tem nada a perder - nunca na vida esperaria ter mais uma oportunidade num clube desta dimensão - tinha tudo para, desde logo, ser fiel às ideias de jogo que demonstrou em quase toda a carreira e construir uma equipa interessante e capaz de divertir os adeptos, numa época de expectativas baixas. Escolheu, incompreensivelmente, a cobardia, ainda por cima atirando areia para cima das pessoas ao dizer que é uma cobardia temporária. A minha previsão é que sairá do Sporting com a reputação que tinha anteriormente (baixa), mas perderá também a consideração daqueles que, como eu, até admiravam a forma como via o jogo ofensivamente. E é pena...

16 de set. de 2017

De Alvalade para o Mundo - O Paradoxo da Falta de Espaço


Nos posts que já fiz aqui, sempre me agradou abordar a forma como o jogo é visto, tanto por adeptos como pelas pessoas com real poder de decisão (treinadores, dirigentes, etc.). Por motivos já referidos (nomeadamente aqui), a irracionalidade é algo complicada de dissociar da análise que boa parte das pessoas faz do jogo em si, incluindo parte significativa dos tais agentes decisores, e este post servirá para falar das consequências negativas dessa irracionalidade para um certo perfil de jogadores, definido (a bold, para se ver bem) no parágrafo seguinte, e para expor os problemas de uma conclusão que se tira da evolução do jogo moderno, que é o tal paradoxo que está no título do post...

Este primeiro parágrafo parece - e, por si só, é mesmo - um pouco confuso, mas acompanhem-me. Este post vai procurar, de forma relativamente profunda, analisar os problemas a que, cada vez mais, são sujeitos os jogadores cujos únicos atributos especiais são a sua capacidade de raciocínio em espaços curtos, criatividade, competência para temporizar em busca da melhor solução caso necessário (ou seja, a competência cognitiva do jogador) e a capacidade técnica para que esses atributos se possam mostrar, e defender a necessidade de valorizar esses jogadores no futebol moderno. É esse, e apenas esse, o objectivo do post, e é nesse sentido que toda a análise caminhará.

Para a análise, e daí a primeira parte do título, vou partir de um case study, que é nem mais nem menos que o Sporting. Ressalvando, desde já, que me refiro ao Sporting no contexto dos últimos 20 anos, e não apenas à actualidade, na qual, apesar de tudo, o clube tem melhorado significativamente na maioria dos sentidos e voltou, finalmente, a ser um clube competitivo. Ainda assim, continua a cometer com bastante frequência os erros que aqui vão ser expostos. Adiante, escolhi o Sporting por dois motivos. Em primeiro lugar, é de longe o clube sobre o qual tenho maior conhecimento no que diz respeito aos tais comportamentos dos agentes, tanto adeptos como dirigentes, já que eu próprio sou adepto do clube e tenho lugar cativo no estádio há já alguns anos. E, para além disso, é um clube que tem personificado de forma clara o problema de que irei falar... Mas como é perceptível pelo título, não quero aqui, de todo, dizer que isto é um problema específico do Sporting. Poderia ter facilmente escolhido outro clube, tanto nacional como internacional, já que não são muitas as excepções que fogem a este problema (o Barcelona será a mais flagrante), mas pelos motivos acima sinto-me mais capaz de comentar com alguma propriedade o caso do clube leonino.

Ao longo dos anos, uma série de jogadores que se encaixam na descrição a bold - a qual é preciso ter sempre em mente na leitura deste post - foram desperdiçados pelo clube. Jogadores como Bryan Ruiz, Fredy Montero (depois da fase goleadora), Matías Fernández e Leandro Romagnoli, por exemplo tiveram todos começos relativamente interessantes no clube, mas, e embora por diferentes motivos, todos acabaram por finalizar as suas carreiras no clube de forma relativamente inglória. De onde vieram estes quatro exemplos há mais, mas parecem-me suficientes para podermos começar a pensar numa tendência, que importa perceber. Mas a que se deverão estes problemas do clube, embora com excepções claro (João Mário, por exemplo) em aproveitar este tipo de jogadores, tanto quando os compra como quando vêm da formação? A meu ver, podemos falar de três factores, mas como o terceiro merecerá uma análise mais profunda no final do post vamos por agora falar de dois: os adeptos (nomeadamente os que vão ao estádio) e os treinadores que têm passado pelo clube.

Começando pelo mais controverso, os adeptos. Parecerá absurdo, já que falamos de clubes profissionais, dizer que os adeptos podem "escolher" os jogadores que jogam. E obviamente que não o fazem, pelo menos directamente. Mas é, no mínimo, ingénuo, ignorar a influência que todo um estádio pode ter nos pequenos pormenores que se passam em campo. Um ambiente de um estádio pode perfeitamente influenciar vários detalhes da forma como a equipa joga, nomeadamente na sua tolerância/falta dela a certo tipo de acções. Dando o exemplo de Alvalade, que é o que conheço bem, é extremamente frequente qualquer acção que envolva alguma temporização ou calma ser criticada ou mesmo assobiada por vários adeptos. Na senda da tal irracionalidade referida acima, o Sporting quando, por exemplo, tenta gerir uma vantagem curta com bola, perto do final do jogo, não tem só de enfrentar os 11 jogadores adversários. Tem também, normalmente (depende também do contexto mais geral em que a equipa se encontre, claro), de manter o sangue frio perante um estádio com boa parte dos 40 mil adeptos do próprio clube exaltados e a tentarem, a todo o custo, que a equipa ataque rapidamente a baliza adversária, assobiando qualquer acção que não vise directamente esse sentido. É um público que, como a maioria dos públicos de futebol na verdade, aplaude o esforço, a dedicação e as decisões rectilíneas, mas com pouca paciência para os jogadores que não têm pruridos em segurar a bola quando é caso disso, sem o fazerem caminhando em direcção à linha para cruzar ou para ganharem no drible em qualquer zona, mas sim de forma aparentemente inconsequente, mas verdadeiramente interessante, visto ser na procura de melhores soluções (mais sobre o assunto aqui). Nenhum dos jogadores referidos acima agradou propriamente ao "tribunal" de Alvalade, e até temos exemplo como o de Carrillo (antes da questão extra-jogo que surgiu), que sendo um jogador que tendo até mais características especiais que as assinaladas a bold (post sobre ele aqui) - habilidade enorme no 1x1 e fisicamente fortíssimo - foi constantemente assobiado pelo público de Alvalade exactamente por ter um perfil de decisão que se aproxima, de certo modo, do dos jogadores referidos acima. Como é óbvio, há jogadores com atributos destes que são aclamados no estádio, da mesma forma que os próprios jogadores referidos acima também o foram em certos momentos - daí a tal irracionalidade de que se fala, tão comum no adepto de futebol - , mas quase sempre devido a motivos circunstanciais e que têm pouco que ver com as tais capacidades intelectuais dos jogadores (a fase em que Montero marcava imenso, por exemplo), e isso acaba por complicar a vida daqueles que pouco têm para apresentar para além do que grande parte dos adeptos ignora ou até detesta...

Passemos agora aos treinadores. Aqui, quando me refiro a treinadores, não falo propriamente da qualidade deles. Ou melhor, pelo menos no caso dos treinadores que o clube teve com Bruno de Carvalho na presidência, que em grande parte dos anteriores treinadores a qualidade escasseava imenso... Olhando por exemplo a Jorge Jesus, é indubitavelmente um treinador competentíssimo, que monta equipas bastante organizadas em todos os momentos do jogo, especialmente os defensivos, e isso não poderá ser posto em causa. No entanto, é um treinador que costuma ter problemas com jogadores do perfil referido. Apostou em João Mário, Bryan Ruiz (embora o tenha dispensado esta época) e mesmo nos incríveis Aimar e Saviola (que também acabou por ser descartado), sim, mas quando são jogadores de menor estatuto notam-se claramente os preconceitos do treinador para com esse tipo de jogador (Bernardo Silva, Francisco Geraldes e Ryan Gauld são jogadores que vêm à cabeça). E falamos aqui de um treinador, como já foi dito, bastante competente, e que até foi capaz de não ignorar alguns casos. Dou aqui exemplos recentes, que estão mais frescos na memória das pessoas, mas este tipo de desperdício, como foi salientado inicialmente, está muito longe de ser uma coisa recente. Pelo contrário! Há uma tendência dos treinadores do Sporting em preferirem o jogador mais forte e desinibido ao mais esclarecido, que a meu ver é um factor que contribui bastante para o insucesso do clube no século XXI...

Basicamente, os tais dois aspectos referidos constituem as pessoas que vêem o jogo e que possuem alguma influência no mesmo, tanto directa (treinadores e, embora não referidos, dirigentes) como indirecta (os adeptos, especialmente os que vão ao estádio). A forma como se vê, de uma forma geral, o jogo de futebol, prejudica enormemente este tipo de jogadores, visto que passa por cima do que eles têm para mostrar, e é importante combater esta mentalidade relativamente generalizada, sob pena de perdermos cada vez mais talentos e "ganharmos" jogadores com todas as competências físicas do mundo mas com pouco talento para tudo o que envolve o jogo. É que os jogadores que juntam às tais competências a que este post se refere outras que são vistas como verdadeiramente relevantes pela maioria vão (quase) sempre ter sucesso, mas há que perceber que esses são os casos especiais, os outliers. Que se continuarmos a priorizar os mais fortes ou até os mais habilidosos no 1x1/explosivos sem o saberem aplicar ao jogo propriamente dito em detrimento do tipo de jogador para que este post remete, vamos continuar a ter outliers, sim, mas cada vez menos jogadores verdadeiramente competentes e que dominam verdadeiramente o jogo que estão a jogar, e cada vez mais "atletas com bola".

Mas falta o tal terceiro aspecto, ao qual já se aludiu várias vezes durante o post mas nunca se explicou exactamente. É a ele que, no fundo, a segunda parte do título diz respeito... O que é isto do "Paradoxo da Falta de Espaço"? Explicarei obviamente o que quero dizer com isto, e de que forma influencia estes jogadores...

Como podem ler no primeiro parágrafo (que talvez agora pareça mais inteligível), isto, a meu ver, afecta estes jogadores sob a forma de uma externalidade (embora, como disse acima, a palavra externalidade possa não ser a melhor). Ou seja, é da interpretação que se faz do facto, e não do facto em si... Concretizando, é relativamente consensual que o futebol europeu (que é o mais relevante, claramente) está cada vez mais evoluído tacticamente, quando não se tem a bola. As equipas cada vez mais procuram ser compactas no momento defensivo, havendo assim muito menos espaço para o adversário jogar, e esta evolução requer de todos os jogadores da equipa bastante trabalho defensivo, quando em outras épocas era comum deixar os jogadores mais ofensivos quase a "descansar" na frente. E que, para isso, é necessário ter jogadores capazes de cumprir da melhor forma com essas exigências, tendo para isso de ser fisicamente muito fortes e, com bola, extremamente rápidos a fazer tudo, exactamente pela ausência desse espaço. De facto, o futebol europeu está mais evoluído tacticamente e, por isso, as equipas são mais competentes a restringir espaços ao oponente. O tal paradoxo não está, obviamente, aí. O problema é extrair-se, como a maioria faz, que para jogar neste futebol de maior organização e compactidade (aspectos positivos, atenção!) é necessário ter os jogadores mais fortes e rápidos a executar. Pensa-se que, por se ter evoluído num ponto de vista defensivo em termos de concepção geral do jogo, é preciso pensar sempre segundo esse raciocínio "defensivo". Logo, temos de ter os que melhor cumprem fisicamente com a ideia, sem bola, e que mais fortes, rápidos a executar e com drible, com ela, não havendo assim lugar para aqueles que, não sendo tão fortes ou tão rápidos de pernas, interpretam tudo antes dos demais e que sabem manipular esse tipo de organizações . Mas este último ponto é errado. Fazendo uma analogia, o futebol (sob a forma de cada vez mais equipas europeias) actual está a construir uma parede cada vez mais sólida, e as equipas acham que a melhor forma de a derrubar é à cabeçada, em vez de se procurar criar fendas em zonas estratégicas por forma a, no momento certo, a podermos fazer colapsar sobre si própria... O jogador franzino, não muito rápido e criativo tem lugar na chamada "era da organização", sim! Aliás, até deve assumir um papel mais preponderante, visto que os problemas que os ataques têm de resolver são, no geral, mais complexos. E quem melhor para resolver problemas complexos que um Pastore, um Bryan Ruiz ou, quando jogava, um Riquelme? Bem, haver melhor há... há Messi, e eventualmente outros que encaixam nos tais outliers. Mas se compararmos com os tais "atletas com bola" que proliferam no futebol actual, percebemos que muito mais facilmente um Pastore desmonta, inserido numa boa equipa, um bloco bem organizado que um Cuadrado. O Paradoxo da Falta de Espaço é, no fundo, achar-se que por o espaço para jogar ser cada vez menor, se deve valorizar quem fisicamente está mais apto para correr muito e aguentar o choque (já que há mais adversários perto), e não quem... descobre melhores soluções nessa mesma falta de espaço.

Em Alvalade tem-se feito muita coisa bem nos últimos anos, e o clube está cada vez mais perto de títulos, mas não nos enganemos, este desprezo que ainda existe a este tipo de jogador prejudica mais o clube do que o beneficia. E no Mundo, corremos o risco de ter cada vez menos jogadores deste género, incapazes de deslumbrar regularmente o adepto comum mas capazes de impulsionar uma verdadeira revolução ofensiva generalizada em termos tácticos, como resposta à que ocorreu em termos defensivos. E seria uma pena...

PS: Nunca é demais ressalvar este ponto: obviamente, é possível um clube não dar a atenção devida a este tipo de jogador e, não só ter sucesso como até jogar um futebol interessante. Não se pretende aqui dizer que é completamente ilógico preferir outro perfil de jogador, mas sim que, embora se possam perceber os motivos, ignorar este tipo de jogador é prejudicial pelos motivos aqui expostos...

PS2: Numa eventual discussão futura do post (nos comentários), pedia que se focassem mais nas ideias que aqui são transmitidas, rebatendo o que não concordam, do que propriamente nos jogadores que foram sendo dados como exemplo, que são mesmo só isso, exemplos, que servem apenas e só para tentar ilustrar essa ideia. Só digo isto para ver se a caixa de comentários não tem gente a dizer "Ah, mas o Bryan Ruíz é péssimo!!!" ou coisas do género.

5 de set. de 2017

“Se Queda!”. Ou a posição “6” do Sporting


Parecia iminente a saída de William Carvalho do Sporting. De início, todos os rumores apontavam para terras britânicas, e mais especificamente a Premier League. Entretanto, outros rumores foram surgindo, com propostas vindas de Espanha e França. A certa altura, o West Ham assumiu-se como o principal candidato à sua contratação – numa “novela” que muita tinta fez (e ainda faz) correr na imprensa – e parecia relativamente seguro afirmar-se que, após várias épocas de especulação e muitos rumores depois, o “14” de Alvalade se preparava para dar o salto competitivo que a sua qualidade há muito justifica.

Parecia...mas ainda não foi desta. Mantém-se assim por terras lusitanas o melhor médio defensivo da liga portuguesa nos tempos mais recentes (desde que Nemanja Matic partiu, também ele, para Inglaterra), um dos melhores jogadores da liga e, provavelmente, o melhor médio a vestir as cores dos “leões” desde o mágico Pedro Barbosa. É também – como provavelmente se consegue depreender da tendência inicial deste artigo – a manutenção daquele que se entende ser o melhor jogador do Sporting.

Um dos capitães de equipa (possivelmente “O” capitão, caso se confirme a transferência de Adrien Silva para o Leicester), é um jogador “da casa” e é peça fundamental do conjunto leonino há já quatro épocas. A dupla que forma com Adrien tem sido o principal ponto de estabilidade do futebol do Sporting nas últimas temporadas, e na sua melhor forma, contam-se pelos dedos os médios defensivos que oferecem maior qualidade ao jogo. É um jogador com estirpe de topo mundial - talvez o único em todo o plantel leonino – e está plenamente adaptado ao clube e ao modelo de jogo actual.

Porque é William tão bom?

Há, frequentemente, uma percepção errada do perfil de jogador que é William. Tradicionalmente, construíram-se no futebol dois estereótipos que ele destrói sempre que entra em campo. O primeiro é relativo à sua morfologia. Com quase 1,90m de altura e de origem luso-angolana, facilmente se tentaria colar a alguém do seu perfil a imagem de um médio que serve essencialmente para destruir jogo, e que não é muito capaz com a bola nos pés.

Nada mais falso. William afasta-se quase radicalmente dessa imagem, e é com bola que mais brilha. Tecnicamente refinado, a sua capacidade para descobrir opções de passe que permitam avançar de forma sustentada no campo é especial, mesmo entre médios que tradicionalmente não seriam associados ao estereótipo acima referido. No entanto, o que mais impressiona nele (e que influencia todas as suas qualidades com bola) é a forma quase gélida como é capaz de resistir à pressão. O "14" dos leões sente-se naturalmente confortável em espaços curtos e congestionados, e a pressão adversária nunca afecta a calma e a serenidade com que pensa, decide e executa. Recebe, sempre de cabeça levantada, procura a melhor solução e define. E quando a solução não surge de imediato, é também perito a temporizar e a fazer a bola circular, até que estejam criadas as condições para o desequilíbrio. A partir da posição 6, gere a equipa quando esta se encontra em momentos de organização ofensiva, e liga-a com maior qualidade em todos os momentos com bola. Uma característica genética e rara, que o distingue de muitos outros bons médios.

O segundo estereótipo é o de que o médio defensivo está lá, principalmente, para defender, e que para tal tem de estar constantemente na zona da bola, de forma a poder desarmar o portador da mesma e travar os ataques adversários. Sim, é verdade que, com William no lugar de Battaglia (e com a saída de Adrien), a equipa provavelmente perderá alguma solidez defensiva nos momentos de transição ataque-defesa, bem como alguma capacidade de sucesso nos duelos individuais e nas bolas divididas. No caso específico da posição “6”, no entanto, isso não se deve a uma menor qualidade defensiva de William no geral, mas antes à natureza mais impulsiva de Battaglia e Adrien, que cobrem um maior raio de acção e, consequentemente, disputam (e ganham) um maior número de duelos. 

É sobretudo nas qualidades cognitivas que residem as maiores valias de William. Um "6" que defende de forma diferente. Pela forma como procura recuperar a bola em vez de "cortá-la", é um médio que já está preocupado com a qualidade da sua equipa com bola, mesmo quando esta ainda não a tem. Pode-se afirmar, por outras palavras, que defende de uma forma moderna, procurando antecipar e influenciar acções adversárias através do seu posicionamento e da sua postura (sendo um jogador quase exemplar nos aspectos mais técnicos, como a correcta colocação dos apoios, por exemplo), e que dessa forma consegue forçar vários erros que permitem a recuperação da bola. 

Não raras vezes, a forma como William se move dentro do campo é alvo de crítica e até chacota, e as acusações à sua velocidade de deslocamento são já clássicas. No entanto, nas velocidades que mais influenciam o jogo - a de execução e a de raciocínio -, William é um jogador bastante veloz.

Para além de William

Face à tremenda qualidade que possui, é natural que a diferença entre William e as restantes opções para a posição “6” seja qualitativamente significativa. João Palhinha é ainda um jovem sem a qualidade necessária para assumir a posição, sendo até possível que coleccione alguns minutos na equipa B e que volte a ser cedido a um clube da primeira liga em Janeiro, para jogar com regularidade. Já Radosav Petrovic encaixa no perfil estabelecido por William ao longo das últimas temporadas. O sérvio é um médio com a serenidade e compostura com bola que se exigem para o lugar. No entanto, defensivamente apresenta-se muito pouco intenso, e mesmo em termos posicionais não prima pela excelência. Noutro contexto, até poderia ser uma boa alternativa a um titular da posição, mas esse não parece ser o caminho escolhido pelo treinador. Ambos os jogadores deverão ser carta fora do baralho na maioria das partidas, embora Petrovic até possa ter alguma utilidade, sobretudo nos jogos teoricamente mais acessíveis e disputados em Alvalade.

Depois, há Rodrigo Battaglia, que foi até agora a escolha de Jorge Jesus para o lugar. O argentino possui a capacidade física e atlética que o treinador do Sporting tanto aprecia, e adiciona-lhe algumas qualidades técnicas, nomeadamente ao nível do transporte de bola. Por outro lado, é mais uma adaptação ao lugar, pois jogou os últimos anos da sua carreira como “box-to-box” (com alguma qualidade, refira-se), sendo que todas as suas características com bola apontam também para esse papel dentro do terreno de jogo. Possui limitações claras em termos cognitivos – principalmente ao nível da correcta percepção e gestão do ritmo do jogo, que depois influencia negativamente a sua tomada de decisão – e apesar da capacidade de transporte, o facto de se decidir muitas vezes por uma má opção (ou de nem sequer conseguir identificar propriamente as opções à sua disposição em cada jogada) faz com que a sua capacidade de ligar sectores e corredores seja mediana, na melhor das hipóteses.


Perante este cenário – e apesar da perceptível vontade do jogador em rumar a outros campeonatos, mais competitivos –, é inegável que a manutenção de William Carvalho é uma excelente notícia para Jorge Jesus e para o Sporting. Veremos agora como irá o jogador entrar na equipa actual.

22 de ago. de 2017

Velocidade de Raciocínio... e as declarações de Manuel Machado


Este vai ser um texto muito simples, com duas partes...

Iuri Medeiros e a Velocidade de Raciocínio

Esta primeira parte do texto é sobre um momento do jogo que opôs o Vitória SC ao Sporting, mais concretamente a assistência de Iuri Medeiros para o quinto golo da equipa comandada por Jorge Jesus. Muito haveria a discutir sobre este Sporting (tanto numa perspectiva mais imediata como noutra muito mais abrangente), mas a ideia desta primeira parte do texto é só perceber onde está o mérito desta acção de Iuri Medeiros. A execução em si foi simplicíssima, mas a confusão entre a simplicidade de uma execução e o raciocínio a que esta subjaz - ou seja, achar-se que a dificuldade na acção de um jogador com bola é directamente proporcional à dificuldade técnica da mesma - leva a que uma acção como esta não seja gabada como merece. O mérito de Iuri aqui é puramente intelectual, na forma como leu a situação antes de toda a gente, percebeu qual o movimento do defesa contrário antes sequer de lhe chegar a bola e que, devolvendo a bola a Adrien de primeira e contra o movimento do defesa, isolaria imediatamente o colega. A velocidade - e qualidade! - de raciocínio que Iuri demonstrou num lance tão aparentemente simples é, de resto, o que muitas vezes tem faltado ao ataque do Sporting neste início de temporada (inclusive no jogo em Guimarães, apesar do resultado), pelo que faz todo o sentido que lhe seja dado um papel cada vez mais preponderante na equipa. Ultrapassar definitivamente Bruno César no lote de opções para a posição já seria um começo agradável...

As declarações - e a latente incoerência - de Manuel Machado

A segunda parte deste texto versará sobre as declarações de Manuel Machado no final do jogo entre o Porto e o Moreirense. O treinador português falou sobre a forma como os resultados da terceira jornada do campeonato espelham o desnível enorme entre os três grandes do futebol nacional e os restantes clubes, e que este desnível tão grande contribui muito negativamente para o espectáculo oferecido pelo futebol português, na globalidade. Ora, obviamente é complicado discordar destas declarações. O nosso futebol é, de facto, brutalmente desnivelado, e esse desnível (nomeadamente na distribuição monetária dos direitos televisivos), que tem tendência a aumentar ainda mais, a longo prazo só traz consequências negativas a todo o nosso futebol, incluindo os que no curto prazo são claramente mais beneficiados por receberem uma parte maior do bolo - os três grandes clubes portugueses.

Mas, ao mesmo tempo que alerta - e muito bem! - para os enormes problemas que uma liga cada vez mais tricéfala traz ao nosso futebol e ao espectáculo proporcionado, Manuel Machado diz também isto:

"A organização e cumprimento da estratégia delineada, que passava por jogar com um bloco baixo e sair em contra-ataque, deixa-me satisfeito. Não foi a estratégia que falhou, foram erros individuais, particularmente no segundo golo, em que tentámos sair com o FC Porto a pressionar num bloco subido."

Considerando que a parte de "sair em contra ataque" só foi minimamente cumprida quando o jogo já estava resolvido, estas declarações põem claramente em cheque as ideias discutidas acima. Uma equipa que, independentemente da diferença de recursos para o adversário, abdica de jogar de tal forma que apenas acerta quatro passes em 22 minutos (!!!) contribui de que forma para o espectáculo? E o que o treinador retira é que a equipa esteve mal... quando tentou sair da pressão do FCP (ou seja, tentou jogar à bola) e falhou. Como é que uma pessoa que diz isto pode nas mesmas declarações mostrar preocupação com o "fim do espectáculo"? E o facto de o desnível entre as equipas ser grande não é desculpa. Aliás, se o próprio treinador dá claramente a entender que o jogo estava perdido à partida, e se está, de facto, preocupado com a deterioração do espectáculo, o que tinha a perder em vir tentar discutir minimamente o jogo? Será que tinha medo de ser goleado? Dando um exemplo rápido de uma equipa com recursos similares, o Feirense com Nuno Manta disputou 4 jogos com os grandes na época passada, apenas perdeu dois (ambos pela diferença mínima, diga-se) e em nenhum deles entrou em campo só para jogar nos últimos 30 metros e sem tentar fazer o que quer que fosse com a bola.

Apesar de achar que é uma abordagem profundamente errada, consigo aceitar que um treinador defenda que, nestas circunstâncias, a melhor opção é passar o jogo todo a defender e nem sequer tentar atacar minimamente o adversário. Agora, vir defender isso e ao mesmo tempo passar a ideia que se preocupa com o espectáculo é, no mínimo, risível. É, de facto, muito importante que se olhe seriamente para o nosso campeonato e se procurem formas de ter um campeonato mais forte, equilibrado (ou seja, um maior equilíbrio por cima) e em que o espectáculo seja mais valorizado. E um bom primeiro passo para isso era despedir treinadores como Manuel Machado e arranjar quem valorize um bocado mais o jogo...

10 de abr. de 2017

O jogo sem bola quando a nossa equipa a tem - Jorge Jesus e Francisco Geraldes


"Todos estes jovens têm qualidade individual, mas o futebol tem duas componentes, coletiva e individual. Olhando para os 90 minutos de um jogo, tirando o Messi, em 80 minutos os jogadores não têm bola. Por isso se não ensinarmos os jogadores os aspectos táticos não serve de nada ter muita técnica. Se passa 85 minutos sem bola no pé, não interessa nada. O Messi e o Ronaldo é que passam mais tempo com bola. Nós só olhamos para o jogador quando ele tem bola e não pode ser assim."

Estas palavras foram ditas por Jorge Jesus, há exactamente um mês atrás. Este proferiu-as no sentido de responder a uma pergunta que lhe foi feita por um jornalista sobre a possibilidade de Francisco Geraldes jogar na posição "8", no seu modelo, mas, como se percebe, Jorge Jesus vai um bocado para além dessa questão.

Quanto à afirmação propriamente dita, e que serve de ponto de partida para o post, tenho a dizer que concordo em grande parte com ela, mas que tenho mais reservas quanto à intenção de Jorge Jesus ao dizê-la. Concordo em grande parte porque, de facto, é extremamente comum ignorar-se o que um jogador faz quando não tem a bola em seu poder, quando é exactamente nessa situação que passam a esmagadora maioria do jogo e na qual têm de ser fortes para criarem, através da sua movimentação, os melhores contextos possíveis para a equipa. Mas parece-me que há aqui um certo preconceito de Jorge Jesus, ao usar estas palavras para se referir, em parte, ao caso de Francisco Geraldes.

Quando se fala dele, normalmente gaba-se a criatividade, inteligência e qualidade técnica que possui. E bem, claro. Mas o que pode não ser tão claro, e que servirá de ponto principal deste post, é que essa criatividade e inteligência que ele tem não se manifesta apenas quando ele tem a bola. Também nos momentos em que são os colegas que têm a bola esses atributos aparecem, na forma como ele se movimenta e procura os posicionamentos mais adequados ao contexto e, acima de tudo, que mais agridam o adversário. Jorge Jesus referiu que a maioria dos jogadores passam 80 minutos sem tocar na bola, mas há que ver que, num contexto em que a equipa deles passe mais de 60% dos jogos com bola, a maioria desses 80 minutos em que os jogadores não têm a bola são passados em momentos ofensivos. Segundo a própria lógica de Jorge Jesus, há então que admitir que estes momentos são absolutamente cruciais para definir um jogador, e os parágrafos e pequenos vídeos seguintes servirão para mostrar o que de bom Francisco Geraldes tem, hoje, para apresentar neles.

Como foi dito, a inteligência está longe de se manifestar apenas nas decisões que se tomam com bola. E o notável jogador do Sporting mostrou-o, nos cerca de 15 minutos que passou em campo no jogo do passado sábado, com o Boavista. Já Podence tinha estado a um nível acima do habitual titular (Gelson) a esse respeito, ao procurar muito mais espaços centrais e tentar dar soluções diferentes do habitual, mas com a entrada de Geraldes então viu-se algo que só tem paralelo no que fazia João Mário no ano transacto. Numa ou noutra situação o posicionamento do jogador não foi o ideal (por se aproximar demasiado), mas na maioria das situações esse apoio curto que o jogador forneceu não só era o necessário, como era o que invadia o espaço mais perigoso, sendo normalmente entre sectores de adversários. Mas passemos aos vídeos, que permitirão explicar mais alguns pormenores... Em primeiro lugar, alguns vídeos de acções em que o Geraldes não faz nada de minimamente especial com a bola (em metade dos clips nem sequer lhe toca).





Um pouco por todos estes pequenos clips, salta à vista a intenção do jogador leonino em invadir espaços entre as linhas do adversário, de dar boas linhas de passe horizontais/diagonais quando a bola está no corredor lateral e, acima de tudo, a percepção muito interessante que tem da melhor forma de, realmente, dar essas linhas de passe. Às vezes há a tendência deste tipo de jogadores se aproximarem demasiado do portador da bola a todo o instante, quase como se lha fossem pedir ao pé porque a sua vontade é simplesmente de a terem. Isto faz com que dificilmente (embora não seja impossível) recebam a bola em melhor situação do que a do anterior portador. Já o Geraldes, na clara maioria das situações, procura sempre dar opção num local em que, a receber o passe, se crie qualquer tipo de vantagem (dando um exemplo rápido, como nesta imagem).

É esta qualidade que, parece-me, Jorge Jesus ainda não percebeu exactamente em Geraldes, e que, a juntar a tudo o resto, o leva a ser, a meu ver, claramente a melhor opção para jogar na direita, porque a equipa do Sporting está claramente necessitada de um jogador que, partindo da faixa, ofereça este tipo de dinâmica posicional e ligações a zonas fulcrais em posse.

Mas claro, mesmo jogando pouco tempo, também não podia deixar de ter as suas características acções de qualidade com bola (a tal "qualidade individual" de que Jorge Jesus fala):




O passe a rasgar na 1ª situação será, obviamente, o que mais saltará à vista, mas a calma com que procura uma solução curta e vertical mesmo que dentro da sua própria área e ligeiramente pressionado (embora aqui, diga-se, o momento em questão ajude um pouco) na 2ª situação e especialmente o passe para Alan Ruiz na 3ª indiciam claramente a qualidade dele com bola, que já todos conhecemos.

Para o final, deixei uma situação que considero quase paradigmática. Porque, apesar de curta, mostra muita coisa sobre dois jogadores do Sporting. Dois perfis de decisão e formas de ver o jogo opostas, a meu ver uma (muitíssimo) melhor que a outra. 


Geraldes faz tudo bem. Mal Schelotto recebe a bola, procura dar o máximo de profundidade num primeiro momento, por forma a ou conseguir encontrar espaço nas costas da defesa ou, o mais provável, de a obrigar a recuar rápido, isto enquanto acompanha a corrida do colega. Depois, no momento certo, trava, aproveitando que a defesa ia agressivamente na direcção oposta e oferece uma linha de passe central. Infelizmente para ele, jogadores como Schelotto (que, embora seja um dos piores casos a este respeito, está muito longe de ser o único nesta equipa do Sporting) não sabem muito bem o significado da palavra "travar". Nem da ideia "pensar enquanto jogo à bola", note-se... Em vez de perceber a ideia do colega, nem sequer o viu, qual burro com palas, continuando a correr furiosamente até à bandeirola de canto, conseguindo mesmo "ganhá-lo". Alvalade aplaudiu, pois claro, e só não aplaudiu com uma intensidade muito maior porque o jogo estava resolvido. Este tipo de jogador ter muitos minutos é uma das maiores causas para o insucesso contínuo do Sporting, e aqui refiro-me a muito mais que ao Schelotto, que houve e há vários, ao longo dos anos, que enganam muito mais que ele (também são melhores, o que não é propriamente complicado). Mas isso é conversa para outros posts...

8 de mar. de 2017

Bas Dost, o desenquadrado...


... literal e figurativamente.

Literalmente por muitos o acusarem de nunca se enquadrar com a baliza adversária, quando recebe, e daí extrapolarem para a ideia de que ele é praticamente inútil com bola. Se é verdade que ele por vezes deixa passar oportunidades em que o contexto lhe pede para o fazer (embora seja ainda assim uma crítica exagerada, na forma como é feita), é acima de tudo a extrapolação que importa rebater. De um avançado ser pouco móvel e de não procurar com frequência oportunidades de receber e rodar para a baliza contrária, não se segue a sua inutilidade nesse momento. Um dos papéis mais importantes de um avançado é saber servir de apoio frontal, compreender as movimentações e intenções dos colegas, saber combinar com eles e mesmo conseguir fazer algo de inesperado através desse entendimento dos colegas e do contexto.

Ao contrário de muitos, logo nos primeiros jogos lhe vi muitos destes atributos. Apenas achava que falhava bastante na forma como (não) se movimentava, muitas vezes, para servir de apoio, tendo algumas dificuldades para perceber o contexto na questão da movimentação fora da área. Mas o que lhe podia faltar nessa movimentação, não só pode ser explicado pelo que lhe exigiam no Wolfsburg (que ficasse nas costas da defesa para finalizar, e que não saísse muito desse registo), como lhe sobrava na forma como se associava quando de facto tinha a bola. Há também dizer que, ao adaptar-se ao que Jorge Jesus lhe pedia, melhorou bastante nesse sentido (embora seja, por ventura, a área em que ainda devesse evoluir mais).

Um tipo de movimentação em particular, fora da área (embora normalmente perto dela), em que ele é bastante forte, é, quando vê colegas à sua ilharga e a bola vem com força, simular que vai dominar a bola, mas deixá-la passar para um colega e movimentar-se rapidamente nas costas da defesa. Isto cria bastante dúvida nos defesas, podendo facilitar não só a recepção do jogador que tem a bola, como um eventual passe desse jogador a aproveitar a subsequente movimentação.

Abaixo fica um exemplo, embora esteja longe de ser o melhor (era o único que estava no resumo...).


Figurativamente... porque é um jogador que foge da caixinha em que quem olha para um pinheiro de 1m96 o pode tentar encaixar. Poder-se-ia esperar, por parte de quem não o conhecesse, um tanque de guerra que vivesse do choque e do jogo aéreo. Na verdade, não se destaca em nenhum desses. É bastante franzino para a sua altura, os seus números fantásticos de golos devem-se muito mais à forma como se movimenta dentro da área do que a qualquer supremacia física e, acima de tudo, a forma como procura sempre em primeiro lugar os colegas para os enquadrar (juro que não foi de propósito! ), assistir ou combinar, sendo perfeitamente capaz de ignorar uma boa oportunidade de remate se vir um colega em melhor situação. O que só dá crédito ao registo de golos que tem. Para além disso, não se fica por "dar em quem sabe". Mesmo ao primeiro toque, é capaz de descobrir soluções inovadoras e com uma dificuldade cognitiva bastante elevada.

Foge também do que é a equipa actualmente. O Sporting cai muitas vezes numa falsa atracção, procurando exagerar nos cruzamentos para ele, pensando que é a melhor forma de o aproveitar. Não é, pelo que foi dito acima. Na recepção ao Vitória SC, por exemplo, foi facilmente o jogador que mais coisas diferentes criou em campo. Merecia jogar no Sporting do ano passado, por exemplo, que praticava um futebol imensamente mais criativo colectivamente. Jonas está obviamente numa liga diferente de todos os outros avançados do nosso campeonato, mas se tivesse de escolher alguém para fazer parelha com ele, era o Dost. O que é um dos melhores elogios que lhe consigo fazer...

No fundo, e mais uma vez, nem tudo o que parece é. Poucos esperariam de um avançado pouco ágil e sem atributos técnicos especiais de 1m96 acções como a do clip abaixo (e há mais de onde estas vieram, são só uns poucos exemplos), mas é por isso que há que ser cuidadoso na análise, e procurar analisar os jogadores pelo que são.

6 de mar. de 2017

Sporting vs Vitória: JJ, Palhinha, Geraldes e a importância de ter a bola


«A entrada do Palhinha era para parar o coração do V. Guimarães. É verdade que melhorámos defensivamente, mas não melhorámos com a bola. O William já estava cansado, depois de ter feito uma primeira parte excelente com bola e sem bola. O Palhinha é um jogador mais defensivo, mas não tem uma saída tão forte. Tivemos de descer mais e de recuar, acabando por não conseguirmos segurar a vantagem que tínhamos.»
As frases são de Jorge Jesus, na sua análise ao que correu mal na 2ª parte do jogo do Sporting vs Vitória. Começo por dizer que me parecem afirmações que acabam por se contradizer. JJ admite que o Sporting não melhorou com bola, aquando da entrada de Palhinha, e depois refere que Palhinha não tem uma saída tão forte, referindo-se obviamente à qualidade que o jovem médio defensivo oferece na fase de construção. Ou seja, JJ sabe que Palhinha é fraco com bola, mas esperava que a equipa melhorasse com bola depois da entrada dele em campo? Sinceramente não percebo. 

Através das suas afirmações, JJ dá a entender que o facto do Sporting não ter conseguido ter bola, obrigou a equipa a recuar mais e com isso permitiu ao adversário chegar com mais perigo à baliza do Sporting. Concordo totalmente. Mas então porque é que JJ não tinha no banco um médio com mais qualidade com bola? Alguém que sabe perfeitamente gerir o ritmo do jogo? Alguém que sabe quando deve guardar a bola para a equipa se organizar ou quando deve soltar logo para a transição rápida?

E é aqui que entra Francisco Geraldes. Obviamente que ninguém sabe qual seria o resultado final se em vez de Palhinha tivesse entrado Geraldes mas uma coisa sabemos: Com bola, o Sporting ia ser muito mais capaz. Com bola, o Sporting ia circular com mais qualidade. Com bola, e é aqui que me parece importante focar bastante atenção, o Sporting ia evitar que o adversário criasse perigo. Há uma bola em campo, e se é o Sporting que a tem, o adversário não cria perigo. E sendo o Sporting a equipa com mais qualidade individual quer em campo quer no banco, não me parece de todo difícil que fossem capazes de gerir o jogo com bola, não deixando assim que o Vitória os "empurrasse" para trás.




14 de jun. de 2016

Petrovic no Sporting. Para "lutar" com William ou para mostrar a Semedo o que é qualidade na saída de bola?

Muita qualidade na fase de construção quando actua como central (será igual actuando como médio defensivo?). Com espaço, progride, fixa adversários e solta a bola. Capacidade de colocar a bola entre linhas através de passes verticais. 

Ficam aqui alguns gifs com momentos de Petrovic, actuando como central. (Nº 8, central do lado esquerdo)

Inteligente na maneira como percebe para onde deve conduzir a bola de modo a libertar espaço para o seu colega conduzir
Com espaço conduz e opta preferencialmente pelo passe vertical
Conduz para fixar. Qualidade no passe vertical entre-linhas
Passe vertical novamente
Aqui como central do lado direito, conduz e procura o apoio frontal
Com espaço, conduz, Com colegas entre-linhas, executa o passe. 


Embora me pareça que a ideia de JJ será contar com Petrovic para suplente de William Carvalho, o sérvio pode ser uma opção muito agradável para central, principalmente contra equipas muito recuadas, em que um passe vertical ou uma condução com o objetivo de fixar para libertar pode ser determinante para as desorganizar. 

P.s- Embora não tenha sido muito testado defensivamente, pareceu-me demonstrar qualidade ao nível do posicionamento. 

3 de jan. de 2016

Adrien e a influência do modelo de jogo

Apesar de se notarem mais dificuldades no seu futebol contra equipas mais recuadas e que dão menos espaço, Adrien é agora mais jogador do que era há 6 meses, do que era há 2 meses. Sem bola, as diferenças são óbvias. Mais conhecimento do jogo, maior capacidade de perceber quando e onde deve estar. Percebe o contexto (bola, colegas, baliza), e ajusta em função dele. Com bola, o facto de estar inserido num modelo de jogo com maior qualidade, ou seja, mais linhas de passe, mais apoios próximos, mais mobilidade e variedade de movimentos, permite-lhe ter pela frente situações de menor complexidade e com isso melhorar o seu rendimento em campo. Apesar de não ser um médio criativo, as suas decisões melhoram à medida que o Sporting se aproxima do modelo de jogo que o seu treinador pretende. Goste-se ou não do tipo de médio que Adrien é, (e para mim há melhor que ele no Sporting), aceite-se ou não a opção de Jorge Jesus em fazer de Adrien o seu 8 titular, uma coisa é certa: Adrien é um jogador diferente graças ao seu treinador. 

Sem bola, são gritantes as diferenças. Muito mais inteligente na forma como se posiciona em campo, em função da bola, dos colegas e da baliza. Há 1 ano nem uma simples cobertura era capaz de dar. (Era preciso dar mais tempo ao Marco Silva não era?)
Passes verticais ou passes laterais? Depende! Num modelo de jogo como o de JJ, é natural que mesmo os médios menos criativos tenham mais facilidade em colocar a bola entre linhas, e porque? Porque o portador da bola tem sempre opções de passe, seja fora ou dentro do bloco. 
Não se pode afirmar que Jorge Jesus transformou Adrien num jogador mais criativo ou com uma tomada de decisão acima da média, o que se pode e deve afirmar, é que o maior rendimento de Adrien está diretamente relacionado com o modelo de jogo do seu treinador. 
Num modelo de jogo com mais dinâmica, com mais mobilidade, com mais opções de passe próximas, as debilidades de muitos jogadores ficam disfarçadas. 

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