Futebol, o jogo visto por milhões e analisado por milhares.
Um jogo que cria um espectro inacreditável de sensações em quase todos os que o
veem, desde o êxtase pelo golo que a nossa equipa marcou aos 90+5 e que nos deu
a vitória, ao desalento absoluto que sente alguém que viu exatamente esse jogo,
mas torcendo pela equipa contrária; passando por todo um conjunto de emoções intermédias. No entanto, toda esta paixão e até irracionalidade inerente
ao jogo esconde toda uma outra vertente. Vertente essa que, para choque de
muitos é… o jogo em si. Parece paradoxal algo aparentemente tão acessível às
massas, sobre o qual todos acham que têm opinião, ser na realidade algo tão
complexo, mas é o caso. É o desporto com mais variáveis e menos
constrangimentos (limitações do tempo de posse, por exemplo), e com uma exigência
em termos cognitivos e físicos (indissociáveis uma da outra, claro) sem paralelo.
Esta ilusão - mais concretamente a de que o jogo, por ser
aparentemente tão acessível a todos e tão popular, não tem grande complexidade - afeta uma
percentagem apreciável dos que o veem. Pelo que o ponto central de este post,
que vou defender abaixo, não deixa de ser ligeiramente irónico. E essa ironia reside em, apesar de muita gente estar iludida sobre o jogo em si por se deixar
inebriar por muitas coisas que quase parecem indissociáveis dele, como por
exemplo ser fanático por um clube ou deixar-se levar pelos chavões criados por
uma análise simplista do jogo, o próprio jogo, ser, em si, um jogo de ilusões.
O tal ponto central do post reside nesta última parte, e,
por isso, importa ser bem defendido. Como ponto de partida, achei por bem citar
um excerto muito interessante de uma
entrevista de Juanma Lillo ao jornal argentino
La Nación:
"(…) Y confundimos "posibilidad" con
"probabilidad". Si pones un esquema con todos atrás y Dios sólo
adelante, la posibilidad dice que puedes ganar, claro que puedes. Pero se
supone que uno extrema medidas para aumentar la probabilidad. Pero se trabaja
en la posibilidad. (…) El reglamento -dice sin decir- que para aumentar el
índice de probabilidades de ganar hay que dejar a un jugador con la posesión,
el tiempo y el espacio, de frente al arco contrario. Y lograr que un jugador
patee lo más cerca y lo más libre posible. Ahora: ¿hago algo para que eso se
dé? ¿O al final vamos a rezar?"
Lillo expressa uma ideia extremamente interessante, que ao
princípio parece completamente contra-intuitiva mas que, na realidade, é
acertadíssima - que é a de que o melhor livro alguma vez escrito sobre o jogo é
o seu regulamento, e que este nos diz quais as formas que nos permitem ter uma
maior probabilidade (e não possibilidade, conceitos que, aliás, distingue
habilmente) de vencer. Ou seja, que das regras do jogo facilmente se pode
deduzir que enquadrar jogadores para a linha defensiva contrária, com tempo e
espaço, aumenta a probabilidade de sucesso da equipa num lance, bem como deixar
um jogador o mais perto possível da baliza, sem adversários e, acrescento eu,
com o apoio de colegas; aumenta a probabilidade do sucesso nesse momento de
finalização.
Deixo aqui uma nota intermédia para dizer que, apesar de este post se ir focar completamente na equipa que
tem a bola, também é possível falar do conceito de ilusão para quem não a
tem, nomeadamente na utilização de algo que é comummente designado de
“pressing
traps” (um bom exemplo
aqui).
Continuando, a pertinência da citação reside na ideia de que, tal como Lillo consegue deduzir estes aspectos do
regulamento, também poderia deduzir, a meu ver, tanto do regulamento como até das
conclusões que tirou, a ideia de este ser um jogo de ilusões. Como referido
acima, aumentar a probabilidade de sucesso reside em aspetos como deixar os
colegas na melhor situação possível para finalizar ou em criar os melhores espaços
para a equipa entrar. Se a equipa jogasse apenas contra si mesma isto seria
relativamente simples, mas qualquer jogo de futebol envolve duas equipas
distintas, que procuram superar-se uma à outra (algo que, mais uma
vez, se pode retirar do regulamento do jogo). Isto cria vários
constrangimentos, e acima de tudo leva a que a criação dessas situações ótimas,
que aumentam a probabilidade do sucesso, seja bastante mais complicada. Uma
abordagem mais linear ao jogo ofensivo, que é a praticada pela clara maioria
dos treinadores, acaba por entrar em contradição com estas ideias. Isto porque, se
uma equipa procurar seguir em frente o mais rápido possível em todas as
situações, em consonância com essa tal linearidade, será muito mais fácil para
o adversário tapar-lhe os caminhos mais interessantes, condenando-a a acelerar
pelos que a afastam mais das tais situações vantajosas, muitas vezes
acabando “estrangulada” em direção à linha lateral, sem grandes possibilidades
coletivas de lá sair visto que a sua intenção era acabar o ataque logo de
qualquer maneira.
Entrámos numa encruzilhada, parece. Se temos um adversário,
que em princípio estará organizado de forma a tirar-nos esses caminhos que nos
levam a uma probabilidade elevada de sucesso (na prática, o foco de quem não tem
a bola muitas vezes não é bem esse, mas isso é toda uma outra análise que não é
para este post), como fazemos para os alcançar? É aqui, exatamente, que entra o
tal conceito de ilusão. Estes constrangimentos levam a que a única ou, pelo
menos, a melhor forma de alcançar as situações de probabilidade de sucesso
elevada a que uma equipa se deve propor seja a criação desses caminhos através
da ilusão.
Este conceito está intimamente relacionado com o de
criatividade coletiva, ou seja, saber usar a bola para manipular o adversário,
levando-o para onde se quer e, depois de iludido, aproveitar o espaço que se
criou e que aumenta mais a probabilidade de sucesso. Uma equipa criativa
coletivamente é uma equipa que procura caminhos não-lineares, porque sabe que
são esses caminhos que lhe vão permitir criar os melhores espaços. É uma equipa
que sabe, por exemplo, levar a bola ao corredor lateral não com vista a cruzar
ou a concluir a jogada por lá (embora o possa e até deva fazer se a situação em
que se encontra for claramente favorável a isso), mas sim a atrair o adversário
para esse espaço e tirá-lo de espaços mais valiosos, que depois está preparada
coletivamente para aproveitar. É, até, uma equipa que não se importa em trocar
a bola de forma aparentemente pouco objetiva entre jogadores adversários, já
que mesmo parecendo não estar a procurar a baliza no imediato, está a propiciar
constantes desposicionamentos e reajustes no adversário, que jogarão com as
expetativas deles e, acima de tudo, os distrairão do que a equipa que tem a
bola sempre procurou, que era o melhor espaço para entrar, aquele que, no
fundo, cria a maior probabilidade de sucesso. No fundo, é uma equipa que sabe
que a ilusão, tendo em conta o jogo em si e o seu regulamento, é o melhor
caminho para encontrar os espaços que quer.
PS: Numa tentativa, provavelmente vã, por parte do Honoris
de subir ligeiramente a média atual de posts do blog, que deve rondar o post bimestral, fui convidado a discorrer aqui. Como já disse ao chefe aqui do
tasco, a regularidade e até profundidade do que para aqui escrever vai depender
muito do tempo que for tendo, que é bastante volátil. Ou seja, em alguns
períodos até posso escrever aqui bastante (embora vá tentar que não sejam
paredes de texto tão grandes como esta), como noutros, possivelmente a
maioria, manterei a periodicidade atual de posts do blog (ou seja, para ai um
post por mês com 30 dias).