Este vai ser um texto muito simples, com duas partes...
Iuri Medeiros e a Velocidade de Raciocínio
Esta primeira parte do texto é sobre um momento do jogo que opôs o Vitória SC ao Sporting, mais concretamente a assistência de Iuri Medeiros para o quinto golo da equipa comandada por Jorge Jesus. Muito haveria a discutir sobre este Sporting (tanto numa perspectiva mais imediata como noutra muito mais abrangente), mas a ideia desta primeira parte do texto é só perceber onde está o mérito desta acção de Iuri Medeiros. A execução em si foi simplicíssima, mas a confusão entre a simplicidade de uma execução e o raciocínio a que esta subjaz - ou seja, achar-se que a dificuldade na acção de um jogador com bola é directamente proporcional à dificuldade técnica da mesma - leva a que uma acção como esta não seja gabada como merece. O mérito de Iuri aqui é puramente intelectual, na forma como leu a situação antes de toda a gente, percebeu qual o movimento do defesa contrário antes sequer de lhe chegar a bola e que, devolvendo a bola a Adrien de primeira e contra o movimento do defesa, isolaria imediatamente o colega. A velocidade - e qualidade! - de raciocínio que Iuri demonstrou num lance tão aparentemente simples é, de resto, o que muitas vezes tem faltado ao ataque do Sporting neste início de temporada (inclusive no jogo em Guimarães, apesar do resultado), pelo que faz todo o sentido que lhe seja dado um papel cada vez mais preponderante na equipa. Ultrapassar definitivamente Bruno César no lote de opções para a posição já seria um começo agradável...
As declarações - e a latente incoerência - de Manuel Machado
A segunda parte deste texto versará sobre as declarações de Manuel Machado no final do jogo entre o Porto e o Moreirense. O treinador português falou sobre a forma como os resultados da terceira jornada do campeonato espelham o desnível enorme entre os três grandes do futebol nacional e os restantes clubes, e que este desnível tão grande contribui muito negativamente para o espectáculo oferecido pelo futebol português, na globalidade. Ora, obviamente é complicado discordar destas declarações. O nosso futebol é, de facto, brutalmente desnivelado, e esse desnível (nomeadamente na distribuição monetária dos direitos televisivos), que tem tendência a aumentar ainda mais, a longo prazo só traz consequências negativas a todo o nosso futebol, incluindo os que no curto prazo são claramente mais beneficiados por receberem uma parte maior do bolo - os três grandes clubes portugueses.
Mas, ao mesmo tempo que alerta - e muito bem! - para os enormes problemas que uma liga cada vez mais tricéfala traz ao nosso futebol e ao espectáculo proporcionado, Manuel Machado diz também isto:
"A organização e cumprimento da estratégia
delineada, que passava por jogar com um bloco baixo e sair em
contra-ataque, deixa-me satisfeito. Não foi a estratégia que falhou,
foram erros individuais, particularmente no segundo golo, em que
tentámos sair com o FC Porto a pressionar num bloco subido."
Considerando que a parte de "sair em contra ataque" só foi minimamente cumprida quando o jogo já estava resolvido, estas declarações põem claramente em cheque as ideias discutidas acima. Uma equipa que, independentemente da diferença de recursos para o adversário, abdica de jogar de tal forma que apenas acerta quatro passes em 22 minutos (!!!) contribui de que forma para o espectáculo? E o que o treinador retira é que a equipa esteve mal... quando tentou sair da pressão do FCP (ou seja, tentou jogar à bola) e falhou. Como é que uma pessoa que diz isto pode nas mesmas declarações mostrar preocupação com o "fim do espectáculo"? E o facto de o desnível entre as equipas ser grande não é desculpa. Aliás, se o próprio treinador dá claramente a entender que o jogo estava perdido à partida, e se está, de facto, preocupado com a deterioração do espectáculo, o que tinha a perder em vir tentar discutir minimamente o jogo? Será que tinha medo de ser goleado? Dando um exemplo rápido de uma equipa com recursos similares, o Feirense com Nuno Manta disputou 4 jogos com os grandes na época passada, apenas perdeu dois (ambos pela diferença mínima, diga-se) e em nenhum deles entrou em campo só para jogar nos últimos 30 metros e sem tentar fazer o que quer que fosse com a bola.
Apesar de achar que é uma abordagem profundamente errada, consigo aceitar que um treinador defenda que, nestas circunstâncias, a melhor opção é passar o jogo todo a defender e nem sequer tentar atacar minimamente o adversário. Agora, vir defender isso e ao mesmo tempo passar a ideia que se preocupa com o espectáculo é, no mínimo, risível. É, de facto, muito importante que se olhe seriamente para o nosso campeonato e se procurem formas de ter um campeonato mais forte, equilibrado (ou seja, um maior equilíbrio por cima) e em que o espectáculo seja mais valorizado. E um bom primeiro passo para isso era despedir treinadores como Manuel Machado e arranjar quem valorize um bocado mais o jogo...



















