14 de nov de 2018

Pressão sem organização: o exemplo do Barcelona de Valverde

Há uns anos atrás, entrevistado por Pedro Ricardo da Silva Batista no âmbito da sua tese de mestrado ("Organização Defensiva: Congruência entre os princípios, sub-princípios e sub-sub-princípios de jogo definidos pelo treinador e a sua operacionalização"), Vítor Pereira - atual campeão chinês ao serviço do Shanghai SIPG - referia o seguinte sobre o momento da organização defensiva, mais concretamente sobre os momentos de pressão:

«O que eu posso dizer é que, o que pretendo na minha equipa, é uma equipa com uma organização defensiva inteligente, inteligente no sentido de diferenciar ritmos, ou seja, às vezes parece passiva mas quando identifica os referenciais de pressão, acelera e torna-se imediatamente pressionante e agressiva. Eu não quero uma equipa que pressione constantemente, eu quero uma equipa que espera pelo momento certo para acelerar sobre o adversário em bloco, de perceber o momento colectivo de pressão, e não uma equipa que a cada passe pressiona o adversário. É uma organização zonal, que se torna pressionante nos momentos que eu acho que ela deve ser pressionante, porque quem pressiona sem cérebro, quem pressiona as bolas todas morre a meio do campo, perde discernimento. Eu não quero esse tipo de organização defensiva, eu quero uma organização em que os 11 jogadores do campo entendam o momento em que temos de ser agressivos, quando temos de acelerar sobre o adversário, quando de facto funcionamos em bloco, devemos identificar os momentos de pressão colectivamente».

Faz todo o sentido não faz? Agora vejamos o que faz o Barcelona de Valverde neste momento do jogo.

Ausência de coberturas defensivas, e nenhuma preocupação em controlar o espaço. Querem sempre r
Nenhuma preocupação com as coberturas defensivas de modo a tornar o bloco defensivo o mais compacto possível. O objetivo é sempre tentar aproximar dos jogadores do Bétis para recuperar a bola, e o resultado é quase sempre o mesmo: muito espaço entre a linha defensiva e a linha média, e os jogadores do Bétis a conseguirem receber a bola apenas com os defesas do Barcelona pela frente. 

Apenas alguns exemplos (podiam ser muitos mais só no jogo com o Bétis) da desorganização defensiva que existe no Barcelona de Valverde. Uma equipa sem o mínimo de trabalho coletivo no momento defensivo, que muito raramente consegue definir de forma eficaz as zonas e os timings de pressão.

Esta época tem sido demasiado fácil construir e criar situações de golo contra o Barcelona, e não é por acaso que têm o pior registo defensivo dos últimos 43 anos: 18 golos sofridos em 12 jornadas. 







13 de nov de 2018

O (des)aparecimento de Oliver

"Lá fora perguntam-me constantemente como é que se vai buscar jogadores ao futebol português se as equipas não nos permitem perceber as qualidades deles de forma consistente, por estarem maioritariamente envolvidos em tarefas defensivas ou em duelos"
José Boto

A frase do novo Chief Scout do Shakhtar é contundente, e dá uma imagem perfeita do porquê de verdadeiros craques como Oliver passarem totalmente despercebidos em Portugal. A chave para isto são os modelos de jogo pouco integradores para este tipo de talento. Olha-se para Oliver, e aquilo que acrescenta na posição recuada onde agora actua é muito pouco em comparação com tudo o que pode dar na criação, na definição. Mas para isso é preciso ter a sorte de encontrar o que muitos outros talentosos como ele não encontraram e o que Bernardo Silva teve a sorte de encontrar: um modelo de jogo que o beneficie. Vemos a forma como o Porto joga, olhamos para as melhores qualidades de Oliver, e damos por nós a avaliar um jogador criativo pelo número de recuperações de bola que teve, ou pelo número de duelos que venceu. E tudo por força das exigências de um jogo em que tenta sobreviver. É isto que Oliver tem feito em Portugal; nada mais do que tentar sobreviver.


Oliver recebe uma bola difícil, pressionado, consegue sair da situação de maior dificuldade e quando esperava por auxílio dos seus colegas (pelo movimento do central para lhe dar uma solução de passe, ou do médio defensivo para lhe permitir mais uma opção) ninguém se move um centímetro. Apenas Maxi com a sua disposição natural para receber a bola tenta dar-lhe uma opção de passe válida. Oliver volta a virar-se e joga na frente. Percebe-se, aqui, o porquê de Oliver não ter aparecido antes e prevê-se por isto um novo desaparecimento. Afinal, as condições que o treinador lhe dá não são as melhores para que se possa evidenciar.



Se o modelo de jogo fosse outro, Oliver transportaria para o jogo o que tem de melhor. Neste lance, nem tem os apoios correctamente orientados para a situação em que poderia receber a bola, talvez por falta de estímulos. Repare-se, a imagem é uma sugestão de movimentos, de posições, para tirar partido da largura, dos apoios e da profundidade. Se em vez de jogar logo em Marega, se tivesse procurado Oliver primeiro, Oliver poderia aproveitar os movimentos de profundidade para libertar Soares entre linhas e assim criar uma situação de 4x4+GR. Caso o ajuste do Braga fosse para manter a linha alta, poderia ele então, com um passe mais fácil que o do central, tentar explorar o passe em profundidade. Porém, o jogo que Sérgio Conceição promove, apesar da eficácia e de ir de encontro às características de muitos dos seus jogadores, não é tão complexo assim. E essa falta de complexidade retira de jogadores como Oliver a possibilidade de vingar regularmente. Assim como apareceu tenderá a desaparecer, simplesmente porque o seu jogo não é este.


Numa altura em que os grandes clubes contratam jogadores cada vez mais cedo, cada vez mais novos, é urgente que Oliver tenha a fortuna do encontro perfeito com o treinador ideal para que daqui por uns anos não seja apenas mais um caso de jogador com uma categoria enorme que passou ao lado de uma magnífica carreira.

12 de nov de 2018

O regresso do protagonismo ao corredor central

O Manchester City de Guardiola é uma equipa incrível para quem quer estudar o jogo, e analisar um modelo que procura arrasar cada adversário que defronta. Não apenas ganhar, mas procurar ter um domínio tal das incidências do jogo que deixe o adversário reduzido à uma só possibilidade de os vencer: Aproveitar ao máximo toda e qualquer situação que o City permita. Eficácia na forma como consegue ganhar faltas perto da área, e nas poucas situações que tem tentar finalizar; Eficácia na forma como consegue materializar os pouquíssimos lances de contra ataque em que consegue chegar em boas condições até à área que Ederson guarda; Eficácia no aproveitamento dos erros individuais que os jogadores de Guardiola vão cometendo ao longo do jogo; Eficácia no aproveitamento dos lances onde a sorte tem um papel importante para o desenrolar do lance.

É incrível o domínio que os comandados do génio catalão têm do jogo e o controlo do adversário, por força de uma grande premissa: ter a bola. No final do jogo Guardiola elogiava a forma como os seus jogadores guardavam a bola para não permitir que o adversário conseguisse atacar, e para que não tivesse possibilidade de lhes marcar um golo. Mas há mais do que apenas circular a bola entre os seus jogadores. Aquilo que não é amplamente reconhecido à Guardiola é na verdade a sua maior força: a destreza táctica. Pep é tão obcecado com os comportamentos tácticos dos seus jogadores como outros treinadores a quem se reconhece amplamente tal característica, a diferença reside no facto de o fazer com bola. É mais difícil assim, e não é para todos.

O papel de Kyle Walker, que no início se pensava que poderia ser para fazer o corredor (pelas suas características físicas), é um exemplo dessa mestria de Pep. Não só surpreendeu tudo e todos dando-lhe um papel muito pouco relevante do ponto de vista ofensivo, como ainda o recuou no terreno quando a equipa contrói, dando-lhe a missão de ser terceiro defesa. E ele vai ajustando os seus movimentos consoante a zona e o jogador que tem a bola. Tanto está numa linha de três, permitindo aos centrais, claramente mais dotados do que ele do ponto de vista técnico e na decisão, que sejam protagonistas na construção, como se coloca em cobertura no seu corredor (do lado direito, numa posição central) para prevenir uma mudança no centro de jogo. Depois, numa fase seguinte, tem como missão o controlo dos contra-ataques do adversário. É um dos encarregados, assim como Fernandinho e os defesas centrais, da gestão das referências de transição do adversário (controlo dos homens livres, jogadores que não estão tão focados no processo defensivo da sua equipa, quando é o City que está em posse no meio campo adversário). Essa nuance, aparentemente simples, tem permitido à Guardiola uma segurança incrível em posse, e nos primeiros momentos de transição: Por força das características individuais de Walker que é rapidíssimo e forte nos duelos, e também por retirar dele responsabilidades que o levariam a errar e a perder lances consecutivos, sabendo-se que errando em posse, em zonas adiantadas, não estaria tão bem colocado para ajudar a equipa a defender em transição. Guardiola protege Walker, dá-lhe um papel de destaque num momento importante da equipa, protege a equipa, e ainda que aqui ou ali vá cometendo erros importantes tem um jogador que lhe custou muito dinheiro integrado num modelo onde também eu não pensei que fosse ter esta preponderância. Mas o controlo de Guardiola não acaba por aqui. A forma como no outro corredor Mendy se relaciona com Silva ou com o Extremo que joga daquele lado (ao nível dos movimentos de profundidade, de quem aparece em zonas de finalização, de quem fica na cobertura, ou de quem fica a controlar o contra ataque) é exemplar. Daí a supremacia, até nas segundas bolas.





E é dessa relação, dessa missão táctica dos jogadores mais recuados, que aparece a liberdade de movimentos para os médios ofensivos. Liberdade essa que resulta do entendimento de Guardiola que necessitava, dadas as características dos seus médios, que fossem eles os protagonistas da criação, definição, e aparecimento em zonas de finalização. Como em Barcelona, e ao contrário do Bayern onde quem mandava eram os extremos, o City joga como os médios ditarem. Claro que, sempre com as características individuais de cada um em jogo. de Bruyne não faz os mesmos movimentos dos Silvas e de Gundogan, por exemplo. O belga fica sempre mais, enquanto os outros rompem e movimentam-se nas cabines telefónicas que os adversários lhes deixam. O maior protagonismo dos médios (e que médios tem Guardiola!), dá a esta equipa um perfume diferente. Torna-a mais parecida ao Barcelona do que o Bayern, na forma de chegar ao último terço. E que bem! Porque agora conseguimos finalmente ver o Bernardo e o Silva a jogarem onde e como devem jogar, dado o seu valor.



Dentro dessa maior procura dos médios para definir, que têm liberdade total para aparecer em todo lado (veja-se o posicionamento larguíssimo dos médios nestes últimos jogos contra o Shakhtar e contra o United, e a forma como aparecem simultaneamente em zonas de finalização), destaca-se um princípio muito trabalhado por Guardiola: a procura do médio que está do lado contrário. É uma tendência simples de entender: quando o adversário pressiona um lado, onde está o espaço? Do lado contrário, pois claro. E é por isso, também, que raramente os médios de Guardiola coabitam do mesmo lado. Há liberdade, mas há ordem. E há o entendimento das posições, ou se quisermos dos que espaços, que devem ser ocupados. Tudo isto começa com a bola, e tudo isto acaba com bola. Tudo gira à volta dela. Os passes que muitas vezes parecem inertes são um meio fundamental para permitir que os jogadores tenham tempo para ocuparem e aparecerem nas posições certas, e mesmo que exista alguma troca, algum desvio do plano inicial, faz-se mais passes para se ganhar mais tempo. Depois, é uma questão de perceber para onde o adversário se moveu, encontrar os espaços, e acelerar.




É uma delícia ver esta equipa. A construção, a preparação para a criação, a procura das referências, a mobilidade, a gestão da transição defensiva, e agora também a gestão das expectativas do adversário. Só na finalização não está ao nível dos melhores em termos de executantes, mas é por procurar criar situações de finalização simples que esse factor tem menor peso do que noutras equipas. Numa época nunca precisará, ao contrário de outros, de ser terrivelmente eficaz para lutar por títulos importantes. E se este não é o melhor trabalho táctico, se este não é melhor plano estratégico, então não sei bem o que isto será.


Do ponto de vista táctico, em posse, Guardiola tem a equipa mais interessante do mundo. A mais flexível, a mais dinâmica, e a mais bem trabalhada. Aquela onde os seus jogadores mostram um entendimento maior do que fazer, quando fazer, e como fazer. A fluidez de movimentos é simplesmente estratosférica. Em transição defensiva, o controlo que faz do adversário é fenomenal. Nunca será uma equipa tão boa a defender sem bola, como o é com bola, simplesmente pela sua maior força ser o seu maior impedimento para que se desenvolva: como monopoliza a bola, nunca conseguirá passar em jogo (que é onde mais se reforçam comportamentos treinados) tempo suficiente para ser tão boa nesse momento. Porém, é um factor não muito preocupante uma vez que ele tem a melhor forma de defender e de segurar um resultado do mundo.

26 de out de 2018

O Sporting de José Peseiro


Independentemente do adversário, há comportamentos que caracterizam a ideia de jogo de uma equipa. Basta relembrar o Loures vs Sporting de há uns dias para confirmar isto. Uma equipa com muito menos qualidade individual que o Sporting mas que mostrou princípios, mostrou comportamentos bem trabalhados, mostrou uma ideia de jogo. Os jogadores sabiam onde se posicionar, sabiam o que fazer e quando o fazer.

No Sporting de Peseiro isto simplesmente não acontece, e contra o Arsenal foi mais uma prova disso mesmo. Peseiro disse no final do jogo que o Sporting só tinha sofrido 1 golo, e que a maior parte das equipas sofre 3 contra o Arsenal, e tem toda a razão no que disse! Esqueceu-se foi de dizer também que TODAS as equipas criam situações de golo contra o Arsenal (mesmo com o 11 habitual) e que o Sporting nem um remate em direção à baliza fez (e já nem vou falar do demérito do Arsenal em só ter feito um golo).

Reparem no seguinte lance:

Lances como este sucedem-se em todos os jogos, várias vezes por jogo, e demonstram todos o mesmo: o Sporting de José Peseiro é uma equipa muito mal trabalhada do ponto de vista coletivo. Dificuldades enormes na fase de construção - mesmo quando não são pressionados - pura e simplesmente porque os jogadores nem fazem ideia de onde se devem posicionar.

Não existe neste Sporting uma ideia de jogo bem trabalhada em termos ofensivos, principalmente com o objetivo de progredir apoiado pelo corredor central. Lances com princípio, meio e fim são praticamente inexistentes no Sporting de Peseiro.

Ou jogam direto na frente, ou então, como aconteceu neste lance, forçam pelo corredor lateral mesmo em inferioridade numérica.





25 de out de 2018

A dimensão europeia do Benfica de Rui Vitória

8 derrotas nos últimos 9 jogos na fase de grupos da Liga dos Campeões. São estes os números atuais do Benfica de Rui Vitória. 

Ajax 1-0 Benfica 
AEK 2-3 Benfica
Benfica 0-2 Bayern
Benfica 0-2 Basileia
CSKA 2-0 Benfica
Man Utd 2-0 Benfica
Benfica 0-1 Man Utd
Basileia 5-0 Benfica
Benfica 1-2 CSKA

Estes números só por si já são maus, mas se olharmos para o que foram as exibições realizadas, o cenário é ainda mais problemático. Exibições cinzentas, com pouquíssimo futebol e que deixaram a nu várias fragilidades do Benfica de Rui Vitória, que em Portugal passam despercebidas tal a diferença de qualidade individual entre o Benfica e a maioria dos seus adversários.

Quando o nível dos adversários aumenta - e nem é preciso serem colossos europeus - o Benfica de Rui Vitória demonstra demasiadas dificuldades coletivas. 

Contra adversários que pressionam mais alto por exemplo, as dificuldades do Benfica na fase de construção são enormes. Nota-se perfeitamente que os jogadores não se sentem à vontade para construir de forma apoiada em zonas recuadas, nem a equipa está coletivamente preparada para o fazer.

No vídeo que se segue, um pequeno exemplo. O Ajax tem a equipa praticamente toda daquele lado, mas André Almeida, em vez de jogar para o seu guarda-redes de modo a organizar com calma, prefere jogar longo em Seferovic, que se encontrava sozinho. 


Quando não procuram sair atráves de um passe mais longo, optam por construir pelos corredores laterais, mesmo quando as condições não são as melhores. É raro ver o Benfica em ataque posicional a construir por dentro, com o objetivo de chegar ao espaço entre a linha defensiva e a linha média adversária.


Esta construção mais longa e com menos critério, ou em esforço pelos corredores laterais, leva a que o Benfica não chegue às zonas de finalização nas melhores condições. 

Se olharmos para o Ajax vs Benfica, reparamos que as oportunidades do Benfica nascem praticamente todas de transições rápidas, e foram criadas graças à qualidade individual dos seus jogadores,neste caso de Rafa.

Estes são apenas dois pequenos exemplos das dificuldades que o Benfica sente em jogos europeus, e que para mim têm no seu treinador o maior culpado. O plantel do Benfica está cheio de jogadores de qualidade que o coletivo não consegue potenciar nem um pouco. Na europa vê-se que o Benfica de Rui Vitória é uma equipa com poucas ideias, com um processo muito fraco, sem fio de jogo e a depender quase exclusivamente dos rasgos individuais para criar situações de golo.










15 de ago de 2018

Não há maior cobarde que aquele que trai as próprias Ideias



Muito foi falado sobre o Sporting nestes últimos meses, e possivelmente muito terá ficado por dizer. Quase tudo numa óptica extra-futebol, por razões evidentes. Deixámos e deixaremos essas discussões para pessoas e espaços de uma índole distinta da deste, aqui o foco principal será sempre o main event e não subprodutos do mesmo, ou seja, o jogo em si.

Nessa óptica, é sobre este Sporting, e mais concretamente sobre José Peseiro, que quero falar. José Peseiro sempre foi visto como uma espécie de lírico, alguém com um futebol ofensivo de grande qualidade mas que era quase sempre traído por tudo o resto. Por isso a opinião pública a seu respeito é bastante negativa, como o é acerca de treinadores como Bielsa, visto que o imediatismo e os vícios de raciocínio costumam toldar a análise da opinião pública. A associação entre "treinador vencedor" e "pragmatismo" (na definição popular, ou seja uma preocupação grande com os equilíbrios) é imediata para várias pessoas, e embora existam treinadores como Guardiola a meter esse paradigma em cheque, a ideia continua a ecoar mais do que devia. Esta temática mereceria um post exclusivo, se calhar, mas não será este.

Não, este post versará sobre o início desta "aventura" de Peseiro no Sporting. E, tendo a noção tanto do pouco tempo de trabalho como da conjectura do clube, direi algo que parecerá absolutamente reaccionário mas que será argumentado e contextualizado nos parágrafos seguintes: perdi quase toda a consideração que tinha por Peseiro como treinador. E este "quase" está aqui na esperança que o treinador ribatejano perceba isto e que reverta este caminho em que tem entrado...

Adiante, isto é algo que vai para além de gostar ou não de uma ideia de jogo. Há vários treinadores, com níveis de sucesso variados, cujas ideias de jogo fogem muito das minhas mas que se mantêm fiéis às mesmas. Ou até que se mantiveram fiéis a uma falta de ideias. Agora, o que Peseiro está a fazer é diferente. Escudando-se no contexto complicado do clube, Peseiro está a montar uma equipa de matriz extremamente diferente do que foi seu apanágio no resto da carreira, até em clubes bem mais pequenos do que o clube em que está actualmente. E diferente... para pior.

O melhor sítio para começar está mesmo em dois jogadores: Francisco Geraldes e Matheus Pereira. Dois jogadores de potencial enorme e que, especialmente no caso do brasileiro, se destacaram na época passada ao serviço do 5º e 6º classificado do campeonato nacional, respectivamente. Seria de esperar que ganhassem mais expressão com um treinador com um modelo menos "rígido". Como disse Miguel Cardoso acerca de Francisco Geraldes - um jogador que alguns espaços, ao contrário do que as declarações subsequentes indiciam, dizem ser muito mais apreciado por adeptos que por treinadores - quando lhe perguntaram o que faltava ao jovem médio para ser aposta num grande; "Falta que alguém tome essa decisão.". Ou seja, que alguém tenha a coragem de apostar nele. Mas José Peseiro, possivelmente por ter medo dos bichos papões que pululam pelo nosso campeonato, achou que nunca poderia jogar com mais de um médio de índole ofensiva, e que Bruno Fernandes seria o títular quase indiscutível (o que é razoável, visto que é um jogador de enorme qualidade). Ao nem sequer tentar uma forma de tentar enquadrar os dois médios mais talentosos do clube, levou a que Geraldes, ao perceber directamente do discurso do treinador que ia ter poucos minutos, procurasse ir para onde as perspectivas de ser aposta fossem maiores. Depois ainda veio com um discurso mal amanhado de que lhe tinha dito que ele ia ser muito importante e implicando até alguma soberba ao jogador por querer tanto sair, mas temos informações claras e consistentes de que não foi assim que as coisas se passaram. Isto é o menos importante para o post, há que dizer, mas ajuda a contextualizar um bocado o caso.

Passando agora ao caso - a meu ver, absolutamente escandaloso - de Matheus Pereira. Matheus foi o melhor jogador fora dos três grandes no campeonato passado, isto mesmo tendo em conta que demorou a "carburar" no Chaves. Mas o nível que demonstrou quando o fez foi tão elevado que ofuscou toda a "concorrência". Chegado ao Sporting manteve o nível, começando por ser aposta quase constante de Peseiro nos jogos de pré-época e mostrando um nível muitíssimo elevado na mesma. No entanto, o problema começou com o regresso de Acuña, que Peseiro colocou imediatamente no lugar de Matheus. Ora, há apenas dois motivos para se preferir Acuña a Matheus Pereira: ou se escolhe o argentino simplesmente por ser o mais abnegado/melhor a defender (isto num extremo de um grande, leia-se com atenção), ou porque custou mais de 10 milhões de euros e tem, no geral, bem mais estatuto. Sinceramente não sei qual dos dois motivos me causa mais repulsa - se quiserem escolher algum nos comentários estejam à vontade - mas não vejo mais nenhum. Acuña não se destaca em atributo ofensivo algum; terá uma técnica de cruzamento interessante mas é pouco efectivo no mesmo, a sua ideia de drible é literalmente virar o rabo para a linha lateral e está longe de ser um jogador inteligente. Depois, como Matheus entrou mal nos poucos minutos que teve no último amigável e até falhou um penalty, conseguiu a proeza de o colocar fora dos 18 para a 1ª jornada do campeonato, ficando atrás de Raphinha e Jovane Cabral. Raphinha é um extremo com alguma qualidade e de um perfil bem distinto do de Matheus, e se a ideia é a alternância de perfis no 11 até faria mais sentido jogar ele que Acuña, mas Jovane Cabral não tem sequer 1% do talento do extremo brasileiro. É como se no Chelsea preferissem o Victor Moses ao Eden Hazard... Matheus queixou-se do facto via redes sociais durante o jogo, o que não lhe trará benefícios nenhuns obviamente, o treinador veio mandar bocas de que o jogador ficou de fora dos 18 porque andava a treinar mal e até há quem diga que já está a treinar fora da equipa principal; mas no fundo isto é uma bola de neve que está a crescer exponencialmente... e que só existe em primeiro lugar pela incompetência na análise de Peseiro.

Um pequeno aparte quanto à questão do treino: se repararem, é o argumento favorito para justificar a não aposta em algum talento por parte da vaga dos treinadores pragmáticos. Lembro-me do tempo em que se dizia que Bernardo Silva respondeu mal a ser adaptado a lateral-esquerdo nos treinos e que isso prejudicou a sua imagem perante Jorge Jesus... saiu quase sem minutos do Benfica e alguns anos depois é uma das estrelas da melhor equipa inglesa (como disse o seu treinador, "Neste momento é Bernardo e mais 10"). O próprio João Mário, quando estava na equipa B do Sporting, desmotivado por ter claramente nível para mais, foi sentado por "amuar", e quando apostaram nele mostrou claramente que tinha razão, pois era claramente jogador para ser titular no clube desde logo. Matheus, que agora também "treina mal", chegou a ter a oportunidade de ir para o Mónaco mas rejeitou à última da hora para ficar no Sporting. Fica a pergunta: onde estaria neste momento se tem ido mesmo? E atenção, obviamente que o treino é importante, e que cada caso é um caso: haverá jogadores que de facto cuja atitude nos treinos justifique serem preteridos. Mas quando a tendência de se remeter para os treinos a ostracização de quase todos os maiores talentos que o Sporting forma é tão grande (basta lembrar Iuri Medeiros)...

O mencionado acima são, obviamente, apenas questões individuais. Que eu referi por, a meu ver, reflectirem o problema em causa, mas que obviamente não são o problema em si: era perfeitamente possível Peseiro simplesmente escolher mal mas manter-se fiel às suas ideias, como aliás é apanágio do seu antecessor no clube. Mas não é o caso. Peseiro decidiu transformar-se num pseudo-pragmático, forçando ao máximo o regresso de Battaglia, a contratação de Sturaro e possivelmente até de outro médio de perfil parecido, e fê-lo com a intenção de mandar muitas das suas ideias ofensivas às malvas, mesmo que "temporariamente" (vamos abordar isso abaixo). Até Wendel, que fisicamente é também forte e que tecnicamente é superior aos restantes cavalos, está a ser ignorado. Sobrevive Petrovic, que sendo um jogador com um raio de acção algo limitado tem qualidade técnica e calma com bola, mas quando Sturaro voltar (ou o tal outro médio) deve saltar também. A ideia de Peseiro é "encher" o meio-campo com dois tipos fortes, feios e maus para dar cacetada, apostar numa ideia muitíssimo mais limitada, com maior prevalência de passes longos, maior distância entre jogadores e, no geral, num jogo bem menos trabalhado; deixando Bruno Fernandes e Nani quase que entregues a si mesmos na criação, e esperando que Dost mantenha a enorme eficácia. Se o futebol fosse um jogo de 11 elementos desligados, isto era uma ideia muito gira, e o processo de pensamento de Peseiro deve ir nessa perspectiva, sendo algo como "Ora bem, a transição defensiva da equipa está uma miséria, por isso vou meter 2 gajos grandes e fortes no meio para me resolver isso. As minhas equipas atacam bem, por isso isso não é problema, assim defendem bem também!". A questão é que não só não é por meter cavalos que vai resolver problemas de índole estrutural - pode mitigá-los, mas continuarão a estar lá, qual casa muito bem composta e bonitinha mas com as fundações podres - como a equipa vai atacar muitíssimo pior nesta ideia, tanto em termos colectivos, como até ao ter demasiados jogadores do meio-campo para a frente que são quase inúteis com bola. Na matemática, -(-2) = 2; mas no futebol o que ele fez foi acumular problemas, não resolvê-los.

Para concluir, quero abordar só a questão que provavelmente me vão levantar ao ler isto; "Sim, mas o Peseiro disse que isto era tudo temporário, na fase inicial, e que daqui a uns meses o Sporting ia jogar bem". Pois, eu sei que disse. Só que, infelizmente, não é assim que a aquisição de uma ideia de jogo por parte de uma equipa funciona. É um processo que leva tempo, claro, mas leva tempo porque tem de haver uma insistência constante na ideia. Ou seja, para uma equipa de facto chegar a um bom nível a jogar num modelo melhor/mais exigente, tem de o trabalhar consistentemente e de insistir nele, tem de transmitir aos jogadores total convicção e confiança nesse modelo, e tem de passar pelas dores de crescimento que acarreta essa insistência. Não é como no Football Manager, em que podes dizer "olha, agora que ainda não sabemos jogar bem vamos passar o jogo a chutar para a frente, daqui a 2 meses quando a barrinha do FM do modelo de jogo estiver cheia logo mudamos". Não vejo, sinceramente, como é que a equipa vai passar de não querer jogar a jogar muito bem...

O Sporting com o Moreirense fez um jogo miserável, em que particularmente na segunda parte foi dominado de forma clara por uma equipa muitíssimo inferior; e por ironia do destino, não só ganhou como foi Jovane Cabral, o tal jogador que foi escolhido em detrimento de outro muitíssimo mais talentoso, a sofrer o penalty que acabaria por virar o jogo e ser decisivo. Para muita gente, e se calhar até para Peseiro, não interessa que a equipa tenha estado muito mais perto de perder o jogo que de o ganhar, nem que o tal lance do penalty tenha sido um em que Jovane se limita a correr com a bola e o adversário vai, sem qualquer necessidade, contra ele, num óbvio erro não forçado; mas como correu bem sentem as decisões justificadas. Feliz ou infelizmente, o tempo costuma ser pouco perdulário a este tipo de brincadeiras, e, caso estas ideias e aposta no meio-campo e Acuña se mantenham, acho muito complicado que os resultados negativos não apareçam muito em breve.

Peseiro, até porque não tem nada a perder - nunca na vida esperaria ter mais uma oportunidade num clube desta dimensão - tinha tudo para, desde logo, ser fiel às ideias de jogo que demonstrou em quase toda a carreira e construir uma equipa interessante e capaz de divertir os adeptos, numa época de expectativas baixas. Escolheu, incompreensivelmente, a cobardia, ainda por cima atirando areia para cima das pessoas ao dizer que é uma cobardia temporária. A minha previsão é que sairá do Sporting com a reputação que tinha anteriormente (baixa), mas perderá também a consideração daqueles que, como eu, até admiravam a forma como via o jogo ofensivamente. E é pena...

27 de mar de 2018

O jogo, o jogador e tudo o que os separa

[Por vezes não quero sair de casa - André Gomes]

Recentemente, uma entrevista de André Gomes, internacional português a jogar actualmente no FC Barcelona, chocou grande parte da comunidade futebolística. Nela, o jogador dá claramente a entender que não se sente feliz no exercício daquela que é a sua profissão. O André não é feliz, mesmo fazendo aquilo que gosta.

Se em qualquer sector profissional a motivação para a função e a estabilidade psicológica se assumem como factores fundamentais para o sucesso, no futebol esses aspectos são mesmo condição sine qua non para um bom rendimento. Sendo certo que é o corpo que sobressai aos olhares menos atentos e perspicazes - seja através das características físicas e atléticas, seja através da destreza técnica - é a mente que faz com que tudo funcione naturalmente.

Não raras vezes, adeptos, dirigentes e até treinadores revelam ignorância, desprezo e desdém pelo aspecto mental e psicológico do jogo. Sempre que determinado jogador não apresenta rendimento, por um ou outro motivo, de imediato surgem as críticas e reparos às suas limitações mentais, e facilmente se colocam dúvidas em relação às suas valias futebolísticas. "Não aguenta a pressão", "não tem estaleca para isto" ou "não é assim tão bom" são argumentos que de imediato são disparados a torto e a direito. E se no caso dos treinadores de bancada há a atenuante de não possuírem conhecimentos suficientes sobre a matéria e/ou de não conseguirem discernir a diferença entre falta de qualidade e falta de rendimento, no caso de dirigentes e sobretudo treinadores a conversa muda de tom.

Todos os jogadores são diferentes, e esta verdade universal aplica-se também à pessoa por detrás do jogador. Não há duas formas iguais de lidar com a mesma situação, seja dentro ou fora do campo. Desde logo, as próprias questões extra-futebol têm um peso gigantesco no bem-estar do jogador. Por exemplo, foi notória a quebra de rendimento de Willian, extremo brasileiro do Chelsea, aquando do falecimento da sua mãe, no ano passado. O contexto futebolístico não se alterou, de forma nenhuma, mas de um dia para o outro, o contexto pessoal do jogador alterou-se definitivamente, e isso reflectiu-se no seu rendimento em campo.

Mas mesmo deixando de parte as questões pessoais - que obviamente podem impactar a vida de qualquer jogador -, é assustadora a rigidez com que é feita a gestão dos recursos humanos de um plantel. Como se exige e se cobra de igual ou até mais exigente forma o mesmo a um jogador que tem a confiança do treinador e que possui um lugar estável no grupo, e a um jogador que vem de uma realidade diferente (seja um outro clube, seja quando é promovido desde os escalões de formação) e se depara com um choque contextual que envolve estatutos, dinâmicas de grupo, métodos, ideologias e todo um sem número de outros factores.

O caso de Rafa, no Benfica, leva-nos ao primeiro factor crucial para que um jogador possa ter condições que, de facto, lhe permitam render ao seu melhor nível: a confiança. O extremo português tem visto ser-lhe associado, continuamente, o rótulo de "flop" desde que chegou à Luz. Já no Braga, o seu talento saltou à vista de todos, incluindo do seleccionador nacional, pois as suas prestações nos bracarenses levaram-no à estreia na selecção A. Foi, de resto, esse rendimento em campo que fez o Benfica pagar cerca de 16M€ pelo jogador.

Apenas recentemente, tem Rafa demonstrado com a camisola encarnada todas as capacidades que possui e sempre possuiu no seu jogo. Até aqui, o seu rendimento foi sempre inconstante, alternando grandes exibições e pormenores de génio, com partidas cinzentas e sem grande impacto na dinâmica colectiva.

O que mudou então? Não terá sido o contexto, dado que o Braga onde jogou já actuava na maior parte dos jogos com a mesma postura com que qualquer um dos grandes actua nas competições nacionais. Rafa já estava acostumado a que a sua equipa tivesse mais bola e controlasse o rumo do jogo, e também já se habituara a defrontar adversários organizados em bloco baixo e com uma grande aglomeração de jogadores próximos da sua própria baliza, consentindo (ou tentando, pelo menos) poucos espaços nos seus últimos 30 metros.

Para além disso, esta é também a segunda temporada de Rafa no Benfica, pelo que já não será uma questão de adaptação ao clube, ao grupo e à equipa técnica. Não será, também, uma questão de aplicação e empenho no treino, dado que isso nunca terá sido impedimento para que tivesse tido oportunidades anteriormente. No entanto, o que mudou foi a regularidade com que o jogador passou a ser utilizado por Rui Vitória.

Com a lesão de Salvio, foi dada a Rafa consistência e continuidade no lado direito do ataque das águias. Foi-lhe transmitida uma confiança que até aqui não tinha existido. Por sua vez, a sucessão de exibições e boas sensações em campo aumentaram a sua própria confiança e despoletaram a fluidez e a naturalidade que antes lhe faltava. Sem surpresa, o jogador tem agora demonstrado todos os atributos que fazem dele um dos mais talentosos jogadores ofensivos da sua geração em Portugal.

Vejamos outro caso: o de Marega no Porto. Duas épocas no clube, dois treinadores diferentes, dois rendimentos completamente distintos. Foi a qualidade intrínseca do jogador que se alterou? Muito dificilmente. Não se notam melhorias nos gestos técnicos, e muito menos na coordenação motora, aspecto onde o maliano sempre demonstrou dificuldades. Terá sido o seu empenho no treino? Não consta, na sua passagem por qualquer clube, que isso algum dia tenha sido uma questão problemática. Foi a sua confiança - proporcionada pela aposta contínua do treinador no jogador -, isso sim, que mudou drasticamente.

Da incapacidade para realizar simples recepções de bola e passes sem grande complexidade, passou a existir um jogador capaz até de finalizar com sucesso através de gestos técnicos de requinte. De 5 golos em 24 jornadas, passou a 20 no mesmo número de jogos no campeonato português. De dispensado e principal alvo de gozo dos adeptos, passou a peça fundamental e a ídolo de muitos daqueles que, provavelmente, dele troçavam há não muito tempo atrás.

Rafa e Marega são dois exemplos de sucesso, no momento actual das suas carreiras, que fazem pensar e questionar quantos mais jogadores não conseguirão demonstrar todo o talento e qualidade que possuem, apenas porque os agentes do jogo que são também decisivos nas suas carreiras não conseguem ver para lá das suas fraquezas, de forma a poderem reconhecer as suas forças.

O rendimento de um jogador - seja no jogo, seja no treino - depende de infinitos factores, com um sem número de variáveis por ele incontroláveis. No entanto, assume-se como o único aspecto considerado por uma grande parte dos treinadores aquando da "cobrança" aos seus jogadores. Se rende é bom e joga, se não rende é mau e senta-se no banco ou na bancada. Sendo certo que o futebol de alta competição exige dos treinadores resultados imediatos, exige-se também deles que não esgotem na percepção técnico-táctica do jogo (que, na grande maioria dos casos, não é tanta quanto se tem feito crer no que ao treinador português diz respeito) as suas competências para um cargo cujas responsabilidades vão muito para além de tirar o Quim para meter o Manel, apenas porque o Manel rende, não questiona e não promove discussão (e consequente evolução) sobre o jogo. 

8 de mar de 2018

Red Bull Salzburg vs Real Sociedad - A anatomia do jogo em que Dabbur brilhou

 
Como o título indica, neste post analisar-se-à o jogo que opôs o Red Bull Salzburg à Real Sociedad, para a 2ª mão dos 16 avos de final da Liga Europa (o encontro da 1ª mão tinha acabado empatado a duas bolas). Para quem quiser ver o jogo na íntegra, é só clicar aqui.

11s iniciais

Os 11s de ambas as equipas vão ser visíveis na imagem abaixo, mas deixo a pequena adenda de que o Salzburg não jogou em 442 clássico, mas sim num 442 losango (Samassekou a 6, Yabo e Haidara a interiores e Schlager a 10)


Tendências do jogo e um aparte geral sobre superficialidade analítica

Apesar das várias diferenças entre o futebol de ambas as equipas, foi um jogo extremamente equilibrado, em que até ao período que coincidiu com a expulsão do Raúl Navas (central da Real Sociedad) e, logo a seguir, ao 2º golo do Salzburg - período esse a que vou dedicar um pequeno segmento abaixo - nenhuma das equipas conseguia ter claramente o domínio do jogo ou sequer chegar constantemente a zonas perigosas, pelo que houve um número reduzido de oportunidades de golo, especialmente em lance corrido. Após o período acima referido da expulsão + golo o jogo mudou de figura, com a Real Sociedad a partir para um jogo muito mais directo e com o Salzburg a ser mais calmo com bola, jogando bastante melhor que antes e a conseguir controlar as investidas aéreas dos bascos. Os motivos para tal equilíbrio serão abordados nos pontos seguintes, numa análise que partirá da floresta para as árvores, por assim dizer. Ou seja, primeiro falarei sobre aspectos gerais da organização das equipas para depois ir aos momentos chave do jogo.

Mas antes disso, queria fazer um aparte sobre um ponto que muitas análises superficiais adoram aflorar, que é a posse de bola. Muitas vezes a distinção entre estilos é feita entre as equipas "que têm muita posse de bola" e as que não têm, o que evidentemente não tem nuance analítica nenhuma e ignora todo um rol de diferenças em todos os sentidos entre equipas que podem e várias vezes até são agrupadas na mesma "caixa" da posse ou falta dela. Da forma como é feita a análise futebolística em muitos sítios, os números da posse de bola servem quase só para enfeitar. Apenas quando esses números representam uma diferença extrema podem permitir a retirada de uma ou outra conclusão, mas em 99% dos casos precisam de uma grande contextualização para poderem fazer sentido. Olhando para o caso deste jogo em particular, as percentagens finais da posse de bola rondaram os 50-50, mas isso tanto pode acontecer num jogo como este, num em que ambas as equipas alternem longos períodos de domínio, ou até em vários outros cenários. Este aparte no fundo é contra o tipo de análise que tenta usar estes números (falei do da posse como podia falar de outros) de forma absoluta ou, em alternativa, partir dos números e tentar explicar o que se passou estando enviesado por eles, e não o contrário (ou seja, olhar para o jogo e apenas depois ver os números - até os do resultado! - como complemento à análise do que se passou).

Dificuldades em ligar fases com bola de ambas as equipas

Este foi um jogo em que tanto o Salzburg como a Real Sociedad pretendiam sair a jogar desde o guarda-redes. No entanto, ambas as equipas revelaram algumas dificuldades em fazê-lo, visto que lhes foi complicado ligar a 1ª fase de construção às restantes de forma adequada, e, no geral, em criar situações vantajosas para os seus jogadores em zonas mais adiantadas. Os motivos, no entanto, foram bem diferentes, e vão ser aflorados abaixo.


No caso da Real Sociedad, o lance acima, sendo um daqueles em que conseguiram resistir melhor à pressão do Salzburg, mostra ainda assim algumas das dificuldades que tiveram quando conseguiram não jogar longo. Tiveram muitas dificuldades em lidar com a pressão de grande qualidade do adversário, e a estrutura posicional também não era a ideal, com os 4 jogadores da frente algo desligados do jogo nesses momentos e com uma procura excessiva dos corredores laterais. 

Apesar de serem uma equipa mais paciente com bola que o Salzburg, tiveram imensas dificuldades em transitar para fases mais adiantadas com bola de forma apoiada, e muitas vezes eram mesmo obrigados a jogar longo. Para agravar, como na maior parte das vezes em que jogaram longo foram forçados a tal, várias vezes não o faziam para a zona mais adequada (a de Agirretxe, o avançado da equipa, um jogador alto e forte a segurar a bola de costas), o que levou a recuperações mais fáceis para o Salzburg.

Estes factores levaram a que a bola não só chegasse pouco a jogadores como Januzaj, Oyarzabal e Canales, como que quando esta chegava, era normalmente em condições muito pouco aprazíveis, o que ajuda a explicar o facto de a equipa basca quase não ter criado nada digno de registo de bola corrida.


Já no caso do Salzburg, os problemas foram de natureza diferente. Até por se dispor num 442 losango, a equipa austríaca tinha uma estrutura posicional mais apta a conseguir ligar fases em construção, apesar de existir uma distância excessiva (especialmente em largura) entre o médio-defensivo e os dois interiores. No entanto, foram traídos acima de tudo por três aspectos: a falta de qualidade do central-esquerdo, Onguené; a pressa com que tentam jogar em todos os momentos com bola e a falta de alguma consciência colectiva de como aproveitar os momentos de construção para saltar linhas.

Quanto ao último ponto, vejamos o primeiro lance do vídeo que vos apresento. É um lance que inicialmente até vai contra os dois primeiros aspectos a que me refiro, já que têm a calma necessária e Onguené toma as decisões adequadas. No entanto, atentem no segundo 11 do vídeo. Todo o trabalho de Onguené e Haidara até esse período foi aparentemente inócuo, mas neste caso as aparências, de facto, iludem, já que a troca de passes entre ambos fez com que Canales, que estava ali entre o médio-defensivo e o médio-interior do Salzburg, saltasse definitivamente a cobrir a linha de passe para o médio-defensivo. Esse era o momento ideal para que o Salzburg replicasse uma dinâmica muito utilizada por equipas como o Napoli. Para isso, bastava um movimento para a frente do médio-defensivo, e que o médio-interior ao receber o passe vertical de Onguené lhe endossasse logo a bola, fazendo-o receber nas costas da pressão dos 2 avançados e orientado de frente para a baliza adversária. Ao quase nunca conseguirem orientar os médios de frente para o adversário, facilitaram muito a vida da pressão individualizada da Real Sociedad, já que saía sempre alguém a um médio que recebesse de costas, não o deixando enquadrar.

Falando de Onguené, é um central jovem mas sem muita qualidade com bola. A Real Sociedad, sabendo disso, tentava ao máximo bloquear Ramalho (o colega da defesa) e deixar Onguené construir, o que foi uma opção estratégica inteligente e que limitou a equipa da casa. No entanto, mesmo tendo isso em conta o Salzburg conseguiu sair por Ramalho algumas vezes, e foram claramente os momentos em que o fizeram com maior qualidade, como se poderá ver no vídeo abaixo:


O central brasileiro, a meu ver, só não se afirmou na Bundesliga (onde já jogou) por ter uma altura abaixo da média para um central (1m82), que é algo em que muitos treinadores se focam. Porque, aparte disso, é um central muito completo, de grande qualidade técnica, calma sob pressão e qualidade a abordar os lances sem bola. Tanto a jogar curto como mais longo, tem uma precisão notável e uma boa qualidade na decisão, que merecem muito mais que uma liga como a austríaca.

E chego agora ao que é, para mim, o maior problema da equipa austríaca: a pressa. É uma equipa muito forte sem bola, e com muitos apoios no corredor central e um futebol associativo com ela, mas a obsessão por acelerar cada ataque, seja em zonas recuadas ou adiantadas, leva-os ou a perder a paciência e a jogar directo (em zonas recuadas), ou a ignorar opções interessantes sob pena de a conclusão do lance demorar mais tempo (em zonas mais adiantadas). É algo comum às equipas da Red Bull, mas que neste Salzburg se torna mais problemático pela menor qualidade individual em relação tanto ao Leipzig como até ao Salzburg de anos anteriores. É possível que tenha sido um problema mais saliente neste jogo que nos outros - até porque já li quem dissesse que este é um Salzburg um pouco menos frenético que o de outros anos -  mas neste jogo em particular foi isso que notei. E, aliás, notou-se isso mesmo quando os austríacos tiveram mais um jogador e estavam a ganhar 2-1, período em que acalmaram ligeiramente o seu jogo com bola e com isso conseguiram circular de forma bem mais perigosa (claro que também ajudados pela situação do adversário).

Diferentes abordagens na pressão

Da forma como a Real Sociedad abordou o jogo sem bola já se falou o suficiente. De forma sucinta, o avançado (Agirretxe) preferencialmente bloqueava Ramalho, fazendo com que os austríacos saíssem por Onguené, tentavam criar algum acesso ao portador da bola e, simultâneamente, os jogadores do meio-campo e ataque pressionavam individualmente o jogador mais perto da sua posição relativa. Aliás, como é visível em alguns dos momentos dos vídeos do Salzburg com bola, apresentados acima.

Já a abordagem do Salzburg merece mais algumas linhas e alguns exemplos, que verão abaixo:


O primeiro clip é um exemplo da reacção à perda dos austríacos (ou counterpressing, se preferirem), os restantes focam-se na pressão propriamente dita. É uma pressão muito bem pensada e executada, no geral. Partem do 442 losango original, e o foco é forçar perdas de bola ou o jogo directo ao adversário. Quando a bola está no guarda-redes adversário a equipa assume um bloco médio-alto, mas mal chega a um dos centrais o avançado do lado da bola reage agressivamente, dirigindo-se a esse central e, em simultâneo, cortando a linha de passe para o lateral. O avançado do lado contrário cobre-o numa posição ligeiramente mais recuada, e os restantes colegas apertam a pressão, cobrindo linhas de passe (e não adversários, são coisas distintas). Contra uma equipa como esta Real Sociedad a ideia funcionou especialmente bem, já que estes ou jogavam num dos médios em zona central, que normalmente estavam pouco apoiados e que eram fáceis de "apertar" por parte do losango do Salzburg, ou optavam pela abordagem inicial de procurar as alas, onde eram sufocados contra a linha lateral. 

Conseguem manter um nível de compacticidade interessante tanto quando pressionam alto como quando defendem mais baixo, e são, de forma geral, uma equipa muito interessante sem bola. A linha defensiva não é perfeita, de todo, mas também possui comportamentos geralmente interessantes e zonais. Estiveram brilhantes colectivamente a retirar a Real Sociedad de onde é mais perigosa - a fase de criação, e foi muito por isso que concederam tão poucos lances de golo.

Do geral ao particular: momentos chave do jogo

Como este foi um jogo com tão poucas oportunidades de golo, especialmente de bola corrida, decidi olhar para os momentos dos golos de forma mais particular. Acima de tudo, para perceber o que neles há de mérito/correspondente às regularidades referidas, e no que neles se deve tão somente ao acaso.

Muita gente acha que no futebol (ou mesmo na vida) não existe sorte nem azar, e que tudo tem de ter uma explicação ou, melhor dizendo, em tudo tem de haver algum mérito. Esta parece-me uma ideia algo religiosa, e com a qual eu não concordo minimamente. Por paradoxal que pareça, não há maior racionalidade do que pensar que nem tudo é explicável, e que há factores que não só não controlamos como não percebemos. Numa análise, neste caso de futebol, interessa ter isto presente para nos focarmos no que é, de facto, controlável, sem deixar que o que foge ao nosso controlo, por mudar o resultado final, tolde a nossa análise. No fundo, é perceber que a aleatoriedade é como aquela lomba que temos no caminho para casa: existe, não a podemos contornar, mas também não podemos fazer nada quanto a ela por isso é esperar que ela não nos prejudique.

Oportunidade flagrante para a Real Sociedad e, em seguida o primeiro golo do Salzburg


Este vídeo, a meu ver, é notável para se perceber o que disse no parágrafo acima. Nele podem ver-se dois lances: um, aos 7 minutos, em que a Real Sociedad tem uma oportunidade claríssima de golo (de longe a sua melhor, de bola corrida), e outro, dois minutos depois, que daria o golo do Salzburg. Duas grandes oportunidades de golo, uma para cada equipa, a primeira vai por cima e a segunda entra. Claro que a qualidade ou falta dela na finalização também entra em jogo, mas quando se fala em aleatoriedade tem muito que ver com coisas destas. Bastava o cabeceamento do Oyarzabal ir meio metro mais abaixo e todo o jogo a partir daí seria diferente. Passava a Real Sociedad para a frente, tanto do jogo como da eliminatória, e provavelmente o lance do golo do Dabbur, da forma e no momento exacto em que surgiu, não acontecia.

Mas passando à frente, esse primeiro lance é um que não tem nada de colectivo. Nasce de um erro não forçado do Onguené, é relativamente bem defendido (tanto quanto possível, já que no momento da perda estavam em inferioridade), mas bastante bem definido pelo Zurutuza, pelo que origina uma oportunidade clara. São lances que acontecem no jogo, obviamente, mas o valor analítico que dele se extrai numa análise colectiva é pequeno - já individualmente dá para criticar Onguené e elogiar Zurutuza, como disse.

Já o segundo lance, que dá golo, é diferente. A recuperação de bola é um exemplo muito bom do que abordei extensamente acima sobre a qualidade da pressão do Salzburg e, em seguida, mostra um exemplo em que a pressa (a meu ver excessiva) que caracteriza os austríacos foi bem sucedida, já que os apoios próximos após a recuperação e uma série de boas execuções - em particular o óptimo passe de Schlager - culminam na criação de uma oportunidade clara de golo que dá o 1-0.

Golo da igualdade e a genialidade de Januzaj


O golo nasce da genialidade de Januzaj? Sem dizer mais nada, dizer isto é obviamente um exagero colossal! Isto porque o lance a que me refiro acontece exactamente dois minutos antes do golo, golo esse que é de bola parada (um canto). Mas deixem-me contextualizar o exagero. Como já disse aqui algumas vezes, a Real Sociedad teve enormes dificuldades em chegar ao último terço do adversário durante o jogo, e nos primeiros 25 minutos essas dificuldades foram quase constantes. Mas após a jogada individual incrível de Januzaj, que recebe a bola junto à linha lateral, está muitíssimo pressionado mas que ao livrar-se de uma série de adversários consegue enquadrar-se só com a linha defensiva adversária pela frente, conseguiu finalmente empurrar o Salzburg para trás. Por incompetência de Agirretxe esse lance acaba por não dar em nada, mas foi o mote para que nos dois minutos seguintes a equipa basca assumisse o domínio territorial, remetendo os austríacos para trás.

Mesmo perdendo a bola pelo menos duas vezes nesse período, como estavam em posição mais adiantada conseguiram recuperá-la de forma relativamente célere, e foi esse domínio territorial que originou o canto que, por sua vez, originou o golo. 

Como é óbvio, o domínio territorial por si só significa muito pouco. Fazendo mais uma analogia espectacular, a jogada de Januzaj e consequente domínio territorial simbolizam a compra de um bilhete do Euromilhões. Tendo em conta que mesmo assim não criaram nada, as probabilidades de marcar eram baixas (se, por hipótese, se repetissem esses 2 minutos após o lance de Januzaj e acção do Agirretxe 1000 vezes), mas ao menos existiam, o que não era o caso quando os bascos não conseguiam sequer chegar ao último terço com a bola controlada.

Nota: Para quem quiser partilhar apenas o lance brutal do Januzaj, é usar este link.

Penalty que dá o 2-1, no ar a bola é de ninguém


Aqui prefiro salientar a maior calma apresentada pelo Salzburg na circulação, num primeiro momento, e o facto de a Real Sociedad, no lance após a expulsão de um dos centrais, ter pressionado alto mas, a meu ver, sem subir o suficiente a linha defensiva. Quando a bola  vai para o guarda-redes adversário esta poderia estar mais perto da linha de meio-campo, colocando alguns dos jogadores do Salzburg em posição irregular e dificultando uma situação de disputa de bola aérea. Mas tirando isso, é um lance de igualdade naquela zona e uma bola pelo ar, e em seguida um erro individual do central da Real Sociedad que permite o desenvolvimento do lance. Seria fácil traçar um paralelo entre a expulsão e o golo, já que surgiram de forma quase seguida, mas este é daqueles casos em que seria falacioso fazê-lo, já que mesmo 11x11 era quase igualmente possível algo como isto acontecer.

Dabbur, o homem do jogo

Este foi um jogo que contou com vários jogadores interessantes. Do lado da Real Sociedad, os 3 que jogaram atrás do avançado (que já referi), Illarramendi, Odriozola e o guarda-redes Rulli (embora esteja numa fase menos boa) são todos jogadores de qualidade. Do lado do Salzburg, o elogiado Ramalho, Schlager, Hee-Chan Hwang (muito forte no 1x1) e mesmo Haidara são jogadores interessantes. Berisha também entrou bastante bem, tendo sido importante para a melhoria do Salzburg com bola após o 2-1 e deixando em mim algumas dúvidas sobre se ele não seria melhor opção que Yabo, que jogou no seu lugar.

Mas o jogador que mais se destacou foi claramente Dabbur, um dos dois avançados - o outro é o já referido Hwang - do Salzburg. Mostrou ser um jogador bastante dotado tecnicamente,  fisicamente muito forte - ágil, rápido e bastante forte a aguentar o choque - e com um entendimento do jogo bastante interessante, com e sem bola. Trabalhou de forma muito inteligente e agressiva nos momentos de pressão, soube associar-se com os colegas, conseguiu manter a posse em situações bastante complicadas e ainda marcou o primeiro golo do jogo. Exagerou um pouco nas tentativas de desequilíbrio individual em situações desvantajosas, o que levou a algumas perdas de bola, mas sendo um jogador com qualidade no drible e tendo dificuldade em ter boas situações em utilizá-lo entendo alguns exageros da parte dele. Ainda assim, fez um jogo de grande qualidade, que vão poder ver na sua plenitude. Abaixo poderão ver, em dois vídeos que representam, respectivamente, a 1ª e a 2ª parte, todas as acções com bola de Dabbur no encontro.



Conclusão

Foi um jogo interessante, embora eu antes de o ver esperasse maior qualidade ofensiva por parte de ambas as equipas, apesar do bom desempenho do Salzburg no fim do jogo, a defender muito bem o sucessivo jogo directo da Real Sociedad nessa fase e a atacar com qualidade. Ainda assim, sei que a Real Sociedad, que conheço melhor, é capaz de jogar muito mais do que o que mostrou neste encontro, e o Salzburg mostrou qualidades colectivas muito interessantes, e melhorando os defeitos que referi podem ser uma equipa muito interessante de se seguir.

27 de jan de 2018

Algumas Reflexões sobre a Lei do (Fora de) Jogo


No meu primeiro post aqui, falei, entre outros temas, de uma das teses que Juanma Lillo defende – que o melhor e mais informativo livro alguma vez escrito sobre o Jogo é o Regulamento do mesmo. Podemos pegar nas regras do futebol e extrair delas várias deduções lógicas, que nos colocam em vantagem competitiva sobre quem não o faz. Dando o exemplo mais claro – e, por isso, de tal forma óbvio que não há quem não o entenda - de uma dedução; se a Lei do Jogo nos diz que podemos jogar com até 11 jogadores, não vamos jogar com menos, já que isso nos colocaria de forma imediata numa situação de clara desvantagem perante o rival. Mas da mesma forma como se podem deduzir coisas absolutamente óbvias do regulamento, como a que referi, é possível tirar outras conclusões bastante mais intrincadas e que podem facilmente distinguir uma equipa das demais, e vou falar num exemplo disso mesmo em algum detalhe mais abaixo.

Em termos históricos, as equipas que mais impacto criaram no jogo foram as que mais e melhor souberam compreender verdadeiramente essas regras e que as souberam subverter. Até vou mais longe… um dos aspectos que normalmente distingue as equipas que mais revolucionaram mais o jogo em termos ideológicos das demais é o facto de provocarem uma sensação de impotência tal nos seus adversários que levam a opinião pública a procurar que certos regulamentos do jogo que essas equipas especiais manipularam sejam alterados por forma a tornar o jogo mais “equilibrado”. Não há maior prova de superioridade ideológica (no contexto de um jogo, note-se) do que criar nos adversários a necessidade de tentar alterar as regras desse mesmo jogo para poder competir. Aconteceu por exemplo com o Barcelona de Guardiola, que dominava de tal forma todos os seus adversários que fez com que ganhasse alguma força a ideia de, como em outros desportos colectivos, se criar um limite para o tempo de cada posse de bola. Só que nesse caso específico, essa mudança traria efeitos nefastos ao jogo, já que boa parte da complexidade do jogo iria pela janela e seria basicamente um jogo de transições e contra-transições; parada e resposta, pelo que obviamente essa mudança nunca foi para a frente. Mas temos exemplos de equipas cujo aproveitamento de certos regulamentos foi de tal modo genial que potenciou ou até obrigou à sua alteração. E vamos falar de um deles agora...

Neste post, o foco estará naquela que considero a lei mais importante do jogo: a Lei do Fora de Jogo. É a mais importante, a meu ver, porque é a que permite a qualquer uma das equipas que se opõem manipular o espaço e tornar a conquista da baliza adversária muito mais complexa, o que traz riqueza ao jogo e o distingue de quase todos os outros desportos colectivos.


A equipa que mudou a Lei do Fora de Jogo

É ao Milan de Sacchi que me refiro aqui. Ou, mais precisamente, à forma como esse Milan compreendeu a lei do fora de jogo vigente no seu tempo, e como utilizou essa compreensão mais profunda para criar uma vantagem competitiva. Como alguns saberão, até há menos de 30 anos para existir uma situação de fora de jogo bastava que qualquer um dos 11 jogadores da equipa em posse estivesse à frente do penúltimo defesa da equipa contrária no momento de um passe vertical, sendo a interferência desse jogador em posição adiantada no lance completamente irrelevante para a decisão do árbitro (bastava mesmo estar nessa posição). Através deste ponto do regulamento é possível deduzir que a) era muito mais fácil do que é agora uma determinada acção acabar em Fora-de Jogo e b) que, assim sendo, a linha defensiva pode assumir comportamentos agressivos com uma taxa de sucesso bastante elevada. Enquanto que agora basta o jogador que vai receber a bola ter o cuidado de estar atrás ou em linha com o penúltimo defesa no momento do passe, no tempo do Milan de Sacchi (início dos anos 90) era necessário todos os jogadores terem esse cuidado, o que é naturalmente muito mais complicado de conseguir. Abaixo fica um vídeo que mostra um pouco a forma como exploravam esse aspecto:


A forma como a equipa de Sacchi subverteu em seu benefício este regulamento tornava-a uma equipa extremamente difícil de atacar, e ao mesmo tempo permitia-lhe pressionar o adversário agressivamente. Boa parte do campo ficava basicamente inutilizável quando o Milan subia a linha defensiva, e isso dava ainda mais conforto ao Milan para pressionar o portador da bola já que era praticamente impossível este apanhá-los em contra-pé. Obviamente que a maior fatia do sucesso dessa equipa se deve à qualidade individual enorme que tinha, com nomes como Van Basten ou Gullit, mas foi a forma como defendia que a imortalizou, tanto em termos teóricos (de quem estuda e conceptualiza o jogo) como em termos práticos (já que obrigou directamente a que a lei do jogo mudasse).

Depois desta parte mais "factual" do post, ou seja, da equipa que objectivamente causou uma mudança na Lei do Jogo, é hora de ir um pouco para além disso, ou seja, do que já aconteceu. E pretendo dar esse salto ao reflectir sobre duas questões, relacionadas com o que foi dito acima mas mais viradas para o futuro. E as ditas questões são as seguintes:

"Podemos retirar mais alguma coisa desta mudança na Lei do Jogo, para além dos dois pontos referidos acima?"

"É possível que mais alguma equipa ou até jogador possa causar uma nova mudança na Lei do Jogo num futuro relativamente próximo?"

Possível dedução a retirar dessa mudança na Lei

Como é fácil de perceber por este cabeçalho, a resposta à primeira pergunta é que sim, creio que podemos tirar mais conclusões. Isto porque, acima, pensámos acima de tudo na perspectiva do Milan de Sacchi quando não tinha a bola. Mas e se pensarmos na perspectiva de quem ataca? De forma muito resumida, o que esta mudança na lei fez foi acabar com o fora de jogo posicional. Ou seja, é possível ter jogadores em posição irregular e mesmo assim passar para a frente de forma legal, desde que seja para alguém que esteja em jogo. Isto, obviamente, veio beneficiar indirectamente quem ataca, porque boa parte dos lances que eram irregulares antes não o são hoje, o que permite à equipa continuar o seu ataque e possivelmente marcar. 

Apesar disto, muito poucos são os que procuram utilizar activamente esta mudança da Lei por forma a criar um benefício. Assumindo como premissa - já que vem ao encontro das ideias defendidas neste espaço - que o objectivo último de uma jogada de ataque é criar a melhor (mais fácil) situação de finalização possível, é interessante ter alguém deliberadamente em fora de jogo posicional e, em simultâneo, ter outros jogadores a fazer movimentos de ruptura desde trás. Esse jogador em fora de jogo posicional seria teoricamente um a menos enquanto estivesse nessa situação, mas a diferença é que a equipa não só pode continuar a progredir com ele nessa posição, como o pode "activar" repentinamente se conseguir que ele esteja em linha com a bola, mesmo estando à frente dos defesas. Estava a pensar em criar um pequeno desenho para explicar isto, mas felizmente o primeiro golo do Barcelona no jogo de dia 25 de Janeiro com o Espanyol exemplifica bem o que quero explicar:


Para complementar, encontrei um tweet interessante (@JuanGenova980) com imagens dos momentos mais relevantes do lance para este post. Nas poucas vezes em que vejo coisas destas acontecer (e não falo de estar apenas um ou dois metros atrás da defesa adversária) parece-me que normalmente se deve a movimentações individuais de certos avançados que intuem que este pode ser um bom recurso para ter uma finalização fácil (para além do Suárez, o Kane também o faz por vezes), mas acho que podia ser algo que partisse mesmo do treinador. Escusado será dizer que não me refiro a ter o avançado numa posição desse género o jogo todo, muito longe disso, mas em certos momentos de organização ofensiva esta pode ser uma arma eficaz para criar problemas às organizações defensivas da actualidade, cada vez mais compactas e com comportamentos relativamente zonais, já que um passe de ruptura por zonas laterais (por exemplo) pode logo criar uma situação de 2x0+GR, que é possivelmente a melhor para quem ataca.

No fundo, é possível usar o fora de jogo posicional como uma ilusão de segurança, para quem defende. Gostava muito de ver algumas equipas com boa organização ofensiva - porque se se recorrer a isto simplesmente ao despejar bolas nas alas o adversário consegue defender este recurso com alguma facilidade - explorar isto em certos momentos, porque ia criar um problema adicional ao adversário, e quanto mais problemas diferentes os adversários sentem que têm de resolver mais facilmente essas equipas de qualidade os manipulam e entram por onde querem.


O Guarda-Redes que pode "imitar" Sacchi

Para concluir o post, vou abordar a segunda questão que coloquei, sobre se acho que pode haver alguma mudança nas regras do jogo num futuro relativamente próximo. E, mais uma vez, acho que sim. A lei do fora de jogo não se aplica a pontapés de baliza, na actualidade, pelo que é possível, em teoria, um jogador estar muito à frente do penúltimo adversário no momento do pontapé de baliza e, ainda assim, receber directamente a bola. Mas nunca ninguém perdeu muito tempo a pensar nesse assunto, a meu ver, porque é incrivelmente complicado ter um guarda-redes capaz de colocar a bola a distâncias dessa magnitude com uma precisão elevada, e por isso dificilmente alguém conseguiria explorar isso. A afirmação de Ederson numa equipa como este City de Guardiola, no entanto, vem colocar isso em causa. Abaixo deixo um exemplo rápido daquilo a que me refiro:


Com Ederson, a equipa de Guardiola cria um dilema muito complicado em alguns dos seus adversários nos pontapés de baliza. Podem deixá-los construir sem qualquer sobressalto desde trás, o que para equipas dominadoras pode ser contra-intuitivo, pressioná-los de forma pouco compacta (linha defensiva muito atrás do resto dos jogadores, exactamente por não haver fora de jogo), ou pressionar alto e arriscar. Só que Ederson, para além de ter um jogo curto de enorme qualidade, tem a facilidade que o vídeo mostra em colocar a bola à distância. Já fez inclusive assistências para golo desta forma enquanto jogava pelo Benfica, e não duvido que o faça em breve pelo City. Caso este City consiga, como promete, afirmar-se como uma das equipas mais marcantes dos próximos cinco anos (pelo menos), esta qualidade de Ederson pode dar uma vantagem competitiva interessante ao City e fazer com que muitas vozes se levantem para que, de facto, passe a existir fora de jogo num pontapé de baliza como existiria em qualquer situação de jogo corrido (a partir do meio-campo adversário). Se de facto isto acontecerá como descrevo ou não só o tempo dirá, mas não me parece uma possibilidade a desprezar, de todo.
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