A Liga Revelação,a prova sub-23 de clubes da FPF que arrancou este ano, tinha como objectivo ser um “novo espaço competitivo para a afirmação de jovens futebolistas”, tentando assim preencher uma lacuna que existia nos clubes portugueses: as equipas B que competem na segunda liga tinham custos muito elevados e havia pouco espaço para erros, já que maus resultados poderão levar a uma descida de divisão e consequente perda de competitividade e interesse.
Ora, na recém criada Liga Revelação, irá existir uma primeira volta onde as 14 equipas jogam entre si a duas rondas. Posteriormente, os 6 primeiros classificados irão disputar a fase de apuramento de campeão, sendo que as restantes 8 equipas integrarão uma segunda fase também, jogando novam ente entre si a duas rondas. Importante salientar que esta "ronda dos vencidos" não conta para efeitos de descida de divisão, já que estas não existem.
Por um lado, podemos argumentar que esta nova competição apenas será apenas mais um escalão de formação, ou seja "mais um escalão de júniores". E, portanto, pouco ou nada trará a alguns jogadores, já que o nível competitivo será relativamente baixo, fazendo até com que alguns clubes acabem por abdicar da equipa B, que colocava jogadores num nível competitivo relativamente elevado. Por outro, esta nova liga, onde não existem descidas de divisão, abre espaço para o erro, mesmo nos clubes onde não existe uma estrutura paciente e capaz de incorporar esses mesmos erros.
![]() |
| Marcel Keizer, novo treinador do Sporting, que promete tentar incorporar um modelo ofensivo |
No Meio Campo já teorizei algumas vezes sobre a abordagem ao erro e como ela pode influenciar a formação de um jogador (ver aqui). Sendo o erro o momento chave na aprendizagem, a pressão pelos resultados leva muitas vezes a que certos riscos não sejam tomados. E esta pouca tolerância para o erro não se aplica apenas a jovens jogadores em formação. Muitas vezes a pressão pelos resultados imediatos e o risco de descida de divisão leva a uma precariedade no trabalho dos treinadores, levando a que muitas vezes estes não tenham as condições necessárias para incorporar o seu modelo da melhor forma.
Esta nova competição da FPF pode então revelar-se importante, não só na formação de jovens jogadores, mas também na formação de treinadores, conferindo um espaço competitivo onde estes poderão trabalhar calmamente, tentando encontrar as melhores formas para transmitir e operacionalizar as suas ideias. Assim, é possível que na Liga Revelação possamos assistir a equipas testando modelos mais interessantes e complexos, com uma abordagem mais positiva na busca pela vitória e não pela evasão à derrota. Isto é, a Liga Revelação poderá dar espaço para que as equipas tentem procurar chegar ao golo e à vitória de forma mais consistente, com menos preocupações em termos pontuais imediatos. O que, como defendo há muito, a longo prazo trará consequências positivas para o modelo da equipa, já que acredito que uma equipa estará sempre mais próxima de ganhar quanto maior controlo sobre a bola tiver e quanto mais procurar criar situações claras de finalização.
Mais tempo para trabalhar o modelo e assim ter abordagens mais positivas, permitirá também ter um modelo que estimule e potencie os jogadores, valorizando-os e preparando-os para contextos mais avançados. Por exemplo um central que é estimulado e evolui no sentido de estar mais confortável com bola nos pés, capaz de atacar o espaço de forma a atrair a pressão adversária e gerar superioridade e espaços, valerá sempre mais no futebol actual do que aquele que não está à vontade com bola, quer em termos monetários, quer em termos desportivos.
E estas hipóteses sobre as quais aqui teorizo já têm sido observado, pelo menos em parte, por exemplo nas equipas sub23 do Rio Ave e do Vitória SC.
![]() |
| Pedro Cunha, actual treinador dos sub23 do Rio Ave, aqui ao serviço da equipa B na época passada |
A equipa do Rio Ave que compete na liga revelação é orientada por Pedro Cunha, de 52 anos. Um homem da casa, Pedro Cunha já passou pelos postos de coordenador da formação vila-condense e treinador dos júniores, onde estabeleceu o Rio Ave como uma das equipas que melhor trabalha no capítulo da formação. No actual posto, Pedro Cunha montou uma equipa que pratica um futebol de posse e sem qualquer medo de ter a bola. Construção apoiada desde o guarda-redes - mesmo que pressionados - com o objectivo de fazer a bola chegar às zonas de criação nas melhores condições. Tentam sempre ter vários elementos entre as linhas defensivas do adversário, criando linhas de passe que permitam penetrar no bloco defensivo adversário.
https://twitter.com/omeiocampo/status/1064868052041375744
| Luís Castro, treinador dos sub23 do Vitória SC |
Também no Vitória SC se tem assistido a uma equipa que se rege aproximadamente pelos mesmos pergaminhos. Luís Castro, homónimo do técnico da equipa principal do clube vimaranense, desempenhou cargos semelhantes àqueles desempenhados por Pedro Cunha no Rio Ave. E tal como o treinador vila-condense, também Luís Castro tem criado na equipa de Guimarães um colectivo com uma abordagem muito positiva. Com uma construção apoiada desde o guarda-redes até às zonas de criação, sempre com a preocupação de ter linhas de passe próximas e atrás das costas da pressão adversária, o Vitória SC e uma equipa que se sente confortável com bola. Mesmo com pouco espaço tentam jogar curto e com qualidade, com o objectivo de chegar ao espaço entre a linha média e a linha defensiva adversária, espaço ótimo para tentar gerar situações de finalização. Numa equipa repleta de jovens, com especial destaque para Tomás Händel, um 6 que se apresenta muito confortável com bola e que poderá tornar-se um 6 moderno.
A prova de que estes trabalhos têm sido bem sucedidos é a sua posição na tabela classificativa, empatados na segunda posição, ambas com o melhor registo atacante (30 golos marcados em 13 e 14 jogos), à frente de equipas como por exemplo o Sporting.
É ainda cedo para afirmar se a Liga Revelação é um sucesso ou um insucesso. Mas serviu, pelo menos, para provar que dando tempo e paciência aos treinadores para que estes possam implementar o seu estilo de jogo, é possível construir um modelo que aproxime a equipa do sucesso e que valorize os jogadores. Algo que em Portugal é, por vezes, esquecido ou ignorado.
PS: vídeos da autoria do Tiago.
O Meio Campo























