“Tira a bola daí!”
“Atrás não se brinca”
Espectadores (2018)
Arrigo Sacchi colocou a bola onde a coruja dorme quando disse: “O futebol é a coisa mais importante entre as menos importantes”. Apenas nos é possível apontar as falhas enraizadas no jogo se nos distanciarmos e pudermos identificar, antes, as falhas da sociedade onde o jogo se desenrola – princípio aplicável ao que se passa dentro de campo e ao que ocorre fora dele. Pensado por pessoas, praticado por pessoas e observado por pessoas, o futebol torna-se assim reflexo das culturas. Actualmente, a crise de valores da sociedade portuguesa deixa a evolução do jogo nas mãos dos raros individuais capazes de enriquecer as ideias de um colectivo, concorrentes directos dos muitos individuais que se acomodam à esperança de que o colectivo disfarce a escassez de ideias. Escusado será dizer, embora tão escusado quanto obrigatório, que a dança das cadeiras de oportunidades beneficie os segundos, nem que seja por culpa do raciocínio matemático probabilístico (“para todos os eventos arbitrários A1 e A2,, a probabilidade de que um ou outro evento se realize é dada pela soma das probabilidades de todos os eventos elementares incluídos em A1 ou A2”). Comecemos pelo princípio, que dentro de campo é sinónimo de sector defensivo, aquele que, talvez, mais castigado continua a ser pelas vulgaridades das multidões.
“Gastem dinheiro com os defesas, sobretudo com os centrais!”
Pep Guardiola (2013)
Se o mercado nacional de transferências – ao nível do investimento – se espelhasse num gráfico térmico, não restam dúvidas de que só Sporting, Porto e Benfica surgiriam na zona vermelha. Mais. A diferença para com os restantes clubes seria tão evidente que só existiriam duas cores. Sim, porque nem a soma das movimentações de Sp. Braga e Vit. Guimarães é capaz de se aproximar dos intitulados ‘três grandes’. Os porquês desta realidade levar-me-ia a começar outro texto.
Contudo, vejamos que, segundo dados do Transfermarkt, nas últimas três épocas (2015/16; 2016/17; 2017/18), e subtraindo os ‘tubarões’, os defesas-centrais mais caros contratados para a Liga NOS foram Raúl Silva, pelos minhotos, e Pedrão, pelos vimaranenses, ambos por 2 milhões de euros. Sendo verdade que o poder financeiro dos clubes, em Portugal, é muito fraco, podemos verificar, através da mesma fonte, que o Vit. Guimarães gastou, esta temporada, 800 mil euros num extremo esquerdo (Davidson) e 700 mil num ponta-de-lança (Alexandre Guedes), enquanto o Boavista também investiu no ataque, despendendo 400 mil euros em Yusupha Nije (ponta-de-lança). Quanto ao Nacional, deixou em Arouca 1,20 milhões pelo médio ofensivo Aleksandar Palocevic. Se recuarmos uma época (2017/18), constatamos que o Estoril Praia, agora na II Divisão, investiu em dois extremos (Allano Lima, 265 mil euros; Matheus Índio, 175 mil euros), um lateral esquerdo (Aílton, 320 mil euros) e um ponta-de-lança (Jonata, 75 mil euros), tendo o Marítimo seguido a mesma linha de aposta, contratando Ibson, extremo esquerdo, por 50 mil euros. O ponta-de-lança Tomané, chegado ao Tondela nesse período, revelou-se a transferência mais cara de sempre do emblema nortenho, consumada pelo valor de 100 mil euros. A insistência no sector mais adiantado é a tendência das equipas com poucos recursos económicos e cuja maior fatia do registo de movimentações se prende em empréstimos ou contratações a custo zero.
“Se estiver a perder, é preciso colocar mais um defesa-central”
Johan Cruyff
Em Portugal, a estratégia defensiva foi-se estabelecendo mediante o culto do ‘chuto para a frente’. Importante vai mesmo sendo “tirar a bola dali de qualquer maneira”, ignorando que esse é o primeiro passo para voltar a oferecer o esférico ao adversário. Ainda que o paradigma tenha vindo a sofrer alterações positivas – olhemos para o Moreirense, de Ivo Vieira; para o Tondela, de Pepa; ou para o Belenenses, de Silas –, são poucos os treinadores que não se encolhem em demasia quando defrontam os ‘três grandes’, preocupando-se mais em ser reactivos do que pró-activos.
Há que ir prestando atenção aos sinais do futebol. Em Dezembro de 2017, o defesa-central holandês Virgil van Dijk juntou-se ao plantel do Liverpool e encheu os cofres do Southampton, detendo neste momento o estatuto de defesa mais caro de sempre. Custou aos reds 84,5 milhões de euros. Clément Lenglet, defesa-central ex-Sevilha, foi a segunda contratação mais cara do Barcelona esta temporada (39,90 milhões de euros), enquanto Sidnei, da mesma posição, chegado ao Bétis de Quique Setíen, um dos projectos mais promissores da Europa, custou 4,50 milhões ao emblema de Sevilha, apenas atrás de William Carvalho, médio defensivo, que rendeu 20 milhões ao Sporting. Marco Silva fez o Everton abrir os cordões à bolsa para ter Yerry Mina, contratado ao Barcelona por 30,25 milhões. A própria Juventus não se importou de reaver Bonucci pelo valor de 35 milhões de euros, que havia vendido ao AC Milan por 42 milhões na temporada transacta. Realidades financeiras inegavelmente diferentes, mas o que há a retirar destes dados é a preocupação dos melhores em garantir jogadores que apresentem qualidade no momento ofensivo. Matthijs de Ligt, da formação do Ajax, mostra-se, aos 19 anos, enquanto defesa-central mais promissor da actualidade.
Diria que a culpa… também é da cultura.
50 anos depois, a cultura de Cruyff, de Stefan Kovács ou Rinus Michels continua a influenciar o futebol holandês – e mais especificamente, o Ajax –, por isso é que vemos van Dijk e de Ligt a formar dupla na selecção, apresentando uma lógica de condução e até de drible, penetrando vezes sem conta na primeira linha de pressão adversária. Eles vão ‘contra as leis da lógica’, porque assumem o momento ofensivo indo além do passe. Se o risco aumenta? Claro que sim, mas não é também arriscado um extremo perder a bola com o lateral subido?
Faltam-nos (boas) referências e quem esteja disposto a criá-las.