28 de dez. de 2018

Princípio da Incerteza

A mecânica quântica explodiu quando se percebeu que as teorias existentes começavam a ser curtas e foram gradualmente sendo deixadas para trás depois de Heisenberg ter formulado o "Princípio da Incerteza". Quando anteriormente era enunciado poder-se saber a posição exacta de um electrão, Heisenberg argumentou no sentido oposto dizendo que na electrosfera de um átomo é impossível saber-se da sua  posição exacta. A formulação, que na altura o levou a tal tese, foi posteriormente demonstrada curta nos factores que utilizou mas foram a chave para a evolução e sedimentação do seu princípio do ponto de vista da incerteza intrínseca de um sistema quântico. O futebol tem entranhado nos seus fundamentos mais básicos este mesmo principio - por ser um sistema super dinâmico é impossível controlar a sua natureza aleatória. E o jogo é incerto em demasiados factores para que se possa enfatizar um que não se controla como decisivo no trabalho de quem faz, ou deve fazer, por fugir dessa aleatoriedade.

Do profissional ao amador o futebol tem os mesmos fundamentos e as maiores diferenças que se podem assinalar são o tempo de treino e a informação. Em qualquer campo de futebol não há equipa que não entre para ganhar - por maiores ou menores (ou inexistentes) que sejam as recompensas financeiras ou ao nível da notoriedade. La Palice. E o fundamento mais importante para uma equipa ganhar mais vezes, salvo raríssimas excepções, é a qualidade dos jogadores. Quem tem os melhores jogadores vai ganhar mais vezes nos Benjamins do Atlético do Cacém ou no Real Madrid. Existem outros factores que têm influência nos resultados que uma equipa pode conseguir como o modelo de jogo, a arbitragem, as incidências do jogo, as lesões, a condição física e a preparação mental dos jogadores, a estratégia, o público, etc. Mas, no trabalho do treinador, existe apenas um sobre o qual ele tem uma grande possibilidade de controlo: o modelo de jogo. Sobre os outros ele pode apenas especular. Pode até trabalhar sobre eles no máximo das suas possibilidades, mas o Princípio da Incerteza estará sempre mais presente sobre esses factores.

Como é absolutamente óbvio, básico e trivial, qualquer treinador vai recolher informação sobre os adversários se o conseguir fazer. E como é natural, vai tentar esmiuçar essa informação ao máximo e simplifica-la para os seus jogadores na tentativa de aumentar as suas probabilidades de êxito. Assim como se tentam controlar factores como o sono, a disposição, o nível de cansaço antes e depois do treino ou dos jogos, a alimentação, a preparação física, a incidência das lesões, a concentração do jogador, etc.


Mas, mesmo num tempo onde a informação chega à velocidade da luz essa mesma informação tem um grau de incerteza assinalável. Posso afirmar até que são mais as vezes que num jogo a informação não se concretiza do aquelas em que a precisão é muito alta. Isto porque o futebol é um jogo de enganos onde cada jogador tenta enganar o seu adversário para que a sua equipa se possa impor no resultado final; e cada vez mais os treinadores também se preparam para enganar o oponente. Então, se o treinador altera a estratégia para enfrentar aquele adversário em particular (sítios por onde ataca, zonas onde é mais pressionante), dispõe a equipa de forma  diferente (onze inicial diferente, ou sendo igual com os jogadores colocados noutras zonas do campo), como pode ser tão decisiva a abordagem no treino que o treinador teve em função da informação que recebeu, tentou filtrar, e desmontar para os seus jogadores? Numa ou noutra situação poderá coincidir, claro. Mas poderá o treinador colher os louros de algumas coincidências quando são muitos mais os desencontros? 


Apesar do Princípio da Incerteza se verificar em tudo por não termos a capacidade divina de absorver todos os factores e de saber com exactidão como os controlar, há alguns sobre os quais a nossa influência é muito mais efectiva em comparação com todos os outros; o adversário não é um deles.  Por isso, o maior foco - aquilo que melhor se controla, o mérito mais importante e decisivo do treinador - deverá ser sempre a relação da equipa consigo mesma: a forma como os sectores se relacionam em função da situação de jogo; o conhecimento que cada jogador tem das dinâmicas de jogo que treinam; a forma como o jogador percebe como deve interagir com cada colega; No fundo, a identidade da equipa. Porque no final, no meio de tanta aleatoriedade e de factores infindáveis que não se controlam, as únicas coisas que se podem manter são a qualidade individual e a identidade colectiva - seja qual for a tendência das arbitragens, seja qual for o resultado do jogo, tenha o plano de jogo e a abordagem estratégica coincidido com o esperado ou não.

26 de dez. de 2018

Boxing Day: Exposição.

Neste Boxing Day parece-me importante dar relevo à mudança que está a acontecer em Manchester. Não foram ao mercado, nem mudaram o estilo de jogo de forma vincada. Deixaram apenas os jogadores com mas liberdade para jogar futebol. O resultado tem espantado alguns, mas há sempre que fique muito satisfeito por ver uma equipa de futebol a tentar jogar futebol. Não pelo estilo, não pela estratégia, não pelo modelo de jogo, apenas e só com os jogadores disponíveis para mostrarem do que são capazes. Claro que a luta pelo título já lá vai e a pressão por isso é muito menor. Claro que as mudanças de treinador costumam resultar nisso. Mas, que não se volte a colocar em causa a qualidade de uma equipa com jogadores com potencial para fazer muito mais e muito melhor do que quando amarrados pelo método anterior.

Só há uma forma de mostrar que os jogadores não têm qualidade para fazer mais, que não têm qualidade para se impor num certo estilo: expondo-os. Para que se percebam a suas valias e as suas dificuldades, para que se coloque em causa o seu valor para jogar de uma forma ou de outra. Num futebol que vale pontos (porque há competições onde a vitória não dá pontos!), continua a ser premiado apenas um e os outros todos perdem. Portanto, valendo pontos ou não todos devem assumir que a única coisa que se controla, a única garantia que existe, é o trabalhar o melhor possível para se tirar o máximo dos jogadores. Ninguém controla se vence, se empata ou se perde. Isto não tem nada a ver com um jogo bonito (que não sei bem o que é), tem a ver com um jogo bem jogado que te aproxime do sucesso consecutivamente. São as escolhas que se fazem, e no final o resultado logo se vê.




Com isto, não se passou de uma equipa com dificuldade aqui e ali para uma equipa Top seja lá em que estilo for; apenas se percebe que há material para fazer bem mais e bem melhor. Pochettino aos anos que o tem mostrado, é tudo uma questão de escolhas.

22 de dez. de 2018

O Dortmund de Lucien Favre: Vamos rápido, e vamos todos!

Peço desculpa  pelo post anterior, mas estava naquela altura do mês... Voltando às coisas sérias!

O Borussia de Dortmund ganhou nova vitalidade com a chegada de Favre ao seu comando. Os resultados têm sido muito bons, e isso levou-me a espreitar alguns jogos deles para conseguir tecer algumas considerações. Para o artigo, considerei apenas um jogo onde fica bem vincada a identidade que Favre quer para a sua equipa nos diferentes momentos do jogo, de que forma a sua equipa se comporta de forma individual e qual é a reacção colectiva aos acontecimentos do jogo. Claro que, ele saberia detalhar melhor cada uma das situações que aqui se falam, e fazer-nos perceber quais são os marcadores que fazem activar as escolhas que os seus jogadores fazem. Mas fica aqui um resumo do meu entendimento do que vi nos jogos deles.

Apresenta-se normalmente em 1-4-4-2 com as três linhas (defesas, médios, e avançados) bem definidas ofensiva e defensivamente. Funcionam de forma simétrica sem nenhuma grande diferença ou particularidade de um lado para outro do campo, independentemente dos jogadores que lá actuam. É uma equipa que se pode caracterizar, de forma geral, como tendo uma obsessão pelo espaço, por não se importar de não ter bola, e por forçar  o ataque à profundidade. Joga num bloco médio, ou baixo para depois aproveitar o espaço nas costas do adversário. No jogo, é uma equipa de ataque rápido e que não faz da posse de bola uma arma. Como se vai ver, é bastante competente naquilo que se propõe a fazer. 





Como se percebeu, com a variação para o corredor contrário nada se alterou, as posições foram as mesmas. Houve apenas mais proximidade da baliza com o cruzamento.


















A opção pelo Ala para apertar no corredor deixa espaço para que a cobertura jogue com relativa tranquilidade, até chegarem as ajudas.





Da defesa para o ataque...rápido! O Dortmund não é uma equipa que queira dar possibilidade ao adversário de se organizar, e a sua equipa tem que se organizar à velocidade da luz quando recupera a bola por querer sair sempre em contra-ataque. São obcecados pelo espaço! Não lhe resistem, e muitas vezes forçam. Procuram primeiro ir dentro para libertar o passe onde entram jogadores por fora.









É um princípio, mas se não encontrarem os avançados tentam colocar o passe por fora na mesma para depois definirem o lance. E com essa opção de ataque, são os médios ala quem tem a maior responsabilidade na definição dos lances, depois os laterais e avançados. Os médios aparecem poucas vezes em situação de definição.









Por não resistirem ao espaço, e por quererem contra-atacar sempre, o jogo fica confuso algumas vezes e exige um constante vai e vem dos jogadores. Como querem forçar, não se deixam recuperar do esforço anterior.


Não é equipa de elaborar muito o ataque, de querer sair sempre a jogar, apesar de ter referências para jogar em organização ofensiva. Quando joga longo, opta por colocar a primeira bola bem junto do corredor lateral. Aí aparecem o Ala, o avançado, o lateral, e um médio por dentro.




Combinações no corredor lateral para encontrar espaço para a ruptura.





Ligam o jogo com os avançados que recebem atrás da linha média adversária, e depois procuram combinar para encontrar espaço nas costas, para entrar dentro da área com a bola controlada, ou para cruzar.





As referências são importantes e congruentes em organização ou transição ofensiva. Quando perdem a bola tentam recuperar no local onde a perderam, aproveitando as linhas estarem subidas para pressionar em zonas mais adiantadas.



20 de dez. de 2018

React: Falta de Categoria, mudança de catálogo, e cataclismo.


Predominância do cérebro sobre o físico: Foi por este slogan que me converti em Lateral Esquerdo ainda que jogue com o pé direito. Ou melhor, que joga com a cabeça, que por sua vez comanda o pé direito. E passei de Lateral a não convocado e depois a dispensado porque tenho muita dificuldade em escrever coisas sobre as quais não tenho a mais profunda e enraizada crença. Com argumentação sólida, sem os chavões com que nos habituaram para avalizar teses. Com lógica, com coerência, com congruência. É por isto que me movo. Se não estiver convicto, convencido, com a questão bem afinada, não sai. Porque, afinal, a maior parte dos meus pensamentos não são ouro. E mesmo alguns dos que partilho, apesar da convicção, percebo depois que não são tão relevantes assim. Aceito a crítica porque a faço a mim mesmo. Tento não repetir. E a palavra chave para esta introdução é esta: Relevância. O cataclismo começa quando começamos a não ser relevantes, e apesar da popularidade crescente o maior argumento para demonstrar determinado ponto de vista é: Falei com o Messi e ele disse-me que Deus fez o céu para que se possa jogar pelo ar, uma vez que lá não existe oposição. Portanto, se o Messi disse que Deus fez, e Deus é argentino (Maradona), é porque está certo. Ignore-se tudo o resto; a evolução está aí e quem não evoluir nesse pensamento vai ficar para trás. Já está atrás, a nova Era chegou!

O react é uma ferramenta desta nova era. Para quem não está familiarizado com o termo, é o que os Rojas do Youtube fazem em reacção às novas faixas que os músicos de todas as categorias lançam. Neste caso o Rojas (que tem a particularidade de ter sido, também, Lateral Esquerdo) sou eu. 

O 25 de Abril trouxe coisas destas: Trouxe a possibilidade de nos expressarmos livremente, de dizer toda a merda que nos apetece, mas com isso vem a responsabilidade de ouvir de forma crua e cruel que o que estamos a partilhar é merda. Vem isto ao caso da mudança de catálogo. Hoje é normal defender uma ideia e o seu oposto em função do que nos dá jeito. Isto é: num jogo de escolhas, onde se sabe que não se pode ter tudo sob o risco de não se ter nada (veja-se Mourinho!), somos agora incapazes de dizer que defender à zona, sim zona pura, tem mais vantagens do que defender ao homem. De repente, a forma mais primitiva de todas de defender parece ter-se tornado num desafio incrivelmente difícil de contornar. Está tudo à espera de um deslize da defesa zonal, que tem as suas falhas, para se apontar aquilo que já se sabia anteriormente. Receia-se dizer que os méritos de uns são superiores aos de outros para não desapontar ninguém. Coloca-se no mesmo patamar a inteligência e a desinteligência, o charuto e desarme em que o defesa fica com bola porque os dois ganham jogos. Numa liga fraca como a nossa, onde todos batem e a maioria joga para o pontinho, há quem espere a queda de alguém que é mais positivo do que a maioria por ser novo e estrangeiro. Isso é o retrato do nosso futebol, é o que norteia o meio envolvente, é o futebol que merecemos. Não há congruência. Não há uma linha orientadora que nos faça perceber que caminhos são esses que se estão a percorrer. E tenho assistido sem reacção, impávido e sereno, à derrocada de um cantinho, de uma horta, por força das escolhas que se fazem ou deixaram de se fazer. Mas isso acaba hoje! Não precisamos de aprender só com os maus exemplos: veja-se Bernardo Silva. Na escolha do Bernardo entre os dois rivais de Manchester predominou o cérebro.

A falta de Categoria reside na falácia. Não há ninguém em quem o cérebro predomine que possa acreditar numa equipa onde o modelo de jogo reside na estratégia. Estratégia sem identidade, estratégia que perde a identidade. E nessa nova Era onde se quis relevar os méritos de uma abordagem que liga os jogadores com fios diferentes todas as semanas, que no fundo acaba por desligar os jogadores, é muito fácil criar desinformação para satisfazer quem tem preguiça de olhar para lá do óbvio. Veja-se:

"Contudo, Mourinho, acreditem, foi o primeiro a reconhecê-lo. Assim não fosse e ele não criticaria constantemente os seus jogadores e a sua direcção por não lhe dar intérpretes que pudessem mudar aquilo que Van Gaal, Moyes e os últimos anos de Ferguson, (des)caracterizaram. E para jogar e tentar ganhar como uma equipa que fez dele um ‘ungrateful bastard’ Mou teve de mudar método e abordagem para tentar esconder debilidades que, acreditem, seriam mais visíveis se Mourinho tentasse uma abordagem mais Guardiolista."

Não. Os jogadores foram os primeiros a perceber que Mourinho mudou, que não é o Special One; É uma versão rasca dele. Não é tão empático e tão preocupado com eles, não é tão focado na criação de um grupo de trabalho que dava tudo por ele pela força das ideias. Claro que num balneário é impossível convencer todos. Mas passou de convencer quase todos a não convencer quase nenhum porque não criou nem trabalhou para criar uma identidade colectiva - essa coisa abjecta que não existe na nova Era -. Perdão!, a identidade era fundamentada pela estratégia e por isso gabaram-lhe estar à frente do seu tempo, não era? Os melhores do mundo, cada um no seu estilo, era isso!? Coisas da Era que ficaram por explicar. 

Não se deixem enganar, ninguém pede ao Mourinho para ser Guardiola ou para ser Simeone; pede-se que seja uma coisa qualquer. Que seja alguém que ao falar-se do seu nome fique associado a determinados comportamentos colectivos, a uma ideia, seja ela qual for. Qual é o estilo do Mourinho? O que é Mourinho hoje? A equipa de Mourinho é forte em que momento do jogo? É caracterizada por que comportamentos? Neste momento, no estado actual da equipa, quase todos os treinadores conseguirão fazer melhor do que ele, porque qualquer um vai apresentar qualidade numa situação de jogo, nem que seja nos lançamentos laterais. De Mourinho só se ouve hoje: é um treinador ganhador! Joga para ganhar, sem interessar o jogo. Os outros jogam para perder?! Bom.

"Sem definição de topo, decisão de topo, magia, criatividade e o motto ‘cães de caça sem ela (a bola)’ foi traumático ver José Mourinho passar por azelha para ficar de frente para o jogo com várias unidades que, ainda assim, pouco descanso lhe garantiam. É fácil dizer que o United deveria ter jogado mais (e devia) mas é fácil esquecer o desastre que foi a 1.a época de Guardiola ao serviço dos cityzens. E como corrigiu Pep o falhanço na estreia? Com métodos, diferentes abordagens mas, sobretudo com milhões (muitos mais do que aqueles que tornaram Mourinho em Chourinho) que lhe permitiram escolher jogadores por um catálogo que se adequasse totalmente na insistência do seu (excelente e extremamente evoluído) modelo."

Não tem decisão, não tem definição, não tem magia, não tem criatividade, não tem cães de caça. Para que servem aqueles jogadores então?! Quem os contratou? Custaram tanto porquê? A equipa com a maior folha salarial não tem nenhuma qualidade? Não pode jogar em posse nem pode jogar em transições, não pode pressionar alto nem jogar em bloco baixo. Teria que ter levado dos seus rivais Bernardo para além de Bailly, Fred e Alexis. Tem que mudar 20 jogadores como fez Guardiola para não passar por mais desastres. Estranho. Queria ver Walker, Stones, Otamendi, Zinchenko, Delph, Fernandinho, David Silva, Gundogan, Bernardo Silva, Sterling, Sane, Foden, Aguero e Gabriel com Mourinho. Como jogavam, onde jogavam e quando jogavam. Se estaríamos hoje a falar do que rendem esses jogadores, como se não fossem as ideias a valorizar e a elevar os jogadores. 

"Quebra, por falta de lógica, a ideia de que Mourinho devesse insistir na posse, como se por magia ou wishful thinking, isso fizesse com que os vários cepos que tem na equipa ganhassem pés e visão de Iniestas. E como o desastre da 1.a época de Guardiola provou, não bastam quatro ou cinco para bailar como Pep gosta. E eu sinceramente, no United, vejo mais gente com paralelos a fazer de pés, do que propriamente os quatro ou cinco constantemente invocados na já longa série de ‘Mourinho tem de ser Pep’."

Mourinho tem de ser Mourinho. Mas quem é Mourinho? É repetitiva e simplista a ideia que o jogo dele deveria ser como o de Guardiola. Difícil é caracterizar o jogo dele. Que qualidades, e que defeitos. Isso é que seria relevante, isso é que se quer ver!

"Não quer isto dizer (antes que me acusem de ser avençado de Mou) que o próprio não pudesse ter arranjado melhores formas de retirar mais de um plantel que o decepcionou profundamente. Duvido é que ele quisesse estar mais tempo num clube onde não lhe satisfaçam a sua vontade. E, na sua cabeça, para reconstruir aquele United seriam sempre precisos muitos mais milhões do que aqueles que gastaram consigo. Talvez Florentino seja mais amigo. Não quer isto dizer que, para mim, esses milhões fossem  a solução. Mas quem contratou Mourinho (e quem contrata Pep) tem de contar que para haver categoria tem de haver catálogo."

Se não queria estar mais tempo no clube prejudica o clube com a falta de ideias para o jogo e para os jogadores? Por que motivo não sai em discordância com a política do clube? Mais milhões como os do Tottenham ou os do Arsenal? Os jogadores mais caros da Premier não são catálogo? O jogador mais bem bago da Premier não é categoria? Hmmm.

Termino dizendo que como o Rojas estou disponível para ser rasgado por Mourinho num outro livro. Mas, manifestar o meu desagrado pela decadência sucessiva de um espaço cada vez mais popular e populoso faz parte de um jogo que se fazia no tempo da pedra quando um sueco vendia gato por lebre no La Stratégie.

Bruno Fernandes ou a força do colectivo


Foto: Carlos Alberto Costa

Não se esconde, não se protege, não se envolve entre o génio das paredes das suas botas. Para Bruno Fernandes, o jogo é qualquer coisa sem singular – a menos que o que lhe ensinaram Cardano, Pierre de Fermat ou Balise Pascal lhe grite ao ouvido uma boa probabilidade de chutar à balizar –, por isso escolhe mostrar a força do colectivo. Nasceu, como outros, também para não deixar morrer Cruyff, que repetia: “O futebol é um jogo que se joga com a cabeça e em que se usam os pés”. Também para nos obrigar a aceitar que velocidade na circulação não é sinónimo de qualidade na circulação, porque tudo depende de quem e como faz a bola circular. Bruno Fernandes não tem de correr para acelerar o jogo e corre quando lê que essa acção poderá estimular a eficácia, tendo perfeita consciência de que a sua inconsciência nem sempre é entendida (sucede o mesmo com Nani). Bruno Fernandes nunca vai sozinho.

No arranque ao lado de José Peseiro, e mesmo perdendo mais de metade do protagonismo com a bola – não por sua culpa –, uma vez que ela passava demasiadas vezes por cima da sua cabeça, o médio deu a cara sem comprometer o trabalho da equipa: “(…) nada justifica as minhas exibições não ao nível das do ano passado ou que apareça por simples momentos e volte a desaparecer! Acredita que mais do que ninguém sinto-me frustrado com o que tenho vindo a apresentar e não, a culpa não é de ninguém, a não ser minha! (…)”. Isto, no Instagram oficial, em resposta a um adepto, após a derrota por 1-0 no Estádio Municipal de Braga. Ao mesmo tempo, ouvia, de pessoas inaptas para a percepção de que o jogo é inteiro, que não voltaria a exibir o nível apresentando com Jorge Jesus.

A chegada de Marcel Keizer trouxe-lhe a liberdade que o seu futebol anseia. E é sendo livre, sem mostrar as costas à baliza, que ele pode associar, queimar linhas de pressão, surgir entre elas, tentar o seu roubo favorito, que é o da recuperação em zonas subidas, pois reconhece que é aí que se torna mais fácil ferir o adversário. Arrisca? Sim, mas agora também confia mais nos jogadores que o rodeiam e é simplesmente isso que pede em troca: que também confiem em si. Bruno Fernandes é o médio mais completo da Liga NOS.

11 de dez. de 2018

A galinha da vizinha é sempre melhor do que a minha… mesmo que tenha sido eu a vendê-la



Há que elaborar – urgentemente – um nome para a síndrome que se vem manifestando no futebol português há muitos anos e que afecta os jogadores nacionais. Elaborar um nome para a síndrome é mais determinante do que eliminar a síndrome, porque vivemos num país onde as matérias sem rótulo são um não-assunto. (Interrompe-nos uma senhora já com o cabelo coberto de brancos, que diz: ‘No meu tempo, o bullying não existia. O que é isso? Bullying? As crianças que se encostavam aos cantos do recreio levavam meia dúzia de 'carolos' mas era para arrebitarem! Ah, e essa história da depressão vai pelo mesmo caminho. Hoje, só se ouve falar na depressão. Depressão para ali, depressão para aqui. Tenham juízo!’). Insisto: o futebol destapa-nos, de forma subtil, as disfunções de uma sociedade precária e segura por velhas raízes soldadas no material mais influente do mundo, a ignorância. Entretanto.

Até que elaborem o tal do nome, essa síndrome irá resistir a um Portugal campeão europeu de futebol de sub-19, a um Bruno Fernandes melhor jogador da I Liga em 2017/18, a um João Cancelo, a um Bernardo Silva, a um Diogo Jota, a um Rúben Vinagre, a um Rúben Neves. E atenção que não foi ao acaso que não mencionei aqui o título conquistado pela Selecção de Fernando Santos, em 2016. Para que este texto ganhe uma certa pitada de controvérsia – mas uma controvérsia genuína, não fabricada –, tenho de confessar que pertenço ao grupo de pessoas que revê mais sorte do que mérito no feito alcançado em território francês e o que é nacional nem sempre é bom. (Voltamos a ser interrompidos, desta feita pelo marido da senhora de há pouco: ‘Sorte? A sorte conquista-se! Preferiam que nos tivesse acontecido o que aconteceu no Euro2004? Isso é que foi bonito! Jogámos como nunca, perdemos como sempre!). Entretanto.

De acordo com um relatório do Observatório Internacional de Futebol (CIES), João Cancelo foi o segundo jogador com maior valorização absoluta no último trimestre, tendo visto o seu valor passar de 27,8 milhões de euros (ME) para 74,2 ME. João Cancelo completou 73 minutos ao serviço da equipa principal do Benfica – todos na época 2013/14, em que o uruguaio Maxi Pereira era o dono da lateral-direita encarnada (43 jogos) e André Almeida a segunda opção para a posição (27 jogos). Nessa altura, Cancelo era somente avaliado enquanto lateral-direito, sendo que, hoje, vai somando exibições categóricas na lateral esquerda da Juventus – em 2013/14, Jorge Jesus lançou o lateral-esquerdo brasileiro Bruno Cortez em sete partidas. Se o clube tivesse valorizado o seu jogador da formação aos 19 anos (a mesma idade com que de Ligt tem assumido a titularidade no Ajax e na selecção holandesa), detinha, neste momento, um lateral de nível mundial e que, em termos qualitativos, nada fica a dever a Maxi, André Almeida, Cortez ou Eliseu. Infelizmente, João Cancelo não é a agulha no palheiro.

Esta terça-feira (11 de Dezembro de 2018), surgiram notícias na imprensa inglesa que ligam Rúben Neves à Juventus. O médio da formação do FC Porto foi vendido por 16 ME ao Wolverhampton, tendo o emblema azul e branco apenas recebido uma mais-valia de 12,5 ME, no final da temporada de 2016/17, que Rúben terminou com um total de 18 encontros disputados. Por que é que o Porto não ofereceu espaço a um jogador que, aos 21 anos, está a despertar o interesse dos intitulados ‘tubarões’ e preferiu, por exemplo, dar palco a Héctor Herrera? Sem questionar a qualidade do mexicano, não lhe atribuo metade do valor, além de ser sete anos mais velho do que o natural de Santa Maria da Feira. Curiosamente, para atacar o bicampeonato, os dragões foram buscar o holandês Riechedly Bazoer, agora afastado dos trabalhos da equipa de Sérgio Conceição por alegado processo disciplinar. Bruno Fernandes saiu do Boavista para Itália aos 17 anos porque nunca lhe deram a possibilidade de jogar pelos seniores; Rúben Vinagre, em destaque no Wolverhampton, deixou o Sporting quando ainda era juvenil; Gedson tem visto a sua titularidade ser ameaçada pelo brasileiro Gabriel. Isto, até quando? Em que é que Francisco Geraldes (23 anos) é inferior a – *breve passagem pelos médios leoninos das últimas três épocas* – Bruno Paulista, Orio Rosell, Radosav Petrovic, Elias, Marcelo Meli, Josip Misic? Miguel Luís ou Daniel Bragança fariam melhor do que Petrovic ou Misic, já utilizados esta temporada. Só há uma coisa em que são inferiores: na idade. Mas não chega dessa lengalenga? O primeiro critério de selecção não deverá ser a qualidade? Não vi o Atlético Bilbão preocupado em dar a titularidade a Kepa (24 anos), Sarri incomodado por dar minutos a Loftus-Cheek (22 anos), o Barcelona a tremer ao lançar Puig (19 anos) ou Aleñà (20 anos). (Em ânsia, o casal grita em uníssono: ‘Em equipas feitas é fácil lançar jovens!). O Ajax é uma equipa feita de jovens, quase todos holandeses. E sabem que mais? Está em vias de terminar o grupo E da Liga dos Campeões à frente do Bayern de Munique.

Sugestões para o nome da síndrome?

5 de dez. de 2018

Lateralizando (vai que é tua, Thierry)



Imaginemos que um bom lateral é um lateral que chega muitas vezes à linha e sabe cruzar bem. Vamos ignorar os processos utilizados para aparecer nessa zona do campo, se cruza sob pressão ou não, se tem ou não melhores alternativas do que a execução do cruzamento – porque, de facto, ele é mesmo muito bom é a cruzar. Portanto, mais de 90% das acções ofensivas desse jogador resumem-se ao seu critério nesse momento do jogo.

Mas, afinal, o que se entende por “cruzar bem”? Basta ‘despejar’ a bola na área a uma altitude razoável? Do género: a sorte que faça o resto, pode ser que apareça por lá o avançado, que habitualmente é um tipo alto e forte nos duelos físicos. Haja noção.

Um bom lateral (tal como um bom médio, um bom avançado, um bom extremo) tem de possuir uma leitura do jogo acima da média. Contudo, ao que parece, a linha defensiva foi caindo no descrédito da inteligência, ou seja, para se ser central ou lateral bastam as boas características físicas (porque a agressividade advém, obviamente, da estatura). Na folha de recrutamento, caso se leia que o jogador tem 1,60m, é automaticamente excluído dessas posições, pois houve quem quisesse tornar o futebol mais atlético do que cerebral. Não o é.

O rendimento dos laterais também está intimamente ligado com o modelo de jogo da equipa. Pegando no exemplo inicial, é totalmente diferente cruzar com ou sem oposição, que depende do processo utilizado para chegar perto da grande área, que influencia as alternativas, que afecta o critério. Por isso é que, “no futebol, o todo é mais do que a soma das partes”.

Quando o apoio frontal junto às linhas faz parte do lote de processos de uma equipa, o lateral tem de saber interpretar essa movimentação e o que fazer no espaço que surge para progredir, sendo que explorar o corredor central aproxima-o quase sempre do sucesso. Por outro lado, a obsessão com a chegada à linha revela-se uma escolha geralmente negativa se os colegas oferecerem combinações no último terço. Quem é que não se recorda da diferença exibicional entre o Schelotto da época 2015/16 e o de 2016/17? Devido à mobilidade do Sporting na primeira temporada de Jorge Jesus, as debilidades do lateral argentino camuflaram-se, porque a bola chegava-lhe várias vezes em situações que podia partir para o 1x1 ou aproveitar a desorganização adversária, justificada pelas constantes associações no corredor central. Já no ano seguinte, em que os leões perderam essa capacidade, as fragilidades de Schelotto ficaram a nu. O mesmo se pode dizer, mas ao contrário, em relação a Jefferson. Não é por ter feito duas assistências frente ao Lusitano Vildemoinhos que se tornou um bom lateral. Ao invés, beneficiou do bom jogo interior do Sporting, que deixa o brasileiro mais solto de marcação e capaz de potenciar uma das suas melhores características, o cruzamento.


Uma vez que se sabe que qualquer equipa que procure ter bola quer passar mais tempo a atacar do que a defender, um bom lateral precisa de apresentar características ofensivas – na minha opinião, até vêm antes do que as defensivas –, mas é impensável cometer erros básicos defensivamente. Por agora, Acuña é o único jogador do Sporting, nessa posição, que dá garantias a Marcel Keizer (e Thierry Correia, caso venha a ser aposta, tem condições para tirar o lugar a Bruno Gaspar ou Ristovski no lado direito). Mesmo assim, Janeiro deverá servir para o clube se reforçar, porque se os recursos actuais vão chegando para vencer, lanço as minhas dúvidas se assim continuará a acontecer nos jogos frente aos rivais directos ou das competições europeias.

4 de dez. de 2018

O ataque posicional do Sporting de Marcel Keizer


Depois de 3 jogos oficiais, já é possível perceber as ideias do novo treinador do Sporting, e, ainda que estejam longe de estar implementadas na sua totalidade, não é de todo precipitado afirmar que são ideias que potenciam os jogadores do Sporting, e que consequentemente aproximam a equipa do sucesso. 

Começando pela fase de construção em zonas recuadas. Com a utilização do guarda-redes para criar superioridade numérica numa fase inicial, com os laterais projetados e a dar largura, e com os médios a movimentarem-se nas costas da primeira linha de pressão do adversário, o Sporting tem tudo o que é preciso - no que diz respeito aos posicionamentos - para sair de forma apoiada desde trás. 

A juntar e esses posicionamentos e à dinâmica que surge dos mesmos, há uma intenção clara de valorizar cada posse de bola. Por outras palavras, o Sporting é neste momento uma equipa que procura a cada ataque, progredir nas melhores condições possíveis, não demonstrando pressa nem saltando etapas na fase de construção.  

Um exemplo no lance que se segue. Não havia condições para progredir em direção ao meio campo do Rio Ave (sem espaço e com poucos jogadores do Sporting para vários do Rio Ave), então, a solução foi atrasar a bola até ao guarda-redes. Com o Rio Ave a pressionar mais alto, o espaço entre as suas linhas defensivas aumentou e o Sporting conseguiu chegar ao espaço entre a linha média e a linha defensiva com relativa facilidade e em excelentes condições.




A maneira como o Sporting procura chegar às zonas de finalização é também completamente diferente do que era há uns meses atrás. O corredor central tem sido muito utilizado para ligar a fase  de construção com a de criação, e o Sporting tem chegado várias vezes ao último terço - pelo meio- com a bola controlada.
(Wendel está à esquerda de Gudelj. É Diaby junto a Bruno)

Nota-se que os jogadores do Sporting gostam e estão cada vez mais confortáveis a jogar este tipo de futebol apoiado, de passe e devolução. Mesmo em espaços curtos, têm demonstrando muita calma e qualidade para sair a jogar de forma apoiada, e isso, volto a referir, reflete-se na quantidade de vezes que o Sporting chega ao último terço com a bola controlada.

A utilização dos apoios frontais tem sido outra dinâmica muito vista no Sporting de Keizer. Jogador de costas para a baliza - muitas vezes a atrair consigo a marcação adversária - com o objetivo de deixar enquadrado o jogador que recebe a bola. Bas Dost cada vez mais importante neste tipo de situações, pela inteligência e qualidade no 1º toque.

3 de dez. de 2018

Ensaio(s) sobre a Cegueira


Este post poderia muito bem ser sobre a exibição fantástica do Sporting de Marcel Keizer - entrevista interessantíssima dada pelo actual treinador leonino aqui - em Baku. O treinador holandês trouxe, em duas semanas, uma melhoria drástica - e saliento, drástica - ao futebol da equipa: de uma equipa medrosa e cobarde, que nem com espaço se propunha a construir passou a uma equipa corajosa, com dinâmicas e capaz de superar uma pressão agressiva do adversário em vários momentos; de uma equipa cinzenta, sem a mínima variabilidade de recursos ofensivos e que não trabalhava minimamente os lances passou a uma equipa criativa, que prioriza claramente a tabela entre os seus elementos e que procura os melhores caminhos para atacar; e de uma equipa passiva e expectante passou a uma equipa extremamente agressiva tanto na pressão como especialmente na reacção à perda, tendo os jogadores muito próximos e conseguindo rapidamente condicionar o adversário. Há que dizer, claro, que tudo isto tem de ser lido de forma cautelosa. A melhoria foi gigante para o pouco tempo de trabalho existente, mas esse tempo não deixa de ser pouco, o que implica obviamente que ainda há deficiências várias e uma inconsistência enorme nesta forma de jogar. É provável que a equipa venha a sofrer as chamadas dores de crescimento pelo futebol que tenta jogar, e que nesses momentos as críticas se multipliquem. No dia em que escrevo este post, aliás, o Sporting vai ter um jogo muito complicado em Vila do Conde, que pode eventualmente expor alguma da falta de trabalho que ainda há sobre esta ideia de jogo. Mas, ao contrário do futebol de Peseiro, que estava desde início votado ao insucesso, o que Keizer está a trazer promete, e muito. O sucesso que terá - ou não - é evidentemente uma incógnita para qualquer um, mas a pequena amostra inicial exige, desde já, a minha atenção. O que é mais do que posso dizer da grande maioria do campeonato português...

Mas não, apesar de me ter esticado no parágrafo inicial, o tema do post é outro. Na noite de quinta feira, decidi ver o programa "Grande Área", da RTP3. Costuma ser um programa de futebol algo superior às... vamos chamar-lhes banalidades, que poluem a televisão nacional, e um dos seus analistas regulares, em particular, é alguém cuja opinião estimo (Rui Malheiro). Eventualmente chegaram ao jogo do Sporting em Baku, e a um certo ponto Manuel José faz o seu comentário, que podem ver abaixo:


Manuel José, no fundo, rasga completamente o jogo de Wendel por este ter "individualizado as acções todas", ao contrário dos colegas, que jogavam a "um ou dois toques", e com a aparente anuência do restante painel. Fiquei imediatamente perplexo, porque a ideia com que fiquei do jogo que Wendel fez foi literalmente a oposta, e como estamos a falar de uma questão de facto... É que dizer que um jogador jogou bem ou mal pode ser opinião, mas é possível averiguar se tentou passar a bola aos colegas ou "individualizou as acções todas", mesmo dando de barato alguma hipérbole na afirmação, visto que é algo contável. Por isso, restavam três opções: ou Manuel José é cego, ou mentiu descaradamente, fiando-se na ideia de que Wendel, como o típico médio brasileiro, teria de certeza tentado fugir da dinâmica colectiva da equipa e tentado fintar toda a gente; ou então fui eu que vi tudo completamente ao contrário e, na verdade, Wendel terá feito o contrário do que eu tinha visto quando o jogo foi transmitido em directo.

Como eu sou da opinião que a pessoa de quem devemos duvidar mais é de nós mesmos, fiquei curioso e achei por bem ir rever o jogo. Afinal, era bem possível que eu tivesse visto mal, e nesse caso não só aprenderia algo sobre o jogo que Wendel fez, como desconfiaria ainda mais da minha própria falibilidade - o que é sempre saudável, diria. Ao rever o jogo, no entanto, a minha perplexidade aumentava a cada acção do médio brasileiro. E aumentava porque, de facto, se se pode fazer alguma crítica à exibição de Wendel... é exactamente a oposta. O médio brasileiro procurava constantemente jogar em poucos toques e associar-se com os colegas, e em alguns lances isso até nem era a acção mais recomendada. Destaco, por exemplo, a assistência de Wendel (a primeira de três) para o terceiro golo do Sporting, em que apesar de para a estatística ficar uma acção brilhante, uma análise mais atenta ao lance mostra claramente que o médio do Sporting - que havia estado muito bem no mesmo lance, momentos antes, ao devolver a tabela de primeira como o contexto exigia - podia e devia ter continuado a conduzir a bola, e que ao passar a Nani na altura em que o fez lhe criou dificuldades desnecessárias. Não obstante a enorme mestria individual do extremo português ter feito com que o lance acabasse em golo, a decisão de Wendel nessa parte do lance foi incorrecta, mas pelo motivo oposto ao que Manuel José criticou no jogo dele. Toda esta dissonância entre o que aconteceu e o que Manuel José referiu levou a que eu compilasse um vídeo com todas as acções, com bola, do médio brasileiro. Vídeo esse que (adivinharam!) podem ver abaixo:


Se alguém conseguir descortinar ali o que raio Manuel José viu (ou não), a caixa de comentários está disponível. O meu descontentamento foi tal que, vejam lá, até fiz um exercício que será, possivelmente, a coisa mais inútil que já me dei ao trabalho de fazer na minha vida, que foi contabilizar, de todas as acções do jogador - por acção defina-se "tudo entre o momento em que o jogador recebe a bola até que, por uma multitude de factores, a deixa de ter" - quais terminaram em passes e quais, das que terminaram em passes, envolveram menos de três toque na bola (ou um ou dois). Das 65 acções totais excluí as 2 que acabaram em remates de Wendel isolado perante o guarda-redes - os tais "dois golos falhados de baliza aberta" que Manuel José menciona, ficando com 63 totais. E dessas, 53 acabaram em passes - não discriminando se foram acertados, falhados, ou se bem ou mal decididos, visto que não foi isso que o ex-treinador português criticou - e desses 53, 44 foram em um ou dois toques. Ou seja, mais de 84% das acções de Wendel acabaram em passe... e quase 70% (aproximadamente 69,84%) de todas as acções do jogador foram ou passes de primeira ou passes imediatamente após a recepção!!! O que também contei foram as vezes que Wendel "inventou dribles quando tinha um defesa nas costas"... felizmente esta foi mais fácil, foi uma (aos 3:25 do vídeo). E nem sequer será àquele tipo de acção que Manuel José se refira, imagino, já que foi no último terço, encostado à linha e, aponto eu, que demonstrou uma percepção notável daquele contexto particular. Já que aguentou a bola até Jefferson lhe passar nas costas, o que atraiu o defesa que estava com Wendel a cobrir um eventual passe, abrindo uma cratera no meio que o médio brasileiro aproveitou imediatamente. Portanto, bem analisado, Wendel nunca fez o que Manuel José o acusou de o fazer. Aliás, recebeu a bola em várias situações que encaixam no que Manuel José refere (de costas, com pressão e numa zona central do terreno), e em todas fez o que o português disse que não fez. É possível ser-se mais estúpido?

Isto tudo para provar que, afinal, ficamos mesmo só com duas das três hipóteses que apresentei: ou Manuel José é cego ou é mentiroso. E é algo que exige uma breve reflexão sobre os programas de análise desportivo que temos: se até naqueles que são menos maus há comentadores que procuram levar avante narrativas que nem pelo crivo aparentemente simpático dos factos passam, como é que podemos querer ensinar a população a ver o Jogo que mais as apaixona? A verdade é a seguinte: qualquer pessoa que tenha visto o Grande Área, mas não o jogo do Sporting em Baku, ficou com uma ideia que é logicamente equivalente a dizer que um jogo de Futebol tem 47 jogadores. E quão triste é ter essa noção!? Se este post conseguir que sequer uma dessas pessoas possa ver com os seus olhos o que, de facto, Wendel fez no jogo e que, por isso reformule a opinião que Manuel José formou por ela, o objectivo do mesmo está mais que cumprido.

1 de dez. de 2018

Embrulha, desembrulha.

Tiago Dantas é português, é o jogador mais talentoso da sua geração, tem potencial para chegar ao nível dos melhores do mundo. 

Neste lance, todo o talento que evidencia, e que parece invisível para as seleções nacionais. Talvez pela altura, talvez pelo peso. Pela falta deles. Mas olhem, tem um cérebro tão capaz, tão pesado, que parece que complica o lance de propósito para depois ser mais desafiante descomplicar; mas não é nada disso. Ele envolve 3 colegas, numa altura em que parece estar a atacar para a própria baliza, para atrair 4 adversários. O final é a demonstração da intenção do menino: aproveita o espaço que que ele próprio criou com a forma como atraí os adversários. Os gênios são isto. São capazes de mandar o contexto à merda, e fazê-lo dobrar-se aos caprichos do seu pequeno, pequeníssimo, e franzino cérebro. Jogar consoante o contexto? Isso é para quem não sabe nem pode mais. Alterar o contexto ao seu redor, é Tiago Dantas.

30 de nov. de 2018

The big elephant in the room


“O jogo pede que nós façamos determinados comportamentos em determinados momentos”

“Amanhã, teremos um adversário que nos vai querer ganhar, mas vamos entrar convictos do que teremos de fazer para trazer os três pontos” 

“Foi uma partida bem disputada entre duas equipas que sabiam que uma iria ficar obrigatoriamente pelo caminho” 

Isto. Conferência de imprensa após conferência de imprensa. Nas antevisões. Nos rescaldos. Mea culpa tem de ser assumida pelos jornalistas, que insistem em utilizar o dever de informar com rigor (Artigo 14.º, Estatuto do Jornalista – Deveres, “Exercer a actividade com respeito pela ética profissional, informando com rigor e isenção”), formulando perguntas sobre – por exemplo – a justiça de um qualquer resultado.

Companheiros de viagem, a justiça, no futebol, nunca interessou.

O restante élan em redor de lugares comuns recai nos treinadores, que por "estratégia comunicacional do clube", e esta é uma das mais fascinantes justificações, ou por julgarem que são capazes de evitar o elefante na sala, insistem em abordar o jogo como o Pateta abordaria uma bola. Se, antes de uma partida, posso aceitar o secretismo acerca da abordagem estratégica, o mesmo soa a estapafúrdio após os 90 minutos. Elucidem os amantes do ‘desporto rei’, expliquem-lhes o que falhou, por que é que algo tão básico (para vocês) como um jogador não ter utilizado os apoios certos no momento defensivo foi tão determinante no desenrolar da jogada que originou o golo contrário. Há pessoas que nunca ouviram falar disto e a culpa também é vossa.

Vossa porque na Ilha da Páscoa se sabe que os adversários vão querer ganhar e em Kerguelen, no extremo sul do oceano índico, se sabe que o objectivo são os três pontos. A sério? É isso? É só isso que têm para nos ensinar? Pep Guardiola – desculpem a insistência – autorizou a gravação do acompanhamento da temporada que levou o Manchester City a vencer a Premier League 2017/18 com mais 19 pontos do que o segundo classificado. Não me digam que desde Agosto de 2018, data em que o documentário (All or Nothing: Manchester City) foi lançado, o conjunto orientado pelo espanhol não voltou a ganhar. Que desesperante é não existir quem absorva que (quase) tudo o que se passa longe das câmaras fica a nu sempre que a equipa sobe ao relvado. Não vale a pena esconder. A assinatura de todos os treinadores escreve-se com os pés dos seus jogadores, com a procura de ‘tocar curto’ ao invés de ‘bater directo’, com o movimento interior de um lateral, a evolução de um guarda-redes a jogar com os pés. Comuniquem. Co-mu-ni-quem.

Considero desprestigiante para a modalidade o esforço que se faz para não a explicar. Querem fazer valer o estatuto de o futebol ser do povo? Muito bem, mas então que o utilizem – TODOS – para o reeducar e não para o tornar cada vez mais ignorante.

29 de nov. de 2018

Treinadores: É nos momentos de aperto que se percebe a real valia do seu trabalho.

Há sempre muitas dúvidas sobre que critérios se devem utilizar para avaliar um treinador. Para a maior parte das pessoas são os resultados, são os títulos. Para outra parte das pessoas são os modelos de jogo, os sistemas de jogo, ou a liderança dos treinadores. Para outros ainda, os treinadores devem ser avaliados pela adaptação ao contexto competitivo do ponto de vista estratégico, ou por lançarem mais ou menos jogadores da formação do clube. Para mim, porém, o critério mais importante não é esse. Se tivesse que escolher um treinador, seja lá para que equipa fosse, a primeira coisa para que olhava seria se nos trabalhos anteriores o treinador tinha conseguido convencer os jogadores a seguirem a sua ideologia. Depois, tudo o resto. Porque para mim, é essa a diferença fundamental entre os grandes treinadores (independentemente da ideia de jogo) e os treinadores banais. É isso que distingue, de forma categórica, as equipas de uns e de outros: olha-se para o jogo e o que se vê é o reflexo do treino. Se os jogadores reproduzem de forma fiel os princípios de jogo que o treinador impõe, e se a ideia de jogo está tão entranhada neles que não sejam capazes de se libertar dela sob que circunstância for. Um grande treinador tem isto. Consegue influenciar o jogador de tal forma que quando se separam durante muito tempo ele continua a jogar aquele jogo que aprendeu com ele, e começa até a rejeitar outras formas de estar no jogo.

Costuma-se dizer que quando o jogo está perdido, que quando as equipas percebem que não têm hipótese de chegar ao resultado pretendido, o jogo acaba para elas. Eu discordo. Acho que é precisamente nesses momentos que devemos estar mais atentos para perceber a influência do treinador nos jogadores. Se a equipa se perde e adopta acções que não fazia habitualmente e se aproveita a oportunidade para se libertar do treinador por não ter confiança absoluta nos processos impostos, ou se mesmo aí os jogadores reproduzem de forma cabal aquilo que vai na cabeça do treinador. A diferença entre as duas situações é só uma: a linguagem do treinador é também a dos jogadores ou não? Os jogadores estão perfeitamente convencidos que aquela forma é a melhor forma para se chegar ao resultado que pretendem, para se chegar ao golo, ou não? O jogador acredita no treinador ou não?! Há vários exemplos cabais disto, desde o Atleti de Simeone ao Nápoles de Sarri ou o Dortmund do Klopp. Mas, há dois exemplos inequívocos e um deles bem recente desta mesma ideia. O primeiro exemplo leva-nos de volta à melhor equipa da história: O Barcelona do Guardiola. Regressamos à segunda mão da final, contra o Inter de Mourinho, já nos descontos quando a equipa conquista um canto. Faltava cerca de um minuto para acabar o jogo e o que é que os jogadores decidem fazer deste canto? Sair a jogar curto, pois claro. Faltando apenas um golo para a final, num momento de desespero e pouco discernimento, os jogadores não conseguiram fugir daquilo que eram: Notável! O Barcelona acabou eliminado, mas naquele momento e apesar de ter perdido Guardiola mostrava ao mundo de que espinha era feito. Porque convenceu os jogadores de tal forma que eles foram capazes de morrer por aquela ideia. Para eles era aquela a fórmula para o sucesso, e era atrás dessa fórmula que iam. Com aquela escolha, os jogadores de Guardiola o separavam dos comuns e marcavam a diferença entre o seu treinador e a maior parte dos outros. É mesma diferença que Cruyff ou Sacchi marcaram: a ideia que eles vendiam aos jogadores triunfou. Não venceu os adversários, mas venceu o maior desafio que um treinador encontra: os seus jogadores.

E há na equipa de Paulo Fonseca uma semelhança incrível com tudo isto. Ontem, não ganhou o apuramento para a fase seguinte e ainda pode ser eliminado; mas ganhou algo bem maior. Ele hoje sabe que os jogadores dele não duvidam do seu processo de jogo e que o processo já é, também, deles. A vitória começa em Pyatov quando recolhe a bola depois de um livre directo. O guarda-redes como os comuns poderia, tendo em conta a situação e desespero, sabendo que precisava de marcar um golo com muita urgência, pontapear a bola para os colegas que se deslocavam na frente. Mas não. Não é isso que o treinador pede, não é isso que o treinador quer, não é para isso que o treinador trabalha. Ele coloca a bola jogável pelo chão. Rapidamente, como se impunha, mas a tentar fugir da aleatoriedade do jogo. O resto, o facto da equipa ter entrado dentro da área com a bola controlada, o facto dos jogadores terem feito pausas para dar tempo à chegada e ao movimento dos colegas, o não terem rematado de fora área assim que tiveram possibilidade, o não terem despejado a bola na área de qualquer forma, o terem combinado para tentar furar a defesa, e o terem criado uma possibilidade de quem finaliza fazer um passe para a baliza, é motivo para o treinador sorrir até ao final da sua carreira. Ainda que não o tenha feito naquele momento, talvez pela tensão do jogo e por sentir que não estava terminado. Paulo Fonseca não é Cruyff, não é Sacchi, nem é Guardiola. Mas é um treinador à sério, ainda que sejam outros a conquistar Ligas dos Campeões. Ser treinador com T é ser isto. Os outros podem ganhar mais e por isso serem mais falados, mas eu espero sempre que a diferença entre um treinador de nível mundial ou um qualquer curioso do jogo seja bem evidente.


28 de nov. de 2018

Movimentos de Pochettino

No passado final de semana os Spurs bateram o Chelsea em grande parte dos aspectos do jogo, sobretudo na primeira meia hora. E há vários ângulos por onde explicar essa superioridade, tais como a forma como condicionaram a saída de bola, a forma como pressionaram no meio campo ofensivo para não dar tempo e espaço, a forma como fecharam dentro (em losango, como já fizeram noutras ocasiões) e com isso controlaram melhor Jorginho, ou pela forma que utilizaram para atacar a linha defensiva do Chelsea. Podemos também falar da forma pouco eficiente como o Chelsea pressionou, ou na pouca agressividade da linha média e avançada quando a bola estava dentro do bloco. Os golos que como sabemos costumam mudar os jogos, fizeram subir em flecha a confiança dos Spurs e cair à pique a confiança do Chelsea. Para lá disto, há muitos outros ângulos possíveis que em conjunto permitiram o domínio quase perfeito do jogo mas o principal, o início de tudo, está no Chelsea não ter conseguido ser igual a si mesmo em jogo. Fala-se num menor rendimento do Chelsea por a bola não ter entrado tanto em Jorginho, mas foi sobretudo a forma como a bola chegou (ou não chegou) a todos os outros que descaracterizou a equipa de Sarri. Demasiadas bolas longas para os duelos onde o Tottenham é muito superior. E mais do que isso, um jogo que o Chelsea não está habituado e que o seu treinador não quer jogar.

Esta introdução serve apenas para deixar claro que, o que está em causa neste post é apenas um de muitos motivos que podem explicar o jogo agregado à outros factores que falei aqui, e outros que não mencionei. Mas achei interessante focar-me, essencialmente, no timing ("marcadores"- referências) que Pochettino deu aos seus jogadores para acelerar o jogo: ao atacar a linha defensiva, a desmarcação nas costas da contenção que está fixa na bola.









Este tipo de movimento permitiu aos Spurs chegar com perigo várias vezes pelo aproveitamento do espaço que se criava pelo arrastamento dos defesas do Chelsea. Para resolver este problema, para lá do ter bola tempo suficiente, de da pressão mais eficaz, o Chelsea deveria ter sido capaz de evitar que fossem os defesas centrais a sair do seu espaço, e garantido que o movimento era coberto pelos médios. Em situações de transição seria quase impossível. Não conseguindo isso, o jogador que abordava o lance caso a bola entrasse deveria ser capaz de não deixar enquadrar fechando qualquer possibilidade de progressão e de passe, dando apenas como opção a linha de fundo (na melhor situação a bandeirola de canto). Deveria também ter sido garantida a cobertura dos espaços que ficaram livres, os ajustes, com a chegada mais rápida dos médios à esses espaços.

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